Domingo, 19 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não é uma mulher bonita, nem pretende impressionar pela presença física, mantida, quase diria deliberadamente, em planos de extrema discrição ou apagamento. O seu investimento é intelectual, e já o era, tenho ideia, nos tempos do liceu. Seguiu, curiosamente, uma formação superior num ramo que emana das artes visuais, mas a sua carreira enveredou pela política. E acredito que em resposta a um apelo de serviço público genuíno e desinteressado, porque tem conseguido impor uma imagem de objectividade e independência num quadro inequivocamente adverso a semelhantes atributos. Confesso, ainda assim, que, da minha cozinha, talvez toldada pelos vapores que se escapam das panelas, tenho dificuldade em compreender o seu percurso, ou, particularmente, as motivações dele: as razões por que se transferiu de uns quadrantes para outros, ou por que se aliou a estas ou aquelas personagens. Incomoda-me uma vaga sensação de inconsistência; pressinto a intromissão de alguns despeitos. Mas explicam-me os experientes da vida que, em ninhos de víboras, não sobrevivem senão víboras; e que a inocente cobra de água que se lance no ninho, terá, para escapar, de recorrer a mimetismos e contorções, ao jeito das donas da casa. Por outro lado, não sou insensível aos que defendem que a luta mais eficaz é a que se trava dentro do bastião inimigo, e admito que essa luta implique comportamentos que um observador comodamente distanciado não entenda. Sacudo, portanto, as dúvidas do meu espírito e disponho-me a acolher a nossa convidada com o entusiasmo com que sempre reajo à inteligência.

 

Tenho a propor, para o jantar, um menu revolucionário, que não pode senão agradar a quem tomo por defensora incondicional de uma alma sã em corpo são. Na linha das novas teses nutricionistas, far-nos-ei recuar à pureza alimentar do paleolítico recolector, iniciando com um caldo de carne de vaca (bravia), perfumado com hortelã, continuando com umas tranches de pescada escalfada, acompanhadas de um tachinho de nabos confitados com amêndoas - muitas amêndoas! - e concluindo com uma «corbeille» de figos maduros, entremeada numa oferta generosa de frutos secos, nem salgados, nem torrados. Quanto a bebes, aguardo orientações de um especialista. Mas haverá água em abundância e a garrafeira estará pronta para satisfazer as reivindicações dos convivas que não façam fé nas virtudes da nossa opção despojada.

 

Naturalmente que não deixarei de servir, também, uma miríade de recomendações. Ou de lembrar à convidada que, num meio em que as palavras (e em especial as que se articulam em formidáveis declarações de princípios) valem mais do que as obras - em que tudo, na verdade, vale mais do que o trabalho e os resultados dele - o sucesso e a reputação de cada um vivem no fio da navalha, e pelos mesmos actos se sobe hoje aos céus e se desce amanhã aos infernos. E que é muito mais fácil ao cidadão comum perdoar o grande roubo ao corrupto que desconsidera, do que o pequeno erro de perspectiva à figura sensata e íntegra em que depositou confiança.     

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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29 comentários:
De fugidia a 19 de Julho de 2009 às 10:55
Conte comigo, Luísa.
E quanto às suas dúvidas, coloque-as de lado de vez; afinal, o importante para os "independentes" é, em cada momento, fazer as melhores escolhas, ainda que hoje seja com um e amanhã com outro, tendo em conta o servir público ;-)

Bom domingo :-)
De Luísa a 19 de Julho de 2009 às 14:06
Por um lado, Fugi, tem razão. Por outro, aliar-se hoje com deus e amanhã com o diabo compromete, no mínimo, a imagem do estratega e pode até comprometer o seu trabalho, por falta de «crédito». E, finalmente, há alianças sobre cuja viabilidade prática não arrisco grandes apostas, sobretudo quando as vejo arrancar já meio dissidentes. Mas vamos ver. Para já, gozemos a nossa «aliança gastronómica», que é infinitamente mais pacífica, sólida e agradável… e neste caso também saudável. ;-)
De imprevistoseacasos a 19 de Julho de 2009 às 12:04
Querida Luísa
A sua convidada de hoje sempre me intrigou. Não percebo nela a coerência que aprecio, sobretudo de quem reconhece ter as suas contradições. Nada. Parece fazer escolhas na deriva e parece não saber lidar com a inteligência que lhe reconhecemos. Ainda assim, será sempre uma interessante convidada :)
Gostaria de me fazer , também, convidada levando comigo um néctar que me parece apropriado ao momento e à ementa. Proponho o "Crescendo" das Altas Quintas, branco, 2007. Diz o enólogo que este vinho anuncia uma enorme frescura, equilíbrio e uma longa persistência. O que me diz?
Beijinhos
Fernanda
De Luísa a 19 de Julho de 2009 às 14:24
Fernanda, primeiro ponto: não tem de se fazer convidada porque está sempre convidada. E se nos traz o «Crescendo», acho mesmo que passa a ser da casa. ;-D
Segundo ponto: também me intriga o percurso da HR. Mas pondo-me no lugar dela – e admitindo como certas as suas preocupações de coerência pessoal – penso que o percurso nunca poderia ser rectilíneo, porque é feito num deserto cheio de altas e traiçoeiras dunas e absolutamente desprovido de pontos de referência. Espero bem que a sua bússola (que receio ver mais alojada no coração do que na razão) não perca o Norte. :-)
De GJ a 19 de Julho de 2009 às 13:37
Luísa, ou é por falta de alimento ou estou um pouco confusa em relação à convidada da noite. Só me ocorreu a HR e não condiz com a ideia que tenho dela...será ou estou a precisar de uma ajuda extra? Pelo sim pelo não , vou comer uma salada fresca e evitar as calorias extra durante o dia. A curiosidade mata-me e o melhor é aparecer para ver.:)
De Luísa a 19 de Julho de 2009 às 14:42
GJ, deixa-me cheia de curiosidade. Que ideia faz então da nossa convidada? Pessoalmente, com todas as ambiguidades do seu percurso, também não sei bem o que pensar. Estou convicta de que é uma mulher honesta e intelectualmente «aplicada». Mas, às vezes, penso que lhe falta «rasgo», e que por isso se tem colocado em situações menos felizes. Talvez também por isso, não a vejo capaz de desempenhar papéis mais «afirmativos» e «determinantes», o que é pena. A nossa política [ainda] não está para «tímidos». ;-D
De GJ a 20 de Julho de 2009 às 02:28
Eu sempre estava certa em relação à convidada.
A Helena Roseta é uma mulher de causas e crenças. Balanceou sempre entre a arquitectura e a política, talvez não tenha sabido gerir publicamente estes dois amores. Hoje é bem mais cândida do que no passado mas não menos esperta. E sabe muito bem onde quer chegar. A sua relação com o mundo é ilusório apenas na aparência.

E por nutrição e aparência, era engraçado convidar aquela rapariga de armas e com consultório....;)
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 13:38
Credo, GJ , o seu retrato é quase de um pequeno Maquiavel de saias. E quem é essa outra personagem de armas e consultório aberto? :-D
De GJ a 21 de Julho de 2009 às 13:11
Nada disso, Luísa, só que é mais determinada do que parece.
O nome que procurava se o digo perde a graça, mas pense Carmo + MRPP e tem IC...;)
De Ana Vidal a 19 de Julho de 2009 às 15:16
Querida Luísa, confesso que gosto muito da nossa convidada de hoje. Reconheço que o percurso não tem sido sempre lógico, mas gosto de quem faz política com alguma emoção e coração, por contraponto com o que mais há por aí: ambição pessoal e estratégia de alpinismo (sem olhar a meios). A nossa convidada é uma mulher de causas e eu gosto disso. Merece o belo Crescendo da Fernanda e os nossos petiscos, sem dúvida.
Até logo

