Sábado, 6 de Junho de 2009

O crepúsculo da deusa

 

 

A violenta pressão da voragem mediática que, literalmente, engoliu o último fenómeno musical televisivo que dá pelo nome de Susan Boyle, teve este trágico desfecho.

 

Não me espanta: de anónima desempregada, a mulher de 48 anos - que viu fugir o sonho dos palcos na idade em que ele ainda seria viável - vê-se de repente projectada para a ribalta do mundo inteiro, através de um concurso de talentos onde tem de competir com jovens que lhe lembrarão, certamente, esses tempos de glórias sonhadas. E a comparação nunca pode ser justa para ela: para além de uma voz poderosa (que eles também têm, com a vantagem de estarem ainda na curva ascendente das suas potencialidades), a concorrente balzaquiana só tem para oferecer ao público uma história comovente de frustrações e insucessos, uma luta inglória por um lugar ao sol. É o palhaço pobre de um circo inclemente. Não é pelo talento que a aplaudem - que o terá, sim, mas não mais do que tantos outros - é pela curiosidade mórbida que a sua história desperta no voyeurismo instituído pelos Big Brothers da moda. É pela coragem serôdia e pela  figura patética, que inspira ternura. É muito também pela personificação que ela representa de uma possível, ainda que ilusória, vingança dos fracos contra os que tudo têm para vencer. Against all odds. A crueldade de alguns dos títulos que alimentaram os media durante todo este tempo é bem significativa: "Afinal Susan Boyle já beijou"; "Velha feia chega à final"; "Susan Boyle já não é virgem"; Susan Boyle dá um pontapé em Hollie Steel"; "Susan Boyle satirizada na net"; "Susan Boyle explica-se à polícia"; "Afinal, a escocesa rude não ganhou o concurso"; "Bonecas de Boyle à venda por 16€"; "Um milhão para Boyle fazer um porno"; "Boyle já tinha sido gozada há 14 anos"; etc., etc., etc., num interminável rol de mexericos mortíferos.

 

Não há promessas de Hollywood, álbuns gravados ou dinheiro fácil que compensem a exposição violenta e quase pornográfica de um ser frágil e ingénuo que ousou sonhar, sem pensar que o sonho que cantou (I dreamed a dream) se transformaria facilmente num pesadelo. Como acabou por acontecer.

 

Nota: No próximo sábado haverá novidades na Porta do Vento. Por hoje, aqui fica um texto que publiquei recentemente no Delito de Opinião.

 

publicado por Ana Vidal às 10:58
link do post
24 comentários:
De meunikaki a 6 de Junho de 2009 às 12:49
Não é fácil chegar lá acima e mais difícil é manter-se lá; e não será certamente por via de concursos que lá se chega e lá se fica. Veni vidi vici, nem César, apesar de o dizer
De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 13:49
Tem razão, nem César... Veni vidi vinci é sempre uma glória temporária, depois há que trabalhar muito para manter-se na ribalta. E esta ascensão à glória por via de uma espécie de freak show (é o caso da Susan Boyle, queiramos ou não) não augura nada de bom.
De ritz_on_the_rocks a 6 de Junho de 2009 às 19:45
...freak show...
dizes bem cara amiga

é um verdadeiro freak show como outros tantos que pululam ( é assim que se escreve? ) por aí ...

mas o povo gosta de 'sangue'
............. dão-lhe 'sangue' ....!

quem falava em César?

bjs
De Ana Vidal a 7 de Junho de 2009 às 11:00
Pois é, Ritz.
(é assim que se escreve, sim)

bjs
De Luísa a 6 de Junho de 2009 às 13:12
Querida Ana, a Susan Boyle tem boa voz, sem dúvida. Melhor do que a minha! Mas, como diz, não foi a voz que lhe proporcionou esse momento de glória; foi, sim, lamentavelmente, o contraste entre a voz e a figura, que foi explorado até à exaustão, com imenso oportunismo e um sentimentalismo lamechas, profundamente hipócrita e vergonhoso. A Susan merecia que a tratassem com sensibilidade, com carinho, até admiração, mas nunca desta maneira. E agora lembram-se de que «sofreu perda de oxigénio cerebral à nascença». É incrível! A Susan faz-me pensar na minha sexagenária vizinha do rés-do-chão, que me acorda, frequentemente, com uns amaldiçoados, mas nem por isso menos afinados, potentes e, portanto, surpreendentes trinados fadistas, muito ao jeito da nossa Amália. Se essa gente a descobrisse, acabava-se-nos a paz no bairro. E acabava-se ela, coitada, mesmo não sendo, como parece ser, um pouco atreita a depressões.
De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 13:45
Espero que a fama não descubra a sua vizinha, coitada. Embora para si, Luísa, talvez isso fosse uma benção... acabavam-se as cantorias matinais no seu prédio, pelo menos, que ela havia de querer logo mudar de casa, aposto! ;-)
De ritz_on_the_rocks a 6 de Junho de 2009 às 19:47
O comentário da Luísa fez com que eu acabasse de calafetar portas e janelas do meu cubículo ...

