Domingo, 6 de Setembro de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

 

Parece que a «silly season» se prolongou, este ano, para além do período habitual. E que o mês de Setembro, apesar do retorno ao trabalho e às aulas, promete ser particularmente «silly». Quanto a nós, que reconhecemos a utilidade das «silly seasons», da sua retemperante leveza e futilidade, não é com total desagrado que encaramos um tal prolongamento. E por isso, não hesitámos em conceber um programa de jantares «silly», incluindo um naipe de convidados de honra que, em condições normais, colocaríamos na cauda da lista, mas que, na circunstância, talvez esclareçam as nossas opções iminentes. Chegámos a considerar reuni-los a uma única mesa e espicaçá-los com umas ferroadas ideológicas e uns vinhos fortes. O debate mais «silly» é sempre, de algum modo, instrutivo. Mas podendo ser também destrutivo, decidimos enfrentá-los um a um; melhor dizendo, deixar que, um a um, nos enfrentem a nós.

 

E, para começar, teremos alguém capaz de, com raro talento, marcar o tom. A nossa convidada merece, aliás, que a apresentemos sob duas perspectivas: a de fora e a de dentro. No que toca à imagem exterior, diríamos que a matéria-prima, em estado bruto, não arrancaria um segundo olhar a ninguém. Mas porque a personagem tem como objectivo confesso e prioritário dar nas vistas, soube burilar a matéria com inegável mestria, desenvolvendo um estilo alegre e «soignée» que, admitimos, não é desprovido de um certo encanto. O que explica parte do seu sucesso mediático – sendo que, para a outra parte, não discernimos explicação. No que toca à imagem interior, diríamos que a matéria-prima, em estado bruto, se revelou de molde a concentrar os olhares de todo o mundo: olhares pasmados, olhares irónicos, olhares críticos e olhares consternados. Presumo que destes últimos terá partido a sugestão «buriladora» de que selasse definitivamente os lábios. Quanto a nós, pertencentes à categoria dos olhares pasmados, avançaremos, naturalmente, com a sugestão contrária. Não desistimos de tentar, a todo o transe, compreender a juventude dos nossos dias, e quem melhor do que uma mandatária para nos esclarecer?

 

Não deixaremos, evidentemente, de ter preparado um questionário discreto. O menu, de resto, não vai ocupar-nos o espírito. Apostamos nuns modernos e dietéticos «hamburgers», garantindo carne bem moída e sem nervos, porque nos palpita que a «dentuça» da nossa convidada compagina a brancura irreal com uma realíssima preguiça. E a sobremesa, uma dietética «corbeille» de frutas, só nos ocupará as mãos, ainda que numa eternidade de árduo descaroçamento. Enfim, acedemos, como boas anfitriãs, a satisfazer-lhe o capricho. Mas não deixaremos de, do alto da nossa maturidade, lhe servir, com a «corbeille», este «silly» naco de sabedoria: de que a polpa da fruta está para o corpinho humano, como o negro caroço está para a massa cinzenta. Os sentidos comprazem-se com os primeiros. Mas são os segundos que perduram… e fazem a diferença.

 

publicado por Ana Vidal às 10:00
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18 comentários:
De JdB a 6 de Setembro de 2009 às 11:50
Há pessoas, Luísa, que vivem a silly season em permanência ou serão, elas próprias, a silly season. Não perco este jantar por nada. Mas explico o que (não) me move - para além, sempre, dos anfitriões: não me move, na rapariga, o encanto que não lhe vejo, o discurso que não entendo, a beleza que não vislumbro. Quero - educadamente, gostaria - de me sentar ao lado da criada (ou ela disse empregada?) enquanto esta exerce o mister de descaroçar ou "desgrainhar" a fruta. Sempre trabalhei em fábricas e fascina-me a produtividade das coisas. Será que ela tem um método especial e eficaz? Será que o faz de luvas devido à gripe A? Quantas uvas consegue produzir? Será que o consumo da menina é superior à produção da serviçal? Ou será que todos, com o horror à derrota, farão batota?
(E será, por último, que a empregada ainda tem horas livres?)
De rita ferro a 6 de Setembro de 2009 às 15:09
Ou será, Luísa e João, que não passa de uma clotilde a quem a disparatada ascenção imbeciliza? Agradeço o convite e irei ao jantar. Apesar de tudo - e rio-me - a banalidade repousa-me mais do que estes geniozinhos malcriados que proliferam nos media e que, no fundo-fundo, além de não servirem para nada, nem sequer nos divertem.

P.S. - Luísa, não se esqueça de tirar também os caroços dos tremoços, se os servir :-))
De Luísa a 7 de Setembro de 2009 às 14:20
Rita, estou consigo. O meu problema de incompreensão decorre, no fundo, de já ter alguma dificuldade em recuar aos meus vinte anos. Lembro-me do que pensava, mas não me lembro do que dizia. Embora quase aposte que, desta boca, não saía menos disparate, menos altissonância, nem menos inconveniência. Tive, felizmente, a sorte de nunca ter sido convidada para mandatária de coisa nenhuma e de nunca, portanto, me ter confrontado com dilemas de aceitação-recusa.
P.S.: Quanto aos tremoços, Rita, não precisamos de nos preocupar. Entre duas cervejolas, o meu querido «Jarbas» já os descaroçou todos. ;-D
De Luísa a 7 de Setembro de 2009 às 14:01
João, lastimo informar mas, aqui na Porta, não temos empregada. Os jantares são por nós preparados com todo o carinho para os nossos «habitués» - e um pouco menos para alguns convidados. ;-)
Mas o seu comentário fez-me repensar no que mais me desagradou no discurso da Carolina. Eu também não gosto de caroços nas cerejas, como não gosto de grainhas nas uvas, nem de espinhas no peixe, nem de «brancas» no fiambre. Mas não me ocorreria solicitar a ninguém, e menos ainda a uma empregada doméstica, que me extraísse os caroços, as grainhas, as espinhas ou as brancas (a menos que se tratasse da confecção de um prato, cuja receita o impusesse). Como não me ocorreria trazer o facto a público, num tom que nos representa a dita empregada a abanar resignadamente o leque de penas sobre a cabeça da miúda nos dias quentes.
De rita ferro a 7 de Setembro de 2009 às 16:09
Sublinho, para quem leu veloz, a principesca subtileza da Luísa: «e menos ainda a uma empregada doméstica». Está tudo aí, Luísa, tudo!
De Luísa a 8 de Setembro de 2009 às 00:29
Talvez esteja a fazer, neste caso, uma injustificada «discriminação positiva», Rita. Mas há profissões que acho tão vulneráveis, no que respeita à preservação do que é a minha ideia de dignidade, que tendo a trazer as pessoas que as exercem nas palminhas e a engolir, até, alguns merecidos reparos. Complexos ou preconceitos meus, não sei… :-)
De rita ferro a 8 de Setembro de 2009 às 07:51

