Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Lapsus Linguae

 

João Paulo Cardoso

 

Vota D. Sancho 

 

Domingo seremos chamados a votar.

Entregar-nos-ão uma tira de papel higiénico com uns 15 partidos, movimentos e coligações, uma série de émes e pês, sem mais nem porquês.

 

Há quem diga que é tudo o mesmo cócó.

 

Deve ser por isso que somos direccionados para uma casinha, com a tal tira de papel higiénico na mão, quer tenhamos ou não vontade.

 

Lá chegados, constata-se com espanto que não há uma sanita, uma retrete, um cagatório, um buraco no chão que seja.

Apenas uma caneta, ainda por cima amarrada a um cordel.

Isso tem razão de ser e eu já lá vou.

 

Antes disso, vista um casaquinho que vamos até ao Inverno do ano 1200.

Não se preocupe que voltamos antes do jogo com o Benfica.

 

(Enquanto viajamos para 1200, queria saber se está tudo bem aí por casa.

Está? Isso é que é preciso.

Então e este calorzinho de início de Outono, an?

Ah! Chegámos!)

 

No tempo dos reis é que era.

Ninguém nos chateava ao domingo para ir votar, no máximo seria dia para lavar o burro numa estação de serviço, ou espancar um ou dois mouros ao fim da tarde.

 

Não se escolhiam chefes de governo, porque era mais do que certo que seria o rei, e depois o filho, e o filho dele, às vezes um sobrinho, ou, em último caso, um bastardo.

 

Eu gosto da palavra "bastardo".

Soa-me a perversão, a forróbodó, até a labasquice.

 

"Ai, não sei quê, quem é que nos governa agora?"

"O bastardo!"

"Por mim tudo bem."

 

Em breve poderemos votar até por sms, mas naquela altura não havia telemóveis.

A cozinheira do reino chegava ao pátio do castelo, com uma enorme panela vazia às costas, batia-lhe com um presunto, e bradava para as ameias:

 

"O almoço vai ser servido!!!

Hoje é mão de vaca com feijão!!!"

 

E desatava tudo a correr escadas abaixo, empurravam-se e chamavam nomes uns aos outros.

 

Sobretudo àqueles que, nas torres mais altas, esventrados pela fraqueza, caíam lá de cima com fanicos que culminavam com uma violenta aterragem em cima da panela.

Ficaram conhecidos por um nome que ainda hoje vinga, quando se trata de enxovalhar rapazes que gostam de dar a panela...

 

Os únicos partidos que existiam, eram os que vinham das zaragatas com os árabes e algumas meninas menos afortunadas que iam buscar água a fontes mais distantes da aldeia.

 

"Mãe!! Partiram-me a bilha!!!"

"Valha-me nossa senhora!! Querem ver que vou ser avó aos 27 anos?!"

 

Não havendo partidos políticos, evitavam-se aqueles confrontos patéticos entre esquerda e direita, a não ser na hora de sentar à mesa com o rei D. Sancho, por exemplo...

 

"Meus amigos:

Vou-me sentar aqui ao centro, com esta vadia em cima do joelho, e vossemecês sentem-se à esquerda e à direita, que o javali vai já, já, ser servido!"

 

Os comensais esvaíam-se em júbilo, roncos de estômago e um ou outro traque.

 

"Viva D. Sancho que não se esquece do rancho!"

 

"Acontece que... meus súbditos... palhaços... labregos em geral..."

 

Silêncio.

Três ou quatro convivas escarafunchavam a penca, e caçavam macaquinhos que mastigavam discretamente para enganar a larica.

Foi assim que nasceu a pastilha elástica.

 

"Acontece que não há javali para todos.

Eu vou ficar com a parte maior e só porque noto que, com a fome, não vedes nada à vossa frente, e em terra de cegos, quem tem olho é rei.

O resto do javali... enfim... entendam-se!"

 

"Ah, partes iguais para todos!", clamaram os que se sentaram à esquerda.

"Não senhor! Mais javali para quem mais produz!", exigiram os da direita.

 

E teria sido assim que começaria a confusão, não fosse ter sido servida uma vinhaça do catano, que fez com que o assunto ficasse esquecido durante 800 anos.

 

Como se sabe, só em 1975 é que um grupo de barbudos revolucionários, apercebendo-se que o javali continuava a ser mal dividido, decidiu-se pela realização de eleições.

 

E então...

Ó JP, magnânimo historiador do reino de aquém e de além mar... porque é que existe uma caneta amarrada por um cordel nas "casinhas de voto"?

 

Nunca ouviu dizer que a caneta é uma arma?

 

Estipulou-se que o eleitor está autorizado (e peço já desculpa pela frase de duplo sentido que vem a seguir...) a enfiá-la com toda a força no olho de um rei ciclope que apareça por ali, mesmo que garanta ser dirigente do PPM.

 

O cordel é só para dar graça.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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3 comentários:
De Sun Iou Miou a 25 de Setembro de 2009 às 13:28
O cordel é só para que ninguém roube a caneta, pondo assim fim ao processo eleitoral.
De Luísa a 25 de Setembro de 2009 às 14:13
João Paulo, este ilustrativo regresso ao passado explica tudo, até a elevação das nossas actuais campanhas eleitorais. Presumo que para o povoléu que serviu a «javalizada» a el-rei D. Sancho e aos cortesãos à sua esquerda e à sua direita tenham sobrado (igualitariamente) os ossos. Essa tradição também ainda hoje se mantém. ;-D

De mike a 26 de Setembro de 2009 às 01:08
clap clap clap... muito bom, João. E como eu (também) gosto da palavra bastardo...

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