Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Semibreves

Ana Vidal

 

 

 

Civilização

 

Hoje acordámos algures entre o Tigre e o Eufrates, e do mais alto zigurate contemplámos o mundo. Deixámo-nos cobrir de ouro e pedrarias e, com as asas de Enlil, voámos sobre Ur como pássaros deslumbrados. Eu dei-te o sagrado nome de Dumuzi e tu chamaste-me Inanna, tua rainha. E descobrimos em nós o mar primordial, os ancestrais tesouros que tínhamos guardados, sem o sabermos, na montanha cósmica da nossa memória. Hoje fomos inspirados Hammurabis, bordando palavras novas em pedra, para que nunca mais as esqueçamos e os vindouros saibam, um dia, que as proferimos. Hoje selámos promessas com licores e tâmaras tão doces como as nossas bocas recém-despertas. E depois esculpimo-nos em pedra negra com mãos aventureiras e livres, nessa pedra tão misteriosa como a origem do Tempo, sombreando a nácar e a lápiz-lazuli o brilho fascinado dos nossos olhos. Por fim, coroámo-nos imperadores do Sonho, porque os astros nos disseram que só ele persiste e permanece, mesmo quando tudo o mais se desfaz em ruínas. 

Hoje inventámos uma civilização. A nossa.

 

(Imagem: René Magritte - L'art de la conversation)

 

 

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publicado por Ana Vidal às 07:30
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29 comentários:
De meunikaki a 11 de Junho de 2009 às 09:18
Curioso! Comecei, inconscientemente, a decorar quem escreve a cada dia. Estamos, portanto, perante Inanna, uma rainha da Suméria, de Ur, mais precisamente. Ficam de fora Uruque e Lagache....
Parece-me uma boa continuação para o dia de ontem, mais íntima e pessoal, mais de "eu e tu, tu e eu". É uma boa escolha para um feriado pagão (à luz dos assírios, obviamente), em que apetece o remanso da manhã na companhia, no seu caso, de Dumuzi. Tenha um bom dia, que com este escrito já mo deu.
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 11:19
Obrigada, Meunikaki. Curioso este seu nome, que também podia ser daquelas bandas... será que conhece o casal real de que falo aqui? São meios-deuses, mas às vezes revelam-se aos mortais.
Um bom dia também para si. :-)
De Rita Ferro a 11 de Junho de 2009 às 09:23
Fantástico, Ana! Eu conheço-o?
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 11:15
Quem, o Dumuzi? Não sei... há quanto tempo não vais à Mesopotâmia? :-)
De Rita Ferro a 11 de Junho de 2009 às 16:26
(sonsa...)
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 19:22
Moi, sonsaaaaa??? Jamé.
De fugidia a 12 de Junho de 2009 às 20:23
Hã... hum... pois...

Bjs, Inanna e respeitosos cumprimentos ao Dumuzi :-D
(saindo de fininho, que o riso se quer soltar...)
De Ana Vidal a 12 de Junho de 2009 às 22:16
Pois pode rir à vontade, dona Fugi! Rir é a melhor coisa que existe, não sabia? :-)
De fugidia a 13 de Junho de 2009 às 10:24
Claro que sim: rio muito, para mim, de mim... solto o meu riso, feliz, sempre :-)

Mas a propósito do post, já dizia o poeta «nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria»...

E, sabes bem, os mouros e piratas gostam do riso solto ;-)

(beijo de bom fds na... Mesopotâmia?! lol)
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2009 às 10:46
Pois é, mouros e piratas têm bom gosto, no fundo... ;-)
E a Mesopotâmia é como o Natal, querida Fugi: é onde um homem quiser!

Beijo para ti também, e bom fds.
De mike a 13 de Junho de 2009 às 10:15
És uma sonsa, sim! (risos)
De mike a 13 de Junho de 2009 às 10:16
Mas não te impede de escrever lindamente... (sorriso cândido)
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2009 às 10:47
Saved by the bell, menino Mike...
Beijo da sonsa. :-)
De ulisses a 11 de Junho de 2009 às 14:00
Um «RÊVE» a sustentar um conjunto de pedras sem nexo é capaz de ser uma boa imagem da «civilização» vagamente babilónica em que vivemos. Não está mal visto, não senhor.
Votos de bom feriado, «entre o Tigre e o Eufrates».
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 19:27
Há outros reinos, para além desta babilónia diária. Felizmente.
De ritz_on_the_rocks a 11 de Junho de 2009 às 17:06
Ginja .....
Também querooooooo

um pedaço disso tudo !!!!!
ah ah ah ah

gostei, fiquei ligeiramente embriagada de qq coisa ... não sei bem de quê!

bjs
Rita V.
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 19:25
Guardo-te umas tâmaras, prometo. Licor é que não pode ser, que pelos vistos já estás entre o Tigre e o Eufrates... :-)
De tcl a 11 de Junho de 2009 às 20:30
o sonho suporta muitos pesos e instáveis equilíbrios. Adoro Magritte e este teu texto também :)
bjs
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 20:54
E eu gosto muito de ver-te por aqui, Teresinha.
Obrigada. Que tal o hamman de Istambul? ;-)
bjs
De tcl a 11 de Junho de 2009 às 22:08
vou amanhã! vim aqui ler a tua entrada a propósito, mas tive de entrar pela porta antiga qu aqui não dei com a busca por palavra-chave...
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 22:19
Ah, então aproveita bem. Vais adorar Istambul, não há outra hipótese.
Beijos, diverte-te.
De Leitor atento a 11 de Junho de 2009 às 21:19
Texto lindíssimo e muito bem adaptado ao quadro de Magritte . Devia publicar esta série, já são tantos e tão bons. Pense nisso.
Abraço
De Ana Vidal a 11 de Junho de 2009 às 22:23
Caro Leitor atento, obrigada por essas palavras tão simpáticas. Nunca me passou pela cabeça publicar estes textos, são uma brincadeira que faço com os quadros de Magritte, só isso.
Um abraço.
De Luísa a 12 de Junho de 2009 às 02:20
Faço minhas as palavras do Leitor Atento, Ana. Acho muito bonitos, ricos e imaginativos estes seus textos poéticos – e românticos… - em torno dos quadros de Magritte. Caso para fazer também minhas as palavras (ou dúvidas) da Rita (F.) … ;-D


De Ana Vidal a 12 de Junho de 2009 às 12:24
Ah, querida Luísa, já não se pode ter liberdades poéticas... loool
Digamos que ando mais esvoaçante do que o costume, admito. O que não se reflecte necessariamente na qualidade dos meus textos...

De imprevistoseacasos a 12 de Junho de 2009 às 11:42
Muito belo, Ana.
Gosto da ideia de esculpir um sonho, burilar com cuidado o amor, proteger as palavras, selando promessas.
Pode ser assim, também? :)
Publique por favor estes textos, são um bálsamo!
Um beijo da Fernanda
De Ana Vidal a 12 de Junho de 2009 às 12:26
Pode (e deve, diria eu) ser assim, Fernanda.
Um beijo para si também!
De CNS a 13 de Junho de 2009 às 09:42
Para além de gostar imenso destes seus textos, a forma como os enquadra com a pintura é sem dúvida excelente! Este texto em particular têm a doçura de um cântico...

Bom fim de semana, Ana.
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2009 às 10:49
Obrigada e bom fim-de-semana para si também, Cristina. :-)

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