Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

Lembrando a Gretl De la Varre

 

Depois de a Ana ter escrito, com a mestria habitual, sobre o acordo ortográfico, pensei contar uma história sobre uma miúda austríaca que ainda hoje escreve em português.

 

Em Nisa, no tempo da II Grande Guerra, várias famílias acolheram miúdos refugiados austríacos que ficaram algum tempo em Portugal, e que ainda hoje têm um carinho especial pelo nosso país.

 

A Greta (como nós lhe chamamos), que é para toda a família uma pessoa sempre presente e de quem todos gostamos do fundo do coração, foi uma dessas crianças que fugiu à guerra e que, durante o tempo em que esteve em Nisa, aprendeu o português devido à paciência da minha avó materna (a quem ela carinhosamente sempre tratou por “Fruzinha”), que diariamente a obrigava a fazer um ditado de português.

 

Hoje, com mais de setenta anos, vive nos USA (Florida) com uma filha, continua a ser uma bonita viúva e avó, e ainda escreve à minha mãe para nos enviar fotografias dos netos, para nos contar o tempo que passa com os filhos, e sobretudo para nos dizer as saudades que tem de Portugal, e quanto recorda Nisa.

 

Casou com um americano, André de la Varre, que também conheci e que era uma simpatia, e espantoso para nós miúdos, mesmo não falando português. Substituía essa dificuldade com acções teatrais inolvidáveis, que punham a minha avó perplexa, mas que nos deixavam felizes, como por exemplo imitando um macaco à mesa do almoço com uma banana na boca e aos saltos em cima da cadeira…

 

No dia 6 de Junho, quando se comemora o dia D, descobri, com a ajuda de várias dicas familiares e por pesquisa na Internet, algumas curiosidades sobre esta família que me deram um prazer enorme. Primeiro, descobri a lista de passageiros do paquete “Normandie”, do dia 23 de Setembro de 1936, que fez a travessia entre Le Havre, Southampton e Nova York, e lá vem o senhor André De La Varre e sua esposa. Estes são os pais do André, que emigraram para a América fugindo da guerra e cujo filho, com o mesmo nome, vos acabei de apresentar.

 

Depois, cheguei a uma pequena bibliografia do avô, escrita por um filho do André e da Gretl, o René, com quem brinquei várias vezes em Nisa e também em Lisboa, onde ele conta os inúmeros filmes que o avô fez, tendo trabalhado entre outros com Jack Warner. Esse mesmo, o fundador da Warner!

O André dizia muitas vezes que em miúdo andava de bicicleta pelos estúdios em Hollywood, mas cá por mim julgava que era mais uma brincadeira…

 

Deixo-vos o link para comprovarem, e não julgarem agora que sou eu que estou a inventar:

http://www.burtonholmes.org/associates/andredelavarre.html

 

Bom, e depois constatei também que o René (que é o filho mais velho da Gretl e do André) escreveu um livro a propósito desta saga dos De La Varre, e na capa lá está o André e ele próprio tal como eu o conheci em Nisa e cuja reprodução deixo convosco.

 

 

Não sei se estou a abusar da bondade da Ana em me deixar vir aqui “botar escritura” de vez em quando, mas penso que reuni várias lembranças que me sensibilizam ou que me tocam de uma só vez:

 

- Dizer à Ana que ainda há pessoas que, lá longe, escrevem português (cheio de erros agora, mas fazem esse esforço em nosso nome!) e nos agradecem o acolhimento dos tempos difíceis.

- Homenagear humildemente a Greta, com este post, para que se saiba que muitos portugueses também lhe agradecem, pelo exemplo duma vida, e especialmente a minha família lhe agradecerá sempre pela sua doçura e simpatia.

- Agradecer ao René e aos irmãos – o Byron e a Trilauny – a lembrança que nos deixaram do avô e do pai.

- Lembrar para sempre o André, que todos guardamos na memória, e que um acidente tão estúpido nos levou dum sempre alegre convívio.

 

São azinhagas da memória bem internacionais, mas a emoção se calhar é maior, porque a estrela principal – a Greta – deixou seguramente muitas lágrimas em Nisa…  felizmente, as mais recentes, de saudade e de emoção do reencontro.

 

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
link do post
11 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 8 de Junho de 2009 às 10:36
MFA
que 'post' tão bonito
... a sua sensiblidade encanta-me
abraço

Rita V.
De Manecas a 8 de Junho de 2009 às 22:00
Muito obrigado!

Tentei somente trazer-vos uma saga que numa parte ínfima vivi, e numa bem maior descobri.

Bem haja,
Bjs
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 11:28
Que história bonita, Manecas! Portugal recebeu muitas crianças austríacas nessa época, e elas foram uma lufada de ar fresco nas famílias tradicionais portuguesas, que sempre viveram fechadas em si próprias e pouco sabiam do mundo exterior. Ainda hoje há laços especiais entre esses refugiados e muitos de nós, e não foram só eles a ganhar com o nosso gesto, longe disso.

Um beijo e até já (vão escolhendo o almoço, já lá vou...) ;-)
De Manecas a 8 de Junho de 2009 às 22:03
Muito obrigado pelas tuas palavras e pela tua companhia...

Esta lembrança foi escrita realmente com um carinho crescente à medida que ia caminhando de encontro em encontro, e de descoberta em descoberta.

Muitos Beijinhos para ti.
De meunikaki a 8 de Junho de 2009 às 15:00
Belas memórias essas, menos vulgares do que se julga, porque não foram tantas crianças assim. E menos vulgares ainda, porque certamente nem todas as que para cá vieram mantiveram essa ligação à sua infância,alimentando-a. Em tempos difíceis, longe de tudo e de todos, o curioso é a nossa tendência para apenas recordar os bons momentos e esquecer os maus; é o instinto de sobrevivência a funcionar, mas é também a prova de que pequenas coisas fazem grandes vidas. Gostei!
De Manecas a 8 de Junho de 2009 às 22:07
Talvez a memória nos proporcione essa selectividade de optimismo, mas acredite que ver a Gretl agora em Nisa...pode fazer esquecer, mas seguramente também faz recordar...

Obrigado
De Nuno Martins a 8 de Junho de 2009 às 18:27
E como o Mundo que nos acolhe, é sempre tão pequeno...
Um abraço!
NM
De Manecas a 8 de Junho de 2009 às 22:11
Seguramente...

Lembro-me sempre de os meus pais, tios e primos, contarem a primeira vez que a sirene dos bombeiros tocou (era hábito tocar sempre ao meio-dia) e os miudos em todas as casas terem o mesmo gesto...Fugirem para debaixo da mesa que estivesse mais perto...!

1 AB
De ritz_on_the_rocks a 9 de Junho de 2009 às 00:53
Conheci o ano passado uma senhora inglesa a quem acontecia o mesmo.
O alarme de minha casa disparou, sem querer e foi um sarilho ....

( não estou a abrincar .. desta vez)

:-)
De Luísa a 9 de Junho de 2009 às 01:24
Gosto sempre muito das suas memórias, Manecas. Recriam uma infância que eu não tive – criatura demasiado urbana! – mas que reconheço de livros e de outras memórias próximas. Mas este episódio tem o interesse adicional de dar testemunho de um facto histórico, que foi a nossa neutralidade na guerra e o acolhimento, mais ou menos temporário, que demos a tantos refugiados. E da intensidade de alguns laços que se estabeleceram então e, pelos vistos, ainda perduram. :-)
De Manecas a 9 de Junho de 2009 às 15:40
Sim, os laços são eternos...

Aliás da primeira vez que fui à Austria, senti ainda o carinho que o facto de ser português lhes motivava, e mais sentido era porque naquela altura não estavamos muito bem vistos...

Bjs e obrigado

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