Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

 

 

(Pietá, de Paula Rêgo)

 

Partilho hoje o texto mais verdadeiro que li sobre o amor. Não será o mais belo do ponto de vista formal nem o mais depurado poeticamente. Mas é sem dúvida aquele que mais me disse ao coração e à experiência. É de Pedro Paixão e acompanha-me há muitos anos. Costumo oferecê-lo a quem encara o amor como coisa cor-de-rosa e se assusta com as suas dificuldades. Lembra-nos que o amor não é um homem ou uma mulher, mas um trabalho que se vai corrigindo ao longo da vida. E que, mais do que um sentimento, é uma habilitação ao maior dos sentimentos. Nasce-se sabendo-o, ou aprende-se.

Mas não é para todos e envolve

trabalho, dor, risco e coragem.

 

Concorda?

 

 

Amador

 

Começar por amar a impressão de um só corpo. Mais tarde buscar em vários, muitos, um só corpo já das mãos e dos lábios conhecido. Depois amar por partes, escolhendo, as mais das vezes, a pequena imperfeição onde o prazer se acende. Tudo isto longe, muito longe do amor.

 

É que doem tanto as primeiras paixões que se enfurece justamente. O que se encontra é outra coisa, talvez melhor, talvez, mas não o que se tinha mais que tudo preferido. Os dedos a perderem-se nos cabelos, por exemplo. Só isso? A paixão tem de doer, é isso que quer dizer. Tudo isto muito tempo, porque mesmo assim não se desiste facilmente.

 

E depois, ao perder a âncora, a paixão faz volteio dentro da cabeça. Então vem a saudade que lhe enche o peito e vive só de sombras e fantasmas com insónia. É de uma fidelidade triste porque sem motivo. Dorme-se de menos por se sonhar demais e é tudo.

 

Por isso se desespera e se procura sem perder mais tempo, porque já se vai atrasado, aquilo que se perdeu naquilo que em volta há. Pode demorar muito tempo e nunca se ir encontrar. Pode apegar, pegar, apanhar, mas não mais apaixonar. Apaixonar é verbo passado, primitivo. Vai-se de corpo em corpo à procura do mesmo e é sempre outro e diferente e dá tonturas e dá trabalho e causa dor, não nele, imune, mas nos outros, que se deixam embaraçar, abrasar, enganar, porque talvez também se queiram enganar.

 

E chega o tempo de preferir a cara deste, e as mãos desta, e o corpo-tronco daquele ou tudo junto de repente. É o tempo de analisar tudo minuciosamente, partir, despedaçar, ver por dentro, dar a volta sem pretender sequer voltar a reparar. E pode-se ficar por aqui e pode-se até voltar atrás, mas já não da mesma maneira, porque para voltar só vale a pena por uma pior. É o vício a descobrir-se na repetição atraente, irrecusável mesmo, com cenas de ódio pelo meio a intervalar. Tudo isto mais longe do amor, se for possível. O amor sempre mete muito medo.

 

Mais vale aquela pequena imperfeição onde o desejo se acende e arde e leva consigo o tempo em frente. Amanhã o abismo, mas só amanhã. Como recusar, o que vem assim sem se saber porquê? Como cansar o que prefere morrer a sossegar? Para quê afastar o que se dá no presente e o enche nem que seja no bastante momento em que se está? Não há resposta e é de propósito que a não há. É preciso ficar doente para se curar e quanto mais doente melhor e pior ao mesmo tempo. E pode-se ficar assim ou querer voltar ao começo, só que já não o há, é só pequena superstição a aliviar a alma brevemente de tanta ilusão que só serve para atrapalhar.

 

Pode-se ficar frio no corpo e quente na cabeça. Ou frio no corpo e trazer o corpo a escaldar. Pode-se querer mais do que tudo perder a cabeça ou deitar o corpo pela janela do sétimo andar. Pode-se demais, é esse o problema. E se todos se portam mal já não vale a pena portarmo-nos mal, não será assim? Pode ser. E depois há a idade a trazer cabelos sem qualquer cor com a cara frente ao espelho sem se querer acreditar. E o medo cresce sempre. E o prazer precisa de crescer ainda mais para o abafar. E o corpo começa a doer e a adoecer e a recusar servir o que quer que seja, a não prestar nem para comer, quanto mais.

 

E pode-se ficar por aqui, ou recuar. Mas não é possível recuar, ou simplesmente então acabar de livre vontade ou imperiosa necessidade por já não se aguentar. É sempre demasiado tarde para acabar. Não vale a pena acabar.

 

E depois dá-se o milagre. O que pressupõe que tudo o resto fica tal como está, e como é perfeito, insuficiente, as mais das vezes repelente. O milagre acontece ou não e é tudo. Nem é natural que aconteça. É por isso que é milagre. O amor pode chegar. Mas donde vem? Para onde vai? Quando chega vem para quê, o amor? Grande e inútil milagre este sem resposta e é de propósito que não tem resposta.

 

Há quem não acredite e está bem assim. E há quem só acredite e ainda é melhor assim. Como em tudo é preciso crer para ver. Mas não é preciso, menos ainda obrigatório, é uma graça que só vem se quiser, quando quiser e pelo tempo que quiser e é o melhor de tudo o que possa acontecer. E o prazer é a recompensa que acompanha o bom trabalho, entre todos o mais difícil, agora perto, muito perto, o trabalho do amor.

 

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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49 comentários:
De Pitucha a 10 de Junho de 2009 às 08:28
Gostei do texto e confirmei que a paixão me incomoda. Porque o texto também me incomodou! Prefiro a calma da certeza do que a galopada das descobertas. Isto porque se corre em busca da planície florida e se acaba caíndo em precipício profundo...
Bom, fiquemos por aqui.
Beijos Rita
De Rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 19:42
Somos diferentes, Pitucha, eu persigo a paixão em tudo: no amor, na amizade, nos mais pequenos gestos. O preço é caríssimo como tudo o que é bom :-)) Um beijo grande para si e, por favor, volte!
De mike a 10 de Junho de 2009 às 08:55
Sou sincero, Rita: concordo. E devo dizer-lhe que me sinto um privilegiado por ser leitor habitual da Porta do Vento e ter sido aqui que a Rita partilhou um texto com tanto significado. Mas creio que falta uma palavra ao texto de Pedro Paixão quando é de amor que se trata e da forma como ele o vê. Competência. Amar exige competência. Concorda? :)
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 12:05
Lá vem ele com a competência... ;-)
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 19:47
E tu com a implicância habitual, Ana :-)) LOL
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 20:00
Claro, esta história da competência já é um clássico entre mim e o Mike... e já implicamos só por graça. :-)
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 19:45
Não sei, Mike, acho-me totalmente irracional nestas coisas. Tenho esperanças de que o meu instinto seja competente :-)) Beijo para si, andava muito calado, cheguei a preocupar-me :-))
De JdB a 10 de Junho de 2009 às 09:14
Leio o texto, por força das circunstâncias, um pouco na diagonal. Terei oportunidade de o revisitar e talvez encontrar outros ângulos igualmente fascinantes. Retenho a última frase, que refere o trabalho do amor. De todos os que tive, sem dúvida o mais difícil. Porque nem sempre há quem nos ensine, nem sempre há quem nos oriente. Muitas vezes é uma auto-aprendizagem, com gozo, com sofrimento, com sol e sombra, com quedas múltiplas. Mas sempre, sempre, desafiante, se não quisermos fazer da nossa vida um monólogo que esmaga. Olho para dentro de mim e lembro-me de um pensamento de Confúcio, com que me cruzei no outro dia, e que dizia que a nossa maior glória não estava em não cairmos, mas em nos levantarmos sempre que caímos.
De JdB a 10 de Junho de 2009 às 09:19
Volto para um ligeiríssimo comentário em jeito de pergunta: quando olhamos para o quadro da Paula Rego, e para aquilo que ele representa, estamos a falar do mesmo amor? Não me parece, mas a dona do post, que sei apreciar a pintora, lá terá as suas razões.
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 19:55
A Ana acertou, caramba! As mulheres criam os filhos até terem barbas e continuam a criá-los nas suas camas :-)) (incesto à parte, claro)

De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 19:51
Também gosto dos ingloriosos, J. Dos que caem e não conseguem levantar-se. Há muitas partes de nós que já caíram e não se levantaram mais, só que ninguém sabe. Muitas. Duvidas?
De imprevistoseacasos a 10 de Junho de 2009 às 09:39
Querida Rita
Mais uma vez um excelente texto. Sabes, penso que muitas vezes a nossa necessidade de sentirmos, sentirmos a sério, com dores, agonia, tonturas, e todas as coisas que a literatura narra tão bem, parte do impulso de baralhar e voltar a dar. Querer sentir. No amor sente-se tanto, na paixão sente-se demais? Não creio. O amor profundo, a paixão superficial e pontual... também não creio. Penso antes que por vezes sentimos o impulso, a necessidade de sentir paixão, de canalizar um impulso para um objecto de desejo, de pulsar. Tudo isto pode correr a par do amor, porque este não é enfadonho. Pode correr lateralmente, dirigido a outra pessoa, ou não. A música da Rita Lee em que define amor e paixão faz-me rir, mas é uma forma de ver ambos, num ritmo comum. Não acredito que sintamos menos paixão com o correr da vida. Penso que a maturidade faz-nos abraçar grandes paixões, com o abraço do amor...
Um beijo da Fernanda
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:00
Sempre achei isso, Fernanda. Há um filme do Cassavettes (love streams, penso) em que se fala disso: «o amor é um fluxo contínuo», no sentido de o amor ser anterior ao objecto, de os objectos serem felizes (e acidentais) receptores dessa energia... Um beijo de Porto Covo, Fernanda...
De maria a 10 de Junho de 2009 às 10:47
Não sei o que fazer sem ti.
Básicamente parei no tempo e a vida arrasta-me num significado estranho que não consigo identificar.
Quando pronuncio o nome de um homem, engano-me e chamo por ti.
Quando faço amor, suspiro o teu nome.
As lembranças queimam-me mais que os teus beijos longinquos.
Olho, vazia, as tuas últimas prendas e o teu sorriso ao ver o meu a abri-las...
Como pudeste largar no caos o grande amor da tua vida?
Conseguiste ser minimamente feliz?
Não acredito.
Porque o que nós tinhamos só se tem uma vez na vidal Não dá direito a remake.
Um dia, alguns anos depois de teres esvaziado as nossas vidas (não tinhas esse direito), atiraste-me à cara tudo quanto conseguiste realizar, numa compensação tão triste do teu vazio.
Depois perguntaste-me : E TU ?
Eu respondi : SOU FELIZ.
Foi a maior mentira mas defendi-me assim. Mordendo e arranhando como uma gata brava.
Nunca mais falamos.
As barreiras tinham subido mais uns metros e não havia forças para as saltar.
Acho que nenhum de nós era bom em transpor obstáculos.
Agora que partiste, acho que entendeste o estrago que fizeste...
Adeus, meu amor, meu único amor, até um dia...

maria de são pedro
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:03
Lá está, Maria, nem de propósito: o objecto foi-se, talvez, mas a sua capacidade de amar está intacta e em acumulação! Happy next!!
De meunikaki a 10 de Junho de 2009 às 11:02
"Viver todos os dias cansa", dizia o Pedro Paixão em título. Pois, chega-se cansado ao final deste seu texto, com milhares de perguntas sem resposta, ou com respostas baralhadas, pelo medo que o amor e a paixão causam no nosso quotidiano "sem surpresas". Havendo uma exclusão entre o amor e a paixão (veja-se Rita Lee, referida algures), sabemos bem que não é assim sempre, e ficamos, mais uma vez, confusos e impotentes perante sentimentos que não controlamos..... Pode ser que volte aqui mais tarde, como o JAB.... para alguma correcção ao que disse, ou complemento.
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:07
As pessoas têm o quotidiano que traçam, Meunikaki, o meu é surpreendente, sempre foi. As pessoas temem as surpresas como temem o amor, terão então poucas surpresas e pouco amor. Há gente que vive tanto para não ter chatices que acaba por tornar a vida numa rotunda chatice :-))
De meunikaki a 10 de Junho de 2009 às 11:04
Uma correcção: não é JAB, é JdB. Desculpem...
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:10
Não se importam: são amigos e estão ambos comigo :-))
De João Paulo Cardoso a 10 de Junho de 2009 às 11:41
Bonito rendilhado de palavras sobre a mais complexa das emoções, o amor.

Beijos.
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:12
Há quem diga que o amor é um sentimento e a paixão uma emoção... mas eu nunca soube separar os dois! Beijo para si, Joao Paulo!
De João Paulo Cardoso a 10 de Junho de 2009 às 11:55
Amor e algodão doce também no meu humilde bloguezito, "O Eldorado".

http://oeldorado.blogspot.com

Gostava de convidar a Rita (e a Ana, e todos os outros) a passar por lá e deixar um comentário, se possível.

Beijos.
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:14
Irei assim que arrumar esta gaveta... :-))
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 12:03
Andamos sintónicas, miúda. Não só concordo integralmente com este texto (já o conhecia e acho-o magnífico) como ainda na semana passada trouxe aqui aquele fantástico poema do Drummond, que diz o mesmo. Se há coisa que aprendi com o tempo é que "Amor é privilégio de maduros". Tudo o resto, antes disso, é aprendizagem. Uma aprendizagem empolgante e deliciosa, não nego, mas muito longe do que é realmente o Amor. O segredo está em perdermos o medo de classificar de Amor o que sentimos quando a pirotecnia habitual não é tão exuberante, viciados como estamos em emoções fortes. Temos medo de aceitar isto pela simples razão de que vemos nisto uma desistência, em vez de uma conquista. Pelo humaníssimo medo de tudo o que nos aproxime mais do fim do que do princípio das coisas. O segredo está em aprendermos a equilibrar melhor o que damos com o que recebemos, embora o Amor seja sempre dar mais do que receber.

Quanto à belíssima pietá da Paula Rêgo, lembra-me outro post meu recente (continuamos em sintonia): é a isto que me refiro quando digo que as mulheres embalam os seus homens toda a vida. Respondendo ao nosso JdB, esta pietá sugere-me - posso estar enganada na interpretação, claro, mas a pintura presta-se sempre a várias leituras - um amor sexuado homem-mulher, ao contrário da clássica pietá de Miguel Ângelo.
De JdB a 10 de Junho de 2009 às 19:35
Um comentário apenas à sua interpretação da pietá. embora perceba esse carácter embalador das mulheres. Uma pietá, qualquer que ela seja é, para mim, representativo do amor de uma mãe por um filho que sofre, neste caso que morre. E nesse sentido, por aquilo que saberá da minha vida, é "só" isso que vejo. Nesta pintura, se bem me lembro, o modelo de Cristo é o de um amigo da família que morreu ainda novo.
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 20:12
Claro que percebo as razões da sua interpretação, J., e ainda por cima é esse o significado da original pietá. Mas, para mim, é uma coisa mais lata. Ou seja, vejo na pietá uma mulher que ampara um homem fragilizado e exaurido, sem forças para continuar sozinho. O amor dela tem muito de maternal (tem sempre, o amor de uma mulher, acho eu), mas para mim ele não é necessariamente um filho, no sentido genético da palavra.
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:16
Mulher sabe, JdB. E logo esta:-))
De rita ferro a 10 de Junho de 2009 às 20:19
Não somos amigas por acaso e isso enche-me de alegria :-))
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 20:27
E a mim. :-))

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