Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Lapsus Linguae

João Paulo Cardoso

 

 

A Amareleja e o Turismo Pateta

 

Está decidido e não consigo esconder a excitação, o que se torna verdadeiramente incómodo quando ando de Metro:

As minhas próximas férias vão ser na Amareleja.

 

Tal como gosto de reservar uma semaninha no Natal para visitar um primo esquimó, ou apanhar escaldões no deserto com um grupo de folclore beduíno com quem travei amizade durante um fim de semana radical em Buenos Aires, porque não passar o Verão na Amareleja?

 

Se há o turismo de massas (que consiste em cotovelinhos e fusilis a banhos no Algarve), o turismo rural (dividir cama com um burrico numa herdade alentejana), o turismo radical, cultural e até espacial, porque não este tipo de turismo a que chamei... ann... pateta?

 

O expoente máximo deste tipo de turismo surreal, absurdo e estúpido como uma porta, está então agendado para o período de canícula, lá para Julho, ou Agosto.

Ou Novembro.

Ou em qualquer outra altura porque estamos em Portugal, recentemente confirmado como país tropical.

 

Estão formalmente convidados para 15 dias de loucura na aldeia mais quente da Europa, quiçá do Alentejo.

Um amigo meu, a que carinhosamente chamamos Palhaço, já disse que ia sim senhor, porque entende que lá anda tudo em cuecas, factor potenciador de amizade e algo mais.

Tratando-se das cuecas dele e relembrando o acampamento de 1985 em Tróia, eu diria "algo mais badalhoco".

 

Com uns belos 47ºC em 2003, se não me falha o mercúrio do termómetro e o disco rígido da cachimónia, já na última sexta-feira a bela aldeia alentejana alcandorou-se aos 41 graus que, com jeitinho, já vai dando para estrelar um ovinho no alcatrão.

 

Prevendo de antemão uma corrida a esse paraíso de férias do concelho de Moura, distrito de Beja, tratei de reunir o máximo de informação possível sobre a Amareleja, costumes, língua, moeda oficial, pontos de interesse, descontos no Minipreço, essas coisas.

 

Na internet, agradeço desde já a prestimosa ajuda e apoio psicológico da Cidália Guerreiro e do seu blog "Amaralejando", a que acedemos digitando no rectângulozinho http://amarelejando.blogs.sapo.pt/.

Se poderia ter posto aqui um link?

Poder podia, mas não era a mesma coisa.

Até porque a internet só funciona de segunda a quinta no Alentejo, depois está fechada.

 

Fiquei então a saber no "blog onde se deve falar de Amareleja e dos amarelejenses" que a aldeia e os skaters estão orgulhosos dos seus painéis solares, que são assim a modos que uma tablete de chocolate branco enterrada no meio da planície...

 

... que um dos pratos tradicionais é o "Caldo de Espinafres com Bacalhau"... (podia ser pior)

 

... ou que as origens de tão belo e colorido nome estarão explicadas num documento de 01 de Abril de 1695, onde se fala de um tal "Lugar de Nossa Senhora da Conceição de MARELEJA".

Atendendo à data do papel bolorento, a coisa até deverá ser mentira but... who cares?

 

Importante mesmo é fazer com que o Turismo Pateta floresça radioso como um girassol e, nesse sentido, já ando a fazer a mala com aquele entusiasmo próprio deste tipo de férias.

 

A Teresa Guilherme recomendava num concurso que provocava aneurismas que nunca se esquecesse a escova de dentes.

Na mala do turista que pretende visitar a Amareleja, interessa mais uma boa colecção de cuecas.

Farei com que o Palhaço não se esqueça disso.

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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7 comentários:
De Rita Ferro a 19 de Junho de 2009 às 09:11
O turismo pateta... hummmm... mas existe outro?
De ritz_on_the_rocks a 19 de Junho de 2009 às 14:05
:-)

De JdB a 19 de Junho de 2009 às 14:33
Imagine-se se o presidente da camara de deputados da Turquia, que lá esteve recentemente, a apanhar com 40º... O protocolo de Estado sabe dessas coisas das cuecas?
De Luísa a 19 de Junho de 2009 às 18:42
João Paulo, presumimos, portanto, que a mala de turista do Palhaço, no acampamento de 1985 em Tróia, contivesse uma única cueca. Está entendido o sentido - e a gravidade - da sua expressão «algo mais badalhoco». Por momento, fui assaltada por pensamentos também um pouco «badalhocos», mas não eram num sentido tão grave. ;-D
De Ana Vidal a 20 de Junho de 2009 às 16:17
Prevejo uma mudança radical no nome da terra, com este calor de ananases, de Amareleja para Encarnadeja. Isto se os turistas não se deixarem torrar muito, porque nesse caso será Castanheja.
Por outro lado, na cueca única do Palhaço, ao fim de alguns dias o que haverá certamente é brotoeja...
De GJ a 21 de Junho de 2009 às 21:17
João Paulo, já algum vez lhe disseram que a sua escrita tem uma frescura absolutamente deliciosa num dia de calor?
É jovem, divertida e irreverente sem ser inconveniente. :)
De Luis a 16 de Agosto de 2009 às 13:24
Ora muito bem... Será turismo pateta ou o autor desta crónica é que será pateta? Manda a boa educação que não se fale daquilo que não se conhece... Ou que aquilo que se ouviu dizer pode não ser verdade e isso ainda é mais pateta. Enfim, chamar patetas a cerca de 3000 pessoas que vivem numa das mais pobres regiões da Europa, mas que tentam por todos os meios colocar a sua Vila no mapa para que possam olhar o futuro com mais confiança, é de uma cobardia atroz... Mas a Internet permite isto... Cada um pode, a seu belo prazer, dizer o que lhe vai na cachimónia sem prestar contas a quem de direito. Se no alentejo a "net" só funciona de segunda a quinta, há por aqui alguém devia ser enviado para lá e as semanas deveriam começar à sexta e terminar ao domingo... O maior e melhor pateta que eu conhecia era o da Disney, mas parece que há para aí outros escondidos atrás de um monitor...

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