De Luísa a 19 de Julho de 2009 às 23:49
Também simpatizo muito, Ana. Mas precisamente porque me parece uma mulher mais inteligente do que esperta, tenho medo de que se deixe enganar com facilidade; ou melhor, que acredite em quem não deve e baixe as guardas (se as tem). Não seria, provavelmente, a primeira vez. Na Câmara, sobretudo, estará – pelo que oiço dizer – lidando, de facto, com um ninho de víboras. Que aliás ela já deve conhecer. Mas uma coisa é não ter responsabilidades de comando e outra é tê-las (mesmo sendo um segundo comando que, de resto, é geralmente o mais complicado).
De rita ferro a 19 de Julho de 2009 às 17:24
Estou como a Ana, adoro a convidada! E tenho um problema, conheco-a de outras instâncias e fui corrompida pela sua simpatia, o seu humor, a forma como se solidariza com as mulheres em geral e o seu romantismo profundo e comovente! Das suas causas, discordos de algumas. Mas acima das causas estão as pessoas e o que elas valem. Vou, e levo um batalhão de mulheres que lhe reconhecem coragem e tenacidade, independentemente da cor política e da substância das questas que a animam. Se não coubermos, ficamos no jardim! Levo Karaoke e tudo, posso? Garanto-vos que ela tem graça e que, ao contrário do que parece na TV, é de morrer a rir! Vai ser uma noite e peras, Luísa! Mancas ou não! E quanto à coerência, meninas, pensem! Nem tudo é o que parece. Vá lá, é só pensar um bocadinho. Ele é coerente, sim! E muito! O que pode é sê-lo a coisas diferentes do que pensamos...
De imprevistoseacasos a 19 de Julho de 2009 às 18:53
Rita ~
Já me conheces :) mais do que a coerência aprecio a coragem de assumir posições em consciência, mesmo que as mesmas contrariem o que todos pensam e talvez nós mesmas. Mas convenhamos: a HR deriva por vezes e a inteligência nem sempre serve de chapéu a tudo... Mais do que coerência aprecio, e muito, as convicções. És capaz de enumerar as últimas dela? E olha que aprecio a HR amiga da Natália Correia e o trabalho que ela fez em relação ao seu espólio. O Botequim e o que se passou por lá, permanecerão para mim como uma das relíquias de uma alentejana, curiosa, que ao chegar a Lisboa, desperta para tudo é acarinhada pela Natália que uma vez me disse : "Bebe porque és amiga do A. e ele faz as mulheres esperarem, é o seu destino. Conta-me o teu."
Ana e Luísa: a HR saberá desenhar o seu caminho?
Fernanda
De rita ferro a 19 de Julho de 2009 às 19:16
Não acredito em convicções, Fernanda querida, mas em sentimentos. Foi com sentimento que te falei da HR e é nos dela que confio. Em tudo o resto, como dizes e bem, acredito que se possa «derivar» :-))
De imprevistoseacasos a 19 de Julho de 2009 às 20:27
Pois Rita ... por acaso não sabes que as melhores convicções são aquelas que provêem dos sentimentos?
Beijos, muitos.
F.
De Ana Vidal a 20 de Julho de 2009 às 01:09
Não sei, Fernanda, e temo muito pelo caminho em que se meteu agora... é um ninho de víboras, como diz a Luísa e muito bem. Mas saberá manter-se íntegra mesmo que tenha de sacrificar resultados imediatos, nisso acredito.
Enfim, podemos sempre dizer-lhe o que a Natália lhe disse a si: "Bebe o Crescendo, que o A. (António Costa, neste caso), vai fazer-te esperar." :-)
Também conheci a Natália no Botequim. Foi já no declínio de ambos, mas deixou-me uma impressão fortíssima. Era uma mulher que não passava despercebida.
Um beijo, Fernanda.
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 00:03
Rita, não tenho dúvidas de que é como diz. E, se a HR é uma sentimental, a sua primeira «coerência» será para com as pessoas que a rodeiam e apoiam, o que explica o «estranho» acordo que agora fez, aparentemente mais centrado em pelouros do que em projectos. Pela minha parte, tenho pena de que pessoas como ela não apareçam nos lugares cimeiros e tenham de se atrelar a outros, cujos «enfeudamentos» partidários parecem altamente incapacitantes. (Não sei por que uso sempre um palavreado rebuscado quando não quero chamar os bois pelos nomes) ;-D
Obrigada por toda a animação que vai trazer ao jantar, Rita. :-)
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 00:14
Desenhar o seu caminho, Fernanda, não sei. Aparentemente, não tem sabido muito bem. Mas o terreno é, como digo, tão sem referências – boas referências! – que, provavelmente, se percorre tacteando e experimentando várias hipóteses. É uma forma de fazer política, mais uma que se nos apresenta, num período em que todas as formas menos ortodoxas de fazer política merecem, no mínimo, a nossa curiosidade. ;-D
De Cristina Ribeiro a 19 de Julho de 2009 às 19:47
Não que a conheça profundamente, Luísa, mas essa inconstància toda confunde-me, embora reconheça nela um certo idealismo que a faz andar à procura.
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 00:21
Concordo, Cristina. Julgo que a convidada anda à procura de uma oportunidade de prestar serviço público, mas ainda não encontrou as condições ideais para o fazer sem constrangimentos. Penso, ao contrário da Fugi, que ainda não será desta; que teria mais sorte sozinha. Mas a ver vamos… :-)
De mike a 19 de Julho de 2009 às 22:56
Luísa, continuo às escuras. Não se fez luz nem com as iniciais HR. Depois vejo algumas senhoras empolgadas, como a Rita Ferro que até quer levar um karaoke, e uma ementa que já conheceu melhores dias... hum, acho que desta vez continuarei recolhido e, com o devido respeito, declino o convite. Aqui só entre nós, parece-me ser um daqueles jantares de senhoras em que os homens se sentem a mais. ;)
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 00:32
Mike, eu não acredito no que li! O Mike sentir-se a mais? Mas onde? Como? Desde quando? A Rita parece que traz uma data de senhoras, sim, mas traga o Mike uma data de homens e a coisa compõe-se. Além disso, os nossos menus são abertos e admitem todos os desvios. A Fernanda não vai até trazer o «Crescendo»? :-D
P.S.: A propósito, a convidada mistério é a nossa Helena Roseta.
De mike a 20 de Julho de 2009 às 00:40
A Luísa é uma manipuladora inata. ;)
Helena Roseta? Hum... ainda hoje a acho uma mulher com um je ne sais quoi que... :)
De mdsol a 19 de Julho de 2009 às 23:47
Gostei muito do texto.
:))
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 00:38
Obrigada, Mdsol. A gente faz o que pode para que estes «jantares» agradem a todos, mas há sempre quem reclame da «ementa». ;-D

