Domingo, 26 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

O nosso convidado não está magro. É, visivelmente, um «gourmet» que não despreza o factor quantidade. A idade já desaconselha, porém, certos excessos, pelo que vamos propor-lhe, para começar, uma canja ligeira de ostras e cherne, perfumada com sumo de limão, cebolinho e um fio de azeite. E saboreando a canja, falaremos do seu passado, da sua fulgurante entrada no «showbiz» e da revolução que protagonizou nas nossas tradições de espectáculo humorístico, até então dirigido, com todo o respeito e uma levíssima pitada de pimenta, à alma sossegada, familiar e inocente do português formado na escola dos brandos costumes. Recordaremos, nostalgicamente, as suas experiências de imenso sucesso no pequeno ecrã, o seu estilo popular, brejeiro, sarcástico e implacável na recriação e ridicularização de tipos sociais e de personalidades políticas, e as gargalhadas que nos proporcionou (omitindo, sensatamente, referências ao «crescendo» de ousadia que, a páginas tantas, cerrou as taxas em muitas bocas, nalguns casos chocadas com o nível de heterodoxia, noutros, críticas de certos pecadilhos de mau gosto).

 

Ao som do inesquecível sucesso musical «Saca o Saca-Rolhas», sacaremos, entretanto, a rolha de um tinto Quinta da Garrida, reserva 2005, de «aroma vibrante e em permanente alvoroço», com que regaremos um peito de peru preto afiambrado com trufas, a sua conhecida fraqueza gastronómica. E discutiremos então o presente, os motivos porque parece ter perdido a simpatia dos vários canais televisivos, mesmo se a sua presença ainda consegue mobilizar notáveis audiências. Talvez reflictamos nos efeitos que a associação do seu nome a uns casos controversos, que emocionaram negativamente a opinião pública, pode ter tido num discreto afastamento, implicando agora que comece de novo e quase do zero. Ou talvez meditemos apenas sobre o nosso sentido de humor, tão volátil, tão contingente, tão susceptível, tão atreito a cansaços, tão exigente de inovação e de imprevisto.

 

Fecharemos o repasto com uns charutos de ananás com «mousse» de chocolate, acompanhados de uma tisana de champanhe gelado. E faremos brindes a um futuro que arranque das sombras de um panorama humorístico bastante empalidecido por receitas menos originais ou mais gastas e actores menos humildes ou mais pretensiosos, o criador do imortal Tony Silva, grande impulsionador, no hemisfério «latino-romântico», de «toda a música ró». É verdade que o nosso convidado tem defeitos como todos nós. E pinta ostensivamente a cabeleira de um amarelo que bordeja o escândalo. Mas julgamo-lo honesto e livre; um bom estratega, em suma, para o restrito mas bravíssimo exército dos que marcham ao som da exortação queiroziana: «Vamos rir, pois. O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.»

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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20 comentários:
De JdB a 26 de Julho de 2009 às 11:43
A companhia que escolhemos para uma refeição - ou que alguém escolhe para nós - é passada ao crivo dos nossos gostos pessoais. Excluindo a educação, que nos leva a sentar à mesa mesmo com aqueles de quem não gostamos, quais são as nossas motivações?
Entre o HJ, genial humorista, e o HJ que baixou à ordinarice, quem (me) vence? Entre o homem que criou "bonecos" que nos levam à hilariedade e o homem que entrou por caminhos que a minha moral condena, quem (me) prevalece? Quero almoçar com alguém que me faça rir ou com alguém que seja um bom conversador?
Os franceses chamam a isto "l'embaras du choix".
Na dúvida, irei sempre, quanto mais não seja pela entrada e pela companhia que lá se juntar, esperando que a frase do Eça não se aplique a ninguém:
"Estirando a perna, empinando o ventre, arrotou de flatulência ricaça".
De Luísa a 26 de Julho de 2009 às 13:57
João, compreendo o embaraço. O HJ é uma pessoa de que tenho «medo», não por mim, mas por ele. Porque assim como me desperta grande simpatia, assim me arrepia com uma evidente propensão para o «alto risco» humorístico, para um tipo de graçola que não agrada a todo o mundo, de que ele próprio se vai, por estes dias, apressando a desculpar e que não sei se não é o que coíbe as televisões de apostar nele, apesar da escassez de alternativas. No que toca ao nosso jantar, quem quiser armar-se em ricaço, com essa elegância de que fala o Eça, terá de se confrontar com o meu rolo da massa. ;-)
De GJ a 26 de Julho de 2009 às 14:09
Aqui está um convidado sobre o qual todos temos algo a dizer. Do tímido começo, ao genial triunfo, seguido do tropeço que lhe valeu várias quedas e finalmente um regresso do homem mais maduro, mais preocupado com o que parece ser a passagem da vida. Verdade ou a necessidade da celebre e sensata profecia "of the show must go on " não sei. Vou estar presente sem grande convicção, mas porque acredito que os artistas são apenas pessoas como todos nós, com altos e baixos, com alegrias, tristezas e manias. E quem somos nós para tirar conclusões apressadas. E viva a ementa, Luísa, mais uma vez bem escolhida.
Até logo:)
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 13:59
GJ, deve ter havido um momento de grande (e inédito) sucesso, tanto que HJ julgou, momentaneamente, que tudo lhe era permitido. E quando isso acontece, em profissões dependentes da opinião pública, a onda muda quase invariavelmente e segue-se o declínio. Agora, a sua vida deve ser como a de todos os artistas sem a bengalinha do anúncio publicitário: muito difícil.
De Cristina Ribeiro a 26 de Julho de 2009 às 18:31
A este jantar, Luísa, iria se o convidado deixasse à entrada tudo de que se revestiu depois de ser " O Verdadeiro Artista "...
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 14:04
Ontem, Cristina, estive a ver uma parte do novo programa do HJ na TVI, espécie de concurso musical, e não há dúvida de que a piada picante e, por vezes, embaraçosa é uma tentação irresistível para ele. É pena, porque pode torná-lo bastante incómodo.
De ritz_on_the_rocks a 26 de Julho de 2009 às 18:48
Querida Luísa
Conte comigo
Ver-se ao espelho ... não é para todos, mas enquanto há vida ... há esperança!


bjs
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 14:10
Rita, infelizmente, são raras as pessoas que se enxergam. Mas julgo que o HJ terá compreendido, a páginas tantas, que se excedeu, no humor e na vida. Resta saber se o problema foi de fase, se é de natureza. A ver vamos… :-)
De ritz_on_the_rocks a 27 de Julho de 2009 às 15:02
Há pessoas que se tornam a sua própria caricatura
Não sei se ele vai conseguir despegar os trejeitos
Bjs
R
De Ana Vidal a 26 de Julho de 2009 às 19:52
Conte comigo, Luísa! Este não perco, porque tenho algumas perguntas a fazer ao nosso convidado e muita curiosidade de saber o que o move hoje em dia. Talvez o Herman - de quem eu fui a admiradora mais incondicional no tempo em que ele ainda não tratava o seu público como patetas para quem "bacalhau basta" - consiga fazer-me render outra vez. É um convidado muito especial, que tem tanto de genial como de deslumbrado, tanto de divertido como de mal educado. Veremos o que nos sairá na rifa logo à noite... :-)
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 14:30
Concordo inteiramente com a sua perspectiva, Ana. Aliás, o HJ é dos raros humoristas a que não resisti, porque, de uma maneira geral, resisto bastante a programas e artistas desta espécie. A tendência sendo para só achar graça a uma piada em cada dez, a um «sketch» em cada vinte, a opção é geralmente não ver. Parece-me que lhes falta, em geral, «imprevisibilidade». Mas os programas do HJ, numa certa altura, via-os todos com grande entusiasmo. Depois, a coisa começou a descambar. E a sua experiência de entrevistador também não foi muito bem sucedida. Não imagino o que irá seguir-se, mas penso que não será fácil recuperar o que já teve.
De fugidia a 26 de Julho de 2009 às 20:03
Eu vou, apesar de um domingo radical e de estar moída!
Até dá jeito um jantar light, que o almoço foi tardio e comi demais :-)))
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 14:39
Também vai ter de nos contar que experiências radicais são essas, Fugi, que a deixam tão moída num dia que é de descanso, segundo ordens vindas do céu. Desconfio de que há por aí uma alma piratinha - ou um diabinho bem terreno - a desencaminhá-la. ;-D
De fugidia a 27 de Julho de 2009 às 17:02
Fui andar de kayak no rio Zêzere, Luísa; até postei e tudo :-D

(e sim, fui levada pelo pirata que me desencaminha e me deixa neste alegre estado de consciente inconsciência...)
:-)
De mike a 26 de Julho de 2009 às 21:00
Conheci pessoalmente o HJ no início dos anos 80 e apesar de, hoje em dia, não ser sequer espectador dos seus programas (não lhe acho piada nenhuma), fico com curiosidade de confirmar se a companhia bem disposta, humorística e contagiante de outrora se mantém. Além disso, o tempo convida a que as senhoras marquem a sua presença com sandálias ou sapatos abertos. ;)
Só não quero é canja, pode ser Luísa?
De Ana Vidal a 26 de Julho de 2009 às 21:10
Com essa fxação por sandálias abertas, o teu jantar será feito à parte e tem ementa única: pezinhos de coentrada, seguidos de "dedos de dama", de sobremesa. Serve?
De GJ a 26 de Julho de 2009 às 22:58
:))))))
De mike a 27 de Julho de 2009 às 23:40
lol!!! Mandaste bem, Ana. :)))
De Luísa a 27 de Julho de 2009 às 14:50
Realmente, Mike, anda tão exigente com as ementas, que vamos ter de começar a servir «à la carte». Já agora, ponho o jantar na mesa de acrílico, para que o que se passa debaixo dela, melhor dizendo, as sandálias abertas das senhoras estejam sempre ao alcance dos seus olhos. :-)
Mais alguma coisinha?...
De mike a 27 de Julho de 2009 às 23:40
Hum... assim parece-me bem, Luísa... ;D

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