Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

O transístor fanhoso

 

O filme de hoje

tem como cenário uma zona de alta segurança

que separa as autoridades israelitas das palestinianas,

e, como música de fundo,

o relato de um Brasil-Itália particularmente emotivo,

em que os futebolistas Ronaldinho e Roberto Carlos,

longe de imaginarem o verdadeiro alcance dos seus golos,   

traçam um desfecho no Médio Oriente.   

 

Que aconteceria  

se o dedo deste rapaz

não tivesse tremido com a comoção?

 

Haveria uma saída?   

Oiça bem.

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
link do post
49 comentários:
De Nuno Martins a 3 de Junho de 2009 às 09:40
Enquanto apaixonado pelo desporto-rei, sempre me recordo de assistir a episódios de tensão a nível político, devido à necessária aproximação de dois países por um simples desafio de futebol. Recordo um "Estados Unidos-Irão" no Mundial de 98, nos inúmeros "Irão-Iraque" e encontros entre as Coreias para fases de qualificação, assim como um mais recente "Cuba-Estados Unidos" em Havana. Em praticamente todos eles, primou o desportivismo, o fair-play e a emoção natural de quem defendia as suas cores. Apesar de uma tensão bem latente antes, durante e após o jogo, sempre foram jogos capazes de a qualquer instante e por qualquer motivo, despoletar uma explosão de consequências devastadoras, apenas pelo barril de pólvora em que os intervenientes se encontravam. No fim de contas, o futebol sempre foi e será isto mesmo: paixão! Por ele se unem, nele se guerrilham e diante dele ninguém permanece indiferente.
Afinal, este pequeno filme é o epílogo perfeito para esta mesma constatação.
Talvez nem houvesse saída, mas o pretexto futebolístico que se levantou, ajudou a que naqueles momentos de incerteza tudo parasse e fosse quase deixado ao acaso. O resto, foi a crueldade de um rastilho que tantas vezes este desporto também se lembra de fazer acender. Basta uma faísca...
NM
De Rita Ferro a 3 de Junho de 2009 às 10:39
É um facto, Nuno. Bem podemos - nós, mulheres - tentar depreciar o futebol que não adianta. É um fenómeno. Chego a pensar que o impulso de correr atrás de uma bola é tão primário, no homem, como o de beber o peito materno :-))
De Nuno Martins a 3 de Junho de 2009 às 12:40
Sabe Rita, o futebol é tantas vezes depreciado por não ser bem entendido, ainda que tenha de concordar que muitas das críticas que hoje lhe façam, sejam justas. Mais do que ver 22 "caramelos" a correr atrás de uma bola, está muito mais em jogo do que apenas isso. Fui jogador federado e muito do que sou hoje, devo-o ao futebol. Aprendi a noção de equipa de respeito, de conquista, de competição, de derrota, de mágoa, de tristeza, de alegria, de sofrimento e de outros valores igualmente importantes. Eventualmente, ter-me-à afastado de outros caminhos mais sinuosos e ainda o fará a tantos miúdos que hoje o praticam... Ao futebol, devo muito! Talvez porque dentro desse meu jogo, o futebol fosse mais puro para cada um de nós, por não existir dinheiro, interesses de segunda ordem, mas tão somente uma convivência de miúdos apaixonados e esperançados em um dia serem com o Figo ou o Rui Costa. No entanto, nenhum de nós lá chegou, a desilusão nunca se apoderou de nós e ainda hoje jogamos entre amigos com a mesma paixão de sempre. Claro que o gigante mundo dos milhões que hoje engole este fenónemo, lhe tira um pouco de credibilidade mas para mim e grande parte de nós, assim que a bola começa a rolar em qualquer relvado, tudo se esquece e depressa nos concentramos intensamente naqueles 90 minutos. Sim, confesso que o impulso chegue a ser primário e quase instintivo, mas quer se goste ou não de futebol, quer se ame ou odeie o Cristiano Ronaldo, quer se deseje este ou aquele presidente, se diga mal deste ou daquele treinador, se pense nos milhões envolvidos, na corrupção, nas arbitragens e nas discussões de fim-de-semana, o que é certo é que mesmo depreciado, as pessoas param naqueles momentos. Quem não o fez no nosso Euro 2004? Quantos vestiram uma camisola, um cachecol ou exibiram uma bandeira para puxarem pelos nossos, sem no entanto saberem o nome de um único jogador ou pelo menos, lhe conhecerem a fisionomia?
É como a Rita disse e muito bem, um fenómeno. Muito obrigado pela sua resposta ao meu comentário. Um abraço.
NM
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:54
Concordo, Nuno, e penso que no fundo ninguém confunde: uma coisa é um júbilo universal, que aproxima os homens e aplaca as diferenças, outro é o negócio sujo e a usura a aproveitarem-se de um filão inesgotável :-))
De JdB a 3 de Junho de 2009 às 09:56
Durante a 1ª Grande Guerra, as partes beligerantes entenderam fazer umas tréguas "momentâneas", em nome do Natal e da ideia de paz na terra aos homens de boa vontade. Passados 90 anos, é o desporto-rei, um Brasil - Itália. Já não é o Menino Jesus, mas o Ronaldinho; já não é o presépio, mas um estádio de futebol; já não é a pobreza, mas o salário milionário; já não são os reis magos, mas os presidentes dos clubes; já não é o amor, mas a adrenalina. Sinal dos tempos.
Tento fugir ao lugar-comum, que este espaço não o merece, mas, de facto, só me ocorre uma frase batida: o futebol é capaz do melhor e do pior. Há dedos marotos e dedos sujeitos à comoção de um ataque brasileiro. Talvez se possa recomendar que os relatos sejam ouvidos, nos teatros de guerra, com as mãos nos bolsos.
Parabéns pelo post e pela recuperação da palavra transístor.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 10:53
E vendo a coisa pelo lado optimista, JdB?

