Sábado, 4 de Julho de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

Nas minhas rotinas diárias cruzo-me, tantas e tantas vezes, com as mesmas pessoas: no paredão, no supermercado, na pastelaria, nos correios, no prédio onde moro. Dou por mim a olhar aqueles rostos e a imaginar-lhes a vida - o que pensam, como amam, como se chamam os filhos, o que fazem quando chegam a casa, qual a sequência com que se lavam e vestem, que fetiches têm, o que os torna infelizes, de que riem perdidamente ou de que choram numa convulsão de fazer pena. Construo-lhes uma história e escrevo-a no Moleskine, que também é para isso que ele serve.

 

***

 

Como resquícios de outros tempos da fidalguia, tinha uma ementa de um jantar no iate Amélia desenhada e dedicada pelo Rei D. Carlos. Estava numa bonita mesa inglesa, emoldurada ao lado de fotografias do seu pai, da sua mãe, dos seus irmãos, lado a lado com a realeza exilada no Estoril e Cascais. Habituara-se, em nova, a jogos de ténis e lanches em clubes elitistas. As noites, dançadas ao som de orquestras com brilho e glória, eram protegidas  por um manto de estrelas que só o poder do dinheiro e do nome podiam garantir. Casara mas não tivera filhos, e  separara-se anos mais tarde, numa altura em que o divórcio, não sendo curriculum, já não era cadastro.

Encontrou aquele que viria a ser o seu segundo marido numa missa de 7º dia onde, para além do falecido, se perfilava uma fatia grande do PIB nacional, e 80% dos sócios dos clubes lisboetas mais selectos. Antigo empresário, homem do seu nível social, com ele já tinha partilhado boleros e valsas inglesas, taças de champanhe e partidas de ténis, na variante pares mistos, onde ele evidenciara um jogo quase imbatível ao fundo do court. Agora, alquebrado e com problemas nas costas, mantém a sanidade física possível num gingar de desacerto esquelético.

Criaram ambos a rotina do paredão matinal: ela de carteira a tiracolo, como se transportasse as jóias que lhe restam numa louis vuitton bem imitada, porque a ladroagem na vila está por demais. Ele no seu desacerto constante, ombro para cá e para lá, braço descompassado da perna oposta, uma coluna desesperada a aguentar partes que parecem querer debandar.

O filme está, infelizmente, embotado - se não de miséria, pelo menos de desilusão. Ele joga todas as noites, tentando simular ao poker o bluff que não conseguiu nas negociações com os sindicatos. Perde mais do que ganha, porque a trinca não entra, a sequência máxima é muito difícil, o full hand está no domínio das hipóteses irreais. Vai buscá-la todos os dias de carro a Atibá, onde o elemento final de uma família que privou com condes e marqueses  é dama de companhia de uma idosa, com momentos cada vez mais improváveis de lucidez.

As noites agitadas arruínam os desejos de descanso nocturno e, por volta das quatro da manhã, com uma pontualidade que enerva, há um encontro, combativo e inesperado, na mente da anciã acamada: o fulgor e a confusão, a memória e o olvido. Nunca se saberá quem vence a contenda materializada num monólogo a quatro frases:

- Conheci muito bem a sua avozinha, devia eu ter uns doze ou treze anos. Cabia-me lavar as casas de banho todas - e olhe que eram muitas. Acho que a minha fralda está suja. Importa-se de a mudar?

Cruzo-me com eles todos os dias, conheço-lhes a história como ninguém. Ele traz no olhar o encavanço das cinco da manhã que o atirou, falido, para um sofá e uma água fresca sem gás. Ela traz a carteira a tiracolo, bem junta ao peito, porque a malandrice está como nunca se viu.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 07:30
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18 comentários:
De Ana LA a 4 de Julho de 2009 às 11:54
A mesma musica de sempre. A imaginação e a acutilância do olhar. Fico á espera de finais felizes. Adorei.
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 11:05
Obrigado pela visita. Tentaremos ter finais felizes, porque é isso que ambicionamos na vida.
De ritz_on_the_rocks a 4 de Julho de 2009 às 13:41
Querido João
Reli o texto acima para perceber bem o final.
Uma palavra

- Caústico.

Gostei e não esconde mágoas.
bj
Rita V.
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 11:06
Rita: como se costuma dizer, metade da palavra é de quem a escreve, a outra metade é de quem a lê. Não pretendi que a história fosse cáustica, apenas ironicamente divertida.
Um beijo e obrigado
De Luísa a 4 de Julho de 2009 às 14:06
Gostei imenso de o ler, João. Pela forma e pelo conteúdo. Conheço algumas pessoas que viveram essa mudança (ou aproximada), mas em que a troca foi, felizmente, de um certo «diletantismo» por um trabalho mais ou menos interessante, mas essencialmente «digno». Consigo, no entanto, imaginar casos, como o que tão bem descreve, ilustrativos de pouca ou nenhuma capacidade de reacção e de consequente decadência. As «revoluções» nunca, lamentavelmente, igualizam e, quando muito, invertem a (ou alguma) ordem social com uma enorme frieza.
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 11:10
Obrigado pela visita e pela sua mensagem. Há nesta história, totalmente inventada essa tal inversão social que a Luísa menciona. Para além do divertimento da escrita, podemos também confirmar (ou não?) o provérbio: não peças a quem pediu, não sirvas a quem serviu.
De Ana Vidal a 4 de Julho de 2009 às 21:18
Uma inversão de papeis que tocou a alguns (quase diria muitos) e que todos nós testemunhamos no paredão da vida quotidiana. No do Estoril, tem razão, o quadro conhecido é às vezes muito evidente.
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 11:11
Como sabe, vizinha e anfitriã, o nosso paredão é uma passerelle interessante de personalidades - as que conhecemos e as que inventamos. Há ali muito material...
De Ana Vidal a 5 de Julho de 2009 às 11:16
Oh, se é... inesgotável, mesmo.
Um beijo
De rita ferro a 5 de Julho de 2009 às 01:12
Li tarde, mas li: obrigada, João :-))
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 11:12
Obrigado sou eu.
De rocha a 5 de Julho de 2009 às 12:32
João
O que retiro da sua historia é uma das virtudes:
Aceitação
Será que tenho????
Beijos paredisticos
Rocha
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 18:42
Amiga Rocha: então não tem! Uma aceitação serena, de quem sabe que nem sempre estamos em cima, porque a vida dá voltas. Mas tem um passado lutador, e isso ajuda muito.
Beijos monte estorilenses
De Anónimo a 5 de Julho de 2009 às 14:09
JdB

É engraçado, no que disse na sua nota introdutória, é o que faço á muitos anos.

Quando por exemplo vou de carro, tenho a "paranóia" de ver a roupa que as pessoas têm estendidas nos estendais.

Mas, ainda sou mais curiosa, pois existem pessoas que fazem questão de viver em "montras", acendem as luzes todas e não fecham as cortinas.

Vêm-se as donas da casa, às voltas na cozinha, com aqueles armários de fórmica, que os contrutores , insistem pôr naquelas casas de bairros dormitórios.
Eu quando observo estas coisas, penso sempre , como será a vida daquelas pessoas!

Da segunda parte, saber caír de pé e com dignidade, não é para todos.

Parabéns, para a semana cá o espero......

cris
De JdB a 5 de Julho de 2009 às 18:44
Cris: obrigado pela visita. Essa de observar o estendal da roupa também tem o seu encanto. Diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és.
De Ana Vidal a 6 de Julho de 2009 às 00:36
Não resisto a deixar aqui a minha quadra popular favorita, tão a propósito:

Ó sua descaradona,
tire a roupa da janela.
Que essa camisa sem dona
lembra-me a dona sem ela!

:-)
De Pedro a 6 de Julho de 2009 às 15:25
No Areeiro, em casa da minha mãe, pontualmente também reparo nas casas e nas pessoas dos prédios das traseiras. São 50 metros a separar duas ruas, o suficiente para numa casa se comer vestido e na outra em tronco nu.
Tento imaginar o que é que aquelas barrigas suadas sobre a mesa fazem no seu dia a dia. Quantos daqueles, disfarçados dentro de um casaco com gravata, serão meus colegas.
Será que aquele fininho que está a dar comida aos trinta gatos que estão no quintal, pertence ao grupo de pessoas que no inverno vai trabalhar com o pijama por dentro das calças para aguentar o frio da paragem do autocarro?
E aquele general que mora no R/C com a mulher a morar no 3º andar do mesmo prédio, como é que grita agora com ela?
....
Um abraço meio arrepiado pelo nossa imaginação fértil e pelo óptimo texto.
Abraço
PB
De JdB a 6 de Julho de 2009 às 15:56
Pedro: obrigado pela visita. Fiz uma vez um cruzeiro pelas ilhes gregas e pela costa do Adriático. Se tivesse levado um moleskine tinha escrito um livro. Mas o Areeiro, como o paredão ou a Avenida Saboia, estão à mão de semear. é só ter o olho vivo e a imaginação desperta. Abraço

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