De JdB a 20 de Julho de 2009 às 00:32
Não sei o que lhe diga Luísa. Nada me move a ir, mesmo que a Rita ache que ela é divertida. Não se me afigura, digo-lhe...
Safa-me o facto de estar a banhos num sitio com rede lenta. De certeza que me escaparão pormenores logísticos de organização.
Mas bom jantar, ainda assim.
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 00:50
João, acho que estamos perante dois planos de análise: o público, em que todos temos dúvidas (uns mais, outros menos), e o privado, em que as dúvidas parecem esbater-se significativamente (porque todos reconhecemos à convidada inteligência, atributo que geralmente confere, no plano da convivência pessoal, um enorme encanto). Uma vez que se trata de um jantar privado, a coisa promete… Embora isso não signifique que não se lamente a ausência de quem está a banhos e logo num sítio com rede lenta! ;-)
De ritz_on_the_rocks a 20 de Julho de 2009 às 10:38
ah! se ainda for a tempo contem comigo... com ou sem karaoke, no jardim, dentro ou fora ... não conheço a Helena R. mas conheço pessoas que trabalham com ela em lisboa e parece-me que está tudo muito motivado.
bjs e desculpem o atraso, espero que ainda haja sobremesa!!!!
De Luísa a 20 de Julho de 2009 às 13:47
Rita, venha à hora a que vier, terá sempre figos e o resto! ;-)
Essa motivação de que fala é um dado importante. Ainda para mais em gente da Câmara! Ser uma boa líder e ter o pessoal motivado naquele território é, só por si, uma realização notável. :-)

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