Sábado, 11 de Julho de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

2ªfeira,

Hoje, mas há 15 anos, nascia a minha filha mais nova, e eu começava a ganhar a consciência – que advém da fantasia, não da presunção - de que era pai de um anjo. Da carta que lhe escrevi no meu blogue, neste último dia 6 de Julho, ressalto um parágrafo:

Como escrevemos uma vez, mais importante do que questionar porque partiste é indagar o que vieste cá fazer, o que nos quiseste ensinar. Apesar de todas as curvas no caminho, todos os desvios que parecem errados, todas as lombas que vão surgindo, continuamos a perseguir o trilho da felicidade. Apesar de todas as lágrimas e de todos os soluços e de todos os risos, continuamos a olhar para um ponto no infinito que pensamos ser o autêntico. É lá que tu estás, temos a certeza. Sabemos para onde queremos ir, só nos falta descobrir o caminho.

 

3ªfeira

Escrevia-me um amigo, partilhando comigo a notícia do rompimento de uma relação amorosa (mais uma) e o 2º lugar (o primeiro dos últimos) para uma hipótese importante (e gorada) de expatriação. Ele há dias assim, em que apetece murmurar a frase que me ensinou um grande companheiro de cartas: quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz

 

4ªfeira

Oiço na televisão que os estivadores ganham cerca de cinco mil euros por mês. Enquanto digiro a informação (ouvi bem ou houve sinapses que não se fizeram na minha mente?) atento numa turba que, junto às escadarias do Parlamento, vocifera contra o primeiro-ministro, gritando frases do meu imaginário: a estiva unida jamais será vencida, etc. Houve espaço, ainda, para o furor acusatório de apelidar José Sócrates de fascista, além de outros mimos que rimam com luta. A cereja no cimo do bolo corporizou-se num cavalheiro que, encapuzado (aprendi a gostar desta palavra, eu que usaria a expressão encapuçado), afirmou que obra bonita e asseada era ir a casa do engenheiro e matá-lo. Pareceu-me um acto de coragem, só pecando por aquele capuz tipo ETA.

Percebo a luta dos estivadores. Sempre são cinco mil euros por mês, mil contos em moeda antiga. Ora essa…

 

5ªfeira

 Há 30 anos tive uma experiência curta - porém pedagógica - como crítico tauromáquico, derramando, num jornal diário, frases plenas de sabedoria e educação: fulano (um cavaleiro de algum sucesso) não sabe a diferença entre partir pedra e cravar bandarilhas, numa alusão criativa a uma relação qualquer do indivíduo com o mundo da construção civil.

Entretanto cresci, e fui-me afastando das corridas de toiros em Portugal – e em particular no Campo Pequeno - por motivos comezinhos: nunca se sabe a que horas acaba, o que se afigura impensável. No dia seguinte, uns são escravos do despertador, enquanto outros vivem a embriaguez do aplauso do sector 4 e da banda que abrilhanta o espectáculo.

Ontem atirei-me à extravagância de seguir a corrida que passava em directo na TVI. O quinto toiro da noite, uma animal áspero e corpulento, atirou o forcado da cara para uma maca, depois de várias tentativas goradas. O inteligente manda tocar para a cernelha, enquanto os jornalistas de serviço entrevistam a assistência, recolhendo frases sábias de gente conhecida.

É uma da manhã e, já que estou em maré de desvario, lanço-me num zapping pelos três canais que me restam. No 2º canal, Zezé Camarinha, o nosso mais que certo Guinness sexual, perora sobre mulheres, estratégias, estatísticas, etc.

No Campo Pequeno o toiro não encabresta, dificultando a tarefa aos forcados; no outro canal, Zezé, esse homem que recomenda à juventude de hoje em dia para não casar, mas para gozar, afirma, ufano, que engatou inglesas (o país que mais pisou, metaforicamente falando) adivinhando-lhes as datas de nascimento. Elas deleitavam-se e cediam, e o algarvio pagava a comissão ao recepcionista informador, deixando-a levar a mais feia. Na TVI, já se pegou o animal. A esperteza e o esforço separadas por um comando de televisão.

 

6ªfeira

 Dia de recordar o Zimbabwe, onde vivi dois meses no Verão passado, com a chegada do embaixador. Dia, também, de outras memórias, com três amizades de mais de trinta anos sentadas à volta de uma mesa. Apesar de tudo, ainda há horas felizes.

 

 

publicado por Ana Vidal às 09:45
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18 comentários:
De GJ a 11 de Julho de 2009 às 13:52
Não posso deixar de reler as letras de segunda feira. Eu que dois dias depois estava a comemorar o aniversário duma filha. Há poucos dias escrevi sobre um pai que partiu há 15 anos e percebi que nunca estamos sós se tentarmos perceber porque vêm alguns para ficar e outros já chegam para partir. Calculo que é uma pergunta e uma resposta diária.


Na terça as relações que se partem e os laços que sobrevivem também devem ter o seu espaço de reflexão, mas ao contrário do anterior uma vez pensados o melhor é ouvir os sons do lugar e conquistar o dia seguinte.

