Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Da minha língua vê-se o mar *


 

Língua

 

Gosto de sentir a minha língua roçar

A língua de Luís de Camões

Gosto de ser e de estar

E quero me dedicar

A criar confusões de prosódia

E uma profusão de paródias

Que encurtem dores

E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa

da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade

E quem há de negar que esta lhe é superior?

E deixa os portugais morrerem à míngua

“Minha pátria é minha língua”

Fala, Mangueira!

Flor do Lácio, Sambódromo

Lusamérica, latim em pó

O que quer

O que pode

Esta língua?

 

(Caetano Veloso)

 

 

Nota: Sou frontalmente contra o acordo ortográfico que nos está a ser imposto. Se há assunto que mereça e faça sentido ser referendado, é este. Porque nos diz respeito a todos como nenhum outro e porque se trata do nosso património mais precioso. Escolhi propositadamente um poema brasileiro, e não português, porque não quero que o meu protesto se confunda com nacionalismos bacocos, que não defendo. E também porque, apesar da proposta (já aprovada) ter partido do Brasil, há muitos brasileiros - entre os quais se encontra uma quantidade significativa de intelectuais - que não concordam com ela. O que o acordo exige é uma insanidade: que se submeta a grafia à fonética e que se acabe de vez com a riqueza da nossa língua, cujas variantes nunca impediram um bom entendimento entre os povos que a falam. Quero que da minha língua continue a ver-se o mar, TODO o mar, na sua infinita diversidade.

 

Gostava de ter a vossa opinião.

 

(* Título roubado a Vergílio Ferreira)

 

publicado por Ana Vidal às 12:05
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47 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 4 de Junho de 2009 às 14:34
não sei se os brasileiros têm este provérbio tão português:

'tarde piaste'
ou o outro
'mais vale tarde que nunca '

no entanto se queres a minha opinião, que aqui para nós, que ninguém nos ouve. não interessa mesmo nada a ninguém ) .... eu dou-te!!!!


NÂO AO ACORDO HORTOCRÁTICO ... e ao outro então .... ainda muito menos

bjs
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:21
Preciso de explicações, Ginja... estás a falar de quê???? :-)
De meunikaki a 4 de Junho de 2009 às 14:35
Escrevi, ou disse, algures, a propósito de outras "guerras" que não as do acordo ortográfico, que a poesia era uma filigrana, onde cada palavra tem o seu lugar, o seu peso e o seu momento próprio, em que o som assume proporções inultrapassáveis, quando se entoa, o apetece entoar, adivinhando-se, as consoantes mudas.
Vai ser difícil para os poetas, bem mais que para os prosadores.
Cá por mim, fico-me na era pré acordo, preferindo ficar na época sem acordo (e espero não acordar para o pesadelo)
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:24
Meunikaki, se alguma vez nos encontrarmos pessoalmente lembre-me de dizer-lhe que fez a mais bonita descrição de Poesia que eu já vi. Ou seja, lembre-me de dizer-lhe que é um poeta.
Não acorde, por favor. :-)
De Rita Ferro (escritora) a 4 de Junho de 2009 às 15:29
Leva-se uma vida a aprender bem uma língua. Não falo das outras, mas da nossa. Só quem não escreve não tem dúvidas. Raro o dia em que não consulto o prontuário ou o dicionário para verificar a grafia ou o significado de uma palavra, o dicionário de verbos para confirmar uma conjugação traiçoeira. Ainda ontem, no post que publiquei, acentuei «transístor» sem certezas, apesar de ter consultado antes três ou quatro fontes, ouvido dois ou três peritos. As opiniões dividem-se, as teses multiplicam-se. Conhecer bem uma língua leva uma vida inteira e mesmo assim sabe Deus. Era só mesmo o que me faltava, aos 54 anos, prestes - mas ainda distante, tão distante - de dominar finalmente a minha língua, ser obrigada a desaprendê-la por questões de conveniência política, sociológica, comunicacional, mercantil. Não contem comigo para isso. Continuarei a aprender sempre mais o português que aprendi até ao meu último sopro, e mais veementemente ainda se for das poucas. Contra os canhões, marchar, marchar! Pela Pátria, lutar!
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:26
Mainada, guerreira! Toca a sacar das pistolas, kalashnikovs, chicotes e canivetes, que temos muita luta pela frente. ;-)
De DaLheGas a 4 de Junho de 2009 às 15:50
Eu também não estou nem aí. Quero que os caras do novo acordo se cedilhem
De ritz_on_the_rocks a 4 de Junho de 2009 às 16:43
:-)

