Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

A razão por que fizemos o convite relaciona-se com esse movimento de opinião que, de repente, ganhou protagonismo entre nós, na sequência, presumimos, da análise dos recentes resultados eleitorais e da qualidade da nossa democracia. O movimento, tendo, como julgamos, percepcionado um ou outro pequeno desvio na praxis do regime, terá avançado, não com as estafadas propostas de uma maior participação dos cidadãos, ou de uma maior transparência de procedimentos, ou de uma maior eficiência do Estado, mas com a sugestão imaginativa de uma «postura» política mais atraente -  conceito que supomos gizado no rasto do que foi, há três ou quatro anos, a interessante especulação sobre as vantagens da formação de partidos «sexys». Do nosso ponto de vista, a solução tem o mérito de apontar para um caminho ainda não testado em Portugal, «jardim à beira mar plantado» tão desfolhado, que recomenda, sem dúvida, o teste de caminhos novos. E sobre este caminho da atracção, cremos que o nosso convidado pode acender umas luzes, porque já o trilhou. Não temos, é verdade, condições para avaliar a sua acção no país que governa. Remetemos tal tarefa para os seus autóctones. Mas podemos, isso sim, confirmar que se trata do político do nosso conhecimento que mais fortemente apostou nas virtualidades do magnetismo corporal, delegando competências num esquadrão de amazonas de primeiríssima água, que têm rendida a bota aos seus delicados botins. E podemos também confirmar que, no seu país, há muito se não via exemplo de tamanha «longevidade» política. A coisa parece, portanto, funcionar. Um Portugal «sexy» talvez ganhe pés para andar.

 

Explicada a razão do convite, passemos ao programa. Quanto ao menu, vamos explorar, não as massas, de que o convidado está certamente enfastiado, mas as sensualidades gustativas e olfactivas da nossa cozinha alentejana, que o convidado não deixará de apreciar como nós. Entraremos com o tradicional gaspacho; seguiremos com um cação de coentrada, guarnecido com pão caseiro, finamente fatiado; teremos as imprescindíveis «migas» de broa de milho e couve portuguesa; e soltaremos, por fim, as típicas e únicas sobremesas do pão-de-rala, da sericaia com ameixas de Elvas, da encharcada e do toucinho-do-céu com amêndoas caramelizadas e alecrim. Haverá, ainda, tábua de queijos e abundante branco Pêra Manca 2007, cujos «nariz, rico em impressões», «boca de grande potencial» e «comprimento apreciável, crescendo vagarosamente em equilíbrio», não deixarão de contribuir para o clima solto, vivo e atraente que pretendemos, coerentemente, criar.

 

É bem provável que, no transporte desta opulência de paladares e perfumes, o convidado, reconhecidamente sensível aos atractivos femininos, não resista a oferecer, às nossas convivas, todas as pastas do seu governo e todos os assentos do seu parlamento. Sei que a tentação de aceitar será grande, só porque somos, também nós, reconhecidamente sensíveis aos atractivos da sua terra. Mas sugiro, apesar de tudo, uma negociação ponderada e renhida de condições e contrapartidas… que incluam os nossos homens, as nossas famílias e doze meses de férias na doce Toscânia. Se, finalmente, decidirem fazer as malas, importam-se de esperar por mim?

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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22 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 15 de Julho de 2009 às 09:34
... mas que grande 'caramelo' ...
ah ah ah
welcome back!

bjs
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 16:01
Rita, é mesmo isso, um grande «caramelo». E embora eu não aprecie caramelos, acho-lhes muita graça quando os vejo nas mãos - ou nas bocas - dos outros. Um beijo. ;-D
De PB a 15 de Julho de 2009 às 11:15
Um político que abomina assedio mas é fan de poliamor,
que abomina sapato empoeirado mas calça Church's Fairfield e/ou Becket,
que gosta de Pera Manca,

para quê avaliar a sua acção no país que governa?

Comparar obra feita cá com obra feita na Europa do Norte é comparar Portugal com o Sudão.

Deixem o homem andar entretido a petiscar ou a ser petiscado.
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 16:16
PB, também não avalio o político, apenas me divirto com o homem do espectáculo. E estou tentada a pensar que é o que os seus conterrâneos fazem. Sempre me pareceu que o que os italianos realmente abominam são governantes (ou políticos) demasiado intervenientes, que interfiram com a sua liberdade de acção. Já governantes «heterodoxos», que corporizem a fraca opinião que hoje se tem dos políticos, esses são a sua escolha preferencial. E são a minha também. Se a política não consegue ser uma actividade séria e honrada, ao menos que me faça rir (já que não consigo furtar-me a tê-la, acompanhá-la e, pior do que tudo, sustentá-la). :-)
De Ana Vidal a 15 de Julho de 2009 às 13:21
Ai, Luísa, no que toca a Itália eu sou muito facilmente subornável, confesso... se o Berlusco me oferecer uma pasta (ou uma antipasta que seja, al dente de preferência), não sei se conseguirei resistir por muito tempo. E eu que até nem gosto nada do homem...

Seja bem-vinda! Que tal a Grande Maçã? :-)
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 16:32
Ana, o nosso convidado anda tão ocupado com as suas «públicas privacidades», que não deve ter tempo para causar incómodo real. E sempre se negociariam 12 mesinhos de férias! :-)
Quanto à Grande Maçã, gostei imenso, apesar das multidões de turistas e de alguns excessivos «apelos consumistas». Mas ficou muito por ver, que talvez justifique uma segunda visita, num futuro mais ou menos próximo em que a travessia aérea se faça no máximo de uma hora. ;-D
De Ana Vidal a 16 de Julho de 2009 às 10:53
A minha esperança está nesses 12 mesinhos: quatro na Toscania, quatro nos lagos e nos Alpes, quatro na costa de Amalfi. Se ele me der isso, vendo a alma ao diabo sem uma hesitação!

NY vale bem mais uma ou várias visitas, Luísa. Mesmo com o sacrifício do avião, que se resolve com um bom whisky e uma abençoada seste de ums horitas. :-)
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 14:58
Quem me dera essa sesta, minha querida Ana! Se há coisa que nunca consegui conciliar na vida é movimento e sono. Nunca adormeci num transporte, carro, comboio, avião, nem mesmo sob o efeito de dois poderosos Valiuns. Mas seis horas aguentam-se bem, com filmes, leituras, almoços e lanches. O que custa aguentar é mesmo só o avião. ;-D
De fugidia a 15 de Julho de 2009 às 13:46
Hum... este não, nem que me pagasse(m), livra! ;-)

(há qualquer coisa nele que me repugna; muito)
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 16:39
Compreendo bem o sentimento, Fugi. Um homem daquela idade com aquele comportamento não vende uma imagem digna. O que acho interessante no fenómeno é a posição dos seus conterrâneos. A criatura tem uma longevidade política que se não via na «bota» há algum tempo. Gosto de pensar que, na Itália, se trata a política como ela, nos dias que correm, merece ser tratada: com ironia, com provocação, com desprezo. E o resultado é... o nosso convidado. ;-D
De João Paulo Cardoso a 15 de Julho de 2009 às 14:48
Por favor, jamais convidem il signor Berlusconi a vir a Portugal provar comida alentejana ou de outra qualquer latitude.

Já nos chega o Pedro Santana Lopes, também ele adepto de dar umas boas trincadelas, aqui e ali!!

Aproveito entretanto para convidat todos os leitores deste blog, para a festa do 500º post no "Eldorado".

Em
http://oeldorado.blogspot.com
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 16:43
João Paulo, lá estaremos na sua festa do 500.º «post». A propósito, muitos parabéns!... E, já agora, o que tem que se «trinque»? ;-D
De JdB a 15 de Julho de 2009 às 15:38
Dispenso o convidado mas não dispenso o almoço. Goto de cozinha alentejana, porque é uma alimentação de subsistência que trouxe ao de cima a criatividade.
Não receio o convidado porque ele passará por mim como cão por vinha vindimada. Mas as senhoras que se acautelem.
Passam tarantellas ou os mineiros de S. Domingos?
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 16:57
Concordo, João, que a cozinha alentejana vale bem alguns sacrifícios sociais. Quanto ao fundo musical, acho que vou recomendar os mineiros. A tarantella tem (segundo os entendidos da Wikipédia) um carácter muito vivo e, na dança, caracteriza-se «pela troca rápida de casais», o que me parece, na circunstância, um pouco como brincar com o fogo… ;-D
De imprevistoseacasos a 15 de Julho de 2009 às 17:21
Querida Luísa
Não deixa de ser interessante a escolha do convidado, associando-o à gastronomia alentejana :)
Não aprecio o estilo do senhor, verdadeira caricatura de 5ª categoria, mas percebo que o queira presentear com algum bom gosto culinário. A Luísa terá o sonho do que pelo estômago o senhor ganhe finalmente algum requinte e classe? Ainda acredita? :)
beijinhos
Fernanda
De Luísa a 15 de Julho de 2009 às 22:48
Minha querida Fernanda, na verdade, não sei bem por que fiz esta associação. A gastronomia alentejana é a minha preferida de todas as gastronomias nacionais e até internacionais. Talvez seja porque faz um grande apelo aos sentidos (pelo menos aos meus) que acabei por a «servir» a um indígena de uma península cujos habitantes cultivam muitos dos nossos gostos e têm connosco bastante empatia. O indígena em si não terá sido tão determinante da associação quanto os seus conterrâneos.
Mas, sim, a esperança civilizadora é qualquer coisa que não deixo morrer. ;-D
De mike a 16 de Julho de 2009 às 00:06
Luísa, faço questão de ir a esse jantar. Personagens como o Sílvio deixam-me curioso. Para além disso, se posso contar com a vossa ilustre companhia e se há gaspacho, pão caseiro e Pêra Manca, o jantar já vale a pena. :)
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 14:33
Mike, se há coisa que o Sílvio tem, certamente, é muita história para contar… Refiro-me, claro, à que se pode contar. À que não pode, já todo o mundo a conhece. ;-D
De GJ a 16 de Julho de 2009 às 01:42
O convidado ainda aí está, Luísa? O adiantado da hora não deve ser problema para quem gosta de divertimento. Vou dar uma saltada para ver o que tantas outras já perceberam. O melhor da festa são sempre as atitudes das ex, por isso ele deve ser um nabo para se deixar apanhar com tanta facilidade. E pode ser que nos saia uma rodada de viagens sicilianas.
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 14:42
Estamos a apostar nessa rodada, GJ. Quanto ao «nabo», talvez a estratégia seja mesmo «deixar-se apanhar». São esses «deixar apanhar» que fazem as famas que, geralmente, trazem o proveito. ;-)
De meunikaki a 16 de Julho de 2009 às 08:40
Parece ser moda eterna em Itália (deve ser do idioma) um certo sex appeal na política, eventualmente serôdio, como o do "nosso deles" Berlusconi, ou eventualmente achincalhador, como a da "nossa deles" Honorabili Cicciolina, que até andou a fazer das suas no, agora só "nosso", Parlamento , em sessão plenária até nas bancadas do público e da imprensa...
A tendência vai, parece-me, no sentido de assistirmos a um florescer do sex appeal na política, nele se embrenhando os políticos, de todos os géneros, com a afamada consagração das quotas de género... lol (só estou a olhar para os nossos honorabili deputados e deputadas da actual legislatura, em fim de curso).
Deve ter-se passado o mesmo na magistratura, na polícia e nas forças armadas e ninguém se queixou.... e ainda bem, que há lugar para todos.
De Luísa a 16 de Julho de 2009 às 14:49
Inteiramente de acordo, Meunikaki. Há até uma teses «científicas» (?) que defendem que em ambientes mistos (eventualmente sexys), a produtividade melhora substancialmente. Espero que na nossa política – onde a produtividade, em termos de palavreado escrito e oral, é já tremenda – o benefício se faça sobretudo sentir na qualidade do produto, que anda pelas ruas da amargura. :-D

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