Sábado, 12 de Setembro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

Chama-se Curdo, um nome assaz bizarro para quem é natural do Alandroal, mas há quem o apelide de Surdo. De facto, como agente da autoridade, é totalmente desprovido de audição quando toca a multas. Implacável e rigoroso ao limite, não tem contemplações nem ouvidos para as desculpas habituais. Foi só um instantinho, já me ia embora, deixe lá, senhor guarda, só desta vez.

Mora num rés-do-chão direito de um prédio velho e escuro, engavetado numa rua onde o sol se esquece de ir. Nos dias de serviço entra e sai de casa impecavelmente fardado, como se o aguardasse uma parada presidencial, ou a rotina da autuação fosse incompatível com o desleixo.

O agente Curdo gosta de manter rotinas. Durante o dia zela pelo fluxo saudável do trânsito e pelo desimpedimento escrupuloso dos passeios. Mantém um registo particular de multas por dia, porque gosta de indicadores desafiadores e potencialmente contraditórios: a atenção à infracção versus o grau de cumprimento do cidadão.

Ao fim do dia chega a casa, despe-se e arruma a farda com zelo. Pendura as calças pelos vincos e ajeita o casaco num cabide para evitar deformações que tirem o decoro que se requer à autoridade. Veste umas calças de fato de treino e uma T-shirt sem alças, escorropichando uma mini para a qual dispensa copo.

O agente Curdo senta-se então ao computador e digita uma série infindável de endereços e palavras-chave, troca informações com um interlocutor cibernético, consulta auxiliares de memória. Durante as duas horas seguintes entreter-se-á com jogos informáticos nos quais as forças de lei travam uma luta sem quartel contra a delinquência: raptos, assaltos, tráfico de droga, assassinatos, terrorismo urbano.

Durante duas horas, repete-se, o agente Curdo gritará, agitará as mãos, vociferará, soltará palavrões, premirá a tecla enter com uma genica inusitada.

- Estúpido, não é por aí! Ah! Grande camelo que vais ser apanhado! Força, força, pela direita, rápido! Atenção que ele está ali, ao virar da esquina. Tem cuidado. Ah! sacana que estás feito, não percebes nada disto. Nada! Se fosse eu havias de ver…

São 120 minutos de combate árduo - ainda que virtual – contra o crime. E, durante todo esse tempo, acompanhado da sua mini e da sua ausência de mangas, o agente Curdo estará indiscutivelmente do lado dos fora-da-lei, pondo todo o seu saber ao serviço dos que atemorizam os cidadãos e zombam das regras.  

Pela hora de jantar chega a Susana, empregada recente de uma empresa de vigilância. O agente beija-a com ardor, admira-lhe a farda e pede-lhe:

- Importas-te de não apertar tanto as algemas? Ontem aleijaste-me…

No dia seguinte voltará à multazita, à pequena reprimenda, à surdez ao apelo do infractor:

- O senhor automobilista reparou que o rodado dianteiro esquerdo passou por cima do traço contínuo? Vou ter de o autuar…

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.  

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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9 comentários:
De Luísa a 13 de Setembro de 2009 às 01:06
Meu caro João, sei que estava sendo tremendamente injusta mas, durante muito tempo, achei que os agentes da nossa polícia de trânsito se encontravam na cauda da espécie humana, no que toca à quantidade e velocidade de «cruzamentos neurónicos». Nos escassos contactos que estabeleci com estes profissionais, sempre me pareceu ouvir ranger as suas circunvoluções intra-cranianas quando tinham de produzir raciocínios. Apesar da injustiça da generalização, constato que o senhor agente Curdo se enquadra na minha ideia original, com os seus «infantis» vícios privados e não menos «infantis» públicas virtudes. Mais uma bela história. :-)
De JdB a 13 de Setembro de 2009 às 01:36
Obrigado pela visita, Luísa. Quando cumpri o serviço militar, em época de bastante paz, felizmente, dizia-se que os cadetes - condição que tive durante algumas semanas - se encontravam 10 graus acima de cão e cinco acima de polícia, o que dá a imagem que é coerente com a sua.
Conheço bem o agente Curdo, como deve calcular, porque somos todos do mesmo bairro. Há, ali, um misto de infantilidade e tentativa de redenção, talvez, das circunvoluções rangidas que são origem de tanto fundamentalismo. Talvez um ligeiro desenquadramento, como um botão que está prestes a saltar de uma farda...
Até amanhã, ao jantar.
De JdB a 13 de Setembro de 2009 às 01:37
Corrijo: 10 graus abaixo de cão e cinco acima de polícia, o que se afigura ainda mais desprimoroso para a classe...
De Ana Vidal a 13 de Setembro de 2009 às 11:51
Estou com a Luísa: sempre achei que os polícias viviam noutro planeta (menos exigente quanto a neurónios) e para essa ideia contribui definitivamente aquela estranha língua que eles falam e não tem tradução em nenhuma outra latitude. O agente Curdo é bem um exemplo dessa espécie alienígena que nos invade as estradas e as ruas, de bloco na mão à cata de multas. Talvez as multas sejam, afinal, o alimento desta espécie rara...

Belo post, como sempre.
De JdB a 14 de Setembro de 2009 às 08:41
Obrigado, Ana. Tendo a concordar com o que aqui foi escrito pela Luísa e por si. O agente Curdo não será excepção - tem apenas aquela faceta semi-escondida dos jogos e das algemas...
De mike a 14 de Setembro de 2009 às 02:16
Estes moleskines são uma delícia. Parabéns, João.
De JdB a 14 de Setembro de 2009 às 08:44
Obrigado pela visita e pela simpatia, Mike.
De rita ferro a 14 de Setembro de 2009 às 10:32

Ah! Valha-nos as contradições! Parabéns e votos de uma boa semana!
De JdB a 14 de Setembro de 2009 às 10:48
Valha-nos as contradições e as visitas. Obrigado.

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