apoiado ...
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:27
Inventaste um novo acordo, DaLhe. A este adiro de caras, vou já adoptar o verbo cedilhar (que é reflexo, pelos vistos). :-)

De Manecas a 4 de Junho de 2009 às 16:51
A síntese escrita por meunikaki parece-me feliz, e parece-me que o acordo tal como está é um perfeito disparate.

Corria em tempos um texto na net em "português de acordo" que era aliás sintomático sobre as consequências...De gargalhada, não fora a triste realidade...

Aliás poderemos sempre pensar, por absurdo obviamente, numa discussão sobre um acordo ortográfico entre os americanos e os ingleses.. Seguramente impensável!!!

Bjs
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:30
Havia de ter graça esse acordo entre ingleses e americanos, Manecas.
Também li esse texto de que falas e era completamente absurdo.

Beijo
De Anónimo a 4 de Junho de 2009 às 17:34
Eu vou por este sol além
e ele é quotidiano até ao fim
como se até hoje ninguém
tivesse no sol e fora do sol também
morrido a morte por mim
Ruy Belo
É esta a minha bandeira
De Gaivota a 4 de Junho de 2009 às 17:37
Não sou Anónimo sou Gaivota
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:31
Caro Fernão Capelo, bem lembrado o Ruy Belo.
De Pássaro a 4 de Junho de 2009 às 17:43
Afinal sou Pássaro. Prefiro.
O Homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.
F. Pessoa
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:33
Melhor ainda, o Pessoa... que era um pássaro com muitas asas, como se sabe.

(já agora: as gaivotas não são pássaros? não sabia...) :-)
De olho vivo a 6 de Junho de 2009 às 23:03

Acredito que as gaivotas sejam pássaros e que as aves agoirentas chamadas Teresas também.

De Ana Vidal a 7 de Junho de 2009 às 01:04
Essa ultrapassa-me, confesso...
Mas eu já expliquei muitas vezes que sou lenta. Não me ouvem...
De ulisses a 6 de Junho de 2009 às 23:20
As gaivotas são pássaros... com dúvidas existenciais ;-))
De Pássaro a 4 de Junho de 2009 às 17:47
E vou a voar ao lado da Rita e de quem a acompanhar contra os canhões. O meu piar hoje está gago
De Rita Ferro a 4 de Junho de 2009 às 18:14
Eu estou a voar com o JAB. Anda também, Pássaro!
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:34
Junte-se ao bando, Pássaro. Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões!
De Luísa a 4 de Junho de 2009 às 22:30
Ana, não conheço o acordo e não sei exactamente o que ele implica de mudança, para além dos exemplos que vi apontados na imprensa. Não tenho, portanto, uma opinião muito segura sobre o assunto, embora tenha duas posições inseguras:
- A primeira é que não tenciono reaprender a minha língua para além do que, como diz a Rita, vou aprendendo todos os dias por força das circunstâncias. Se o acordo entrar em vigor, não vou alterar a minha forma de escrever, embora admita poder ir absorvendo a nova ortografia por via da consulta aos dicionários e da leitura (tal como já aconteceu, no passado, com outras pequenas alterações introduzidas, designadamente, na acentuação de certas palavras);
- A segunda é que, teoricamente, não sou contra a existência de um «Português» uniforme para todos os países que actualmente o falam e escrevem. É a única forma que vejo de o Português do Brasil, de Angola e de Moçambique continuar a chamar-se Português. Sem esse acordo, penso que teremos, num futuro mais ou menos próximo, um Brasileiro, um Angolano e um Moçambicano, e que o Português será a língua exclusiva de Portugal (se este não for entretanto «adquirido» por alguma das suas ex-colónias e não tiver de adoptar então a respectiva língua, mantendo o Português como dialecto local, assim como um Mirandês). Mas não sei, Ana, se esta preocupação tem, no plano das coisas práticas, tanto presentes, como futuras, alguma importância real.
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 00:43
Não posso concordar com isso, Luísa. As diversas formas locais de uma língua não são línguas autónomas. Há muitos anos que esses países falam "o seu" português e nunca veio mal ao mundo por causa disso. Pelo contrário, só enriquece a nossa língua.

