Domingo, 13 de Setembro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não vou esconder que há uma razão muito particular para a organização deste jantar. Não, não se trata de nenhum motivo fútil, como debater, com o convidado, assuntos da sua experiência política ou, sequer, do estado da nação. Para ser franca, julgo que já todos sabemos o que há a saber e até demais sobre semelhantes matérias. O exercício do poder em Portugal, posto ao serviço das abstracções e das intrigas que se tecem nos corredores dos ministérios e da administração pública (para além de alguns grandes interesses económicos), tornou-se um exercício oportunista e leviano, que vive de aparências, está desfasado da realidade e não é digno de merecer a nossa atenção. E se o tema é a cultura, um tema em si mesmo especialmente propenso a abstracções, a situação agrava-se. É sobejamente conhecido o apreço de que goza junto do actual executivo. E logo se adivinha a dimensão e a espessura do seu projecto no que toca ao desenvolvimento do nosso teatro, do nosso cinema, das nossas artes, dos nossos museus, do nosso património histórico e da nossa língua. Não, não vamos perder-nos em conversas ocas sobre temas vácuos. Vamos, sim, apurar a verdade sobre uma outra questão, também de aparência, mas bem mais palpável e de importância capital.

 

Passo a explicar: o nosso convidado foi meu professor de faculdade. Era, há trinta anos, um homem alto, jeitoso, bem lançado, os óculos introduzindo uma nota de intelectualidade no conjunto vivamente sensual, a melena solta acrescentando uma nota de rebeldia no conjunto atraentemente clássico. Era, na altura, um belíssimo exemplar da espécie humana, no género viril, e o absentismo feminino às suas aulas batia recordes de insignificância. Pois trinta anos passaram e eis que o reencontro no pequeno ecrã. Ele ali está, agora sexagenário… mas das três décadas passadas, nem rasto. Vejo apenas o mesmo homem alto, jeitoso, bem lançado, os óculos introduzindo uma nota de intelectualidade no conjunto vivamente sensual, a melena solta acrescentando uma nota de rebeldia no conjunto atraentemente clássico. Estreito os olhos, procuro, em vão, uma ruga naquela pele esticada, julgo entrever um triste cabelo branco perdido nas loiras madeixas das têmporas… Mas não estou certa de nada! Tudo me custa a crer!

 

Assumo então a absoluta prioridade de desvendar o mistério da extraordinária resistência da criatura à implacável devastação do tempo. Porque as hipóteses que imediatamente me ocorrem, de conservação pelo frio do seu desapaixonado calculismo ou pelo calor da sua vaidade, não me convencem. O mundo prodigaliza-nos exemplos de calculistas chocantemente encanecidos e vaidosos duramente «pergaminhados».

 

Proponho, portanto, que, neste serão de Domingo, nos empenhemos todos em extorquir ao nosso convidado o segredo da sua eterna juventude. E porque nenhuma ementa da minha humilde lavra pode pagar o preço de um tal segredo, proponho ainda que, se conseguirmos extorqui-lo, organizemos uma «quête» e partamos daqui rumo ao «elBulli», a celebrar, com os melhores petiscos e vinhos do planeta, o risonho futuro que, de repente, nos escancara os braços. Vamos a isso? 

 

publicado por Ana Vidal às 11:00
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21 comentários:
De GJ a 13 de Setembro de 2009 às 12:58
Luísa, a ideia que me veio foi a do professor que usava a pulseira feita com uma colher, fazia jogging e utilizava os chuveiros da Universidade. Mas não me parece que o BdM seja o seu convidado ou será? :)
De Luísa a 13 de Setembro de 2009 às 13:54
Frio, frio, GJ. Esse também não está mal conservado, mas não se compara. E não creio que alguma vez se tenha envolvido directamente na orientação política dos «destinos culturais» do país… ;-)
De GJ a 13 de Setembro de 2009 às 14:51
Só no que diz respeito à cultura do ego...;)
Vou pensar melhor enquanto olho para os céus do Porto.
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 19:51
Sei que são céus muito inspiradores, GJ. ;-)
De Luísa a 13 de Setembro de 2009 às 14:01
Aproveito para fazer a seguinte correcção ao texto: onde se lê «acrescentando uma nota de rebeldia NO conjunto atraentemente clássico», deve ler-se «acrescentando uma nota de rebeldia AO conjunto atraentemente clássico».
Perdão!... :-S
De fugidia a 13 de Setembro de 2009 às 22:43
Hum... já noutra ocasião, em que o jantar era para alguém que faz parte do seu top ten de altos, jeitosos e bem lançados, me enganei (não temos um perfil muito parecido neste caso, acho ;-) ) pelo que o digo muito a medo: será o José Pinto Ribeiro?

(aguardo, ansiosa)
;-D
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 20:06
Fugi, parece que nuns casos coincidimos e noutros não. Eu, quando andava próxima dos dezassete aninhos ( ;-D ), achava este nosso convidado – identificou-o bem - uma brasa. Mas posso ter sido apenas um exemplo do fenómeno, relativamente comum, de fascinação de jovens alunas pelos seus professores jeitosos. Hoje, com mais três décadas em cima, não lhe acho a mesma graça (ou graça nenhuma...), embora reconheça que o essencial se mantém e num invulgar estado de boa conservação. :-D
De Ana Vidal a 14 de Setembro de 2009 às 00:26
Oh, Luísa, se não fosse garantido por si, eu juraria que essa figura não existe, simplesmente. Ninguém o vê... e não se pode dizer que será por inseguranças causadas pelo espelho, como a Luísa diz e muito bem. Deve ser por outras razões, mas não faço ideia quais.

