Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Pocket Classic (Memórias Póstumas de Brás Cubas )

Marie Tourvel

 

Está bem, talvez não se deva levar a sério tudo o que Susan Sontag vomitou durante toda sua vida, mas uma coisa certa ela disse: que Machado de Assis foi “o maior escritor de origem sul-americana”. Talvez não tenha sido o maior entre os sul-americanos, mas foi o maior do Bananão, sem dúvida nenhuma. Para mim é o maior, sim. Dadas as circunstâncias... Machado nunca saiu do Cosme Velho para falar do mundo. Não precisava. Ele sabia das coisas. Um amigo querido fez o resumo deste livro em seu twitter. Ele inventou em minha homenagem um certo #twitterclassic: resumo de clássicos com 140 toques. Não é um amor? Ficou tão perfeito que resolvi tascar o resumo dele por aqui:

 

Morto escreve livro dizendo e provando que é um bosta, mas esperando que a gente não acredite.

 

Não poderia haver resumo melhor, bilionário. Claro que você não vai falar assim com nossos intelequituais. Você será profundo. Você dirá que Machadão tinha um objetivo, que era subverter a forma do romance realista do século XIX, que era, antes de Machado, um retrato honestíssimo da sociedade contemporânea. Só aí você ganhará pontos até dos mais cretinos cineastas que se metem a expor nas telonas livros de Machado passados na época de hoje. Isso não dá certo. Não porque os romances dele não sejam mais atuais do que nunca. É porque cineastas bananeiros tendem a esquerdizar obras literárias para agradar os distribuidores de recursos, geralmente estatais a serviço de desgovernos. Sabe? Típico de repúblicas bananeiras. Pensa que só Honduras é que é a Banana? Vale falar um pouco sobre o humor cáustico de Machado de Assis. Sem esse humor a história narrada por um morto seria pouco promissora. Virou uma comédia dilacerante. A sátira rasgada do progresso humano fica por conta de Quincas Borba, um filósofo amador que pensa positivo. Fica louco, claro, e rende outro livro ótimo, de que falo outro dia. Ficou louco como o ficam todas as pessoas otimistas ao extremo.

 

Brás Cubas, no final, sabe que seu saldo foi positivo por não ter tido filhos, não transmitindo a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. Mas ele era brasileiro, bilionário, e essas famous last words podem não ser verdade... Vale citar a você que Machado tinha uma visão pessimista da natureza humana. Eu também tenho. Você? Ah, bilionário, você não tá nem aí com a paçoca, né? Só quer se divertir. Tá certo. Pule duas casas. Digo, duas rodinhas.

 

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publicado por Ana Vidal às 07:30
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12 comentários:
De rita ferro a 7 de Julho de 2009 às 07:37
Genial, Marie! O próprio «Machado» riria com gosto! Beijos e mande mais!
De marie tourvel a 7 de Julho de 2009 às 19:08
Rita, querida, acho que o Machadão viria me dar uns tapas, isso sim... :)))))
Na próxima semana tem mais.

Beijos!
De JdB a 7 de Julho de 2009 às 09:52
Li o livro há uns anos e gostei muito, fez-me lembrar o nosso Eça. Depois, no Verão do ano passado, vi o filme, talvez feito por um desses "cretinos cineastas" de que fala. Estavamos seis ou sete pessoas na assistência. Também não admira, porque na Alliance Française em Harare, Zimbabwe, não se esperaria mais.
De marie tourvel a 7 de Julho de 2009 às 19:12
Então, querido, o livro é delicioso e lembra o Eça, sim. Adoro os dois e amo Flaubert da mesma forma. Tudo a mesma escola, né?
O filme? Olha, pra dizer a verdade não assisti, mas com toda certeza foi feito com recursos públicos, algo que me dá asco.
Obrigada pelo comentário.

Um grande beijo.
De patti a 7 de Julho de 2009 às 12:54
Já li “Antes que Cases”, “A Senhora do Galvão”, “Dom Casmurro” e “A Chave”, de Machado de Assis. Mas depois desta descrição exemplar, o próximo vai ser de certezinha “As Memórias…”

Beijinho Marie.
De marie tourvel a 7 de Julho de 2009 às 19:14
Patti, minha linda amiga, vai gostar do Brás Cubas. assim como tenho certeza que gostará de Quincas Borba. Eu recomendo.

Obrigada pelo carinho.

Beijinhos!
De Ana Vidal a 7 de Julho de 2009 às 16:22
Brilhante, Marie. Li o Brás Cubas há uns anos e gostei imenso. O Machado é uma espécie de Eça bananeiro, com graça, subtileza e um espantoso conhecimento do mundo e da natureza humana (espantoso porque ele nunca saíu de Cosme Velho, como dizes). Quero ler o Quincas Borba, que ainda não li.

E o teu texto está um must, como sempre.
Beijos
De marie tourvel a 7 de Julho de 2009 às 19:16
Aninha, linda, ele lembra o Eça mesmo. O que realmente mais me espanta nele é o fato de descrever tão bem o mundo sem nunca ter saido do Rio de Janeiro -do Cosme Velho. Ele era do balacobaco.
Leia mesmo o Quincas Borba. Tenho certeza que vai adorar. "Ao vencedor, as batatas". :)))))

Você sempre muito generosa com meu texto. ;)

Beijos!
De mike a 7 de Julho de 2009 às 17:53
Marie, concordo com a Rita Ferro. Acho que o próprio Machado riria à beça com este seu crássico. Mas olha, ri muito imaginando o bilionário pensando "como eu odeio pobre, ah, eu odeio pobre, comendo cocrete em festa caipira meia boca". ;)
De marie tourvel a 7 de Julho de 2009 às 19:20
Mike, lindo, que saudades!
O Machadão, como eu disse pra Rita, viria me dar uns tapas no bumbum, né? :)))))
Mas o bilionário diria com toda certeza que pobre só serve pra comer cocrete e fazer churrasco na laje de casa dançando um pagode. Ai, Bananão... Deu saudade, né, Mike? :)))))))

Beijocas!
De Patrícia Bomfim a 12 de Julho de 2009 às 15:51
Oi Ana, definitivamente, prefiro os seus resumos!
Abraço apertado de quem te adimira muito!
De Ana Vidal a 12 de Julho de 2009 às 16:23
Presumo que queria dizer Marie e não Ana... os resumos são da Marie, Patrícia. E concordo com você... são óptimos!
Volte sempre. :-)

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