Sábado, 20 de Junho de 2009

Moleskine

João de Bragança

 

Domingo

Regresso à rotina depois de dias longos em gozo de férias. Fui um viajante incansável numa determinada fase da minha existência, mas foi preciso chegar à idade que tenho para conhecer Porto Covo. No blogue onde escrevo habitualmente, um companheiro de crónicas deambulava esta semana sobre os sítios da sua infância que foram sendo destruídos pela evolução dos tempos, fazendo desaparecer hábitos, pessoas e espaços que eram parte do seu imaginário. Visito a costa vicentina pela primeira vez, pelo que olho para um retrato, não vejo um filme. Ainda é o que era há 30 anos? Ou a tribo que lá veraneou deu lugar a uma horda desconhecida e demasiado heterogénea?

Daqueles dias de calor fica a memória de experiências gastronómicas leves (variando entre o faisão e a meia-desfeita), conversas de amigos à volta de temas diversos. Retenho uma: azares exagerados na vida de alguns mortais e que suscitam dúvidas sobre a existência de maus-olhados, assim como a utilização de pêndulos e outras artes para o equilíbrio das energias. Questiono-me: conheço alguém com tantos infortúnios acumulados e sobre quem possa dizer que está com mau-olhado? Ou alguém que seja tão pérfido que consiga derramar sentimentos negativos ao ponto de influenciar a vida de outrem? Ou será que o inferno somos, sobretudo, nós? 

 

3ª feira

A interacção de certas pessoas com certas pessoas, e as conversas inerentes, fazem-me recordar um passado ainda recente, no qual me arrogava tristemente a capacidade de avaliar as pessoas com base em critérios próprios. Não promovi, na minha escala de valores íntima, ninguém que o não merecesse, mas sei que despromovi, entre outros, aqueles que me pareceram os maus. Hoje vejo cometerem-se os mesmos erros. Como não paramos para perceber as atitudes dos outros, a pedra que lançamos do alto da nossa perfeição já vai, muitas vezes, a caminho. Tudo se resolveria se nos quedássemos um momento a avaliar as fragilidades de que cada um é (também) composto. A insegurança em sociedade pode gerar uma aparência de superioridade, o medo da solidão transformar-se em furor noctívago, uma vida de críticas pedir uma necessidade de afirmação. Somos demasiado complexos para nos ficarmos no primeiro olhar – normalmente crítico. Quando damos por nós a pedra já bateu, e alguém se contorce num sofrimento de dor e injustiça.

 

4ªfeira

Histórias sem nexo aparente:

Numa ponta da cidade, num gabinete com vista sobre o rio, um senhor X dá a seguinte instrução à secretária:

- Não se importa manda-me comprar duas dúzias de rosas e diz ao motorista para as entregar lá em casa? Faço anos de casado e a minha mulher gosta de rosas.

Na outra ponta da cidade, um outro senhor X, sentado num banco com vista para o rio, faz um soneto e chama-lhe rosas, porque a sua mulher gosta muito dessa flor. Também fazem anos de casados, e será o seu presente.

 

5ªfeira

Carta registada com aviso de recepção, proveniente da Polícia Municipal. Todo eu me agito numa preocupação – não só pela multazinha, que adivinho, mas pelas cicatrizes que podem vir a inscrever-se no meu cadastro automobilístico, desfeando-o sem retorno. Suspiro de alívio quando me apercebo do valor e do tipo: 30€, estacionamento em cima do passeio na Rua do Jardim do Tabaco. Data: 4 de Fevereiro de 2008. Será engano? 16 meses depois? Alguém tem sugestões?

 

6ªfeira

Leio no Google uma citação de Bertrand Russel, que reproduzo com tradução minha: se houvesse no mundo de hoje um número significativo de pessoas que desejasse a sua própria felicidade, mais do que a infelicidade dos outros, poderíamos ter o paraíso dentro de poucos anos.

Olho para os parágrafos anteriores e, na sua generalidade, reconheço-lhes um pensamento singelo, palavras escritas sem grandes preocupações de profundidade. Atento na minha vida dos últimos anos. Na sua esmagadora maioria, as profundezas a que desci ou as alturas a que me alcandorei foram, tantas vezes, um somatório de pequenos nadas: uma palavra que se diz a desoras, algo que se ouve de forma própria, pequenas quezílias que não se esclarecem atempadamente. Mas, também, uma frase milagrosa, um livro revelador, uma oportunidade agarrada, um olhar diferente. O encanto das pequenas coisas, porque a vida pode ser muito simples.

 

Sábado

Por sugestão do agora colega de blogue, João Paulo Cardoso (ver crónica de 6ªfeira), rumo à Amareleja, onde se esperam temperaturas amenas. Levo alguns pares de cuecas e um prato para comer ovos à alcatrão.