Na quarta, lutas são lutas, ora essa. E na verdade 5000 euros e carapuços que sirvam não são fáceis de encontrar...


Quinta feira também vi o primeiro touro da noite e os forcados mais novos a entrar em primeiro lugar. Não vi o resto. Mas que temos muitos inteligentes a substituir o inteligente é um diagnóstico interessante.

Relembrar África num momento de visita Obama é para mim importante. Imagino que para quem aí viveu seja um corredor de lembranças.

Bom fim de semana. João
:)
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 01:24
GJ: obrigado pela sua visita, aqui e no Adeus... Em relação à 2ªfeira, faço minhas as palavras de Santo Aogstinho que, referindo-se (penso) à Mãe, pedia para não se chorar a sua partida, mas que se agradecesse a sua presença.
Do resto, pouco mais do que a espuma dos dias, fica o encanto da sua visita.
De mike a 11 de Julho de 2009 às 21:12
Caro João, pela 2ª feira, se bem que atrasados, os meu parabéns. E gostei de ler o que ressaltou de um parágrafo. Aliás, é bom de ler este seu moleskine.
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 01:25
Obrigado pelos parabéns e pela visita, Mike. Volte sempre que enriquece este post.
De Ana Vidal a 11 de Julho de 2009 às 22:07
Um beijo pela 2a feira, João. E uma sobrancelha levantada pela 5a feira... não sabia que tinha sido crítico tauromáquico! Também vi a corrida e gostei. Aliás, gosto sempre das corridas comentadas pelo seu "colega" Joaquim Grave, que percebe imenso do assunto e nos faz seguir todos os pormenores, como fazia o meu pai. de há uns anos para cá voltei a ter o prazer de ver corridas de toiros sem complexos nem dúvidas existenciais. Felizmente!

E combine lá o jantarinho, que a tribo também quer festejar à volta de uma mesa a estadia do senhor embaixador, antes que ele nos fuja outra vez. :-)
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 01:28
Obrigado pelos comentários, chefe.
Quanto à tauromaquia, leio os artigos que escrevi num distante ano de 1979 e, confesso, tenho vergonha, pela impertinência que disfarçacava a ignorância. Tudo muito instigado por um bom mas peculiar jornalista chamado João Garin.
Uma palavra especial de agradecimento pelo seu comentário à minha carta no Adeus. Bondade sua, diriam os brasileiros.
De ritz_on_the_rocks a 12 de Julho de 2009 às 00:14
Um Bom Domingo para todos
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 01:28
Para ti também, Rita V. Um beijo
De DaLheGas a 12 de Julho de 2009 às 00:56
Ide ao Adeus ler essa carta.
Acho que esse seu escrito JB é um instrumento de alivio. Alivio foi o que eu senti, sem passar pela provação.
De Ana Vidal a 12 de Julho de 2009 às 01:20
É um instrumento de paz também, DaLhe.
Sei que o João não o fez para dar uma lição a ninguém, mas deu. Pelo menos a mim.
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 01:31
Sai mais um beijo para Sintra. Não teria paz se não tivesse tantas amizades.
De Ana Vidal a 12 de Julho de 2009 às 01:36
Cá chegou, à mesa do canto. :-)
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 01:31
Você embaraça-me, lindeza. Mesmo tendo passado pela provação, escrever sobre o assunto pode ser um alívio, sim.
Um beijo e obrigado.
De DaLheGas a 12 de Julho de 2009 às 20:11
Não era ao alívio que você possa ter sentido ao redigir que me referia. Se amanhã essa provação me couber a mim, esse texto estará a altura de me atenuar a dor. É a grande capacidade que ele tem. É um texto-pão, um texto-cura, um texto-remédio, um texto-alivio. Serão as poucas palavras que quem fica sem um dos seus bebés precisa de ouvir e de dizer todos os dias, todos os dias, todos os dias. Obrigada J.
De JdB a 12 de Julho de 2009 às 23:19
Obrigado sou eu, DaLheGas. Obrigado sou eu.
De rita ferro a 13 de Julho de 2009 às 10:06
Cheguei tarde, mas a tempo de rever a tua semana, para não sentir que perdi pitada da tua vida. Espantas-me sempre e nunca me desiludes, Amigo! Obrigada, guerreiro!
De rocha a 13 de Julho de 2009 às 11:18
Vantagem esta a dos blogs...saber dos amigos sem o massacre do telefone....Tenho de ir recheando o meu moleskine para o poder partilhar.
Obg pelas inúmeras lições Amigo
Morning
Rocha
De PB a 14 de Julho de 2009 às 22:57
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<<o que vieste cá fazer, o que nos quiseste ensinar>>.
15 anos seus 21 meus. Muitas duvidas e poucas ou nenhumas certezas.
Será mais fácil pensar que agora juntas dizem baixinho perto de nós "Está tudo Optimo"!!!
Abraço
PB

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