Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Pocket Classic (Gargântua e Pantagruel)

Marie Tourvel

 

Você vai se perguntar, bilionário, o motivo por eu apresentar François Rabelais a você. Saiba que a leitura desta obra prima renascentista foi imprescindível para que eu entendesse um pouquinho o que representa a literatura. Você dirá: “nada, a literatura não representa nada”. Ora, não representa mesmo, mas é uma diversão das boas, fala sério! E não pense você que os cinco volumes deste livro são do conhecimento de todos os nossos amiguinhos intelequituais. Não. Muitos deles, no máximo, apenas ouviram falar de Rabelais. E a grande maioria, inteléquitos ou não, pensa que médicos (Rabelais era um) e engenheiros não sabem escrever, não é? Sabem sim. Geralmente escrevem melhor que muito jornalista letrado que anda por aí. Eu sou engenheira mecânica, mas sou exceção, está bem? Não tire conclusões baseado em mim, bilionário. Resumo:

 

Pantagruel e seu pai, Gargântua, são dois gigantes exagerados e comilões, mas de nobre coração. Suas agitadas vidas incluem seqüestros, estudos, amizades, métodos bizarros de educação, sexo, doenças, palavrões de montão... E a viagem nunca termina. Ironia das boas.

 

Lembra-se do Swift que resumi há algum tempo? Isso, As Viagens de Gulliver. Saiba que Swift bebeu muito na fonte de Rabelais, isso 175 anos depois. Pode falar isso sem medo nas rodinhas. Aliás, muito do que falar não será tão contestado assim. Como eu disse a você, não foram tantos intelequituais assim que tiveram contato profundo com o autor. Diga que a verdadeira história do romance moderno começa com Rabelais. Que os livros dele representaram uma inovação na escrita. Que eles misturam energia retórica, humor lingüístico e imaginação, e que, fazendo essa misturada, o autor antecipa a história do romance. É um livro de espírito livre. Combina materialismo vulgar com uma cética imaginação humanista. Os intelequituais neste momento não conseguirão ficar de boca fechada. Estarão de boca aberta e sem palavras para descrever o que estão pensando de você. Saiba que à sua época –lá pelos idos de 1550, esta obra foi censurada e considerada como heresia. Como se vê, a ironia sempre perde. Não precisa dizer mais nada, não. Os inteléquitos estarão tão embasbacados com sua “sabedoria” que, se você se afastar, só perceberão sua saída depois de alguns minutos. Pois saia, e passe para a outra rodinha.

 

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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30 comentários:
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2009 às 13:37
Nunca li os calhamaços, Marie, mas lembro-me de um conto da minha infância sobre estes dois gigantes de Rabelais (não me lembro é do autor). Era divertido e, só percebi mais tarde, uma alegoria cheia de ironia e de crítica social.

Um beijo
De marie tourvel a 9 de Junho de 2009 às 22:51
Ah, Aninha, eu sabia que talvez iria assustar com estes comilões gigantes. Os queridos comentaristas até sumiram, né? É que eu gosto muito de Rabelais e não poderia deixar de colocá-los entre os meus pockets. :)

Um grande beijo, querida.
De ulisses a 9 de Junho de 2009 às 23:27
Assustar é o meu caso. O mais provável é «ou entrar mosca ou sair asneira» ... :-)
Seja como for, há que reconhecer que a sua vontade de tornar «comestível» estes «banquetes de erudição» é notável. A propósito disto [banquete/comestível/livros] lembrei-me de um livrinho engraçado, que foi publicado há pouco tempo, sobre um rato intelequitual. Já leu?
Ora espreite aqui:
http://aosabordoslivros.blogs.sapo.pt/6264.html

De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 02:34
Então, Ulisses, eu não procuro dar "banquete de erudição". Mesmo porque sou um tanto rasa para isso. Pretendo só mostrar que a literatura é uma festa, uma diversão. E Firmin é uma graça, né? :)

Um abraço
De ulisses a 10 de Junho de 2009 às 04:24
Eu escrevi «banquete» porque sempre são 5 volumes, e «erudição», por se tratar de literatura do séc.XVI, mas sei bem que as suas crónicas são o contrário do sentido que parece ter ficado subentendido, e que eu não tinha em mente quando escrevi. A língua portuguesa é traiçoeira mesmo, ou então sou eu que já estou cansado [é o mais provável...]. Por favor releve. Gosto de a ler. A sério. Mesmo!
Um abraço



De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 11:36
Ulisses, querido, eu entendi o que você quis dizer. Eu só lamentei que não posso dar um banquete como fazia Rabelais. Não tenho nada a relevar. Você é um querido deste espaço e adoro saber que lê sempre. :)

Não mando mais abraço a você. Mando um beijo. :)
De ulisses a 10 de Junho de 2009 às 14:59
Você é que é um doce, Marie!
Um beijo para si também.
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 00:38
Não fiques impressionada com a ausência de comentários, Marie... por cá há feriados esta semana e quase todos aproveitam para umas férias curtas. Eu não, que tenho trabalho, por isso podes contar comigo para a conversa.

beijo
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 02:38
Conversar com você é sempre um prazer, Aninha. Sabe que adoro, não é? :)

Mais beijos
De mike a 10 de Junho de 2009 às 08:58
Conversar é com a Ana e desconversar é comigo, Marie. Mas olhe que a Ana também desconversa muito bem. (risada)
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 11:38
Eu converso e desconverso com os dois, tá bom assim? Adoro vocês, queridos amigos.

Beijos!
De sonique a 9 de Junho de 2009 às 16:59
Foi numa biblioteca perto da minha casa
( um achado) que folheei pela primeira vez Pantagruel e Gargântua...sabia que seria livro para uma leitura futura, já que marco meus encontros com os livros...ao ler seu post tenho a certeza plena de que ele estará na programação das minhas férias...passarei este mês de julho entre os livros
De marie tourvel a 9 de Junho de 2009 às 22:52
Faça isso, sonique, tenho certeza que não se arrependerá. É muito divertido. :)

Beijos!
De mike a 9 de Junho de 2009 às 20:16
Marie, não li nada do que você fala e só me lembro de ver o Pantagruel na cozinha da minha mãe. Mas nunca o abri (sou um péssimo cozinheiro, sabia?). Mas gosto à beça do que que a menina escreve. E sim, ironia sempre perde e esse bilionário cafageste que passe para outra rodinha. :)
De marie tourvel a 9 de Junho de 2009 às 22:54
Mike, querido, eu cozinho pra nós dois, está bom assim? :))))))

Vai, bilionário cafajeste, passe pra outra rodinha já! :))))))

Beijos e obrigada por seu carinho. ;)
De ritz_on_the_rocks a 9 de Junho de 2009 às 23:39
eh eh eh
se puder cozinhar para três ...então ainda era melhor ...

eh eh eh

bjs lusos
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 02:36
Claro, Rita, querida. Vou ao fogão, então. :))))))

Beijos bananeiros. :))))))
De Luísa a 10 de Junho de 2009 às 00:28
Marie, faço minhas as palavras da Ana e do Mike. Também me lembro de umas histórias infantis com esses «gigantes», mas lembro-me, sobretudo, do gigante livro de cozinha da minha mãe, chamado Pantagruel, já bastante amarelecido do uso. Gosto sempre muito de a ler. E descansa-me saber que, se o assunto vier a talhe de foice nas minhas rodinhas sociais, poderei dar o meu palpite, discreto, cauteloso, mas seguro. ;-D
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 00:43
O Pantagruel é um dos livros que mais uso na cozinha, embora acabe por alterar completamente as receitas. O meu está velhinho e tem muitas anotações e receitas manuscritas, por várias gerações. Uma preciosidade que estimo como se fosse a primeira edição d'Os Lusíadas! :-)
De Luísa a 10 de Junho de 2009 às 00:55
Penso que houve umas reedições recentes, Ana, e estou a pensar pôr-me em campo e fazer o investimento, porque a minha filha está a revelar bastante interesse por fogões e eu tenho assumido esse pelouro nos «jantares de Domingo». E preciso de compensar, rapidamente, a falta de prática com muita e boa teoria. ;-D
De Luísa a 10 de Junho de 2009 às 00:57
Mas antes de investir nesse Pantagruel, ainda invisto no da Marie Tourvel. ;-D
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 02:49
Luísa, querida,

:D

Mais beijos
De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 01:07
Já agora, Luísa, a Guimarâes reeditou recentemente outra bíblia da cozinha, ainda mais antiga: O Bento da Maia. Vale a pena comprar, se não tiver, embora seja uma versão muito mais reduzida do que o original. Tem receitas da cozinha tradicional portuguesa que são absolutamente divinais.
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 02:48
Ah, Aninha, quero um desse livro pra mim. ;)
De mike a 10 de Junho de 2009 às 09:00
Isso... invistam nesses livros todos e depois convidem-me para almoçar. (risos)
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 11:39
Não precisa nem de livro, Mike. Já convido você agora. :)

De Ana Vidal a 10 de Junho de 2009 às 19:13
Eu mando-te um por correio, Marie, prometo. :-)
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 02:37
Já estará craque nas rodinhas que falarem do comilões, Luísa, querida. :)))

Um grande beijo
De Pitucha a 10 de Junho de 2009 às 08:24
Eu venho para o repasto feito pela Marie (interesseira, sim e assumida!).
Há doce de leite?
(Tudo muito a propósito de Pantagruel).
Beijos Marie e Ana
De marie tourvel a 10 de Junho de 2009 às 11:40
Pitucha, querida, você é sempre uma convidada especial. E tem doce de leite, sim. Bom, né? ;)

Beijocas

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