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 13:41
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25 comentários:
De odysseus a 20 de Junho de 2009 às 15:40
Há muitos anos atrás alguém que eu muito estimava explicou-me que ser «aristocrata» (ou «nobre», no verdadeiro sentido da palavra) não passa de um estado de espírito, nada tem a ver com os apelidos. Foi o que hoje me ocorreu, quando li o que escreveu. Fosse o seu apelido um muito plebeu Silva e o efeito da sua escrita seria exactamente o mesmo, porque a nobreza, a elevação, não advêm do nome mas antes da capacidade, que revela, de tornar melhor a vida dos outros. Há pessoas assim, com este especial talento, de todos os possíveis, talvez o mais ingrato. A bondade é uma qualidade que se manifesta de forma tranquila, silenciosa, e por isso passa facilmente despercebida, muitas vezes é, até, menorizada, por ser associada à pobreza de espírito. Nada mais injusto!

Constato, pois, que continua a justificar-se uma visita a esta «Porta», para ler as crónicas de sábado, não obstante as diferenças de estilo e até de conteúdo relativamente às anteriores. Bem haja! Bom sábado.
De JdB a 20 de Junho de 2009 às 21:34
Odysseus: obrigado pela visita. O nome que se tem herda-se; a educação recebe-se. A minha "nobreza" - qualquer que ela seja - serve, essencialmente, para a certeza de que o meu apelido me dá mais deveres do que direitos. O resto vem naturalmente: a atenção ao próximo, o àvontade em qualquer local, o trato com os outros.
De Luísa a 20 de Junho de 2009 às 17:28
João: vou por dias:
3.ª feira: é verdade que nos precipitamos frequentemente nos nossos juízos. Tenho pena quando fazemos injustiça às pessoas comuns, por incompreensão das suas intenções ou razões profundas. Já não tenho pena nenhuma quando estão em causa políticos. Esses têm outras responsabilidades e obrigação de saber que, em política, o que parece é. Com esses, devemos ser muitíssimo exigentes no plano da coerência do que são e pensam com o que fazem.
5.ª feira: ele há coincidências, João. Também recebi uma multa esta semana, por mau estacionamento – por acaso num sítio onde estaciono todas as noites desde há duas décadas – e também vem datada de meados de 2008. Ou estão a recuperar infracções antigas, ou é o serviço que anda muito atrasado (sendo que o meu palpite é a segunda hipótese).
Sábado: Vai ser, certamente, um excelente fim-de-semana turístico. O João Paulo conhece o «resort» e só dá bons conselhos. ;-D
De JdB a 20 de Junho de 2009 às 21:38
Luísa: obrigado pela visita. Não me refiro aos políticos, se bem que concorde em absoluto consigo nesse campo. Falo no nosso próximo, nas inteolerâncias, no imediatismo das apreciações, na certeza das nssas prórpias convições. O segundo olhar, sabe...
De JdB a 21 de Junho de 2009 às 10:06
E perdoem-se-me os erros de ortografia, derivados da escrita à media luz...
'nossas' e não 'nssas', 'próprias' e não 'prórprias'
De meunikaki a 20 de Junho de 2009 às 18:15
Vou ser sincero: está muito calor e o texto é muito longo; preciso de algo mais leve... Pode ser tenha mais força anímica para reagir a tantos dias quando do diáro do próximo sábado.
Bom fim de semana
De JdB a 20 de Junho de 2009 às 21:40
Tem toda a razão meunikaki:a canícula pede orchatas e banhos, não solicita grandes leituras. Obrigado, mesmo assim, pela sua visita.
De meunikaki a 20 de Junho de 2009 às 23:05
Vagamente mais fresco , eventualmente sem os miolos em ebulição, dedico-me à 5ª feira: é triste mas é verdade, a prescrição, ao que me dizem alargada de 1 para 2 anos para facilitar a incúria.... Admite-se que passe para 3 anos, acrescento eu, assim se garantindo que ninguém se safa. Alguém se lembra do que fez em 2006 com o seu carro (ou carro alheio)? É a forma fácil de resolver os problemas da bandalhice que reina, na sequência das garbosas reformas socratianas da ex-DGV. Resta-lhe contestar para se safar (talvez), mas o preço não justifica, a menos que também previssem a inibição de conduzir...
De JdB a 21 de Junho de 2009 às 10:04
Agradecimento renovado, meunikaki: de facto, ha lutas que não valem a pena. O dia de hoje volta a pedir refrescos. Se na próxima semana estiver assim, escreverei sobre cocktails de Verão...
De meunikaki a 21 de Junho de 2009 às 16:17
lol, espero que sim, e faço uma sugestão: se possível daqueles que, mesmo que se possam beber, se possam igaulmente despejar pela cabeça abaixo!
De imprevistoseacasos a 20 de Junho de 2009 às 19:00
Olá boa tarde
Destaco, à quarta-feira, a simplicidade de que
quem ainda tem tempo de qualidade para quem ama, correndo o "risco" de pensar em algo pessoal, dedicando-se a esse momento, tornando-o único...
Fernanda
De JdB a 20 de Junho de 2009 às 21:42
Obrigado Fernanda. Quem será mais romântico dos dois protagonistas. E quem vêem as mulheres como o mais romântico?
De Rita Ferro a 20 de Junho de 2009 às 23:16
João, traz dois pratos, que aqui não vendem :-))
De JdB a 21 de Junho de 2009 às 10:00
Rita: é que é já a seguir. Obrigado pela visita,
De ritz_on_the_rocks a 21 de Junho de 2009 às 04:45
querido João
gostei especialmente da quarta-feira

lembrei-me de todas as rosas que já enviei
de tantas outras que já recebi

depois ... também ... um passeio ao Esporão, onde aprendi que o bicho ataca sempre primeiro a Rosa e depois a vinha

bjinho

Rita V.




