Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Pocket Classic (Moby Dick)

Marie Tourvel

 

 

Falemos então de filosofia, bilionário. Gosto de falar sobre esse tema. E dá status para você. Não entendo quase nada do assunto, mas não é preciso entender. Sinta, só sinta... Moby Dick, de Herman Melville. Como? Você leu Moby Dick na sua tenra infância e ainda acha que a baleia branca era só a baleia branca? Eu também pensei, quando papai me deu o livro pra ler. Não é só isso. O livro é filosófico até a veia, bilionário. Resumo:

 

Professor maluco beleza abandona vida acadêmica para viver o romantismo do alto mar. Ele embarca na Pequod, uma baleeira do doidão Ahab, capitão que caça a baleia branca que lhe arrancou uma das pernas. Ahab nem liga para os perigos que a tripulação passa. Do tipo: “Danem-se vocês, quero essa baleia. Porque baleia boa é baleia morta”. Ele quer vingança. Não fica claro se a consegue.

 

Agora é que são elas, bilionário. Você ainda considera Moby Dick somente a grande baleia branca, não é? Ou, no máximo, aquele apelido que você dava à garota mais gorda da sala de aula na sua tenra aborrescência, não é? Você chegava na pobre gordinha e em vez de dizer que ela parecia um quadro de Botero, já ia mandando ela voltar pro mar, não é? Pois então, apresento a você a filosofia intrínseca a este grande romance do século XIX. Os intelequituais vão babar por você só de você proferir esta frase.  Diga que Melville, ao escrever o livro, travou uma luta consigo mesmo para fazer a narrativa avançar no desejo de filosofar e explorar. Diga que Moby Dick é uma verdadeira meditação sobre a condição e o estatuto da América – a democracia, a liderança e o poder. E sobre a natureza, por que não? A baleeira não passa de um microcosmo da sociedade americana. Diga que nunca antes naquele país –   Estados Unidos da América – alguém havia escrito com tanta intensidade e ambição. Eles vão adorar sua última frase, porque tem muito do nosso apedeuta, né? Você sabe quem é nosso apedeuta? Isso, o Efelentífimo. Presidente do Brasil-il-il. E você já sabe: se tirar uma radiografia do saquinho do Efê, aparecerá a mão de um monte deles, dos intelequituais. A baleia, caros, nada mais é que o Estado. O Estado é a baleia. Moby Dick é uma elegia, uma crítica política. Exausto, querido? Passe para outra rodinha. Mas, cuidado. Há um grande perigo no ar. Podem estar falando sobre o iminente terceiro mandato no Bananão.

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
link do post
15 comentários:
De Luísa a 16 de Junho de 2009 às 14:15
Querida Marie, como adivinha, li o Moby Dick na minha infância, embora não tão tenra, porque já teria ultrapassado a década, e julgo que numa colecção, que então havia por cá e dava pelo nome de Biblioteca dos Rapazes. (Mais tarde, vi o filme com o Gregory Peck). Como livro de aventuras não me atraiu particularmente, e desde logo tive a sensação de que representava mais do que uma simples caçada à baleia; de que havia subjacente uma luta entre várias forças do bem e do mal. O final trágico e a sensação geral de um ambiente muito deprimente bastaram para que nunca o «revisitasse». A ideia de uma crítica política faz renascer o interesse, embora, se a baleia representa o Estado, o final, de trágico, passa a hiper-trágico! Pois «morremos» todos nas mãos «dele», não é? ;-D
P.S.: Também por cá andamos aflitos com hipóteses de um segundo mandato. Para que rodinha «saudável» havemos de nos virar, Marie, não me diz? :-D
De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 01:51
O Estado pode matar mesmo, não é Luísa, querida? Mas a gente não vai deixar, né? :) O livro é bom demais. Revisitá-lo depois de ter lido há tanto tempo é melhor ainda.
Quanto à rodinha que devemos freqüentar, na dúvida, vamos sempre na de Flaubert. ;)

Beijos, amiga
De João Paulo Cardoso a 16 de Junho de 2009 às 14:19
É a primeira vez que algém, fora do meio do ilusionismo e do fantástico, condensa "Moby Dick" à escala liliputiana.

Felicito-a pela proeza e aproveito para dizer que gostava de ver a Marie Tourvel na tesouraria do meu Sporting.

Beijos.
De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 01:54
hahahahahaha

JP, meu querido, se pagar bem, que mal tem? Vamos para a tesouraria do tal Sporting. (Perdoe-me, mas Sporting é time de futebol, né? Não entendo quase nada do esporte, mas gosto muito da devoção dos homens por ele. ;) )
De mike a 17 de Junho de 2009 às 13:33
Sporting corresponde mais ou menos ao São Paulo, aí na capital Paulista. :)
De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 14:09
Xi, Mike, querido... corresponde ao São Paulo? Cê sabe qual é a do São Paulo por aqui, né? Time dos bambis... Pura maldade dos que torcem para outros times que não são campeões toda hora. :))))))

Beijocas!
De ritz_on_the_rocks a 16 de Junho de 2009 às 16:13
...brilhante!
bj e obrigada

Rita V.
De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 01:55
Ora, Rita, querida, brilhante é você. :)

Beijocas
De mike a 16 de Junho de 2009 às 20:12
Marie, agora é que você baralhou o bilionário de vez. Ele vai pensar que é o Moby Dick, uma imensa baleia. Putz, quem escreve assim como pode achar que é invisível, hein? ;D
De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 01:57
Meu lindo Mike, são seus olhos que me torna visível. E sua generosidade imensa lê o que escrevo como bom. Você é um amor. ;)

Beijos
De Ana Vidal a 17 de Junho de 2009 às 00:38
Li o Moby Dick há muito tempo (na aborrescência mesmo...) e impressionou-me imenso. A história pode ser lida como uma metáfora social e política, mas é também uma metáfora sobre a condição humana: a ambição, a cegueira, o fanatismo e a sede de vingança não podem acabar bem. Fantástico o final do teu resumo, Marie: "Não fica claro se a consegue". Não fica mesmo.

Um beijo :-)
De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 02:01
Aninha, querida, é isso mesmo. Quando li pela primeira vez, eu sentia a luta que era para o Melville avançar na narrativa. Ele queria mesmo era filosofar. Senti desse jeito. Mas quando li confesso que não entendia tão bem o mecanismo. Talvez continue a não entender até hoje, mas eu sinto. Basta sentir. :)

Beijos!
De ulisses a 17 de Junho de 2009 às 01:42
Acho que li o livro, numa daquelas versões para crianças, com muitas gravuras, mas «bué de chata». Gostei mais da sua, Marie.
Também vi o filme, do John Huston, e passei o tempo todo a torcer pela vitória da baleia. Definitivamente, prefiro o «Falcão de Malta»... :-)
Bjs

De marie tourvel a 17 de Junho de 2009 às 02:03
Ulisses, meu querido, era chato para crianças, sim. Aliás, acho que é um livro pra ler depois dos 15 ou 16. Mas a gente lia com 10 ou 11, né? ;)

Falcão de Malta é bom demais. :)

Beijocas
De Julio verme a 11 de Janeiro de 2010 às 13:06
A leirura que faço de moby dick e distinta , a baleia é Deus (não é branca por acaso) e quase todas a s referencias sao biblicas basta ver o nome dos personagens.E quanto ao facto do personagem principal dormir sempre com o selvagem representa o casamento entre cristão e pagão

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

favoritos

O triunfo dos porcos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil


ver perfil

. 16 seguidores

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds