Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

"Eu tenho dois amores"

 

 

 

Pode amar-se duas pessoas ao mesmo tempo? Há quem diga que o amor é um sentimento tão exclusivo e confinado a uma única pessoa que quem pensa que isto pode estar a suceder-lhe não ama, na realidade, ninguém. Mas pode ser um mito. A verdade é que o nosso coração tem mais capacidade para amar do que lhe damos crédito, ele próprio receando conflitos, injúrias e ambiguidades. Mais: temendo a nossa própria censura, que é a mais inclemente de todas. Mas a vida é tão difícil, as nossas falhas básicas tão profundas e o nosso défice de amor tão avultado que todo o amor disponível à nossa volta não basta para suprir essa cratera. E se somos capazes de amar vários filhos, um pai e uma mãe, não existe razão lógica para que o amor romântico seja diferente. Moralidades à parte, quanto mais nos amarem, quanto mais nós próprios amarmos, melhor nos sentiremos – não será assim? 

No lugar-comum da infidelidade conjugal, as pessoas tendem invariavelmente a desvalorizar o sentimento que as prende aos legítimos para se justificarem terem encontrado alguém novo e finalmente compensador, ou novos propulsores como o sexo, como se não admitissem poderem estar a amar activamente duas individualidades, rompendo por vezes com pedras angulares da sua estrutura afectiva.

Mas nada há que proíba uma pessoa de amar mais do que um objecto, concomitantemente, com igual intensidade ou dependência.

 

Impraticável? Sim

Impossível? Não.

 

Concorda?

 

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publicado por Ana Vidal às 11:21
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117 comentários:
De Margarida a 16 de Julho de 2009 às 12:39
Em absoluto! Mas um aboluto inamovível! Um absoluto redondo e pujante, a bombar emoções melodiosas e coloridas. Bonitas.
Confundem-se muito os sentimentos amorosos com o sentido de posse. Amo, é meu. Só meu e de mais ninguém.
A tentação é enorme, quando se ama, mas sabemos (ai sabemos, sim) que a pluralidade tanto é possível como sucede constantemente. Aos outros e a nós.
Questões de ordem e moral balizam aquilo que extravasa a razão.
E por aí vamos, tantas vezes com imenso sofrimento.
As variações são explicáveis, justificáveis, humaníssimas; as multiplicações, idem.
Se é pelo bem, só pode ser bom.
Mas o resto, a culpa, o medo, a vergonha, a complexidade psicológica aliada às convenções sociais, às reservas familiares, aos cânones, a tudo...
Mesmo ajustando todo esse universo interiormente, balançamos quando a partilha é do outro face a nós.
Ah..., a posse, a insegurança, a criança mimalha e caprichosa que seremos sempre...
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 12:57
Ah, leoa, que paixão nessa resposta vulcânica! O mundo até tremeu, Margarida! Beijo e obrigada pela generosidade, pelo arrojo, pela prontidão! Uma coisa é a vida; outra, a alma. E raramente estão de acordo, não é?

(Nota para todos: desculpem esta alteração no dia da postagem, para a semana já o farei às quartas-feiras, como habitualmente!)
De Margarida a 16 de Julho de 2009 às 13:13





De maf a 16 de Julho de 2009 às 13:09
concordo em absolutíssimo. Politicamente incorrecto ? Sim. Moralmente perturbante ? Sim. Socialmente condenável ? Sim. Mas absolutamente possível, provável e (quase) desejável. A nossa capacidade de amar é inesgotável. A nossa essência é 90% amor (tal como o nosso corpo é 90% água). O problema do amor, não é o amor em si próprio, mas o sentido de posse; e com a posse vem o ciume, a dependência, a dor, o sofrimento. Dizemos que amar, dói. Dói coisa nenhuma! O que dói é o facto de querermos que o outro nos pertença, nos idolatre, nos sirva. O verdadeiro amor não conhece posse, nem dependência; pelo contrário, deve ser dado generosamente e recebido gratuitamente.
Sim, na teoria pode amar-se duas pessoas ao mesmo tempo. Na prática torna-se complicado porque quando amamos, queremos interacção com o ser amado, sexo com o ser amado, partilha de bens e valores com o ser amado, vivência diária com o ser amado. A vida é feita de opções, há que optar; na vida real, a frase "Eu tenho dois Amores" só existe mesmo na canção do Marco Paulo :-)
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 13:33
Não me perguntes porquê, Maf, mas gosto de observar esta pronta e rasgada adesão das mulheres à ideia do amor em todas as direcções e até ao limite possível, em havendo limite, não ignorando a clivagem (e até a contradição) profunda que existe entre a empatização a uma ideia e a sua viabilidade prática.

Há nela um romantismo que se sobrepõe ao (próprio) romantismo tradicional - e considerado superlativo - do amor único e exclusivo.

Revela que o nosso coração se expande com a simples ideia de tudo amar, se nos fosse possível, e isso é, só por si, encantantório.

Veremos o que nos dizem os cavalheiros...

Adoro ver-te por aqui, Maf, volta sempre!
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 13:34
(errata: encantatório)
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 14:21
Também estou absolutamente de acordo, Rita. Pela minha escassa experiência, diria que o amor passional, na sua expressão juvenil, mais intensa e descontrolada, tende a ser exclusivo. Mas o amor maduro, de maneira nenhuma. Pode amar-se por uma grande variedade de «razões», que nunca – ou só raramente - se encontram concentradas numa única pessoa. Sustentar na prática dois ou mais amores em simultâneo depende da capacidade «multiplicadora» de cada um. Há quem consiga fazer várias coisas ao mesmo tempo, e há quem precise de se concentrar numa coisa de cada vez. :-D
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 15:08

É isso, Luísa, também concordo consigo: felizmente nunca me sucedeu uma situação esquizofrenizante como essa e ainda vou mais longe: acredito inteiramente no amor único e exclusivo, não muito diferente do experimentado na adolescência, como o que refere. Mas conceptualmente tenho de reconhecer que não existe nada, no plano biológico ou afectivo, que impeça as pessoas de viverem sobreposições sentimentais, sobretudo nesta época de indigência romântica em que vivemos :-))

Se chamei «leoa» à Margarida não foi para vir aqui aplaudir as maravilhas do «poliamor», como modernamente se designa, mas por me comover sempre que as mulheres continuem a manifestar esta predisposição histórica e redentora para o Amor, autorizando-lhe até os desvios e as transgressões, da mesma forma que os homens parecem (digo parecem, atenção) ter para a guerra e para os conflitos.

Fiz-me entender?

Um beijo cheio de inveja pela sua viagem a NY :-))
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 15:50
Perfeitamente, Rita. Embora me questione se a nossa «predisposição para o amor» (como a aparente predisposição masculina para a guerra e o conflito) é unicamente «histórica», se não é também biológica, assim como o instinto maternal. Não há, infelizmente, registo de sociedades/estados matriarcais para perceber que rumo tomariam – embora pareça havê-lo noutras espécies de mamíferos, onde a prática do dito «poliamor» é causa ou efeito de um certo primado feminino e de um relacionamento menos hierarquizado e mais pacífico. ;-)
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 16:07
Não sei, Luísa :-)) No outro dia, em conversa com personalidade grada da Psicologia - mulher - assisti pasmada à tese de que o chamado «instinto maternal» está tão ultrapassado como o conceito de «eterno feminino». O «instinto paternal» pode ser tão poderoso como o seu equivalente feminino, não fora a juventude da ligação dos pais-homens aos lactentes.

Perante isto, como saber se a maior agressividade do homem também não é, digamos, fruto de uma aculturação milenar decorrente da sua superioridade muscular, e que isso pode mudar a qualquer momento, ao atingir-se a mais que previsível paridade atlética dos géneros?
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 16:26
Rita, este assunto não teria fim. Há dias, alguém me assegurava que não somos mais do que bonecos, feitos de «inelutáveis» combinações/reacções químicas. Enfim, só posso dizer-lhe que esta última quinzena têm sido tão fértil em teses surpreendentes, que sinto que se me abalam todas as convicções. ;-D
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 16:33

Pois, pois... sei do que fala, Luísa. Um dia poderemos falar do que o Pessoa escreveria sob o efeito do Prozac :-))
De João Paulo Cardoso a 16 de Julho de 2009 às 15:11
Cara Rita,

O meu coração tem mais capacidade para amar o próximo (ou outro a seguir) do que o Cristiano Ronaldo pra mandar sms's a moçoilas bem fornecidas de airbags.

O mundo cabe todo dentro do meu coração e só tenho ligeiras arritmias quando, cá dentro, o Hugo Chávez começa mais um monólogo, quando há pedrada entre palestinianos e israelitas, confusão no Iraque, ou quando cai mais um avião.

O meu coração, com toda esta gente cá dentro, só descansa um pouco no Natal e mesmo assim...

É que por essa altura o estômago guloso por farófias e azevias engorda e exige mais espaço, empurrando o coração para o lado.

Beijos, paz e amor.
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 15:21
Mas o que vc não sabe, e isto é uma tese pessoalíssima, é que mesmo a comer e a devorar guloseimas e petiscos nós continuamos militante e vorazmente a amar e a ser amados :-)) São prolongamentos de prazer e de mimos que oferecemos a nós mesmos, quando tudo à volta parece não chegar. Feliz Natal, João Paulo!
De GJ a 16 de Julho de 2009 às 15:23
Vários amores, claro que sim. Difíceis de conjugar? Não necessariamente depende do que estivermos a falar. Se o caso forem os filhos esse é um exemplo de partilha quase que perfeita. Se estivermos a falar de coisas há espaço para muitas pode é não haver tempo para todas. Se estivermos a falar de amores, paixões, enlevos, amizades mais ou menos coloridas, o caso complica-se. Eles existem, mas a razão obriga a opção e é por isso que a escolha não é fácil e a opção se faz não pela paixão mas pela razão na maioria das vezes, mesmo que a razão seja uma chatice que gostaríamos de esquecer para sempre ou por momentos. Depende de muitas circunstâncias , mas duvido que se possa viver como dizia a socióloga/psicóloga que vive no Havai e da qual não me lembro do nome, acordar hoje com uma pessoa, amanhã com outra, de tempos a tempos sem ninguém, com pessoas que podem ser ou não do mesmo sexo. Viver com vários amores é uma questão cultural e à luz do Ocidente não é uma opção que me pareça praticável, agora possível sim.
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 15:38

Uma coisa é certa, GJ: por vezes o amor esconde-se tão bem atrás da rotina que parece morto. Outras, é a necessidade de oxigénio que é tão grande que se confunde com Amor. E ou duvidamos dele, e o amor ressente-se, ou não duvidamos, e ele prega-nos partidas :-)) Traiçoeiro...
De GJ a 16 de Julho de 2009 às 15:51
Resposta traiçoeira, minha Amiga ;))
De ritz_on_the_rocks a 16 de Julho de 2009 às 15:31
2 amores ...

Não morro de amores pelo número 2 ... na minhavida foi sempre 1 ou 3.

ah ah ah
Com 2 amores nunca me entendi lá muito bem.
bjs

De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 15:41
Isso é porque és ímpar, Rita!
De Patricia da Cunha a 16 de Julho de 2009 às 15:32
Prima Querida,
Várias ate.
Mas amar profundamente e com paixão para toda a vida, só uma.
Beijos
Patricia
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 15:43
E nada o vento levou, Patrícia :-))
De Patricia da Cunha a 16 de Julho de 2009 às 17:40
Claro que nada o ventou levou. Também não é suposto.
Imagina a aridez que seria Rita!
De Francesco a 16 de Julho de 2009 às 16:15
Amor

Pela vida…
Será difícil sujeitar uma medida para cada momento.
Nem sim, nem não, deveria estar antes no “auto-amor”.
O restante pertence apenas à estima pela índole.
Outros servem-se da sede da palavra (amor)
sem saber de que é feito o próprio amor.

Atento
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 16:36
Confusa, Francesco: mas o «auto-amor» também não poderá ser estima pela índole?

Atenta
De meunikaki a 16 de Julho de 2009 às 16:20
Que trapalhada! Fala-se de amor filial, paternal, pelos outros, pelas outras, independentemente do género de quem ama e quem é amado.
Se é certo que há amores incondicionais, como o pelos filhos, amores há que o não são tanto ou não o são mesmo, como será o caso inverso, nem sempre o amor paternal é incondicional. Embora duro de admitir, não tenho dúvidas quanto a muitos energúmenos que por aí andam que nem no Natal, apesar dos amnjares que os esperam em vão, aparecem.
Enfim, tudo amores que se admitem "poligâmicos" pois não está em causa o número de pessoas amadas, mas a qualidade do amor.
Já os outros, parafraseando, «amores, paixões, enlevos, amizades mais ou menos coloridas, o caso complica-se»... é preciso dizer mais? Parece-me que não :-)
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 16:39
Encerro então os comentários, Poliss? Aguardo instruções :-))
De fugidia a 16 de Julho de 2009 às 16:30
Deve ser do cansaço acumulado, de quem iniciou, formalmente, férias há dois dias mas vai oferecer ao Estado 15 dias do seu mês de férias a trabalhar (em casa de ferreiro....).
Dizia eu, deve ser do cansaço acumulado, só pode, mas sou sincera: amar mais do que um objecto, com igual intensidade ou dependência?!?
Para além das duas sementinhas, da mãe, dos irmãos e irmãs em barda, dos demais familiares, dos amigos...
Livra!!!, não, obrigadinha; é que me sinto como diz a Paola Mastrocola num´Uma mãe quase perfeita (do qual aqui deixo um pedacinho):
ATRAVANCADA!

UM AMOR e está-se bem! :-) :-) :-)


"Colocamos tantas trancas na vida, sem saber; vamos juntando coisas, cães, casas, maridos, barcos, filhos, viagens, quadros, que depois nos aprisionam, como se estivéssemos dentro de uma cerca. Pensamos que nos enriquecem a existência e que seremos mais felizes. Talvez seja verdade. Mas... Mas assim atravancamos a nossa vida. Não percebemos que cada novo cão ou grilo, cada motorizada ou cómoda, nos diminui o espaço. E não estou a falar do problema do espaço físico, que a esse, bem ou mal, resolvemo-lo. Estou a falar do espaço mental. Vivemos numa espécie de armazém onde continuamos a amontoar mercadorias, algumas óptimas, algumas altamente desejáveis. Mas são mercadorias que nem sequer temos tempo para desembrulhar..."
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 16:47
E o vazio, não ocupa lugar? Tanto que por vezes se endoidece...

(Que sorte, Fugidia, já em férias! Inveja de poentes na areia!)

De Anónimo a 16 de Julho de 2009 às 17:14
Rita,
Como sempre temas bem escolhidos! Parabéns!
Este é um assunto interessantíssimo, que muito me tem intrigado e sobre o qual se começasse a divagar, não sei quando e como iria acabar…
Concordando com as opiniões da Rita, Margarida e Luísa, acrescento somente que sei que é possível sentir-se dois amores (paixão homem/mulher obviamente) simultâneos e que isso acontece mais facilmente com as mulheres.
Mas sempre só numa fase transitória. Mesmo sem se saber, já se está a saltar de um para o outro, entregando à novidade o calor da paixão e do sexo, mantendo com o anterior o afecto, a cumplicidade, a solidariedade, etc. Na fase seguinte quer-se dar e receber em exclusivo total e aí começam os problemas…
Um Beijo Luis Filipe
De rita ferro a 16 de Julho de 2009 às 17:52
Bem observado, Luís Filipe, há grandes contra-sensos nesta matéria: todos os que, academicamente, reconhecem a naturalidade (ou até o desafogo!) de uma duplicidade de sentimentos amorosos, também reconhecem a total impossibilidade de a aceitar ou admitir no outro. Pelo menos em civilizações como a nossa :-)) Beijo e obrigada!

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