De JdB a 21 de Junho de 2009 às 10:01
Rita V: só espero que haja mais quartas-feiras na tua vida. É sinal de que se trocam, ainda, provas de amor. Um beijo e parabéns pelo teu Walter. Está um rapazinho muito interessante, que visito amiúde.
De fugidia a 21 de Junho de 2009 às 10:37
Optando pelo critério da Luísa, aqui vou deambulando pela semana:
dom: tenho notado nos "meus lugares" tudo diferente; é uma sensação de tempo a passar com um misto de tristeza (já não é) e de alegria (o que irá agora ser?);
3.ª :-) (e os que achamos os mais "difíceis" de lidar são, em geral, os mais frágeis);
4.ª e qual será, dos dois, o que é, de facto, mais feliz?
5.ª bom, em contra-corrente, tenho a dizer-lhe que, para mim, mais importante do que saber porque demorou tanto tempo a vir a multa, é saber porque é que o seu carro foi estacionado em cima do passeio? Ai, ai, ai :-(
6.ª acho mesmo que são as coisas mais simples que nos fazem sentir leves, felizes;
sábado: espero que tenha sido um bom fds.

Boa semana :-)
De JdB a 21 de Junho de 2009 às 13:48
Obrigado pela visita, Fugidia. Tem toda a razão quanto ao seu comentário à 3ªfeira. Há fragilidades bem disfarçadas, e outras são tão evidentes que só os "vegos" não conseguem ver, preferem fazer pontaria.
Quanto à minha multa, só lhe posso dizer: touché. Bom fds para si, também, em versão atrasada.
De Ana Vidal a 21 de Junho de 2009 às 11:03
Três pratos, se não se importam. Ainda sobrou alguma coisa? :-)
De JdB a 21 de Junho de 2009 às 13:53
Há sempre um ovo, um alcatrão e um calor para a nossa anfitriã. Traga o protector solar, que dá um cheirinho...
De GJ a 21 de Junho de 2009 às 21:10
João, escolho a terça e a quarta-feira.
As pessoas e as fragilidades, as pedras e os telhados de vidro que todos temos, não vale a pena dizer o contrário. Quando damos por isso já caiu naquele que não merecia. Normalmente apanha quem não queremos mas estava a jeito num dia em que a tampa soltou e zás.

Os associações aparentemente sem nexo são as que nos despertam sentimentos profundos.
Ter tempo para dar. Lembrarmo-nos do outro. Ter prazer em dar. Sentirmos que merecemos receber.

De JdB a 21 de Junho de 2009 às 23:34
Obrigado pela visita GJ. De facto temos um atirar de pedra por vezes muito "solto", e os que levam com ela nem sempre são os que merecem. Por vezes não olhamos as fragilidades dos outros, limitamo-nos a afinar a pontaria para melhor acertar no alvo.
Quanto à 4ª feira, questiono-me sempre o que vêem as mulheres quando se faz uma oferta...
De Anónimo a 24 de Junho de 2009 às 00:16
JdB
Permita que lhe faça um comentário pessoal,
o Sr, escreve tão bem, e dá-nos tantos momentos de reflexão interior, tanto aqui como no seu estabelecimento, que:
Será que sermos letrados, não nos trás uma inquietação maior no desejo de saber e ser?
Será que os mais simples de espírito, não são mais felizes?
Esta busca no nosso interior, de sermos mais, de sermos melhores, de sabermos dar, de querermos ser mais perfeitos (como seres humanos), de termos esta incessante busca de saber, não nos torna mais infelizes que os outros?
Outros esses que são terra a terra e que vem o Mundo com os olhos simples de uma criança?

Parabéns.
De JdB a 24 de Junho de 2009 às 08:42
Anónimo: confesso que já não esperava um comentário neste post, e só um acto quase reflexo me fez voltar aqui. Obrigado pelas palavras sobre o que escrevi aqui e no meu outro estabelecimento.
A resposta às suas perguntas talvez esteja no conforto que cada um sente, e na noção que cada um tem, também, do conceito de felicidade.
Querermos ser mais letrados, para usar a sua expressão, provoca seguramente inquietação, porque há sempre mais e mais. Pocure-se, então, na medida das possibilidades de cada um, sem se darem passos maiores do que a perna. Esta inquietação pode ser frutuosa. Todos os grandes criadores do mundo seriam, seguramente, almas inquietas. Dá jeito que haja gente asim...
Acredito que todo o ser humano tem a vocação da santidade - que se pode chamar perfeição. Atingindo-a, temos a felicidade absoluta. Até lá, o caminho é difícil, mas recompensador.
Fui uma alma inquieta para responder às suas interrogações. E parto inquieto, porque temo não ter respondido.

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