Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

A propósito da recente viagem do Presidente da Republica à Áustria, dizia a imprensa portuguesa que ela tinha sido iniciada com um “encontro de amizade” com austríacos que no pós – II Guerra Mundial, quando eram crianças, tinham sido acolhidos em Portugal.

 

Como já vos contei, estou familiarmente ligado a este facto, e vários foram na verdade os miúdos austríacos que estiveram em Nisa com os meus avós, paternos e maternos, e com várias famílias que nos são próximas. Lembrei-me obviamente da Gretl de la Varre a quem me ligam, ainda hoje, laços de profunda amizade, dos filhos, especialmente do René, que escreveu um livro contando a saga do seu avô paterno e a sua célebre ligação profissional com o Jack Warner, e veio-me ainda à memória a primeira vez que fui à Áustria nos tempos do Colégio, quando fizemos no 6º ano a viagem de finalistas.

 

Alguns “detalhes” dessa viagem ainda hoje me vêm à memória. O primeiro que me ficou gravado no coração foi realmente a gratidão que os austríacos nutrem por nós, em função da nossa disponibilidade e carinho para com as crianças austríacas durante a guerra. Naqueles tempos, a Europa não tinha um grande conceito de Portugal, e em muitos casos nem sequer sabia da nossa existência. Mas em Salzburgo (primeira paragem do nosso périplo) a sensação foi diferente.

 

As típicas senhoras austríacas, de chapéu de veludo verde com uma peninha de ave, vinham tentar meter conversa connosco (felizmente os de letras e direito arranhavam algum alemão…) e perguntavam como estava o país, donde era o nosso Colégio, o que fazíamos ali, etc. Depois, pelas ruas da cidade havia cartazes com propostas de viagem a Portugal, especialmente a Fátima, o que foi para nós uma sensação muito agradável: Portugal falado no estrangeiro era realmente novidade!

 

Depois, lembro-me da nossa chegada a Viena. O camionista não conseguia chegar ao Hotel, e tivemos de perguntar a um carro da polícia que estava estacionado numa das ruas da cidade, para ver se com uma explicação especializada seriamos bem sucedidos. Para nós, os polícias eram aqueles seres inacessíveis, dos quais fugíamos e que sistematicamente procurávamos provocar. Culturalmente, os intelectuais rondariam pelo 1º ciclo do liceu de então, e encontrar algum que conseguisse orientar um turista… era realmente agulha em palheiro. O nosso espanto naquele caso foi, desde logo, a postura. Perfilaram-se, fizeram a continência e disponibilizaram-se desde logo a ouvir-nos. Depois ainda foi melhor, pediram para os seguirmos. Ou seja, andámos pelas ruas de Viena ao fim duma tarde cinzenta de neve, com um carro de polícia a abrir-nos caminho por entre o trânsito, para podermos chegar ao Hotel antes do jantar…  que categoria!

 

Outro episódio que guardo, e que infelizmente ainda hoje permanece nos seus contornos essenciais, tem a ver com a distância do desenvolvimento cultural de ambos os povos.

 

Naquela época, uma das coisas que não perdíamos de forma alguma na programação da televisão, em termos de acontecimento internacional de relevância, era o Festival da Eurovisão da Canção.

 

Assim, depois do jantar, um grupo de doze a quinze, foi dar uma volta e procurar um café onde a rapaziada pudesse ver o festival. Fomos a vários, mas ninguém estava sintonizado no canal certo, e quando pedíamos alguma informação sobre o assunto o desconhecimento era total, ninguém sabia do que se tratava.

 

Que estranho! Então não sabiam o que era o Festival da Eurovisão da Canção? Como era possível?

 

Bem, fomos andando e lá encontrámos um restaurante ainda aberto, e um senhor muito simpático, que nos abriu uma pequena sala só para nós, sintonizou a televisão no canal adequado e só nos pediu para não fazermos muito barulho. Ali ficámos nós, em plena Viena de Áustria, a ver sozinhos o Festival… e a consumir umas coca-colas para não deixar mal o restaurante…

 

Na manhã seguinte, quando nos acomodámos novamente na camioneta para mais uma jornada turística, as perguntas e dúvidas começaram a emergir. Da janela da camioneta, enquanto percorríamos as ruas de Viena tentando encontrar a melhor saída em direcção a Munique, podíamos observar os miúdos a irem para a escola. Sim, as pastas eram quase iguais às nossas, mas todos eles levavam também um instrumento musical às costas. Aqui um violino, ali uma viola, mais ali uma flauta, depois uma trompete…

 

Se calhar, era por isso que não viam o Festival da Eurovisão...

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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6 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 27 de Julho de 2009 às 15:00
gostei imenso
obrigada por esta viagem
o fim é brilhante
Abraço
Rita V.
De Manecas a 27 de Julho de 2009 às 21:21
Não tem nada de agradecer...Foi só um divertimento fora de portas!

Bjs
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 15:06
Manecas, giríssimas estas suas recordações de finalista do liceu! Mas uma viagem à Áustria foi um luxo! A minha foi à singela ilha da Madeira. Também me lembro do entusiasmo com os Festivais da Canção. E a Áustria, que me lembre, ainda ganhou um, com um tal Udo Jurgens, salvo erro, e uma música que tenho ideia de que era muito romântica. Estranho, por isso, o desinteresse dos austríacos. Mas talvez a preferência por outros estilos musicais, que adivinhou nessas crianças carregando violinos e trompetes, o explique. :-)
De Manecas a 27 de Julho de 2009 às 21:27
Sim essa do Udo Jurgens - Merci Cheri - era bem bonita e bem cantada. Foi no ano da Madalena Iglésias (Sei quem ele é), 1966.

Bom, Luísa mas não fique com inveja, porque a nossa viagem não foi á Austria, nós passámos por não sei quantos sitios, foi sempre a andar.

Fizémos 6.500Km nas duas semanas das férias da Páscoa, e como em dois ou três sitios parámos realmente um dia, está a ver que as férias foram sobretudo, andar de camioneta...

Mas com muitas peripécias...

Bjs
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:47
A minha viagem de finalista não chegou a existir sequer, calhou exactamente em 74! Valeu-me outra (do Isla) no ano anterior, que não era minha mas a que me colei porque tinha amigas lá: um cruzeiro no Eagle a Marrocos, que foi divertidíssimo.

Bas memórias estas, Manecas. :-)
De Manecas a 29 de Julho de 2009 às 09:18
Há sempre qualquer coisa que nos fica...

Ainda hoje me lembro duma cena tipicamente francesa, num hotel caseiro em Montpellier, daqueles com parede forrada a papel, e uma senhora já velhota, de carrapito, que nos acordou ainda em camisa de noite e em roupão, logo de manhãzinha...

Vem-me isto tudo à lembrança, porque associado a uns croissants quentinhos e estaladiços que nunca mais me esqueci...

Até porque naqueles tempos nem sequer tinhamos colestrol...e vai daí...

Parece-me que a senhora se foi deitar assim que saímos!

Beijocas

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