Sábado, 19 de Setembro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

 

Roubara mobiliário para decorar sedes revolucionárias com cheiro a cigarros ilícitos; ajudara a sanear professores universitários cujo nome bastava para atemorizar o pessoal discente;  lançara à rua obras de arte, num exercício de defenestração do burguesismo diplomático estrangeiro. A idade, os cabelos brancos, algum cansaço, talvez, levaram-no a caminhar para a direita, que é para onde corriam os bons nos filmes de cowboys. Resvalando de partido em partido, numa espécie de queda quase livre na direcção do extremo, aterrou na última agremiação do espectro partidário e que lhe serviu de batente. No esplendor da carreira política chegara a presidente da junta de freguesia.

Fruto de um discurso crescentemente inflamado – e de uma quase imperceptível perturbação do espírito - entrou numa rotazinha de colisão com a lucidez da mente. Fala-se em imigração e o cavalheiro abespinha-se, alegando que a calçada portuguesa já fala ucraniano, o ferro de engomar foi tomado de assalto por umas havaianas e calções, os pedintes na rua perturbam o sossego das mentes cristãs com gemidos em moldavo; menciona-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o presidente brama contra o nojo - o asco, mesmo - o pão e o circo, a porcaria de homens que por aí há; refere-se a adopção de crianças por homossexuais e o senhor leva as mãos à cabeça, sugerindo bengaladas queirosianas em público.

Senta-se todas as tardes junto à praia, num café onde só trabalham portugueses de terceira geração – no mínimo – envolvendo os correligionários com um olhar onde se sente determinação:

- Sabem? Existe a fogueira que purifica para sempre, o barco que parte sem regresso, a cadeia que amansa os vícios. Escolham o que quiserem, mas agora tragam-me uma sandes de queijo limiano num pão de Mafra. Nada de pãozinho aparado, que isso é para maricas.

O senhor presidente encerra a Junta e dirige-se a casa onde vive sozinho desde que a mulher o trocou por um rapaz de Ulan Bator, portador de cartas registadas. Fecha as janelas para manter uma privacidade impenetrável e veste uma tanga negra com um lustro que confunde. Liga o karaoke e, quando a música começa a tocar, todo ele se agita  num frenesim de sensualidade

Quand il me prends dans ses bras

Il me parle tout bas

Je vois la vie en rose

Duas vezes por semana, quando os telejornais vão a meio, recebe a Roberta - uma negra de Porto Galinhas e que as más-línguas alegam já ter sido Roberto – para uma série de duetos exclusivos de George Michael e Ney Matogrosso. Faz amor com ela ficando sempre por cima, não porque aprecie os missionários, mas porque gosta de demonstrar que há posições de chefia a respeitar. Depois fuma um cigarro e retoma o discurso da cadeia, da fogueira, do barco sem regresso, da corja negra e de leste. A brasileira, dengosa e suada, vai à casa de banho e toma um comprimido, porque o médico disse que tinha de ser assim até ao fim da vida.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.  

 

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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13 comentários:
De Luísa a 19 de Setembro de 2009 às 12:45
Deste bairro sou indiscutivelmente, João. Conheço muitos percursos desses; muitos que, em 74, se envolveram activamente nas lides revolucionárias e que hoje são pessoas respeitáveis e conservadoras, encarando o passado como desvario da juventude e abominando levantamentos populares e acções de rua; alguns, mesmo, abominando «povo», simplesmente. O nosso «senhor presidente» é uma elaboração refinada do modelo. Mas é quase certo que, quanto mais excessivo se é no «oito», mais excessivo se será no «oitenta». :-)
De JdB a 20 de Setembro de 2009 às 10:47
Sim, acho que todos conhecemos percursos assim, sobretudo quem frequentou certas universidades, o que não é o meu caso. Eu acho que há, no nosso presidente, notas muito próprias - e destaco a tanga negra com um lustro que confunde. fetiches, sabe...
Obrigado pela (sempre) visita.
De Ana LA a 19 de Setembro de 2009 às 12:52
Como sempre genial nas descrições das gentes do seu bairro. Espero que, um dia, reúna todas essas pessoas e que construa uma intriga ,onde todos se cruzam e todos se envolvem. Bjo
De JdB a 20 de Setembro de 2009 às 10:47
Obrigado pela visita e pelas palavras simpáticas. Talvez caia bem, o nosso presidente na Lanterna Vermelha...
De mike a 19 de Setembro de 2009 às 17:53
clap clap clap... excelente.
Tal como a Luísa, também sou do mesmo bairro e já tinha ouvido umas histórias acerca do presidente da junta e da Roberta. ;)
Mas nunca tão bem descrita (e escrita) como a sua João.
De JdB a 20 de Setembro de 2009 às 10:50
Um obrigado por cada clap e mais outro pela visita, Mike.
Talvez me tenha faltado uma coisa no diálogo entre o presidente e a Roberta / Roberto: um espaço para a "desconversa", lugar geográfico tão aprazível onde as pessoas se podem encontrar.
De Ana Vidal a 20 de Setembro de 2009 às 20:37
João, estes moleskines estão a ficar cada vez mais hot... sugiro que a capa passe de preto a encarnado. :-)
Mais um belíssimo cromo deste bairro de todos nós. Parabéns.
De mike a 20 de Setembro de 2009 às 21:21
João, não vá nisso. Deixe-a como está. A Ana está cada vez mais rebelde e não se lhe podem fazer todas as vontades. (risos)
De JdB a 21 de Setembro de 2009 às 00:10
Ana: terei de concordar com o Mike. Afinal, quando me convidou para escrever no Porta combinámos duas coisas: o tratamento por chefe e a ausência de censura...
Tá certo, chefe?
De Ana Vidal a 21 de Setembro de 2009 às 00:34
Certíssimo, caro subalterno.
E pode apimentar os posts à vontade... quanto mais hot, melhor!
De Ana La a 21 de Setembro de 2009 às 00:47
Concordo contigo! Há que agitar as massas. O JdB tem o dom de agitar ,sem destabilizar demasiado o status quo. É difícil, é uma arte e acho que ele se coíbe de o fazer. É bom que nos estimule, que desmistifique as nossas gentes.
De Ana Vidal a 21 de Setembro de 2009 às 01:13
Não acho nada que ele se coíba de o fazer, Ana. Pelo contrário: tenho assistido, encantada, a uma sucessão de moleskines subversivos e deliciosos, cheios de massas muuuuito agitadas!
:-)
De Ana Vidal a 21 de Setembro de 2009 às 00:33
Ai, há muito tempo já que não embirravas comigo... já andava a estranhar!

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