Antes assim, Luísa, antes assim :-))
De Dulce a 6 de Setembro de 2009 às 16:04
Essa menina, com sua empregada, suas frutas e seus caroços, estão dando o que falar desse lado do Atlantico! Adorei o PS da Rita:)
De Luísa a 7 de Setembro de 2009 às 14:26
As frutas e os caroços são o folclore, Dulce. Séria é a predisposição confessa da pequena para a batotice, devida, segundo diz, ao facto de não suportar perder. Sendo ela mandatária de um partido para a juventude, ficamos na dúvida de saber se, com essa predisposição, representa a juventude ou representa o partido… ;-)
De imprevistoseacasos a 6 de Setembro de 2009 às 17:56
Belo post, mais uma vez...
A menina convidada não passa de um pequenos fenómeno provinciano. Com caroços ou sem eles, ela mostra como a nossa politica pode ser pequenina, recorrendo a estes episódios de telenovela mexicana.
A moça é capaz de ter virtudes ... Lamento não poder comparecer ao jantar, fico-me pelo aperitivo, numa sala ao lado. Ficarei à sua espera, caso desista da aventura :)
Beijinhos Luísa
De Luísa a 7 de Setembro de 2009 às 15:08
Tem toda a razão, Fernanda. A ingenuidade aparente da rapariga não deixa, de resto, de ser um sinal positivo. Receio que nos agarremos a estes pequenos «faits-divers» para ter de que rir numa conjuntura que puxa a lágrima. :-)
P.S.: Sirvo-lhe de aperitivo um champanhe seco, a ver se a tento (ou animo) para os «hamburgers»… ;-D
De mike a 6 de Setembro de 2009 às 21:08
Só tenho pena que a este excelente post (parabéns, Luísa), esteja associado um naco de sabedoria e não de vitela. Era para dar uma desculpa esfarrapada que justificasse a minha falta ao jantar, mas sou incapaz de deixar a Luísa sozinha com tão iluminada criatura. Mas previno-A, Luísa, que desta vez beberei mais que o habitual. E estarei mais atento ao questionário que tem preparado do que às respostas da moça. Pode ser assim? ;)
De Luísa a 7 de Setembro de 2009 às 15:47
Mike, sempre cavalheiro! Se quiser, preparo para si o dito naco de vitela, que de nacos de sabedoria afeitos a uma «silly season», sei bem que não precisa, nem aprecia. E também o acompanho no reforço da bebida. Estou a precisar de uns bons tragos de alienação de sabor frutado e taninos delicados. ;-D
De Ana Vidal a 7 de Setembro de 2009 às 21:55
Lamento ter falhado o jantar de ontem, Luísa, mas estou longe (e só tenho net às vezes). Imagino que se divertiram, a convidada disse com certeza coisas interessantíssimas... e o Mike, desta vez, teve belas vistas de pés em sandálias, aposto!

Beijos a todos, até sexta-feira.
De Luísa a 8 de Setembro de 2009 às 00:39
Não lamenta mais do que nós, Ana. :-/
P.S.: E aí está! Não tinha percebido bem os enrolados argumentos do Mike para vir ao jantar: que não queria, e depois já queria, sob os pretextos incompreensíveis de umas bebidas e de uns questionários… Mas tudo se faz claro: os pés e as sandálias!!! :-D
De mike a 8 de Setembro de 2009 às 16:35
Estão enganadas, senhoras. Neste caso, poderiam ser os pés mais bonitos e as sandálias mais sexys que de nada valeriam. Fui ao jantar pela Luísa e pelo (inteligente) questionário.
De Luísa a 8 de Setembro de 2009 às 17:10
:-)))))
De Fatos & Fotos de Viagens a 10 de Setembro de 2009 às 13:53
Estou espantado com a facilidade com que se pegam fotos de MINHA autoria e a colocam NESTE blog sem sequer citar a fonte, sem permissão e sem autorização. É vergonhoso ROUBAR imagens de terceiros e as publicar num sítio na Internet desta maneira acintosa. Uma VERGONHA!

Foram extraídas do MEU BLOG - “Fatos & Fotos de Viagens”-
http://interata.squarespace.com/jornal-de-viagem/2007/9/3/istambul-onde-o-ocidente-encontra-o-oriente.html

Em “De Istambul, com amor” (publicado aqui em Sábado, 5 de Janeiro de 2008) foram usadas fotos de minha autoria e propriedade, protegidas por leis internacionais de Direitos Autorais, as quais encontram-se registradas e publicadas em

http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157605959595162/


Exijo a IMEDIATA retirada das imagens a fim de que não seja obrigado a tomar medidas judiciais cabíveis decorrentes de Direitos Autorais quebrados. Estas fotos foram INDEVIDAMENTE obtidas e copiadas do MEU blog e SEM pedido prévio, consequentemente SEM autorização.

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