(Nota: já reparou que ele é igualzinho ao marido da Carolina do Mónaco? Podiam ser gémeos!)

:-)
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 20:37
Ai, Ana, igualzinho, mas com pequenas diferenças decisivas. São, sem dúvida, o mesmo tipo. Mas este tem um aspecto menos gasto – provavelmente não alimenta vícios - menos desleixado e muitíssimo mais «operacional». O outro só deve batê-lo na espontaneidade temperamental (nem sempre uma virtude) e, naturalmente, nas vertentes, não desprezíveis, da «fortuna» e dos «pergaminhos». ;-D
De JdB a 14 de Setembro de 2009 às 00:29
Confesso, Luísa, que não faço ideia de quem seja o convidado surpresa. Se for o Ministro da Cultura, como foi aqui aventado, aceitarei o desafio porque a uma senhora nada se recusa, sobretudo com o gosto escrito, fotografado e musicado que tem sido evidenciado. Irei com agrado, porque não encontro incompatibilidade entre satisfação e educação.
Lamento o meu entusiasmo tão raquítico frente a um homem tão jovem.
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 20:49
Partilhamos o mesmo raquítico entusiasmo, João. Sem prejuízo da curiosidade que sinto pelo segredo da sua pele esticada e – a Rita já me envenenou – pela resposta que nos vai dar às questões da sua nomeação. De resto, parece-me um homem demasiado vaidoso e consequentemente ansioso por ser o centro das atenções, atributos que não costumam produzir os melhores conversadores do mundo. :-)
De mike a 14 de Setembro de 2009 às 00:31
Eu, mesmo sem saber quem é o convidado, confirmo a minha presença. Se é a Luísa a convidar, faço questão de fazer com que não se sente à mesa sozinha com ele.O El Bulli é convidativo, mas até podia ser a tasca do Zé Russo. ;)
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 20:52
Mike, o seu cavalheirismo e a garantia da sua presença enchem-me sempre da maior satisfação. Embora já se me tenha insinuado a dúvida de saber se me quer proteger a mim, se ao convidado… ;-D
De patti a 14 de Setembro de 2009 às 08:14
Oh Luísa, esta da melena solta, é que me deixa dúvidas.
De rita ferro a 14 de Setembro de 2009 às 09:29
Só pode ser o JAPR, mas sobre ele paira uma lenda bizarra abafada no meio cultural:
que foi convidado por engano, porque o destino do convite era, na realidade, ao seu homónimo António Pinto Ribeiro, ex-director artístico da Culturgest, com formação académica nas áreas da Filosofia, Estudos Culturais e . Só para desvendar este insólito valeria a pena ir ao seu jantar, Luísa.
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 20:58
Patti, se a melena anda menos solta é porque os anos terão introduzido as «lacas» ou os «géis» naquela produção visual. Posso assegurar que, há trinta anos, era a melena mais solta do meu conhecimento escolar e extra-escolar. :-D
De rita ferro a 14 de Setembro de 2009 às 09:46
Credo, o post entrou sem eu ter terminado. Recomeçando: só pode ser o JAPR , ex-advogado das produção fictícias e administrador da Fundação Berardo, mas sobre ele paira uma lenda bizarra abafada no meio cultural: que foi convidado por engano, porque o convite destinava-se, na realidade, ao seu homónimo António Pinto Ribeiro, ex-director artístico da Culturgest, com formação académica nas áreas da Filosofia, Estudos Culturais e Ciências da Comunicação, professor-conferencista em universidades nacionais e internacionais, investigador, programador cultural, colaborador regular na imprensa especializada e com uma vasta obra publicada no campo do ensaio e da ficção. Só para deslindar este insólito valeria a pena ir ao seu jantar, Luísa. Para lhe perguntar, como quem não quer a coisa: «Você é ministro graças à troca de um número de telefone? Esteja à vontade. A tribo da Porta do Vento tem sentido de humor suficiente para acolher a afirmativa com uma gargalhada.» Estou lá caída, até para saber se houve intervenção plástica naquela baby-face . E pela ementa, a companhia, a excelência da anfitriã e a oportunidade de rir e de charlar, que hoje escasseiam . Parabéns pela prosa magnífica, Luísa. Tenho dúvidas sobre se algum dos nomes acima referidos conseguia escrever um naco de prosa tão saboroso!
De Luísa a 14 de Setembro de 2009 às 21:16
Rita, também me tinham chegado uns zunzuns dessa lenda, que acho o máximo. A lenda acrescenta que, a meio do telefonema, o erro teria sido detectado, mas que a aceitação do convite foi tão lesta que já não deu o menor azo a correcções. Uma lenda (a confirmar-se) muito sintomática do cuidado e da profundidade com que se trabalha na nossa governação. E não menos sintomática da vaidade do nosso convidado. :-)
P.S.: Sobre a prosa, Rita, deixa-me muito sem jeito… e sem «prosa»… :-))))))))))
Obrigada.
De mdsol a 15 de Setembro de 2009 às 19:37
JAPR
(Atrevimento meu que sou muito nova por aqui)
:))
De Luísa a 17 de Setembro de 2009 às 16:36
Mas fez uma grande estreia, Mdsol. Acertou logo à primeira! ;-D
De mdsol a 17 de Setembro de 2009 às 18:54
A melena foi fundamental...
:)))

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