Domingo, 7 de Junho de 2009

Adivinhe quem vem jantar?

Luísa

 

É alto, bem proporcionado e já houve, em tempos, quem, na velha Albion, o achasse bonito. Mas a sua expressão é demasiado rígida, amarrada a não sei que conceito ou preconceito de dignidade, que lhe retira movimento, animação e brilho. Ainda assim, dignidade, parece tê-la. Ou, pelo menos, honestidade. Uma honestidade entendida - cumpre especificar - naquele sentido formal e timorato dos que se mantêm nos quadros da Lei por imperativos de disciplina pessoal, mais do que por chamamentos de honra. E é, aliás, por essa razão que, quando a sujeira das campanhas eleitorais lhe salpica o fato, não resiste a dramatizar a operação de limpeza com um choradinho menos nobre sobre rendimentos transviados. Convenhamos, no entanto, que é um homem cheio de valor. A sua carreira foi feita com esforço e com muito sacrifício pessoal, privando-o – há quem diga – de uma infância e arrancando-o às brisas tépidas da sua região de origem para uma escalada aos cumes frios das hierarquias académicas e políticas nacionais. Continua, porém, a ser, na essência, um homem do povo, sóbrio, conservador, desconfiado, cauteloso, dado a tabus e instintivamente adverso às leviandades e aos improvisos que caracterizam as franjas de «chicos-espertos» que vêm cercando a nossa vida pública e abocanhando o poder. E um homem simples, sem particulares elaborações, nem vernizes. Por isso, pedimos aos nossos caros convivas que fechem os olhos a qualquer coisinha no manejo do talher ou na mastigação das carnes.

 

Elaboração, tê-la-á o menu: «noblesse oblige». Depois dos aperitivos e «amuse-bouches» da praxe, haverá uma sopa, uma canja fina de conquilhas; uma entrada - tenta-nos a «mousse» de sardinha com figos frescos caramelizados em mel; meia dúzia de pratos principais - a personagem requer-nos estas larguezas, que incluirão os bons sabores do mar, o típico arroz de langueirão, um atum panado com compota de tomate, uma raia confitada com azeitonas…; outra meia dúzia de sobremesas, entre as quais pontuarão os incontornáveis dom-rodrigos; e o acompanhamento insólito, mas personalizado, dos melhores brancos e tintos Monte da Casteleja, cuja linha tensa promete levantar o conjunto do peso das solenidades circunstanciais.

 

Não estamos certas de que venha sozinho. Julgamos que não. Já entrámos, portanto, na leitura de quanto guia turístico aborda as maravilhas turcas, porque queremos estar à altura do que não deixará, nesse caso, de ser o tema central, senão único, de conversa. É que, por detrás de todo o homem, grande ou pequeno, há sempre uma mulher… geralmente maior do que ele. E esta, em que reconhecemos, para além de ambição e voluntarismo, uma visão ampla ou «transmediterrânica» do mundo, acaba de nos dar provas da qualidade imensa (de que pretendemos aprofundar as vantagens) que é saber como levar a carta a Garcia, melhor dizendo, o corpo à Capadócia.

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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30 comentários:
De fugidia a 7 de Junho de 2009 às 09:22
(suspiro)

Já houve um tempo em que o detestei com todas as minhas forças, por entender que não tinha capacidade nenhuma de olhar para as pessoas e se mantinha obcecado com as "coisas"...
Mas, enfim, com o tempo também ele se amenizou e, embore lhe falta largueza de vistas e alguma cultura humana, também o tenho como honesto e digno, o que já é bem bom para quem nos representa.
Se sua Excelência não se importar que eu vá com uma gripe (que não é a A :-p) poderei estar presente...
De Luísa a 7 de Junho de 2009 às 13:46
Não esteja por ele, esteja por nós, Fugi, pelo apoio moral. Estes jantares muito presidenciais amedrontam sempre o pessoal «dos fundos» (melhor dizendo, eu e os meus fogões). A minha opinião acerca da personagem coincide com a sua. Nunca delirei, mas hoje tolero pela relativa confiança que nela deposito. Apesar de tudo, gostaria de ter a noção, que não tenho, de que é mais interveniente.
P.S.: Quanto à gripe, «abafe-se, avinhe-se e abife-se», Fugi, não é o que manda o ditado? Venha abafadinha, que dos vinhos e dos bifes tratamos nós. As melhores! :-)
De mike a 7 de Junho de 2009 às 10:39
Eu, que continuo à procura de cigarros e arrisco-me a nem comer uma fatia de bolo de chocolate, venho aqui e não faço a mínima ideia quem é o convidado. Como se isso não bastasse, a ementa é demasiada elaborada. Definitivamente não estou nos meus dias. ;)
De Rita F a 7 de Junho de 2009 às 10:51
Ó Mike, caramba, ... logo você que adora «cavaqueira»... não sabe quem é o convidado de hoje?? LOL
De mike a 7 de Junho de 2009 às 11:04
Ah, ok, Rita. É que o professor Aníbal é pouco dado a desconversas. Mas é um homem que respeito e admiro. Contem comigo mas apenas para o arroz de langueirão. :)
De Luísa a 7 de Junho de 2009 às 13:52
Eu sei, Mike, que os seus cinco e meio sentidos ainda estão focados nos eventos decisivos de ontem, eleições leoninas e «derby» luso-albanês (este menos importante do que o primeiro, mas ainda importante). Verá que, quando a poeira assentar e puder, enfim, focar-se no jantar de hoje, identifica logo o convidado. ;-D
De Grande Jóia a 7 de Junho de 2009 às 14:20
Ó Mike, anda sempre a leste do paraíso... é o que dá andar atrás de cigarros. "Atão" não se estava mesmo a ver que nem a Albion lhe retirou a mania de comer bolo rei com a boca aberta?
De Rita F a 7 de Junho de 2009 às 11:37
Luísa, 'tou lá caída! Quero ver se ele resiste com a mesma cara às minhas provocações ou se se desmancha! Levantou-me foi uma dúvida e apresento-a totalmente insegura, sabendo que a Luísa é muito mais cuidadosa do que eu no que toca a erudição: só conhecia o arroz de lingueirão, que é um bivalvizinho que eu costumava degustar em tempos, também misturado com arroz, lá para os lados de Tavira. É uma outra forma de dizer o mesmo ou outro cozinhado? Juro, é pura ignorância... Beijo! (Não disse se o jantar era de gravata, mas presume-se...LOL)
De Rita F a 7 de Junho de 2009 às 11:45
Não perca tempo, Luísa, desculpe a impertinência, já tomei as gotas: são as duas formas de baptizar o mesmo molusco :-))
De Ana Vidal a 7 de Junho de 2009 às 11:46
Também tive a mesma dúvida, mas confio inteiramente na Luísa. É bem possível que haja várias grafias para o nome do bicho.

Acrescentaria talvez os carapaus alimados à ementa (parece que a primeira dama costuma gabar-se da sua receita privada, mas vale a pena arriscar). E fico muito mais descansada por não estarmos em época de Natal, para não termos a tentação de servir bolo-rei ao café... ;-)
De Luísa a 7 de Junho de 2009 às 14:01
Provoque-o bem, Rita, que aquilo não é uma cara, é uma máscara. Talvez se falássemos de sexo?… Sexo à moda da Capadócia? ;-D
Quanto ao arroz, confesso que o vi mencionado com a grafia que usei num guia de Portugal. Só agora que o refere é que me lembrou de que também o conhecia como «lingueirão» e não como «langueirão». Também já fui conferir na net e parece que é realmente possível dizê-lo das duas maneiras. Uf!
De Luísa a 7 de Junho de 2009 às 14:20
Ana, a primeira-dama vai ser o nosso bico-de-obra. Quer-me parecer que ali quem manda é ela… e provavelmente quem fala, também. Se a Rita quiser provocar o marido e amolecer a sua cara de pau, usemos nós os carapaus para desviar a mulher para a cozinha, para um debate sobre as melhores receitas e métodos de confecção dos «alimados». ;-D
P.S.: E agora, minha querida Amiga, vou ter de abandonar, por momentos, os nossos fogões, para poder, logo à noite, mimar o nosso convidado com o anúncio de que… votei! :-D
De fugidia a 7 de Junho de 2009 às 14:34
UAUUUUUUUUUUUUUUUU!
(muito bom exemplo, esse de votar, para a sua semente, no seguimento, aliás, de uns posts atrás no nocturno ;-) )

(eu também vou neste instante votar: pela primeira vez voto a descair para um lado que nunca me seduziu :-( mas enfim... temos de ser mais exigentes com os candidatos e neste aspecto há ainda um longo caminho democrático a percorrer)
De Luísa a 8 de Junho de 2009 às 01:16
Teremos votado em sintonia, Fugi? 8-D
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 01:45
Gira essa versão de óculos sorridentes, Luísa. :-)

Também fui votar, por isso cheguei atrasada ao jantar. Peço desculpa, amigas... mas valeu a pena!

:-))))
De Luísa a 8 de Junho de 2009 às 02:18
Ana, não são óculos sorridentes, pretendem ser olhos muito abertos e expectantes.
Sobre a outra questão, parece que, pela primeira vez em trinta e tal anos de «democracia», o meu voto não foi parar ao lixo. Por momentos, vivi uma verdadeira «euforia democrática». :-))))))))
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 02:22
Dá gozo este resultado, concordo. Mas agora quero ver as legislativas...

(pensei que eram óculos!)
De JuliaML a 7 de Junho de 2009 às 14:27

Deus me livre e guarde, Querida Luisa!! eu não vou,abomino com todas as minhas vísceras o homem!!
De Luísa a 8 de Junho de 2009 às 01:18
Vai desmanchar-nos a mesa, Júlia. Sabe que tem, entre nós, um lugar cativo… :-))
De Grande Jóia a 7 de Junho de 2009 às 14:33
Eu estarei presente e quero ouvir a Maria falar sobre a viagem à Capadócia. Logo eu que também lá quero ir um dia destes mas estou à espera de ser integrada numa comitiva qualquer.
O nosso Aníbal é homem interessante e que se tem humanizado perante as câmaras. Ele e a sua mulher são um casal que não nos deixa ficar mal, mesmo com o bolo de chocolate da Fugidia para comer.
Aposto que a Maria não vai gostar do cheiro a tabaco, portanto todos os que tiverem esse hábito têm de passar ao reservado. Não esqueça desse pormenor, Luísa.
E quanto a falar sobre sexo, se ela tiver dúvidas ele esclarece dizendo, " Maria quero apresentar-te esta senhora que é muito polémica e gosta de escrever e dizer coisas..."
De fugidia a 7 de Junho de 2009 às 14:40
Hum...
GJ, o bolo de chocolate já se foi num ápice e não sobrou uma migalha que fosse ;-)

É certo que poderei fazer outro, mas será sobretudo por todas vós; o PR não me inspira muito para o efeito...
(bom, mas a verdade é que já simpatizo um bocadinho mais com ele...)
:-)
De Luísa a 8 de Junho de 2009 às 01:46
Mas, GJ, a conversa sobre sexo (ou sobre qualquer tema-choque, salvo política portuguesa) é só com o Aníbal, a ver se é possível abater-lhe aquela pétrea compostura. E não poderá contar com a asinha protectora da sua Maria, porque, entretanto, a Maria é atraída à cozinha com um debate sobre carapaus alimados. Ficará, de resto, «retida» na cozinha, se começar a implicar com os pequenos vícios tabagistas ou outros dos restantes convidados. Como vê, a estratégia está concertada ao detalhe. ;-D
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 02:23
Falar de sexo com este convidado deve ser praticamente impossível, GJ. Já estou a ouvi-lo a calar-nos, rígido: "fim de excitação!"
:-)
De ritz_on_the_rocks a 7 de Junho de 2009 às 16:27
Luisa
Conte comigo

Afinal, ...ainda é dos poucos que parece honesto e hoje em dia , ... quer-me cá parecer ...que o que parece ...É ... e vice -versa ...

lol
De Luísa a 8 de Junho de 2009 às 01:59
Rita, só os políticos é que acham que nós, vulgares cidadãos, não somos suficientemente espertos para conseguir ver-lhes nas caras os corações. Mas a verdade é que vemos mesmo. Este, de que falamos, é certamente um homem sério. Diria até muito sério, no contexto actual… Embora não tão sério quanto ele próprio se tem em conta. :-)
De imprevistoseacasos a 7 de Junho de 2009 às 18:01
Este convidado não me é simpático, Luisa. Lamento. Diz-me a razão que ele condescende demasiado ao bom senso, sobretudo quanto o senso lhe é favorável. Detesta riscos e outras coisas que o possam macular. Parece recto e certamente o é. Mas não se expõe, preferindo que alguém, por vezes, se exponha por ele. Homem de família, recto, novamente, parece ensaiado demais, faltando-lhe autenticidade.
Nada mais posso dizer...apenas que o convidado de hoje não me desperta qualquer apetite... :)

Fernanda
De Luísa a 8 de Junho de 2009 às 02:09
Ainda bem, Fernanda, que o convidado não lhe desperta apetite. ;-D
Concordo inteiramente com a sua análise. Acho que é uma pessoa demasiado insegura ou desconfiada para ter espontaneidade e autenticidade. Há dias comparava a atitude dele em relação aos seus investimentos na SLN, de que agora se fala, com a do Nuno Morais Sarmento acerca do seu passado e das suas experiências com drogas. O primeiro reagiu lentamente, por fases, com cautela excessiva, talvez medo, e deixou pontas soltas, até vagas suspeitas. O segundo jogou na antecipação, pôs tudo em pratos limpos com grande desassombro e à vontade, e arrumou o assunto.
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 02:19
Ó Fernanda, mas os convidados não fazem parte da ementa...
Já estou como a Luísa: ainda bem que este não lhe desperta apetite, acho que teríamos sérios problemas com a cara-metade que está na cozinha!

:-)
De ritz_on_the_rocks a 8 de Junho de 2009 às 02:59
ah ah ah ah
- como é que ela se chama mesmo?

ah ah ah a
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 11:23
Simplesmente Maria, Ritz. :-)

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