Já não se pode estar descansado em casa ... hein!!!!

lol
De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 20:05
Mas tu és o contrário da Luísa, Ginja: tu és a vizinha que faz barulho!!! loool
De ritz_on_the_rocks a 7 de Junho de 2009 às 00:20
lol ....
mas não vá o diabo tecê-las e aparecer-me uma maluca perto de casa ...
:-)

... é que para desafinada ... basto eu !
eh eh eh
De imprevistoseacasos a 6 de Junho de 2009 às 13:29
Ver Susan Boyle provoca-me sempre um misto de emoções. Quando a oiço comove-me aquela emoção contida, nem sempre comfortável. Ao contráro, não sinto vontade de ver aquela imagem explorada, um pouco por todos nós. Mereceria um estudo apurado, perceber a reacção de empatia, pena, admiração ou outra que ela desperta em nós. Será a fama uma benção, ou maldição? Perdoe-me este lugar-comum, pois não me ocorre outra forma de colocar a questão, Ana...
Bjs da Fernanda
De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 13:42
No caso da Susan Boyle, e por muito inebriante que tenha sido para ela este período de glória, temo que venha a ser uma maldição. Já começou, aliás, como se vê pelo esgotamento que a levou a um internamento. Este grau de exposição mediática - com tudo o que isso implica, e não é pouco - exige uma estrutura psíquica muito forte, que esta mulher, obviamente, não tem.
Nós tivemos por cá, à nossa escala, um caso parecido: o Zé Maria do primeiro Big Brother. Arrancaram-no às suas raízes, deram-lhe uma ilusão de sofisticação e de fama e depois devolveram-no outra vez ao anonimato, sem qualquer transição. O resultado é que o rapaz já não se adaptou à vida que tinha, mas também não tinha outra. E tudo isto o levou quase ao suicídio...
De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 13:42
Um beijo, Fernanda. :-)
De imprevistoseacasos a 6 de Junho de 2009 às 14:58
Chegou cá, Ana :)
Bom fim-de-semana.

Fernanda
De Manecas a 6 de Junho de 2009 às 17:05
Não segui muito de perto este caso de sucesso imediato, porventura tardio, mas inevitavelmente fugaz.

Na véspera de saber esta noticia tinha, no entanto, passado os olhos por um concurso, que a TVI apresenta, com criancinhas a mostrarem os seus dotes de cantores.

O mais aterrador nem são as crianças (os poucos segundos que ouvi chegaram, mas não me vou demorar aí...).

O que me pareceu quase pornográfico foram os comentários de apresentadores e juri, que se lamentavam da pressão a que a comunicação social sujeitava as crianças, e em geral, a exposição a que crianças tão pequenas eram sujeitas...!!!

Fiquei parado na sala. Estarei ouvindo bem?
Então para lá dos paizinhos, a comunicação social, a pressão, não tinha neles próprios a autoria?

Espantoso. mas é muito triste!!!

Bjs

De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 20:06
Isso que contas é extraordinário, Manecas! Ainda se armam em moralistas...
De ulisses a 6 de Junho de 2009 às 22:49
«Susan Boyle deixa clínica londrina e está "feliz"»
http://www.ionline.pt/conteudo/7633-susan-boyle-deixa-clinica-londrina-e-esta-feliz

Para não ser 13 o número total de comentários e se terminar em registo optimista... :-)
De Ana Vidal a 7 de Junho de 2009 às 01:20
Duvido muito dessa felicidade toda, logo a seguir a um esgotamento nervoso. Ou então é causada por doses industriais de Prozac...
De mike a 7 de Junho de 2009 às 00:50
Não há almoços grátis, Ana. Muito menos para a Susan. Ter um sonho é uma coisa, persegui-lo é outra e transformar talento em carreira, outra coisa ainda. Lamento o sucedido, mas when the going get tough, the tough get going and she's not tough enough.
De Ana Vidal a 7 de Junho de 2009 às 01:22
Pois não, não é tough enough. E o pior é que todos se estão a marimbar para isso, enquanto ela render audiências! Tudo isto sob a capa de ternura, claro...
De mike a 7 de Junho de 2009 às 10:33
No comentário anterior esqueci-me de dizer uma coisa importante: gostei do teu texto. :)
Quanto às audiências, não nos esqueçamos que somos nós que as fazemos. E o sonho da Susan, a quem desejo total recuperação, passava pelo estrelato. Pelo menos é essa a minha leitura.
De Ana Vidal a 7 de Junho de 2009 às 11:30
Obrigada, Mike.
Sim, o sonho dela passava pelo estrelato, mas isso não significa que soubesse ou estivesse preparada para o preço que teria de pagar por isso. E cedeu à pressão, claro.
De JuliaML a 7 de Junho de 2009 às 14:29

coitada...
De Meloes a 8 de Junho de 2009 às 11:37
Disseste tudo. A mim incomoda-me. A serio que sim. Incomada-me quem produz o programa e abusa de pessoas ingenuas e frageis, incomada-me o mediatismo que se monta a volta disto para vender jornais, incomoda-me que se debata na camara dos comuns quando o pais esta a passar pelo que esta a passar, mas incomoda-me essencialmente todos os milhoes que sentados nos sofas das suas casas, a ver os noticiarios ou a ler os jornais, alimentam esta maquina medonha.
E se nao podem deixar a senhora em paz, que me poupem a mediocridade de uma nacao inteira.
Beijo
De Ana Vidal a 8 de Junho de 2009 às 11:55
Tens razão, querido Melões. E tu sabes isso melhor do que ninguém porque estás bem aí no centro do mexerico. Não há piores pasquins do que os ingleses. E ainda nós nos queixamos dos nossos media...
Beijo

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds