Sábado, 25 de Julho de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

O gosto pela vela tinha começado a bordo de um Lusito, enfrentando as manhãs frias de sábado no rio que banha Algés. Dominada a bolina, o virar de bordo, a refrega, foi num crescendo: Vaurien, Laser, 470. Aos 25 anos já tinha um barco de 40 pés, fruto de negócios bem sucedidos.

Entregou-se por completo àquela vida e a tudo o que girava em seu redor: representação de marcas, venda de equipamento, organização de pequenos cruzeiros, regatas, etc. Constituiu a sua própria equipa e deu cartas nalgumas provas, com a sua voz potente, comando decidido, atenção fulgurante, mão firme no leme. Rondava bóias como ninguém, e o spinnaker era içado num tempo considerado impossível.

Um dia, numa regata ao largo do Bugio, só a sua vasta experiência evitou um abalroamento adversário com consequências funestas. Encheu-se de fúria, de nervos e de vocabulário, e desancou o skipper concorrente com um chorrilho de insultos – alguns retirados das suas memórias do capitão Haddock. Tomou nota mental do nome da embarcação que invadira o seu espaço e o seu direito àquela manobra para verbalizar a indignação em terra. Quando se dirigia ao Paris je t’aime, pronto a desancar o timoneiro, foi interpelado por uma senhora elegante, bonita – francamente bonita - que lhe disse num francês educado e vagamente distante:

- O barco é meu, a responsabilidade é minha, mesmo que não fosse eu ao comando. Je m’excuse.     

Voltaram a encontrar-se em várias regatas. O português que se iniciara na Mocidade Portuguesa foi num crescendo de fascínio e fixação, e moveu as suas influências para saber tudo sobre a dama: o que fazia, com quem, se havia marido, filhos, dívidas, negócios. Veio a saber que morava no Monte Estoril, num condomínio elegante com uma vista deslumbrante e uma renda obscena. Num desespero de aproximação luso-francês, montou uma tabacaria nas proximidades, e andava por ali a dinamizar o negócio, a acompanhar as obras, a explorar nichos emergentes. Mas também, e sobretudo, a tentar topar a elegância gaulesa ao virar de uma esquina, não condicionar os encontros ao calendário meteorologicamente volátil das regatas.

A dona do Paris je t’aime ignorou-o durante anos com uma sobranceria que confrange. E porque a vida pode ser um sucedâneo de desalinhamentos astrais, o negócio da tabacaria foi caindo a pique, numa versão moderna de um naufrágio sem pronto-socorro. Da menina Isabel e do senhor Alberto, funcionários a tempo inteiro, ficou a rapariga, uma jovem da zona oeste fugida à apanha da fruta. Mesmo ela sairá no final do mês com os duodécimos pagos num esforço de tesouraria. Resta, ao balcão, o velejador do Lusito, do comando firme e da exactidão na viragem de bordo.

Vende jornais, cigarros e magazines cor-de-rosa que mostram casais felizes num rejuvenescimento permanente. A cada cliente que entra disponibiliza, insistentemente, a última revista de barcos de recreio. Quando a senhora francesa assoma ao estabelecimento, o proprietário balconista revela uma cordialidade e polidez que não disfarçam uma névoa de frustração. Estende-lhe a revista, mas ela pede o Point de Vue; fala-lhe no Bugio, mas ela responde Sardenha; menciona vela grande, mas ela diz jóias. A Bastilha, mesmo que estejamos em Julho, não será ele que a tomará.

Conheço-o bem. Vou lá todos os dias comprar jornais e cigarros, e já lhe expliquei que enjoo a bordo. Mas ele insiste e eu acabo por comprar. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
link do post
10 comentários:
De agenor a 25 de Julho de 2009 às 16:51
Tem razão, há vitórias impossíveis. Para todos chega uma altura em que é preciso abandonar a mesa do jogo. Nunca se deve abusar da sorte, sob risco de se perder tudo. Há que saber dizer «rien ne va plus».
Gosto muito deste novo formato do Moleskine, tipo «postal». Fez-me lembrar os postais escritos por um outro observador - um extraordinário observador, aliás - de cujos textos tenho muitas saudades. Desde o passado sábado percebi que tenho aqui uma alternativa. Perdoe a confissão, porventura indelicada, até, mas tenho esperança que não leve a mal, uma vez que sei que também era leitor dele.
Belo post. Votos de boa semana.
De JdB a 26 de Julho de 2009 às 01:44
Agenor: obrigado pela sua visita. Todos nós temos a nossa própria roleta. Infelizmente, nem sempre sabemos quando sair, quando dizer "rien ne va plus" e largar a mesa de jogo.
Quanto às saudades do bloguista de sábado que me precedeu, estou totalmente de acordo consigo, e partilho as saudades. Talvez ainda regresse, sabe-se lá...
De Luísa a 25 de Julho de 2009 às 19:44
João, gosto muito destas histórias que imagina a partir da observação da sua «vizinhança». Quem me dera conseguir ver no meu senhor Zé da leitaria da esquina mais do que o imediato, pragmático, solidário e «sportinguista» ferrenho senhor Zé, que me serve o café matinal. Mas é de imaginações como a sua que sai o material de que se fazem os grandes romances. Já pensou nessa hipótese de se abalançar a uma tal empreitada? :-)
De JdB a 26 de Julho de 2009 às 01:49
Luísa: obrigado por mais uma visita. Experimente tirar uma fotografia ao senhor Zé. Com a sua qualidade de fotógrafa da cidade de Lisboa, estou certo de que sairia um "cliché" cheio de qualidade. Depois é fixar-lhe o olhar, e perceber que há uma história ilimitada para contar acerca dele. Há sempre um olhar diferente, como o há relativamente às Amoreiras, ou à Avenida de Brasília.
Quanto ao romance...
De Ana Vidal a 25 de Julho de 2009 às 20:07
Pobre velejador do Lusito, que se abalançou a um veleiro real e nem para um optimist tem alcance.
Mas talvez um dia o Paris je t'aime vá ao fundo (acontece, acontece) e do naufrágio se salve uma francesa menos altiva, que repare nele finalmente e aceite navegar num quiosque de jornais. E talvez, como acontece também muitas vezes, nesse dia ele já se tenha rendido aos avanços da menina Isabel, que de tanto lhe ouvir histórias e aventuras marítimas o achava um verdadeiro pirata das Caraíbas. A vida dá muitas voltas.
De JdB a 26 de Julho de 2009 às 01:53
Há-de chegar o tempo da "entente cordiale" entre a tabacaria e o Paris je t'aime. A menina Isabel já era, perdido que está o fascínio pelo patrão quase falido. À falta do Lusito e do veleiro, que fique o optimist, porque navegar é preciso, viver não é preciso.
Obrigado chefe.
De lord broken pottery a 25 de Julho de 2009 às 22:45
Belo texto. Destes que nos prendem até o final tanto pela qualidade, quanto pela capacidade de nos fascinar . Cenas excepcionalmente bem descritas. Gostei muito.
Abraços
De JdB a 26 de Julho de 2009 às 01:54
Obrigado, my lord, pela visita e pelos elogios. E abraços também para si, pela qualidade da faiança.
De GJ a 26 de Julho de 2009 às 00:17
Se me permite, João, é nas pequenas histórias das pessoas do bairro que encontramos a alma das grandes jóias da Corte. Gostei muito de o ler.
De JdB a 26 de Julho de 2009 às 01:58
Obrigado perla visita. O meu bairro é, de facto, uma grande corte, com histórias que nem sequer sonhamos. Estou certo que os seus comentários são, também, grandes joias que adornam este espaço.

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds