Sábado, 27 de Junho de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

2ªfeira

Privilégios e necessidades levam-me a retomar os passeios matinais no paredão do Estoril. O sol ainda está relativamente baixo, o mar é um espelho, os mastros dos barcos no Clube Naval recortam-se na linha do horizonte. Ao longe, meia dúzia de cargueiros parecem vigiar a nossa baía, aguardando hora ou maré adequadas para seguirem o seu caminho. 

 Circunstâncias próprias conduziram-me a um modelo de vida profissional claramente mais incerto, mas seguramente mais confortável. Há quem encontre nos carros, barcos, roupas, jóias, férias, neve, restaurantes, os seus luxos e momentos de prazer. O meu luxo é o tempo, a não obrigatoriedade do horário, do patrão, do trânsito, dos colaboradores. Poder trabalhar ao Domingo e folgar à 5ªfeira; trabalhar um sábado de manhã, mas ir ao cinema a meio da tarde de 4ªfeira. Ter responsabilidades, mas geri-las à minha maneira.

A vida levou-me por este caminho. Sei que há um preço a pagar – a tal insegurança e incerteza – mas gostaria de poder continuar a pagá-lo, em nome de um equilíbrio interior que me é fundamental. O nosso tempo e a nossa qualidade de vida têm um custo. Quantos de nós queremos ou conseguimos pagá-lo?

 

 

4ªfeira

 Deambulo pelos livros da FNAC sem destino certo. Gosto de ver que o Treze gotas ao deitar, do qual a Rita Ferro é co-autora, se mantém num lugar de destaque. O Vitorino Nemésio, confesso, não me povoa o espírito, excepto quando me deparo com um livro cujo título é Mau Tempo no Anal, tendo como subtítulo Diário de um Paciente. Na capa, um saco de soro fisiológico (ou líquido semelhante) retira da minha mente pensamentos mais alternativos. Folheando o livro percebo do que se trata, e para o autor, um homem que venceu uma doença grave, vai todo o meu respeito e consideração. Mas o título… Mau Tempo no Anal? Alguém quer falar sobre isto?

 

 

5ªfeira

Represento a Acreditar numa fundação que actuará no campo da oncologia pediátrica, principal causa de morte não acidental das crianças. Dois dias antes recebera informação sobre o estado destas coisas no mundo: 250.000 crianças afectadas anualmente; 80% de taxa de sobrevivência nos países desenvolvidos, menos de 20% nos países mais pobres. Passei parte do Verão passado no Zimbabwe, tendo sido convidado a visitar a ala das crianças com cancro num dos maiores hospitais de Harare. Para aqueles que estiverem interessados em ler um relato tristemente real, aqui fica o link para o que escrevi no meu blogue:

 

http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.com/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html

 

Há alguns anos cruzei-me com o Pedro Bello, um pai que lutava um combate difícil que veio a perder. Homem incansável, decidiu fazer um livro aberto à colaboração de todos, sem excepção: textos, fotografias, desenhos, etc. Cedo-lhe parte da palavra:

E agora o que vai ser de mim? será o título do livro que talvez agora tenha pernas para andar.

 E agora o que vai ser de mim? foi uma das últimas frases que a minha filha disse ao entrar nas urgências,  pouco antes de entrar em coma.

 E agora o que vai ser de mim? é o desafio que vos deixo, um texto (real/inventado) com base nesta frase, para incluir no livro.

 A receita do livro, "alimentado" com o conteúdo do site

 

http://oncologiapediatrica.org/

 

reverte integralmente para a Acreditar.

Há por aqui, nesta Porta do Vento, gente que escreve muito bem, desenha muito bem, fotografa muito bem, tem mil e um misteres que executa magistralmente. Fica o desafio e a caixa dos comentários para dúvidas e sugestões.

 

 

6ªfeira

Frase lúcida e verdadeira para terminar a semana, aplicável a tantas realidades no domínio não suíno:

 

- Nunca tente ensinar um porco a cantar. Você perde o seu tempo e ainda chateia o porco.

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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18 comentários:
De Rita Ferro a 27 de Junho de 2009 às 10:14
Reflicto na tua segunda-feira e no tempo: há muito que deixei de o controlar. Ou o tempo a mim? Obrigada por esta manhã altruísta, vou pensar num texto para o Pedro Belo. Se tiver tempo :-))
De JdB a 28 de Junho de 2009 às 12:15
Hás-de ter tempo para isso, porque arranjas sempre para o que é importante.
De Ana LA a 27 de Junho de 2009 às 10:33
O tempo é afinal o nosso bem mais escasso. Viver o tempo é um dos nossos maiores desafios. Vamos a ele! Para quem não sabe escrever, cantar, fotografar, dançar ou outras coisas dessas, como se pode apoiar o livro do Pedro Bello ? É que, de facto, não se pode ensinar um porco a cantar (mas este desafio interessa-me), mas talvez se possa pedir ao porco quer nos ensine aquilo que sabe fazer de bom.
Beijo e até sábado.
De JdB a 28 de Junho de 2009 às 12:16
Ana: pode estar certa de que encontraremos uma forma em que a sua ajuda é preciosa. Só nos falta pensar um bocado...
De pcp a 27 de Junho de 2009 às 13:30
Dizia um arquitecto conhecido dumas amigas minhas que os bens mais preciosos, tirando a água, do século XXI, seriam o espaço e o tempo. Concordo plenamente. E como a questão do tempo já foi aqui muito bem retratada, refiro só o espaço. O espaço mental, o espaço próprio, o espaço físico, a necessidade de horizonte, o espaço interior. Sem o reforço destes dois - espaço e tempo - não se pode crescer em plenitude. Parece-me... até os santos precisaram disso em doses maciças (ou massivas??). Que bom vê-lo por aí, moleskine do norte de Portugal ....
De JdB a 28 de Junho de 2009 às 12:18
Obrigado, porque é nos seus textos que se vê a força do PCP. Espaço e tempo. Tinha toda a razão, o arquitecto. E que bem que casam ambas as necessidades. O espaço e o tempo.
De Rita Ferro a 29 de Junho de 2009 às 08:12
(maciças: não caia no massivas, que é anglicismo... :-))
De Anónimo a 27 de Junho de 2009 às 13:49
O porco normalmente chateia-se mais, garanto-lhe. Como tal o porco deve ser compensado com almoços e jantares bons. O porco está farto de salada. Teresa
De JdB a 28 de Junho de 2009 às 12:19
Não seja saliente, Teresa. Ter salada já é bom, porque podia ser um porco faminto.
De mike a 27 de Junho de 2009 às 14:19
Gostei de ler, JB. Mas olhe que já vi porcos a andar de bicicleta. Mas sim, tem razão, tinham um ar chateado. ;)
De JdB a 28 de Junho de 2009 às 12:20
Obrigado Mike. E a andarem de bicicleta MAIS a trautearem baladas antigas? De facto é uma via sacra, para quem tenta ensinar e para quem não consegue aprender.
De ritz_on_the_rocks a 27 de Junho de 2009 às 16:16
olá querido João
acompanho o teu passeio semanal
escuto o som da tua voz a cada palavra.
Detenho-me nas crianças e sobe por mim a cima qualquer coisa que de mansinho se espalha e me faz perder a força.
Releio os misteres e sorrio.

se eu puder ajudar em alguma coisa diz ...

bj querido João
De Anónimo a 28 de Junho de 2009 às 12:21
Rita V: obrigado pela visita. Vai pensando no que o Walter Ego poderia dizer. Uma curta banda desenhada? Podemos falar sobre isso.
um beijo
De Luísa a 27 de Junho de 2009 às 16:20
João:
2.ª feira: o maior luxo desta vida é, sem dúvida, ter tempo, poder alongá-lo em muitos momentos não rotineiros. Por mim, troco já o tempo pelos outros luxos todos (excepto o luxo da boa companhia). Note que não se trata de querer viver mais. Apenas de viver mais pausada e intensamente. :-)
4.ª feira: o título sugere um livro humorístico. Se o autor aborda a sua experiência negativa dessa maneira, João, parece-me muito interessante. Receio bem que a doença seja o «reverso da medalha» da vida, uma inevitabilidade, e que, às vezes, o negativismo com que se abordam certas inevitabilidades as torne ainda piores. O combate é contra a doença, sim. Mas é também, sobretudo, contra o sofrimento, físico e moral.
5.ª feira: vou pensar em que termos poderia colaborar, João. O tema assusta-me, confesso.
6.ª feira: deixo uma palavrinha de solidariedade para com os animais mais mal estimados da nossa imaginação moralizadora: o porco, o burro e o lobo. ;-D

De Anónimo a 28 de Junho de 2009 às 12:24
Luísa: obrigado pela visita. 4ª feira: O livro não era humorístico - pelo menos pelas poucas folhas por onde andei. Tinha descrições e palavras que o pudor que todos (?) deveríamos ter com algumas coisas me impediria de referir. Mas enfim, editor e autor saberiam o que estavam a fazer.
5ªfeira: obrigado pela disponibilidade. A Luísa faz publicamente duas coisas muito bem feitas: fotografia e texto. Mais não digo, mas podemos ir falando.
De meunikaki a 27 de Junho de 2009 às 23:36
Fico-me pela 2ª feira: o tempo, esse amigo/inimigo.
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Fico-me pela 2ª feira: o tempo, esse amigo/inimigo. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Recordar-se-os</A> , que não falhavam o The Muppet Show", os constantes pedidos de Miss Piggy a Kermett the Frog para actuar e a desculpa da falta de tempo que este alegava para que aquela não entrasse em palco, e da resposta que esta lhe deu: make time !" <BR>O tempo, de facto, faz-se, sendo que uns o fazem melhor que outros... parabéns JdB
De JdB a 28 de Junho de 2009 às 12:24
E fica-se muito bem, meunikaki. Já andei a vasculhar um cocktail para si, mas o tempo arrefeceu.
De Ana Vidal a 28 de Junho de 2009 às 19:28
Já só a tempo de deixar um beijo, pergunto-me o que fará alguém subverter um título do Nemésio com tal falta de gosto. Ainda se fosse humorístico...
Mau tempo no editorial, é o que é.

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