Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

O Regresso do Menino da Lágrima 

 

Faltavam poucos minutos para que, depois de anos em lista de espera, o Menino da Lágrima fosse finalmente atendido no Serviço de Oftalmologia do Hospital de Santa Maria.

Felizmente, no último momento, foi salvo pela Coca Cola Light.

 

Mas quem é o Menino da Lágrima?

Porque chora?

Quem são os seus pais?

Estará a fazer birra porque partiu o Magalhães?

Ou levou com o chinelo porque não comeu a sopa de espinafres?

 

Pintado pelo italiano Bragolin ou - noutra versão - pelo espanhol Franchot Seville, em 1969, retrata um miúdo sem família, cujos pais morreram num incêndio, tendo ficado completamente ao abandono e maltratado por tudo e por todos.

Chuif... Chuif...

Possivelmente ficou com uma fagulha eternamente alojada nos olhinhos.

 

Reza a lenda que o menino, além de desgraçado, é causador de desgraças, pior que um gato preto para cá e para lá debaixo de um escadote numa sexta-feira 13 com lua cheia.

Diz um padre da altura que ele, só por existir, provoca incêndios.

 

Como é que alguém que deita o Niagara pelos olhos incendeia meia Espanha como acontece neste momento, é que estou ainda para saber.

 

Outra lenda avança que o pintor vendeu a alma ao Diabo, acordo do qual haviam resultado os lacrimejantes meninos.

Sim, porque há mais.

Existem pelo menos 56 versões, ou seja, milhares de catraios choramingas por esse mundo fora.

 

Não se sabe se são conjuntivites ou simplesmente remelas, mas aquela que ficou conhecida como a Síndrome de Bonga, tem levado a uma corrida generalizada aos serviços oftalmológicos de todo o mundo.

 

Em Portugal, os meninos chorões seriam atendidos no Santa Maria, mas o Ministério da Saúde, por razões que saltam à vista, equacionava transferir as crianças para locais mais seguros como os pavilhões de soldadura na Siderurgia Nacional, quando a Coca Cola Light interveio.

 

Caía o Carmo e a Trindade se alguém na Casa Pia tivesse anunciado que recebia gaiatos piegas em troca de bebidas gaseificadas.

Como é a Coca Cola ninguém diz nada, mas a mim ninguém me atira areia para os olhos.

E se atirarem, não me apanham a usar Avastin.

 

Questionado se havia esperança para as seis pessoas que tarde se candidataram ao papel de figurantes no "Ensaio Sobre a Cegueira", o director clínico do Santa Maria terá respondido um vago "vamos ver, vamos ver".

 

Além do Menino da Lágrima há outras coisas que não vemos há muito tempo e ainda bem.

Desapareceram de vista os naprons por cima das televisões a preto e banco.

Os galos de Barcelos que previam o tempo.

A Olga Cardoso.

 

Também não se sabe o que é feito do ET e se, tal qual o Zé Maria, teve uma oportunidade na televisão para mostrar que sabia fazer ovos estrelados.

 

Há quem diga que o cabeçudo enrugado, vagamente parecido com o Andre Agassi, se entregou à droga, requisita metadona de quando em vez e arruma carros em Alcântara.

Faz pela vida, é o que é.

E em terra de cegos, quem tem um olho é rei.

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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5 comentários:
De rita ferro a 24 de Julho de 2009 às 15:46
(Psssstttt... Hei, João Paulo.... Diz que o Menino da Lágrima 'tá à gargalhada com este post e deixou de chorar... E agora? Vive de quê, já pensou?)
De Luísa a 25 de Julho de 2009 às 00:37
Vive da saúde que dá rir... :-)
De Ana Vidal a 25 de Julho de 2009 às 00:52
Ainda bem que o menino da lágrima não é português, coitado... olha se tivesse ido mesmo parar a Santa Maria!

Só tu, para te lembrares disto. Fazes-me rir, JP. O quê, já te tinha dito? Pois é, estou a ficar senil... e com uma lágrima ao canto do olho.
De ritz_on_the_rocks a 25 de Julho de 2009 às 11:16
:-)
De Ana Mestre a 25 de Julho de 2009 às 20:33
Ana, adorei, adorei....a brincar está a grande realidade....

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