Sábado, 30 de Maio de 2009

O improvável jogador

José António Barreiros
 
O dia terminava. Sabia-se porque no interior de cada sala esconsa projectava-se já a penumbra, devorando a cada objecto o seu pormenor. Era a hora em que as almas anoiteciam. Apenas os sons se tornavam mais nítidos, mais próximos, mesmo quando incómodos. No vazio de uma esquálida varanda, envolvendo-se na sua incerta sombra, fazendo do seu corpo companhia, estava um cão. Não era fácil saber se ainda existia para alguém, cuja alma doesse por ele estar ali. Domingo voltariam todos, o mundo dos humanos. Água, comida para uns dias e a ausência de certezas, eis o que tinha para enfrentar aquilo que a vida lhe trouxesse. Sexta-feira todas as contingências lhe pareciam, porém, possíveis. Ninguém o avisara do que poderia suceder. O silêncio era a sua forma de aguardar o regresso da esperança.
publicado por Ana Vidal às 07:30
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41 comentários:
De Rita F a 30 de Maio de 2009 às 07:38
«Cão como nós», Jab?
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 07:40
Bom dia Rita. Já aí está? Madrugadora! Com ironia e sumo de limão posso dizer o que me disse a semana passada? Cantas bem mas não me alegras, ai Manel .
De Rita F a 30 de Maio de 2009 às 11:06
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo,
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve no mundo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia,
Vi-me livre daquele companheiro,
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.

E respirei! “Graças a Deus! Já posso”
Dizia eu viver neste bom mundo,
Sem ter que dar diariamente um osso,
A um bicho vil, a um feio cão imundo.”

Passou-se o tempo. Finalmente um dia,
Vi-me livre daquele companheiro,
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta aguém batia:
Fui ver quem era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda casa satisfeito,
E – de cansado – foi rolar dormindo,
Como uma pedra, junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável,
Suportar esse hóspede inoportuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo,
Para livrar-me desse cão leproso,
Havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos,
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos…
De instante a instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo; ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o tôrvo pensamento:
Peguei num remo – e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso
Como um cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremesei-o às ondas de repente…
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.

Voltei a terra – entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão, profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas morimbundo.

Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei – oh, grande dor! – haver perdido
Uma reliquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: – eu tinha -o unido.

Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além no mar profundo,
No eterno abismo que devorava tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah ! se Veludo

Duas vidas tivera – duas vidas
Eu arrancava àquela besta morta
E àquelas vis entranhas corrompidas.
Nisto senti uivar à minha porta.

Corri – abri… Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés -, e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.

Fora crível, oh Deus? – Ajoelhado
Junto do cão – estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o ! Estava morto.”

(Luiz Guimarães)
De ulisses a 30 de Maio de 2009 às 14:16
«Eu tive um cão», escreve o poeta.
Eu nunca «tive» cão, gato, pássaro, ou qualquer outro animal, nem quando era pequeno. Lá em casa viveram alguns bichos, dos quais eu tratava. Era mais assim.
Já que a Rita aqui deixou um registo literário de uma relação possível entre um humano e e um cão, aqui fica uma outra sugestão:
http://www.youtube.com/watch?v=9jpxcIxyNy8

Belo texto, Jab.
Um bom sábado para todos.
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 18:29
...belo link ulisses

Rita V.
De Ana Vidal a 30 de Maio de 2009 às 09:18
Vivemos num mundo cão, Jab.
Mas quem nos dera a nós, humanos, encarar os nossos abandonos com a esperança (mesmo triste) deste cão na varanda, à espera de Domingo. E quem nos dera ser capazes da felicidade exuberante e cheia de perdão que ele exibirá, no Domingo, a uns donos que não o merecem.

Belo texto.
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 10:53
Bom dia Ana. Obrigado por me albergar nesta sua casota. Coço aqui, pata alçada, as pulgas das minhas confusões, lambo as feridas e dou em público sete voltas antes de adormecer . Por vezes ladro à lua, raramente rosno, ocasionalmente uivo. Um bom sábado.
De Ana Vidal a 30 de Maio de 2009 às 17:59
Esta casota é sua também. Espero que encontre sempre aqui uma bela ração, sombra e água fresca. O pior é as pulgas, que não queremos pôr-lhe uma coleira... :-)
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 09:26
... e de rabo a abanar de contentamento ... o parvo!

lol
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 10:50
Sabe porquê? Porque o cão vive o contentamento abstracto, feito da ilusão de uma ideia, sentimento que lhe nasce da realidade que o instinto lhe determina. A sua inferioridade está nesse abanar a cauda, ante a simples possibilidade de uma carícia. Veja os cães de raça, indiferentes, sobranceiros, senhores do seu espaço sentimental. Compare-os com a esfuziante ânsia de um vira-lata , rafeiro carente, olhos húmidos de pedinte . Uma festa que lhe faça, lambe-lhe as mãos, idiotamente grato, eternamente agradecido.
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 11:11
Caro J.A.B.
Ainda bem que o meu cão não é cão é cadela ..
:-)
Ainda bem que não é de raça ... nem de caça ...é - she dog street
:-)
Ainda bem que chego a casa e ela me lambe e se torce e me olha melosa
:-)
.. mas é verdade sim, ... que abana o rabo quando lhe pergunto...

- então gorda? quer 1 biscoito? ... biscoito?

ps
no que diz respeito á inferioridade ...vou ali e já venho...
lol
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 11:16
A inferioridade é a superioridade. Escrevi tentando ser irónico. Hoje é o meu dia azarado de ser tomado à letra. Desculpe-me, pois se gerei equívoco. Será que terá ficado a ideia arrogante de que prezo a indiferença e a sobranceria?
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 13:26
... eh eh eh ... não! ... se assim fosse, o J.A.B. não teria graça nenhuma ...
gosta de brincar com as palavras
e atrás das palavras
o fundo do 'tacho'
...às vezes triste!
Não há equívocos por aqui e a dogstreet tem nome
... Rexy

:-)
bjs
Rita V.
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 18:31
Bom humor em dia de calor! Bela resposta. Tirou-me do sério! Ainda bem
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 20:16
...

:-)


De mike a 30 de Maio de 2009 às 09:38
Ia escrever enigmático e misterioso, JAB. Mas depois de ter lido os comentários, nada como a sensibilidade e intuição feminina para nos despertar de uma letargia e preguiça mental masculina, resolvi que, afinal, acho este texto, para além de magnífico, enigmático e misterioso.
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 11:02
Mike , bom dia. Não há uma letargia nem uma preguiça que sejam atributos da masculinidade. Talvez remorsos sim, de maus momentos e a vontade de exorcizarmos o mal flagelando-nos por culpabilização. Menos por cavalheirismo, mais por já nem sabermos de que nos absolver.
De mary a 30 de Maio de 2009 às 10:34
"Só recordam aqueles que confidenciam, a recordação é uma arte que arranca da solidão e do silêncio", escreveu Bénard da Costa a propósito do filme Johnny Guitar .
Atrás das portas que aos olhos se fecham, as almas anoitecidas retomam forças de modo a que a energia radiante de uma qualquer estrela as faça brilhar quebrando, assim, o silêncio da noite.
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 11:09
O João Bénard da Costa escreveu um pequeno livro chamado «Nós, os vencidos do catolicismo». É um testemunho honrado de um tentativa de ter esperança através da fé. Livro de sociabilidade em território de solidão. Li-o minuciosamente, não tanto pelos factos correntes da vida real que nele estão, sobretudo pela cidade do sol que dele se divisava. O personalismo não é seguramente uma filosofia da existência, é pelo menos um refúgio do humano esgotado de cidadania.
De João Paulo Cardoso a 30 de Maio de 2009 às 10:38
Mesmo provido de duas patas extra e um rabo mais comprido, recusar-me-ia terminantemente a rejubilar perante o ocasional amplexo apressado de quem me esquece no vórtice dos dias.

Sei que mesmo sem polegares oponíveis, capacidade de raciocinar ou a ausência de cores, abominaria o amor em part-time.

E se em mim residisse algum lampejo de esperança, não me calaria até que o último gemido secasse a garganta.

Belíssimo texto uma vez mais, com capacidade de provocar implosão de emoções e explosão de reacções.

Um abraço.

De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 10:58
Obrigado, João Paulo. A revolta no cão é enlouquecer, primeiro pelo torpor, tornando-se como indiferente felino e ronronante, depois pelo incessante perseguir nevrótico da própria cauda, rodopiando até ao estonteamento alucinogénico . Acorrentados, alguns cumprem pena por crimes que jamais poderiam ter praticado. A paralisia embrutece-lhes a capacidade de sofrer.
De Luísa a 30 de Maio de 2009 às 13:07
O meu primeiro grande amigo de infância foi um cão e por isso tenho, pelos cães, uma simpatia especial. Embora saiba que esperam do homem a retribuição de uma alimentação condigna, acho-os capazes de sentimentos e actos da maior abnegação (na linha do comovente poema que a Rita reproduz) e, sobretudo, absolutamente incapazes de uma traição, no sentido humano do termo.
Acho muito interessante, Jab, que, com o cão de que fala, «o silêncio [seja] a sua forma de aguardar o regresso da esperança.» Na minha vizinhança, os cães costumam aguardar esse regresso em infindáveis e sonoríssimos prantos, que já têm, confesso, dado cabo de alguns sistemas nervosos. ;-D
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 17:58
Luís, quanto eu sei o que é essa sinfonia de latidos e uivos, lamúrias nocturnas e chiadeiras diurnas, aflição ! Obrigado por me ter visitado !
De JdB a 30 de Maio de 2009 às 16:51
Não tendo dotes suficientes para adivinhar o que vai na cabeça do insigne articulista (desconfio sempre da aparente simplicidade de alguns textos, como pobre que desconfia de esmola grande...) resta-me usurpar o espaço que aqui encontro e divagar.
Há uns tempos, falando sobre as memórias da tropa (tema que, de entre todos aqueles que Deus nos ofereceu, talvez seja o mais maçador) um amigo confidenciava-me: sabes o que mais apreciava no tempo de recruta? A ausência de liberdade...
Ao cão deste jogo resta-lhe o silêncio, a perspectiva de um fim de semana de cuja dimensão não tem a noção e a ausência de certezas. A liberdade (relativa), bem maior com que fomos brindados, tem destas coisas: o que faço com ela? A vida, dizia alguém, consiste em não saber, em ter de mudar, em receber o que nos é oferecido e fazer disso o melhor possível, em desconhecer o que se passa a seguir, em usufruir desse mistério.
Gosto de pensar que o cão, a varanda, a contingência e o regresso da esperança não são mais do que aquilo que quisermos ver.
Neste dia de calor, em que o cerebelo se derrete em camadas amorfas de discernimento decrescente, lembro o Gedeão: Vê moinhos? São moinhos. Vê gigantes? São gigantes.
Até para a semana, para mais uma boa partida consigo.
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 17:57
Meu caro JdB , excelente criatura: pois tudo é o que é e assim é que é, além do que não é. E assim Deus é o que é e também o que não é. A ideia pertence ao Álvaro de Campos. O pobre cão, ausente da metafísica e da teodiceia alheado, encontra-se ante a contingência de uma liberdade aprisionada, de facto. Vive o paradoxo do prisioneiro, esperando ser executado quando não o esperar. Eis um quebra-cabeças lógico para um engenheiro, como o Álvaro de Campos. Bom sábado e que se derretam as gorduras, supérfluas, não as ideias, necessárias.
De meunikaki a 30 de Maio de 2009 às 18:37
Bom dia a todos, aliás boa tarde, que tenho pouco de madrugador. Lidos os "n" comentários, tenho (temos?) de reconhecer que o cão, na sua generalidade, é um animal intilegente: a troco de abanar a cauda e mais algumas habilidades, consegue do homem, na sua generalidade, casa e comida e, como todos os animais, mesmo racionais, uma casa, um lar.
Qual é o princípio? Quanto mais dás mais recebes? Por norma creio que sim e, se possível, agora no que aos humanos concerne, que se dê e receba desinteressadamente, que é o que nos diferencia dos demais.
Bom fim de semana a todos.
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 18:43
Quando escrevi, de facto, não vi esse mundo comutativo, feito da troca e da equivalência, do mercado e das suas leis, essa inteligência tão prática, tão útil, pelos vistos tão existente. Ingenuidade minha, talvez. Foquei-me literariamente no cão, o que retribui pontapés com a alegria de ver aquele que lhos dá. Acordei agora do sonho para o pesadelo.
De meunikaki a 30 de Maio de 2009 às 18:50
Meu caro, não há sonhos sem pesadelos, sob pena de nada haver (exagero, claro).
O cão quer comida e abrigo a qualquer preço (desde que não a morte), o homem quer muito mais do que isso e quere-o desinteressadamente (se bem que haja muito interessado por aí....). Esse desinteresse que o cão não conhece, é o sonho de todos os homens, com "H": é o nosso sonho diário, com que é bom acordar.
De imprevistoseacasos a 30 de Maio de 2009 às 18:41
Boa tarde
Enquanto lia o seu texto, lembrei-me de um livro, que me marcou, sobretudo porque um dos seus contos abordava a relação doentia, dependente, bonita, contraditória, entre um homem e o seu cão, companhia única numa fase de sua vida. Recomendo vivamente Tristão e outros Contos de Thomas Mann
Um abraço,
Fernanda
De José António Barreiros a 30 de Maio de 2009 às 18:46
Fernanda, boa tarde. Muito obrigado. Pecado meu, conheço tão pouco do Thomas Mann!Irei procurar esse livro e tentar todos os outros. Como num sanatório, a magia do ar que respiramos cura-nos das doenças que sofremos, sobretudo as do espírito, os males de Anto.

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