Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

That's What Friends Are For

Uma relíquia, mas sempre actual.
Os amigos são o nosso bem mais precioso. Alguém duvida?

Ninguém o disse tão bem, talvez, como o velho Vinicius. Se não acreditam, leiam isto:

Procura-se um Amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

(Vinícius de Moraes)

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publicado por Ana Vidal às 12:28
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7 comentários:
De ana vidal a 15 de Agosto de 2007 às 23:47
A mim, milord, foi o meu pai que me ensinou a gostar de poesia. E bem pequena ainda, por sinal. Era um homem muito especial, sensível e reservado. Um poeta também. Mais tarde, tive a sorte e a honra de receber um incentivo (um elogio a um poemazinho que eu tinha feito) de David Mourão-Ferreira.
No seu caso, sei que Vinicius era mesmo amigo do seu pai, e que você não está a falar por metáforas. Receber a poesia das mãos de Vinicius é aquilo que eu considero um verdadeiro luxo!
De Lord Broken Pottery a 15 de Agosto de 2007 às 21:42
Ana,
Vinícius é meu amigo, guardo do lado esquerdo do peito. Foi um dos que me ensinaram a gostar de poesia. Já imaginou isso? Alguém poder ensinar um menino a gostar de poesia? Só podia mesmo ser meu amigo.
Grande beijo
De Cage a 15 de Agosto de 2007 às 17:19
É verdade, Ana. É bem verdade.
De ana vidal a 15 de Agosto de 2007 às 15:11
Para ti também, filósofo (já sei que não te achas um filósofo, mas acho eu. E no meu blog é a minha opinião que prevalece!). E tens razão: se há coisa com que vale a pena ser-se selectivo, é exactamente com os amigos. Os meus são os melhores do mundo, todos diferentes e todos imprescindíveis na minha vida.
De Mario Cordeiro a 15 de Agosto de 2007 às 14:44
Plenamente de acordo.
E compreender que os amigos são como são, que podemos (e devemos) dizer a nossa opinião mas que não os queremos mudar, e quando aceitamos isso passam a Amigos. Mas não é um processo fácil... e é altamente selectivo (o que é sempre "lixado"!).
Isto de nos identificarmos a partir das diferenças relativamente aos outros, mas paradoxalmente desejar que os outros sejam como nós é uma angústia permanente!
Bom resto de semana
De ana vidal a 15 de Agosto de 2007 às 14:28
Outro, amigo.
Já lá vou ao Reflexões, sempre tão original e útil.
De james a 15 de Agosto de 2007 às 13:34
Muito bom.

Um abraço.

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