Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Semibreves

Ana Vidal

 

 

 

 

Cinzas 

 

Foram-se os dias mais iluminados 

as breves bebedeiras, os rastilhos

os projectos de livros e de filhos

ou de altos pinheiros nunca plantados 

 

Esgotou-se o tempo no olhar mortiço 

antes bravio, livre, amotinado

e do frémito ardente do passado

ficaram só as cinzas. Foi-se o viço 

 

do antigo sorriso. E a palavra 

solta e rebelde, hoje é tão comum

como o suspiro que entre rugas lavra 

 

E por fim, cruel como nenhum 

o último vigor que a alentava:

foram-se os ódios todos, um a um.

 

 

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publicado por Ana Vidal às 07:30
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36 comentários:
De Rita Ferro a 2 de Julho de 2009 às 07:58
Bom dia, Poeta!
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 12:21
Bom dia, Prosadora!
De meunikaki a 2 de Julho de 2009 às 08:15
Mas que baixar de braços!!!
Vamos animar isto, que mesmo com tudo a ir-se....o melhor é ir almoçar, pelo menos como Fernando Pessoa o propõe.

Dá a surpresa de ser.

É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gnomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
De Rita Ferro a 2 de Julho de 2009 às 08:34
Ah, tigre!
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 12:24
Bom almoço, Meunikaki... já vi que promete.
Só espero que não enjoe com o balanço... loool
De fugidia a 2 de Julho de 2009 às 08:31
Hum, estamos melancólicas...
Olha, vai comer, vai, que isso é tudo fome... (risos abafados)
(e sorriso, obviamente, angelical)
:-)
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 12:26
Nada melancólicos, querida Fugi, pelo contrário. Isto é só um retrato, felizmente não um auto-retrato!

Até já, vou almoçar. :-)
De JdB a 2 de Julho de 2009 às 08:39
Vem um homem do paredão onde, entre outras coisas pensou nos dias mais iluminados que se foram. Senta-se à secretária pensando que se esgota o tempo do lazer no olhar mortiço. Então, quando lhe vem à lembrança uma pequena irritação, percebe que os ódios se foram todos, um a um.
Bom dia de trabalho, se aplicável.
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 12:28
Se aplicável, João? Por aqui, o mais aplicável possível... e sem paredão. :-)
De meunikaki a 2 de Julho de 2009 às 09:12
Há horas do dia em que o Fernando Pessoa vem muito a propósito.... Lembranças de quando se passa pelo Martinho da Arcada, sei lá!
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 12:30
Lisboa, Tejo e Tudo?
Belo sítio para almoçar, o Martinho. E os barcos ali tão perto... :-)
De meunikaki a 2 de Julho de 2009 às 13:13
E Cacilhas e Cacilhas.....
De RAA a 2 de Julho de 2009 às 10:43
Esplêndido, vizinha.
Vejo que essa verve continua em grande forma.
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 12:28
Obrigada, vizinho, bondade sua.
Saudades de vê-lo por aqui. Volte sempre.
De ritz_on_the_rocks a 2 de Julho de 2009 às 15:36
Ginja

embrulho-me nas palavras
que escreves
adormeço ao relento
e lembro-me,
que até os ódios
de estimação já perdi ...

ah ah ah
bjs

Ginja
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 16:38
Mas não perdeste tudo o resto, miúda. Afinal, perdeste só o que não fazia grande falta.

Bjs
De Luísa a 2 de Julho de 2009 às 18:05
Ana, para além da forma, que me emociona sempre, e da perfeita conjugação com a imagem, há a ideia. E sobre esta, diria que, para uma velhice caturra, a perda dos ódios, um a um, é, sem dúvida, a cedência final. Mas para uma velhice gentil, a perda dos ódios faz-se com o mesmo «suspiro que entre rugas lavra», reconhecendo, sabiamente, a sua absoluta inutilidade. Espero, na minha velhice, poder trocar os meus ódios (que já são poucos e todos políticos), por projectos de «salto de pára-quedas». ;-D
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 22:10
Querida Luísa, não duvido de que a sua velhice vai ser muito sabiamente vivida.

Este retrato foi feito no masculino, mas eu substituí o artigo para o encaixar melhor na imagem de Magritte.

Quanto ao pára-quedas, darei notícias... ;-)
De imprevistoseacasos a 2 de Julho de 2009 às 21:34
Ana,
Independentemente do tom cinzento das palavras, a imagem criada é muito forte e particularmente perturbadora.
Parabéns. uma vez mais. pelo talento,
Fernanda
De Ana Vidal a 2 de Julho de 2009 às 22:12
Obrigada, Fernanda. A palavra certa é essa: perturbador. Foi o que senti quando vi o homem (era um homem) que me inspirou este retrato e me impressionou imenso.
De Anónimo a 2 de Julho de 2009 às 23:43
Brilhante. O soneto continua a ser a forma poetica por excelencia. Parabens pela qualidade.
De Ana Vidal a 3 de Julho de 2009 às 00:45
Concordo, Anónimo. Com a preferência pelo soneto, claro.
E obrigada.

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