Não tenho nada contra (seria uma estupidez se tivesse, porque é inevitável) as adaptações e alterações graduais de uma língua, Luísa. Elas são naturais e significam que essa língua está viva. Mas outra coisa, muito diferente, é um espartilho imposto por razões políticas e de interesses económicos, que empobrece a língua e a torna absurda nos vários sítios onde é usada, porque a mudança é repentina e anti-natura e se perde toda a espontaneidade local.
De Luísa a 5 de Junho de 2009 às 01:13
A minha dúvida, Ana, é se esse «Português deles» não tenderá a autonomizar-se (como as línguas novilatinas fizeram do latim) no espaço de alguns séculos. Já começo a sentir dificuldade em compreendê-lo falado e até escrito, num registo informal. Claro que o mundo hoje é muito pequeno e não proporciona os isolamentos que terão fomentado o desenvolvimento, a partir do latim, de tantas línguas distintas. Mas a mesma falta de isolamento pode promover a intromissão de outras línguas e criar misturas completamente novas. Uma coisa eu noto: que leio com muito mais facilidade o Português do Brasil de há um século do que leio o de hoje; que tem expressões que já preciso de «traduzir» (ou tirar pelo contexto).
De qualquer modo, porque o futuro é, de facto, uma incógnita no que respeita ao destino das diversas línguas hoje faladas no planeta, pode contar comigo, Ana, se decidirem pegar em armas. ;-D

De Ana Vidal a 5 de Junho de 2009 às 01:23
Não sei se isso acontecerá, Luísa, mas, se for esse o caso, é porque a evolução assim o exigiu. O que não me parece é que um acordo unificador, que torna a língua mais rígida e impermeável a adaptações, a tornará obsoleta mais cedo e a condenará mais depressa à extinção. Mas posso estar enganada, claro.

De qualquer modo contamos consigo nas hostes e não a dispensamos, mesmo que seja só para nos disciplinar e dar-nos alguma da sua sensatez. Isso é que é solidariedade! :-)
De meunikaki a 5 de Junho de 2009 às 12:05
Não sendo a minha área, há quem diga que a utilização do gerúndio, muito em voga no Brasil ("estou fazendo"), é mais portuguesa que o português de Portugal ("estou a fazer"), pois que como no Brasil se fala agora se falava em Portugal nos tempos das invasões francesas (ou guerra peninsular, como é conhecida fora das nossas portas). Se calhar é um exemplo único, o que citei e nem sei se estou certo.
Essencial é a existência de um dicionário e, por favor, não me obriguem a dizer "terno", a menos que seja relativamente a alguém ou algum acto (ou será ato?) BRRRRRRR
De Ana Vidal a 6 de Junho de 2009 às 19:24
Sim, há essa tese de que o português do Brasil é mais puro do que o nosso, porque sofreu menos influências estrangeiras e se manteve quase intocado. Mas até por isso vale a pena manter as duas versões, a somar a todas as outras da lusofonia. É essa a diversidade de que falo, que se perderá com esta unificação estúpida.

(Uma curiosidade: os alentejanos usam muito o gerúndio, como os brasileiros. Gostava de saber o porquê dessa afinidade, por acaso)

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