Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Azinhagas da memória

 

Os bailes do Clube, e as madrugadas pelas ruas de Nisa. 

 

Aquelas férias de Setembro foram bem pequenas, mas a culpa, ao fim e ao cabo, foi toda minha. Enquanto os meus primos e irmãos tinham rumado a Nisa no inicio de Setembro, eu tinha ficado por Lisboa por causa do exame de 2ª época de filosofia. Não podia reclamar!

 

Bom, mas se o tempo era pouco, os acontecimentos, esses, sucederam-se em catadupa.

 

Assim que cheguei a Nisa, havia que ir para a Vaquinha (uma quinta dos meus avós que fica a 2 Km da entrada de Nisa) porque o Augusto tinha oferecido uns quantos baldes de tordos para o pessoal se alimentar. Enquanto o repasto não começava, resolvi pegar no carro do meu pai, com ele ao lado, e mais uma vez tentar uma condução pelos caminhos da quinta. A coisa não ia mal, desta vez tinha até superado os solavancos iniciais, mas, com a pressa de recuperar dos exames de Filosofia, meti-me em brios e tentei fazer a curva da saída da quinta em “slide”, e claro… lá parámos o carro contra muro de pedra, felizmente cheiinho de silvas…

 

O ralhete não se fez esperar, tanto mais que no dia seguinte havia o casamento do primo Louro em Castelo Branco, e a família teve de se apresentar de táxi… Enfim!

 

Bom, mas à noite de sábado, depois do casamento, havia baile no Clube, o meu primeiro baile “à séria”…

 

Uma das minhas primas (em Nisa é tudo primo…) mais velha uns aninhos, ensinou-me como se dançava o slow, e desinibiu-me com tantos elogios que muitas vezes me encavacou… também foi Sol de pouca dura, diga-se!

 

Aqueles bailes eram sempre abrilhantados (!?) com conjuntos musicais de nomes a condizer, que percorriam as vilas e aldeias das redondezas sempre com êxitos populares portugueses, e sobretudo com o último grito dos êxitos estrangeiros, cantados com pronúncia inenarrável que passava a constituir o nosso gozo nos dias que se seguiam. As músicas mais populares proporcionavam, de qualquer modo, que o dançar fosse inventado ao momento, num misto entre o rancho folclórico e os embrionários passos de dança que a Mili se tinha esforçado por me ensinar há minutos atrás…

 

Era um sucesso! As velhinhas sentadas nos cadeirões em volta da pista de dança, ficavam sideradas, e no final não se cansavam de gabar os meus dotes… acho que de propósito se esqueciam dos óculos em casa, mas enfim…

 

O melhor de tudo era quando o arraial acabava e vínhamos a pé para casa. O céu tinha aquele misto de azul suave e laranja forte que já antecipava mais um dia de calor, e os homens e mulheres começavam a acenar às portas para mais um dia de labuta no campo. A essas horas, passávamos pelas vendedeiras que se dirigiam para o mercado, levando os legumes frescos, a fruta, os queijos, e sobretudo o pão de Nisa e os bolos dormidos ainda quentinhos…

 

Ao ver-nos naquela madrugada, a comadre Hermínia, com o seu tabuleiro de madeira à cabeça cheio de bolos dormidos, não hesitou nem um bocadinho e deu-nos, a mim e aos meus primos, um bolo ainda quentinho:

 

- Tomem lá, que ainda estão quentinhos, e os meninos devem estar cheios de fome...!!!

 

 Que delicia de madrugada!

 

PS – Não se preocupem: na 2ª feira seguinte, quando fui ver a nota, tinha dispensado da oral!

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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15 comentários:
De Dulce a 6 de Julho de 2009 às 11:36
Viva o PS !! Sem ele nem me lembraria mais da tal da filosofia...delicia de texto:)) bjs
Dulce
De Manecas a 6 de Julho de 2009 às 17:24
Muito obrigado!

Quanto ao exame, lembro-me bem, porque as orais com o professor de então eram um terror, daí que foi cá um alívio...

Bjs
De João Paulo Cardoso a 6 de Julho de 2009 às 14:39
Bem bonita, esta rubrica.

Diz-se que o passado foi lá atrás e, por isso, quem tem boas recordações vive com o coração nas costas.

Os saudosistas agradecem estas frases que mitigam a dor.

Para eles e para todos os outros, e se me permites, anuncio a criação do meu segundo blog,
"A Máquina do Tempo".

Em
http://a-maquina-do-tempo.blogspot.com/

Beijos.
De Manecas a 6 de Julho de 2009 às 17:21
Nesse caso tenho coração em catavento...Mesmo do futuro tenho boas memórias...!

Um abraço e obrigado!
De Ana Vidal a 6 de Julho de 2009 às 17:02
Não te conhecia esses dotes de bailarino, Manecas! Muito me contas... :-)
De Manecas a 6 de Julho de 2009 às 17:19
Não é tanto de bailarino...É mais improvisador ao momento, tentando de ouvido acompanhar as modas populares...

De bailarino tem muito pouco, posso-te assegurar!

Eu, de qualquer modo, sempre tive jeito para convencer as velhotas...

Beijinhos
De rita ferro a 6 de Julho de 2009 às 20:15
Que bons estes tempos, que saudades disto tudo! Obrigada pela viagem, Manecas!
De Manecas a 6 de Julho de 2009 às 22:12
Ainda hoje me lembro do sabor daqueles bolos quentinhos pelas 5 da manhã...

Bjs
De Ana Vidal a 6 de Julho de 2009 às 22:41
Também me lembro de uns bolos quentinhos a essa hora e de pão acabado de fazer, com manteiga. Hummmm... Não era em Nisa mas em Lisboa, na padaria da R. de Buenos Aires, quando saíamos das "boîtes" (é como se chamavam na época, se bem se lembram). Com essa lembrança fiquei com água na boca... e tu és o responsável!

:-)
De Manecas a 7 de Julho de 2009 às 09:47
Pois é...Dessas também me lembro, mas eu era mais em Alcantara (perto da Praça da Armada) e outra ao pé da Praça do Chile, em que tinha de se descer umas escadas...

A ementa era diversa dos pastéis de nata às bolas de belrim, se bem me lembro...

Meu Deus, e eu a lembrar-me que estás de dieta...Ou estavas?...

Que maldade!

Beijocas
De meunikaki a 6 de Julho de 2009 às 23:13
Relembrando esses tempos de meninice: fazer espadas (antes ia-se compara madeira, costáva-se à medida, pregos para a fazer a cruz), moinhos de casca de eucalipto, hmedecida com amora, para não secar tão depressa, canas de pesca (antes ia-se comprar linha, bóia e anzóis) para pescar nos rios e riachos da zona e, last but not the least, naqueles 8, 9, 10 anos que tínhamos, correr atrás das meninas para lhes levantar as saias... lol. Oh inocência.....
De Manecas a 7 de Julho de 2009 às 09:55
Já agora...Mais uma das ruas de Nisa!

Não sei se se lembram de uns jogos pequeninos (um campo de futebol com uma bola muito pequena que entrava por inclinação correcta em duas pequenas balizas) que eram do tamanho da nossa mão e que no verso tinham um espelho.

Aprendi com os "cachopos da rua" que a utilidade alternativa era deixá-los cair ao chão, com alguma precisão, ficando o espelho virado para cima de forma a se ter acesso visual às cuecas das meninas...

E esta hein...???
De meunikaki a 7 de Julho de 2009 às 15:54
Quando as tinham!!! loooooooool
De Ana Vidal a 7 de Julho de 2009 às 16:05
Ó meninos... então?????
Isto é um blog sério... ai, ai.
:-)
De meunikaki a 7 de Julho de 2009 às 22:29
Desculpe, mas tem memórias destas, por exemplo construir carrinhos de rolamentos (depois de ir comprar madeira, rolamentos , pregos, etc.)? Também podemos falar de bonecas e bolas de pano....., mas isso com 8 ou 9 anos não tem grande graça :-D

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