Não triunfaria aqui o impulso de brincar, acamaradar, esquecer os antagonismos, retornar à infância para viver, ainda que por momentos, a utopia da paz?

Subraindo-lhe os aspectos mercantis, o futebol não representará isso também? Uma metáfora de pluralidade, ecumenismo, irmanação, universalidade, armistício?

De JdB a 3 de Junho de 2009 às 14:16
Terei de me deixar convencer pela métáfora. De facto, o futetbol (tal como a música em certo sentido) move multidões - no melhor sentido da expressão - e é capz de pacificar gente em contenda. Mas que raio tem aquele jogo (que o Ramalho, parece-me, classificava como "jogo de canelão e encontrão propício à tuberculose") que faz tanto pelo armistício?
Como não sabemos quais os apetites "clubísticos" daqueles dois pares de israelitas e palestinianos ficamos na dúvida do que seria se houvesse esse antagonismo a somar a todos os outros.
E que tal uma selecção de futebol entre deputados do parlamento? Seria, talvez, a utopia da elevação...
Sejamos optimistas.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 16:01
Ah-Ah, JdB!

O Eça não podia imaginar como estão hoje estes meninos, alimentados a pão-de-ló, a milhas de se tornar tuberculosos!

E se as patrulhas fossem de equipas adversárias a metragem seria ainda mais curta :-))

E quanto ao jogo entre deputados... ocorre-me uma frase atribuída a um distraído comentador desportivo: «O árbitro foi atingido por um objecto estranho, provavelmente atirado por um telespectador..." :-))

De Cláudia Ferreira a 3 de Junho de 2009 às 10:38
Bom dia, Rita,
Gostei do filme e fiquei suspensa, até ao fim, do que se iria passar. Não me interessa o futebol mas acho graça divagar sobre as reacções das pessoas, os seus comportamentos. E dei por mim a pensar no que seguraria aqueles gatilhos das metralhadoras, o que impediria de serem disparadas: o medo? o respeito pela vida do inimigo? a convicção de uma guerra estúpida? a noção própria de bem e de mal? Ou seria, apenas, a vontade de saber o resultado da bola?
Obrigada,
Cláudia
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 11:08
Viva, Cláudia! (Será vc será aquela menina novinha que um dia conheci numa feira do livro do Porto?)

Pois é, Amiga, assim o li: os gatilhos são suspensos não apenas porque a posição é de xeque-mate para ambas as patrulhas, mas sobretudo porque o relato arrebata cada uma, do mesmo modo.

Pessoalmente, estou convencida de que, estando ambas na mesma posição de fragilidade e vantagem, acabariam por se afastar sem sangue, por uma questão de cálculo. Mas com o relato do jogo a decorrer, caso não tivesse havido o acidente, haveria uma possibilidade, ainda que remota, de que aqueles quatro rapazes, educados para se odiarem, pudessem ganhar uma cumplicidade fraterna a partir daquele dia. E sim, absolutamente, graças ao futebol :-))
De Cláudia Ferreira a 4 de Junho de 2009 às 00:54
Rita,
Gostava muito mas não sou eu. Vivo na zona centro, nunca tive o prazer de a conhecer.
Obrigada,
Cláudia
De Rita F a 4 de Junho de 2009 às 01:01
Bem-vinda na mesma! Portugal é minúsculo, cruzamo-nos um dia :-))
De bloyeur a 3 de Junho de 2009 às 10:42
por o futebol unir multidões, pensei que a cena ia acabar com eles aos abraços e beijinhos.........triste fim
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 11:09
Esteve por pouco, Bloyeur...

(não fora o dedo trémulo do judeu :-))
De ulisses a 3 de Junho de 2009 às 10:47
O filme fez-me recordar uma entrevista ao António Lobo Antunes, na qual lhe fazem perguntas sobre a guerra colonial e ele conta que quando jogava o Benfica os militares viravam os altifalantes para a mata e a guerra parava.
Este filme acrescenta a isto o absurdo que é, em termos individuais, as pessoas andarem a disparar umas contra as outras. No espaço ocupado por aquelas 4 pessoas não se vislumbram os motivos pelas quais estão para ali aos tiros. Nada daquilo faz sentido.
Excelente filme. Belo post.
De rocha a 3 de Junho de 2009 às 11:52
Genial Rita .....
Eu que sou amante de Futebol e que parto a cara a estes nossos jogadores senão formos ao Mundial , este filme poderia ter o fim por nós tão esperado , não fossem eles israelitas e palestinianos ..Não há nada a fazer nem mesmo o futebol mas , vislumbrámos naquele relato um sorriso comum universal...o chegar de um golo à baliza!!! Muito nos espantaria que o final fosse outro. Ah .....e ganhou a Itália!
Brilhante
Tua Rocha ( graças a deus cristã)
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:33
Ah-ah-ah!, Isabel, apanhei-te!

Trais-te como bairrista, não só como leonina fervorosa, mas como católica atalibanzanda!

Mas então tu não me vês que é por qualquer coisa parecida com isso - mas a outra escala - que anda tudo aos tiros neste Mundo?

E os católicos e protestantes também não se matam em nome de Deus?

Haviam os Mormons ou as Testemunhas de te disputar Salvaterra ou a Granja, dizendo «isto agora é tudo meu», e eu queria ver! Nem um Sporting-Benfica te distraía da tua kalashnikov!



De rocha a 3 de Junho de 2009 às 12:35
quer apanhar???? não sabe que sou Benfiquista????
Ai ai ai ...tau tau
Sempre Rocha
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:37
Não discuta trocos, amor :-))
De rocha a 3 de Junho de 2009 às 12:53
Pois tem razão..trocos!!! mas carinhosa amiga, convivo muito bem com protestantes , mormons , evangélicos, iurd's , e que mais venham..o problema ali é a soberba, a arrogãncia e o orgulho não a religião!!
Saudações benfiquistas
Sua rocha
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 13:04
Conheço-te, sei que é verdade, 'tava areinar!

