Domingo, 5 de Julho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

Não era - muito longe disso! - pessoa das nossas simpatias. Os seus traços de bebé sem tempo - esses, sim, pedindo papas Maizena - a expressão mimada ou «queque», o narizito empinado, a figura alinhada a fio-de-prumo e o gesto ostensivamente «snob» são, todos eles, elementos pouco atractivos, que em regra indiciam manias de superioridade. Acrescia-lhes, até há pouco, a condição de governante, e de governante mediocremente sucedido, não apenas na gestão da imagem, como na gestão da pasta. Multiplicava «gaffes», reduzia o português ao trabalhador em saldos do hemisfério ocidental, era dado, suspeitamos, a práticas de «amiguismo» e reagia à crítica com invariável impaciência, confirmando os indícios de que se acharia no direito de desconsiderar meio mundo e o outro meio. E quanto a resultados, citamos a verdade inequívoca, declarada e reafirmada na nossa blogosfera, de que o país está pior hoje do que estava há quatro anos, sem estrutura económica para sobreviver, quanto mais resistir a crises!

 

Subitamente, porém, tudo mudou. Um gesto simples, e identificámos imediatamente, no conjunto das solenes carrancas que povoam e deprimem a nossa vida democrática, o «enfant terrible» que fazia falta. Um gesto simples, e reconhecemos o homem capaz de trazer nova animação àquela vida, introduzindo uma nota folclórica, mas aguerrida, de festa brava. Um gesto simples, e descobrimos a acuidade analítica de uma personagem que, como nós, entrevê nas testas dos políticos (e, pelos vistos, na própria) o adereço representativo, ou de um mole entendimento bovino, ou de uma subtil perversidade satânica. Um gesto simples e encontramos, enfim, perante a desproporção do castigo, o mártir, frito e cozido no altar dos grandes princípios, que as nossas instâncias do poder tão bem honram, «envernizando» os seus constantes ataques e insultos mútuos.

 

Assim sendo, tínhamos de o convidar para jantar. De lhe proporcionar a oportunidade de desabafar contra a injustiça das coisas, de esbugalhar o olho inocente e esboçar o beicinho trémulo do incompreendido. Aqui, na Porta, se não encontrar compreensão, encontrará indulgência. E o tratamento VIP habitual. É certo que, na precipitação dos acontecimentos, não houve tempo para atestar a despensa. Mas saberemos remediar-nos com a solução dos petiscos portugueses, apresentados – o convidado, recorde-se, é um «snob» - como «menu de degustação»: as beringelas, as bolotas e os tomatinhos fritos, a morcela frita, as enguias fritas, a fritada de toucinho e febras de porco, os camarões fritos e o queijinho curado - para aliviar a sentença da fritura - desfilarão a par de umas quantas jarras de sangria (com que simbolizaremos a nossa aposta noutras «sangrias»).

 

Contamos, também, que os nossos convivas disponibilizem generosamente o seu ombro ao consolo desta cabeça que rolou e ameaça lamúria. O meu ombro vai estar às ordens… E alegremente! Sempre o vou afeiçoando ao que – palpita-me – ainda está para vir…

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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25 comentários:
De mike a 5 de Julho de 2009 às 09:57
Cara Luísa, creio poder contar com a sua compreensão para o facto de me ver obrigado a declinar o seu amável (e como de costume bem escrito) convite. Para além deste fim-de-semana estar a trabalhar, sem que o dia faça diferença da noite, a minha tensão arterial e níveis de colestrol não serem compatíveis com a ementa. Acresce o facto do convidado ter, ao jantar, ombros femininos que cheguem para encostar e consolar a cabeça. Desejo-vos um bom jantar.

p.s. - As senhoras que não levem sapatos ou sandálias abertas, que o tempo não está de feição, e evitem trajar de vermelho.
De rita ferro a 5 de Julho de 2009 às 11:07
(Ganda ciumento... tchhhh....)
De mike a 5 de Julho de 2009 às 15:05
Pois sou, Rita. Antes ciumento que sonso.
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 13:46
Emociona-me saber, Mike, que quando toca a trabalhar – e nem que seja ao fim-de-semana – «o dia não faz diferença da noite». Bravo! Claro que, perante tamanha abnegação laboral, a sua ausência será perfeitamente compreendida (embora muito lamentada). Mas sempre aproveito para dar algum descanso aos pés e servir de ténis. ;-D
De mike a 5 de Julho de 2009 às 15:08
Sabia que podia contar com a sua compreensão, Luísa. E agrada-me saber (a Rita diz que é por ciúmes), que as senhoras, seguindo o seu exemplo de bom senso e recato, darão descanso aos pés. :D

De Ana Vidal a 5 de Julho de 2009 às 10:39
LOL... evitar trajar de vermelho é um conselho sábio, Mike!

Mas oferecer o ombro àquela cabeça também não é muito aconselhável, Luísa... corre-se o risco de ficar com o pescoço furado!

Enfim, sugiro um "paso doble" como música de fundo para este jantar. E hoje não a queremos na cozinha, Luísa: a paixão do nosso convidado (para além da festa brava) é a fotografia, por isso imagino que terão muito tema de conversa.

Bjs, até logo. :-)
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 14:32
Ana, um «paso dobre» parece-me muito apropriado. E se se intitular, como sugere o João, «cuernos de piño», ainda mais. Só espero que o nosso convidado, perante semelhante consagração, consiga suster a torneira dos olhos, ou lá se nos vão os fritos.
Resta saber – o que parece ser o grande mistério – se terá sido esse o verdadeiro significado do gesto. Como é para mim um mistério por que não se limitou a personagem a deitar a língua de fora (gesto que teria muito mais a ver com ela). :-D
P.S.: Não sabia que tinha a paixão da fotografia. Como é que a Ana descobre estas coisas?
De Ana Vidal a 5 de Julho de 2009 às 14:53
É verdade, Luísa, ele e Mrs Piño não só têm a paixão da fotografia como têm uma valiosíssima colecção de fotografias de arte. Quem sabe ele não se interessa pelas suas? Olhe, já sei... vamos decorar a Porta do Vento, logo ao jantar, com as suas magníficas fotografias de Lisboa. Tenho a certeza de que sairá daqui a promessa de uma exposição! :-)
De Manecas a 5 de Julho de 2009 às 11:05
Como o Mike não vai estar presente...porque não, depois de jantar tão "pró-colesterol", avançarmos destemidos para "A ultima corrida de toiros em Salvaterra"...

Também foi a última...

Beijinhos Luísa , a escrita mantém-se "na linha" apesar do tempo...
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 14:46
Por que não, Manecas? Por que não um serão de excessos, com petiscos, sangrias, touros, «pasos dobles» e, quiçá, uma nota de fado vadio nalgum barzito esconso da noite alfacinha? Não é só o nosso convidado que, no panorama que se nos desfia diante dos olhos, tem umas tristezas a afogar. :-D
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 11:19
Luísa: por momentos temi que nos oferecesse sopa de raspas de corno e chifres à moda de Aljustrel. Irei ao repasto pela ementa (bem melhor do que a da minha desconfiança) e também porque gosto de corridas de touros.
Haja pasodobles! E sugiro um nome: cuernos de piño. Olé! (que é um grito que se conhece no parlamento).
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 15:00
João, embora não seja aficionada da corrida, divertem-me muito as «touradas» parlamentares. Acho que a solenidade deve reservar-se para as coisas realmente sérias, pelo que me parece completamente descabida e até um tudo-nada ridícula naquele hemiciclo. O meu parlamentar preferido já é o José Eduardo Martins, desde que ali soltou o seu espontâneo «vernáculo», e agora o meu ex-governante preferido passou a ser este, por ser «ex» e por ter sido tão pouco «canónico». :-D
De rita ferro a 5 de Julho de 2009 às 11:52
Eu vou, meninas, porque ganhei empatia pelo convidado. Ninguém percebeu que ele apenas tentava imitar um caracol...! As pessoas são tão dirty-minders ... Posso levar o interlocutor dele para tentar uma reconciliação, Luísa? Parabéns pelo texto, que está magnífico, mas, não fossem as referências tauromáquicas e ocorria-me outro galã da política. Este seu texto, hoje, tem armadilha. Talvez tenha sido o queque que me despistou, não sei :-)) Obrigada por esta diversão (tão letrada e sofisticada) já indispensável na nossa Porta!
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 15:17
Rita, não me tinha ocorrido a ideia do caracol, mas a imagem ajusta-se inteiramente àquela dinâmica casa. Não sei se a reconciliação com o interlocutor é possível. O gesto (passível de várias leituras) associado à frase: «vou-te lixar!», é de molde a criar uma desconfiança – num homem que tem ar de tranquilamente casado ou comprometido – que nenhuma boa vontade (nem a da Rita, receio) consegue neutralizar completamente. A pulga nunca mais sai de trás da orelha. Mas traga, ainda assim, porque estou curiosa no frente-a-frente.
P.S.: Mas quem será esse outro galã que me está a escapar? ;-D
De imprevistoseacasos a 5 de Julho de 2009 às 16:49
Luísa
Que belo post. O bem que escreve e como sabe descrever a natureza humana. É impossível perder os domingos no Porta :)
A Ana, a Rita, a Luísa têm aquele estilo próprio que nos agarra e nos afasta da mediania. O bem que sabe...
Quanto ao convidado, nada posso dizer do que já foi dito.
Penso que o ex-ministro tem uma aparência de criança mimada, com capacidades, mas sem saber distinguir a sua realidade da dos outros, Como se a sua realidade fosse a única possível, onde impera o bom gosto, a elegância, as gaffes, e o Allgarve.
O que dizer de alguém que adora o seu mundo e secundariza o dos outros, olhando-o como ficção ou menor?
Os corninhos ou outro gesto não passam de uma extravagância, de quem não sabe as coordenadas em que se move.
Será por ser um caracol? caminhará devagar na evolução humana?
Um beijo grande,
Fernanda
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 22:38
Fernanda, muito obrigada pelas suas palavras, generosíssimas na parte que me toca. :-)
Realmente, quem se mete por certos caminhos, sabe que tem de abdicar de algumas espontaneidades, ter tento na língua, controlar, no caso, o movimento dos indicadores e fingir grande respeito por todo o mundo. Ser consistentemente hipócrita, em suma. O nosso convidado, lá hipócrita soube ser... um bocadinho. Mas falhou na consistência. ;-D
De Ana Vidal a 6 de Julho de 2009 às 01:05
O que nos afasta da mediania é ter comentadores como você, Fernanda. E muitos outros de grande qualidade. Essa é a mais-valia deste blog e disso nos orgulhamos.

E acho que disse tudo, com a frase "... uma extravagância de quem não sabe as coordenadas em que se move".

Um beijo
De ritz_on_the_rocks a 5 de Julho de 2009 às 19:03
...depois do seu post uma pessoa até se inclina a gostar um bcadinho inho inho do ex-futuro-reencarnado-palitos Pinho.

Mas não! Sou coerente!
eh eh eh

Boas Férias e vou ficar à espera do próximo jantarinho

bjs
Rita V.
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 22:48
Minha querida Rita, eu não estou a defender o homem; estou apenas a defender o gesto. São, de resto, estes pequenos gestos – e toda a agitação que provocam - que tornam tão evidente a grande chatice que é a nossa vida política.
Obrigada, Rita. No próximo jantarinho, vou estar «deslocada em serviço»… E vocês aqui a divertir-se... Grrrrrr.
;-D
De ritz_on_the_rocks a 6 de Julho de 2009 às 00:14
que pena ..
e não se pode deslocar antes o serviço?
ah ah ah


bjs
Rita V.
De Cristina Ribeiro a 5 de Julho de 2009 às 20:35
Ui, Luísa! depois do jantar ainda era capaz de se abalançar a uma tourada ou, melhor dizendo, ( e aqui com mais propriedade ) trapalhada, daquelas de envergonhar o mais tolerante.
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 22:57
Quer dizer com isso que nos priva da sua companhia, Cristina? É que, precisamente, se houver que esboçar uma pega de caras, todas(os) não seremos poucas(os). A criatura não ameaçou apenas marrar; também ameaçou lixar! :-D
De fugidia a 5 de Julho de 2009 às 21:55
Olho para o relógio: são 21:45h... ainda dava para dar um saltinho...
Não, Luísa, estou demasiado cansada, depois de um fim-de-semana de baby-sitter e onde aconteceu de tudo: desde pesadelos de uma e insónias de outra, com o resultado de uma noite em claro para a je, passando por uma invasão de formigas prontamente resolvida, com direito a lavagem total da cozinha e terminando em grande com o estrado da cama da sementinha mais velha estragado (mania dos saltos da pequenada...) e devidamente reparado.
Sem esquecer, um furo e respectivo pneu trocado a semana passada e vários "imprevistos" (estou a ser simpática com a palavra) pessoais...

A palavra que me define é exausta.
Tanto que nem sei como dei conta que o convidado deste domingo andou a tourear :-)

Bom, fico de pés descalços ;-), com as minhas saladas e frutas :-D, na minha home, sweat home... muito bem comportadinha como o pirata gosta (risos abafados)

Uma boa semana para todos :-)
De Luísa a 5 de Julho de 2009 às 23:03
Querida Fugi, pior de que enfrentar um auroque, só um exército de formigas. Estou absolutamente solidária consigo, a experiência é traumática (já passei por ela) e compreendo que não esteja em condições de lidar com mais bicharada. Um bom descanso é o que lhe desejo e uma excelente próxima semana. :-)))
De Ana Vidal a 6 de Julho de 2009 às 01:09
Boa semana para ti também, Fugi. Com guerra aberta às formigas, boas noites de sono e muitas aventuras de pirataria... ;-)

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