Sábado, 5 de Setembro de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

São as meninas dos Correios, como numa dada altura eram as meninas dos Telefones. Sei do que falo, porque me dirijo amiúde ao posto mais próximo que tem um quadro de pessoal exclusivamente feminino. Compro selos, peço estampilhas de correio azul, levanto cartas registadas, atento nas últimas publicações. A menina lá está, fardada, com uns óculos tristes, um cabelo aloirado e desinteressante, um olhar irrequieto e envergonhado. Recebe simpatias com uma cara que ruboresce, enfrenta uma observação com desculpas que tendem para infinito.

Esta menina dos Correios é uma rapariga nova, pintada de forma displicente, que poderia usar um letreiro em forma de súplica: não olhem para mim, finjam que eu não existo. Chama-se Clotilde e é filha de uma professora primária e viúva precoce de um motorista da Câmara Municipal. Convicta da irreversibilidade do estado civil, a senhora devotou-se por inteiro aos meninos, a quem transmitiu valores que formam as mentes e salvam as almas. Clotilde cresceu entre um aviso de recepção e um luto permanente, com uma Mãe que assumiu um pensamento constante: para onde caminhas tu, com esse feitio tímido e invisível?

Um destes dias levaram-me a um recinto no lado oriental da cidade, recuperado para uma malta mais alternativa, desta que não se revê em lado nenhum da noite – ou que quer tudo em simultâneo. Celebrava-se o dia de África, pelo que o estabelecimento era o continente negro copiado e colado na União Europeia.

Numa das salas dançava-se o kizomba: pernas que cruzam, ancas que roçam lateralmente para depois encaixarem de frente; a sensualidade, os cheiros, o ambiente, os sotaques, as saudades das noites africanas, do pôr-do-sol e do espaço sem fim. À minha frente, uma mancha negra movimentava-se ao som de uma toada ritmada e lasciva. No meio da pista, com um menear irrepreensível do corpo, uns cabelos loiros a revelarem cuidado, e uma saia curta que mal tapava umas pernas esguias, vi a Clotilde, esquecida dos carimbos e das encomendas, da franquia e do registo, a descobrir uma África que só conhece da TV Cabo. Com ela, um jovem negro com mais de 1,90 que lhe percorre o corpo como um alfaiate afaga uma peça de caxemira: com um vagar sensorial, de mão aberta e a toda a extensão do pano.

Quando saí, ainda a vi beijando o Valter, empregado de uma oficina na margem sul - um beijo longo, húmido, carregado de desejo e erotismo, de fluidos trocados e cor de pele contrastante. O rapaz sente no corpo da Clotilde a geografia africana e mata as saudades com o tacto, porque a lonjura é uma cegueira, e mão que não toca é alma que não sente. Para ela, que tem o horizonte visual de um balcão ao nível dos olhos, o mecânico é um canal de viagens com interacção erótica. 

No dia seguinte a jovem voltará a ser a mesma menina do Correio, tímida, envergonhada, com uma farda estilizada e um cabelo démodé. Almoçará jardineira de vitela com uma Mãe que fala de Deus às crianças – sendo que a inversa também é verdadeira. Engolirá, nostálgica, um pedaço de carne, porque é, também, de nostalgia que se faz a pergunta guardada num coração dividido: sabes fazer moamba, mamã?

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.      

 

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publicado por Ana Vidal às 10:00
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13 comentários:
De Luísa a 5 de Setembro de 2009 às 13:48
Cá estamos de novo, João. E eu, encantada com este seu texto. Fala de uma realidade que me é completamente estranha. Acho que não sou do mesmo bairro, embora seja, indiscutivelmente, do mesmo barro. Por isso, compreendo o fascínio dos sonhos e das projecções da Clotilde. E a excitante aventura que é a sua vida secreta ou dupla. Gostei muito de ler. :-)
De JdB a 6 de Setembro de 2009 às 11:59
Obrigado pela visita, Luísa. Peço desculpa por discordar - e ponho nesta discórdia todo o respeito - mas eu acho que a Luísa é, também, deste bairro. No sítio onde mora (talvez mesmo na Travessa dos Honrados) haverá Clotildes cujas vidas só podemos imaginar: o que se esconde por detrás de uma farda? E de um homem que avia jornais ao balcão? E do dono de uma pastelaria? Eu tiro-lhes uma fotografia (infinitamente pior do que as suas) e revelo-a à minha maneira...
De JdB a 6 de Setembro de 2009 às 12:10
Travessa do Honrado (no singular, para ser fiel à designação) porque é característica que já não se vê em grandes plurais...
De Luísa a 7 de Setembro de 2009 às 13:25
Tem toda a razão, João. A minha vizinhança, que até conheço mal, parece-me demasiado popular e já um pouco «encanecida» para um certo tipo de aventuras. Mas todos hão-de precisar dos seus «escapes», e podem bem ser vidas duplas cheias de sal e pimenta, quem sabe… ;-)
P.S.: Eu é que agradeço as suas silenciosas mas não menos saborosas visitas.
De Ana Vidal a 5 de Setembro de 2009 às 14:28
Mais um belo Moleskine a abrir a rentrée, João. Gostei imenso. Esse seu bairro (o de todos nós, no fundo) tem muito que se lhe diga... vidas duplas e sensuais não faltam, para animar os dias cinzentos com jardineiras de vitela sem graça.
Muito me conta!
Um beijo
De JdB a 6 de Setembro de 2009 às 12:01
Obrigado, chefe. Quando for aos correios e pedir uma estampilha, ou se sentar a comer uma jardineira de vitela, há uma nova oportunidade que se abre na sua vida. Com kizomba ou sem...
De rita ferro a 6 de Setembro de 2009 às 14:55
Querido João, tenho sido uma má amiga e uma péssima leitora. Não vou ao teu blogue e, para cúmulo, demoro mais de 24 horas a comentar-te. Não sou ingrata. Sou dispersa e distraída, cada vez mais. Mas se há coisa de que não me distraia é das clotildes deste mundo. Não há vez que esbarre com um anónimo cinzento que não lhe prescrute a alma. Talvez por isso, nunca me convenceram estas almas de «feitio tímido e invisível»; cada uma encerra a sua história, sempre mais surpreendente do que a nossa, e, tal como em todas, contêm todo o Universo. Talvez por deformação profissional, aprendi que, neste teatro da vida, todos os figurantes são protagonistas. Nos outros, nos que aparentemente não se escondem, há também por desvendar o seu lado sombrio ou negro, e tantas vezes tímido- É um desporto, quase um vício, e por isso gosto tanto de te ler. Parabéns!
De JdB a 7 de Setembro de 2009 às 16:21
Não te preocupes com as ausências porque as presenças as compensam e vencem. Eu também me atrasei na resposta. Vingança? perguntarás tu... Desinteresse, afirmarão alguns. Nada disso, nada disso. Prudência apenas, e sentido de proporção. Ler o teu comentário é ter vontade de o copiar e colar num blogue no estrangeiro como se ele fosse meu e me desse salvo conduto para a Academia. Sabes, retorquir ao teu texto é como editar os Maias e depois por uma adendazita no fim, para compor o livrito... Responde-se o quê, queres dizer-me? Esmagas-me.
Obrigado.
De rita ferro a 7 de Setembro de 2009 às 16:25
Larga a droga :-))
De agenor a 7 de Setembro de 2009 às 18:52
Timidez? Duplicidade? Cobardia? Num comentário mais acima fala-se, até, em falta de honra.
Tenho estado aqui ver se descortino o que impede a menina Clotilde de convidar o negro Valter para um jantar de jardineira de vitela, em casa da mamã. Ou ainda no que a levará a manter a sua devota mãe na dúvida quanto ao seu destino.
Como ouvi algures, a já não lembro quem, «hate the sin, but love the sinner» e nessa medida a minha curiosidade vai sempre mais para o pecado, e não tanto para o pecador. Aliás, no que respeita a pecadores, estou como a Luísa: não tenho dúvida que somos todos do mesmo barro. Por isso, antes de emitir juízos definitivos sobre o carácter das personagens, gostaria de conhecer um pouco melhor todos eles, designadamente essa mãe, viúva precoce e, tanto quanto parece, ultra protectora. Talvez para a semana?

Gostei muito, aliás como sempre. Votos de boa semana.
De JdB a 7 de Setembro de 2009 às 23:43
Obrigado pela visita, Agenor. Aqui talvez não tenhamos que odiar nada nem ninguem - não há pecadores nem pecados, a não ser que a jardineira de vitela seja francamente mal feita. Quem sabe o que esconde uma viúva que fala de Deus aos pequeninos? Fique por perto, nunca se saberá o que nos reservam os próximos episódios.
Uma boa semana para si. Agradeço os elogios seguramente imerecidos.
De agenor a 8 de Setembro de 2009 às 00:03
LOL. Bem vista, essa questão da jardineira :-)
Fico, então, a aguardar as cenas do próximo Moleskine.
Um abraço e até para a semana.
De Fatos & Fotos de Viagens a 10 de Setembro de 2009 às 13:53
Estou espantado com a facilidade com que se pegam fotos de MINHA autoria e a colocam NESTE blog sem sequer citar a fonte, sem permissão e sem autorização. É vergonhoso ROUBAR imagens de terceiros e as publicar num sítio na Internet desta maneira acintosa. Uma VERGONHA!

Foram extraídas do MEU BLOG - “Fatos & Fotos de Viagens”-
http://interata.squarespace.com/jornal-de-viagem/2007/9/3/istambul-onde-o-ocidente-encontra-o-oriente.html

Em “De Istambul, com amor” (publicado aqui em Sábado, 5 de Janeiro de 2008) foram usadas fotos de minha autoria e propriedade, protegidas por leis internacionais de Direitos Autorais, as quais encontram-se registradas e publicadas em

http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157605959595162/


Exijo a IMEDIATA retirada das imagens a fim de que não seja obrigado a tomar medidas judiciais cabíveis decorrentes de Direitos Autorais quebrados. Estas fotos foram INDEVIDAMENTE obtidas e copiadas do MEU blog e SEM pedido prévio, consequentemente SEM autorização.

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