Mas sabes uma coisa? Aquele conflito horrível, sangrento, alimentado a orgulho, como dizes, que nos envergonha mais do que qualquer outro por fazerem da Bíblia um álibi, lembra-me aqueles casais infelizes, miseráveis, odiosos, que eternizam os seus divórcios e se destroem um ao outro diariamente, aplicadamente, até já não terem forças e despedaçarem também os filhos, por nenhum querer largar a casa de família...
De imprevistoseacasos a 3 de Junho de 2009 às 12:02
Querida Rita,
A maior parte das vezes apegamo-nos a coisas bem primárias. Um jogo, um desafio entre amigos, uma corrida, qualquer coisas serve para nos aproximar de sentimentos básicos, nada complexos. O filme mostra a nossa natureza mais impulsiva, dependente de pequenas vitorias ou derrotas. Quantas vezes sorrimos porque alguém sorriu connosco?
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 12:46
É isso, Fernanda! O sorriso dos soldados, reprimido pela contingência, é, para mim, o mais sublime do filme. Não sei se por ser primário se por ser transcendente, mas isso levava-nos looooooooongeeeeeeee :-))) O teu novo Mazda é a gasóleo?
De imprevistoseacasos a 3 de Junho de 2009 às 14:43
O importante é sorrir, com mais ou menos velocidade, vale sempre a pena sentir o vento no rosto e o bafo da alegria, não é querida Rita.
Primário não significa necessáriamente básico, pois não?
Beijos
Fernanda
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 15:37
Objection accepted :-))

De ritz_on_the_rocks a 3 de Junho de 2009 às 12:47
belo filme, ricos comentários
bj

Rita V.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 13:05
E ricos desenhos os do teu novo blogue!! Parabéns!!
De ritz_on_the_rocks a 3 de Junho de 2009 às 15:25
...
eh eh eh

Tanquíu

:-)
De Luísa a 3 de Junho de 2009 às 12:59
Palavras para quê, minha querida Rita? O futebol, se não é - felizmente - responsável pela morte de muitos corpos, é-o pela «morte» de uma infinidade de espíritos. O que se torna particularmente patente em certos Domingos à tarde nas melhores casas de família. ;-D
P.S.: O filme é extraordinário, ao fazer o paralelo da evolução dos factos e emoções no estádio com a situação de confronto entre os soldados.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 13:22

Hoje em dia considero saudáveis todas as formas de evasão que nos aliviem da angústia e da pressão e do complexo de culpa que os noticiários, e a brutalidade da vida de hoje, nos incutem diariamente, fragilizando-nos ou vulnerabilizando-nos ou mesmo incapacitando-nos. Uns vêem novelas, outros filmes, outros futebol. O risco é o de as pessoas não terem outro alimento se não o das massas, correndo o risco de se tornarem clones umas das outras, por fazerem todos a mesma dieta de emoções, sejam elas boas ou más. É a isto a que se refere, Luísa? Ao perigo de «desinvidualidade»?
De Luísa a 4 de Junho de 2009 às 03:10
Esclareço desde já, Rita, que sou grande apreciadora de bom futebol e até admito alguma simpatia «leonina». Mas acho que a atitude do não-perder-um-desafio-por-nada-deste-mundo, relativamente comum, só pode significar uma de duas coisas: ou assanhado fervor clubista (perigoso!), ou desinteresse por tudo o que sobra para além das interacções de vinte e duas pernas com um esférico (triste…). Também tenho imenso medo das evasões e das alienações colectivas, que jogam nos tais fervores clubistas, bairristas e congéneres e no exacerbamento das emoções. Acabam por desencadear processos (que incluem essa «desindividualização» de que fala), que são, na essência, os que subjazem aos mais violentos conflitos humanos. (Daí o interessante «paralelo» entre os momentos do jogo que se relata no transístor e os momentos do confronto entre os quatro soldados).

De Rita F a 4 de Junho de 2009 às 08:32
E existirão obcecados que vêem a vida como uma série de intervalos indesejáveis entre desafios de futebol :-))
De Raúl Mesquita a 3 de Junho de 2009 às 15:12
Rita, acho que me vou limitar ao filme porque nele está tudo. Já alguém hoje, aqui, referiu, parece-me, o absurdo da guerra. No filme, realmente, aqueles quatro homens não têm nenhum objectivo, fazem o que lhes mandaram fazer ou talvez também acreditem no que fazem. O futebol funciona como o ruído externo e interno, o da mente numa situação de stress. É uma belíssima condenação da guerra, em paralelo com este jogo de nervosismos. A guerra e o circo romano! Absurdo, diversão, falta de respeito pela dignidade do Homem . O lucro financeiro de ambos estes "jogos", alguém o tira sem dúvida. Parabéns pela tua escolha , Rita. Bjs , Raúl.
De Rita F a 3 de Junho de 2009 às 15:44
É isso mesmo, Raúl, um absurdo. E qual a divindade que os tutela? Ou que não os impede?

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds