Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Pocket Classic (Cândido)

Marie Tourvel

 

Hoje falarei sobre o fato de que todo pessimista é um chato e todo otimista é um... pato. Voltaire. Sim, bilionário, eu sei que até você, que já conseguiu tudo de bom nessa vida, não é otimista até a veia. Você verá no transcorrer de meu pocket de hoje o motivo de eu sempre dizer que sou absolutamente panglossiana e só tomar na tarraqueta. Não te ajudo para que você me pague, bilionário; te ajudo de graça justamente por ser panglossiana. Resumo:

 

Cândido e amiguinhos partem para aventuras e mais aventuras, se fodendo de branco e preto num mundinho que Pangloss, seu mestre, diz ser tão bacana e tão generoso. Pangloss diz também que temos que olhar sempre o lado bom da coisa, seja essa coisa qual for. Fazendo isso, vão de ferro em ferro. E, depois de tanta tortura, Cândido quer mais cuidar só do próprio rabo. 

 

Não importam tanto as mazelas por que passa o nosso Cândido; o que importa é a visão filosófica do livro. (Boa frase pra começar um papinho com os intelequituais. Embora considerem a frase banalíssima, serão condescendentes com você. E isso é bom, porque você nunca pode demonstrar a um intelequitual que sabe bem mais que ele). Voltaire, entre outras sátiras, critica Leibniz (não vou dizer quem foi ele; procure), que achava que as coisas são como são e não podem ser de outra maneira, e que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Esse é o Dr. Pangloss. Por isso me digo panglossiana, entende agora, bilionário? Minha cela no sanatório é toda cor-de-rosa. Diga a eles que esse é um texto paradigmático do Iluminismo, mas é, também, um irônico ataque às suas crenças otimistas. E, por favor, não fique só em Cândido e Pangloss: fale um pouco sobre Martinho, um outro amiguinho de Cândido. Diga que ele, contrapondo-se a Pangloss, é maniqueísta, e não espera nada nem do mundo e nem das pessoas: seu olhar não é pessimista, mas realista. E se quiser chatear um pouco alguns – aliás, a grande maioria, dos intelequituais, diga que a grande lição do livro é dada pelo velho turco que Cândido encontra em suas aventuras: “aqueles que se metem em negócios públicos acabam miseravelmente.” O turco velho, que cuida de sua família sem pretensões intelectuais, ensina aos filhos que cabeça vazia é a verdadeira casa do coisa ruim: traz tédio, vício e necessidade. E não esqueça de dizer o que Cândido diz no final do conto. Quando tentam justificar todas as atrocidades que sofreram como o melhor que podia ter lhes acontecido, Cândido diz que tudo está muito bem dito... mas que é melhor a gente cultivar nosso jardim. Fecha com chave de ouro, não é, bilionário? Gostaria que você lesse este crássico. Senti vontade de incentivá-lo nisso. Sou panglossiana, bilionário, e intelequitual. Acredito. 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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14 comentários:
De Ana Vidal a 2 de Junho de 2009 às 10:15
Marie, aqui fica uma sugestão de mais uma panglossiana (pois é, também sou...) para facilitar a vida aos teus aprendizes: um excerto divertido (embora com má imagem) da extraordinária opereta "Candide", do Bernstein, baseada nesta obra de Voltaire. Não queremos que falte nada aos nossos bilionários, não é?

http://www.youtube.com/watch?v=j3jO-1lQl_c&feature=related

Um beijo :-)
De marie tourvel a 2 de Junho de 2009 às 12:26
Todos, no fundo, bem lá no fundo, somos, não é, Ana, minha querida?

Sugestão maravilhosa que vem a calhar para nosso amigo bilionário. E por que não aos intelequituais? :)

Obrigada mais uma vez, Aninha.

Beijos!
De rose a 2 de Junho de 2009 às 13:08
Esse Pangloss devia tomar 't o c h i k u z ''. Só podia ser Iluminista! E devia ser pai da Poliana.
Mas que deve bom ser otimista deve. Por que você não desenvolve a série "Desenvolvendo comportamentos, ou a imitação de Pagloss".

Esqueça os intelequituais, Marie. Pensa em nóis.
De marie tourvel a 2 de Junho de 2009 às 23:06
Ser tão panglossianos, faz de nós uns verdadeiros bananas.

Não posso esquecê-los, querida. Como me divertirei sem eles? ;)

Beijos, linda
De Luísa a 2 de Junho de 2009 às 16:24
Marie, a leitura do Candide, feita numa época de muitas leituras ávidas e sequenciais, já tem os anos que o remetem para o limbo das ideias vagas. Foi um prazer «revisitá-lo» no seu «Pocket Classic», que me incentiva a uma releitura e um reencontro com o sarcasmo voltairiano.
P.S.: É indispensável que reveja os clássicos, Marie. Há dias, tentando discutir com a minha filha a «Chartreuse de Parme», confrontei-me com o mesmo problema. Como me acontece com as viagens concentradas e cheias de informação, conservo algumas imagens, mas a sequência dos acontecimentos perde-se nas brumas. :-)
De marie tourvel a 2 de Junho de 2009 às 23:09
E não é, Luísa? Eu adoro reler livros. Mesmo porque a literatura contemporânea está pobre. Uns ou outros que se salvam.

Pensarei num Pocket com a "Cartuxa". Seria bom, né? :)

Beijinho
De mike a 2 de Junho de 2009 às 19:55
Eu também sou panglossiano. E olha, bilionário, faz um grande favor a você: leia com atenção o que a Marie tem vindo a escrever aqui todas as semanas. E vocês também, intelequituais. :D
De marie tourvel a 2 de Junho de 2009 às 23:12
Somos todos panglossianos, né, Mike? Os intelequituais podem até ler, mas me odeiam, querido. :)))))

Beijos e obrigada por tudo, tá? ;)
De ritz_on_the_rocks a 2 de Junho de 2009 às 21:33
ó meu Deus
estou completamente aos papéis ...
traduz para mim Marie?

ah ah ah ah ah

bjs
De marie tourvel a 2 de Junho de 2009 às 23:13
Ritinha, querida, usei termos muito brasileiros, né? Tenho que maneirar com esse meu bananismo. :)))))

Beijocas!
De mike a 2 de Junho de 2009 às 23:32
Tem nada, Marie. A Rita que se vire, ué. (risada)
De marie tourvel a 2 de Junho de 2009 às 23:39
Tadinha da Rita, Mike. :)

Mais beijinhos.
De Lilian a 5 de Junho de 2009 às 03:48
Querida Marie,
Adorei.
Nunca nos decepciona hein???
Enfim...
Está tudo certo nesta vida!!!
Um beijo grande!!
De marie tourvel a 5 de Junho de 2009 às 22:53
Oi, Lilian, querida. Bom que tenha gostado. Tá tudo certo ser panglossiana, não tá? :))))

Beijos!

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