Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Semibreves

Ana Vidal

 

 

 

 

GEOMETRIA DESCRITIVA

 

(Espiral: subs. fem. - linha curva, ilimitada, descrita por um ponto que dá voltas sucessivas em torno de um pólo e do qual se vai afastando progressivamente)

 

Há no sábio desenho dos teus braços

promessas de equiláteros abraços

triangulando em sugestão discreta

Catetos de perfeita geometria

a pedir-me que os una, na harmonia

daquela hipotenusa que os completa

 

Pouso o olhar exausto de alvoroço

na linha que define o teu pescoço 

em caprichos de luz que me seduzem 

e sigo-a até perder-se, sem defeito

na secreta penumbra do teu peito

onde todas as linhas me conduzem

 

E já rendida à estranha convergência

dispo a espiral que fui na tua ausência

e todo o meu cansaço se desfaz

No ângulo feliz do teu abraço

corro a acolher-me, enfim, fechando o espaço 

À nossa volta, um círculo de paz.

 

 

(Imagem: O Abraço, de Klimt)

 

Aviso: Por lapso de programação, esta semana

o Pocket Classic sairá amanhã, 4a feira.

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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34 comentários:
De JdB a 28 de Julho de 2009 às 09:14
Confesso que nos meus tempos de estudante nunca gostei de geometria decritiva. Se ao menos me tivessem mostrado estas sextilhas numa 3ªfeira de manhã, talvez a minha vida escolar tivesse sido bem melhor. Olha que pena...
O que o Klimt deve estar a agradecer à poetisa de serviço...
Um abraço matutino.
De Ana Vidal a 28 de Julho de 2009 às 14:19
Um abraço já verspertino, amigo.
Também eu detestava geometria descritiva. Talvez estas linhas tenham sido uma espécie de tentativa de redenção, quem sabe... :-)
De Luísa a 28 de Julho de 2009 às 15:03
Sendo de Direito, nunca tive geometria descritiva, Ana. Mas tive geometria «tout court» e adorei. Por isso também, gostei imenso deste seu poema romântico. Para mim, a harmonia da vida e do pensamento têm, de facto, muito de «geométrico». Veja-se, aliás, como a espiral representa brilhantemente o que somos antes de descobrir o amor… ;-D
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 00:58
E repare, Luísa, que "espiral" é substantivo feminino singular. Será por acaso? :-)

Eu só tive geometria descritiva no liceu, felizmente. Dá-me algum gozo conjugar a ciência exacta com a imprevisibilidade das emoções, para torná-la mais "humana" e percebê-la melhor. Ou sentir-me menos burra, talvez.
De Si a 28 de Julho de 2009 às 15:30
Querida Ana,
Não tenho o fulgor desta sua escrita, nem a mestria aqui demonstrada no domínio das palavras, mas há coincidências incontornáveis.
Amanhã republicarei umas linhas em verso que escrevi em 2008, sobre o mesmo tema, (embora não geométrico) e agendei para Setembro um texto que no mês passado (durante a minha 'Grande Guerra da Internet') escrevinhei.
Cada vez mais acredito nos mistérios insondáveis da blogosfera..... :)))
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:02
Quero ver isso, Si! Também acho a maior graça a estas coincidências (será que existem?) e surpresas que a blogosfera nos desvenda. Vou lá lê-la amanhã, está combinado.

Beijinho
De Manecas a 28 de Julho de 2009 às 17:22
É um mistério realmente...!

Como é que ao fim de trinta anos olho para ti com os mesmos olhos, mas com um olhar tão enlevado pelas ondas dos teus poemas?

Gosto muito, sobretudo pelo "doce" brincar com as palavras, que pressupõe um dominio único da lingua, e também um saber intimo dos sentimentos e dos seus gestos...

Parabens Aninhas! Como escreves bem!

PS - Não posso dizer, mas...
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:16
Sempre exagerado nos elogios, Manecas! O que prova a tua grande amizade, por isso não me importo e até gosto muito. Uma amizade com mais de 30 anos, dizes bem.

Aqui te deixo uma coisa bonita, que fui buscar em tua honra:

"As old wood is best to burn, old horse to ride, old books to read, and old wine to drink, so are old friends always most trusty to use"
(D´Arcy W. Thompson)

Beijo :-)


De agenor a 28 de Julho de 2009 às 17:49
Bela geometria.
Se os abraços são linhas, os beijos são pontos? :-)

http://www.youtube.com/watch?v=mUjudZTqrvQ

De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:21
Marcou um ponto, Agenor.

E obrigada pelo Abrunhosa.
De Ping-pong a 28 de Julho de 2009 às 17:52
Este quadro ganha com a poesia que lhe associou. Klimt, pintor sempre isolado, cujo trabalho agora nos parece um pouco datado e sem seguidores, não deixa de nos revelar o seu supremo desenho e sentido gráfico.
Com cortes e recortes geométricos, sempre mais avaliado coomo arte decorativa e acusado de pouco profundo, este abraço possui uma dimensão envolvente, quase de fusão silenciosa.
Parece que a arte se desvia para dar lugar à expressão, não é?
E ainda bem que a Ana sente estas aproximações fulgurantes entre a pintura e a poesia e os seus posts me convocam.
Como alguém disse "a arte não e problema mas destino".
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:29
Obrigada, Ping-pong.
Klimt será de facto um pintor "leve" e muito conotado com as artes decorativas daquela época, que foi muito especial. Mas tem razão: se não há grande profundidade, o fantástico sentido estético (e até cénico) dos seus quadros chegam para nos encantar. Apesar de tudo, vale a pena vê-los ao vivo em Viena. As dimensões reais e o brilho que têm lá, dão-lhes outro estatuto.
De mike a 28 de Julho de 2009 às 19:11
Hum...
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:30
:-)
De fugidia a 29 de Julho de 2009 às 00:44
Double hum...
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:30
:-))
De GJ a 29 de Julho de 2009 às 00:53
Triplo.
De Ana Vidal a 29 de Julho de 2009 às 01:30
:-)))

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