Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

O Fantasma de Michael Jackson 

 

Tenho frio, falta-me o calor dos aplausos.

Era feito de pele, osso e botox, agora sou só anti-matéria, another part of me.

Um espectro.

 

Um espectro descuidado.

A CNN filmou-me na mansão de Neverland, tal qual um smooth criminal, a caminho da casa de banho para aliviar a bexiga.

Ah pois... já não tenho bexiga.

 

Não que me restasse muita coisa, sei que estava cada vez mais parecido com um dos mortos-vivos do "Thriller", mas tenho uma human nature, eternamente insatisfeito, don't stop 'til get enough, neste caso em relação à imagem, obsecado com o man in the mirror.

 

"Avistado o fantasma de Michael Jackson"...

 

Fantasma já eu era há muito tempo.

Um espectro com frio.

Don't scream.

 

Vou ter saudades dos meus filhos.

We are the world.

Não esqueço os bons momentos, que foram muitos, remember the time dos abraços, das corridas entre risinhos, debaixo de casacos e véus escuros, protegê-los dos holofotes, off the wall.

 

Sei que dizem que eles não são bem meus filhos, como se fosse tudo black or white, ao mesmo tempo que condescendem em relação ao mais novo, o mais parecido comigo.

"Tem o nariz do pai", escreveram.

 

E é literalmente verdade, confirmo-o.

Eu passava a vida a dizer ao Prince Michael "não apanhes porcarias do chão", mas o sacana do puto era reguila, bad mesmo.

 

"Vai lavar os dentes, Prince Michael!"

"Leave me alone!"

 

"Não faças mal à mana e deixa a girafa, Prince Michael! A girafa é minha."

"Mas the girl is mine!"

 

"Não brinques com os comprimidos do pai, Prince Michael!"

"Vai levar na bilha!"

Enfim, um amor de criança.

 

Vou ter saudades deles.

Não consigo descrever the way you make me feel.

Eu continuo rock with you, beat it.

Velo por vocês.

You are not alone.

 

Agora sou um fantasma, um espectro.

Já vos disse que tinha frio?

No lado de cá adoptei a personalidade de Billie Jean, uma liberian girl.

 

Os outros não se importam, acham que se era bizarro em vida, não o deixaria de ser na morte.

Na verdade, they don't care about us.

 

Mas para mim esta é one more chance, wanna be startin' somethin'.

Longe dos paparazzi à procura de blood on the dance floor.

 

Por enquanto não quero heal the world, nem sequer ser o rei da pop espírita.

Não que eu tenha desistido de ser o centro das atenções, apenas custa um pouco adaptar-me a este mundo sem paredes, sem palcos, sem analgésicos.

 

Gostavam de ver mais de mim?

A sério?

Se aparecer, mesmo como fantasma, will you be there?

 

Já a pensar nisso, tentei há pouco ensaiar o moonwalk, ou melhor, um ghostwalk, mas está complicado.

Invariavelmente a manobra termina comigo a levitar e a dar um pontapé nos óculos do John Lennon.

 

Isso.

Smile.

É esse o espírito.

 

Corrijo:

Sou eu o espírito.

Um fantasma, um espectro.

 

Um espectro com frio.

Querem ver que estou a chocar uma Gripe A?

Vou perguntar ali ao Elvis onde é a farmácia.

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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6 comentários:
De Sun Iou Miou a 10 de Julho de 2009 às 07:49
He , a trabalheira que tu passaste para que tudo acabasse onde começou: na farmácia. Bom.

Faz-me reflectir muito a post-história do MJ, mas já deve estar tudo dito e escrito sobre mudança-insatisfação , aceitação-sossego ...

Beijinho
De Ana Vidal a 10 de Julho de 2009 às 12:20
Nada como começar a sexta-feira com este sentido de humor. Bravo, JP!
De Meg (Sub Rosa) a 10 de Julho de 2009 às 19:50
Querida Ana:
Perdoe-me o lapso, talvez a gaffe, de fazer um comentário completamente off topic, no post que contém a excelente crônica de João Paulo Cardoso, ao quem parabenizo.

Mas, na verdade, estou mesmo aqui para agradecer - lhe todo esse tempo em que o blog completou o seu segundo aniversário (wow!), reuniu colabodares magistrais, torbou-se o abrigo de um acervo magnífico, literário, músico, fotográfico, enfim, artístico e político. Sinto-me preseteada por tanto e por tudo.

E, obviamente, por também ser amiga da Diretora e Redatora e Publisher.

Saudades muitas.
Tanto tempo e nunca ausente.
Receba meu desapressado abraço, fortíssimo no afeto.
Meg
De Ana Vidal a 11 de Julho de 2009 às 22:23
Minha querida Meg, contigo não há gaffes!
Adoro ter-te por cá outra vez e todos nós nos sentimos honrados com a tua presença.
Saudades, sim, por aqui também muitas. Já lá vou dar-te um beijo ao Sub Rosa. :-)
De GJ a 11 de Julho de 2009 às 01:45
Um sentido de humor muito refinado e um texto muito bem escrito. Aliás como quase todos os que o JP faz. E nao é fácil ser criativo e divertido no limite da fronteira entre o aceitável e o chocante. Parabéns. :-)
De mike a 11 de Julho de 2009 às 21:49
Eu ri-me à brava com este post, JP. Muito bom.

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