Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Semibreves

Ana Vidal

 

 

Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais relvosa,

roçando, em cada poro, o céu do corpo.

 

É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe

 

valendo a pena e o preço do terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.

 

Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda a ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde.

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
link do post
28 comentários:
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 09:11
«Amor começa tarde»?? Girls: esperança para as maduras!!!!
De Ana Vidal a 28 de Maio de 2009 às 12:03
Não é uma esperança, é uma confirmação... ;-)
De fugidia a 28 de Maio de 2009 às 09:17
Um dos meus preferidos (também já postei).
Sim, o amor começa tarde :-)
De Ana Vidal a 28 de Maio de 2009 às 12:04
E acaba nunca, Fugi. :-)
De mike a 28 de Maio de 2009 às 09:25
... desde que não acabe cedo e seja semibreve... :)
De fugidia a 28 de Maio de 2009 às 09:30
lol
(bem visto)
De Ana Vidal a 28 de Maio de 2009 às 12:07
Se falamos de Amor, nunca é semibreve, Mike. Semibreve é a paixão, quer comece tarde ou não.
De mike a 28 de Maio de 2009 às 21:32
Eu cá acho que é uma questão de competência, Ana. ;D
De Ana Vidal a 29 de Maio de 2009 às 10:52
Grrrrrrrr...
De Margarida a 28 de Maio de 2009 às 09:43
Amor apreende-se depois?
Amor quer-se logo.
Amor é breve, se é fogo.
Amor é sede, quando tarde.
Amor brota, medra e arde.
Amor, cego visionário.
Amor actor e belo cenário.

De Ana Vidal a 28 de Maio de 2009 às 12:10
Lindo, Margarida! Mas, uma vez mais, acho que tudo isso é paixão e não amor. O Amor apreende-se depois, sim. Não é cego nem impaciente, nem sequer fantasista... :-)
De Margarida a 28 de Maio de 2009 às 12:16
Dear, isto 'é poesia' (eh, eh, eh...)...
Mas o que se entende quando se diz"AMOR"?
É tão lato...
Claro que há esse amor do 'segundo acto' e esse, agora, quer-nos parecer o maior.
(há dias 'debatia o ciúme na óptica do 'amor' no Risco Contínuo - dois 'posts' distintos e a 'galvanização' passava por esse 'entendimento'...).
O que é, afinal, o AMOR?!
E porque é que a paixão não pode ser um capítulo maravilhoso dele?
(eu sei que 'pode', mas esse afã de destacar um de outro é... 'aflitiva'...)
Será que o facto dela se desvanecer nos 'obriga' a confortarmo-nos com a serenidade do que entã classificamos como 'verdadeiro-Amor'?
O que é verdadeiro ou real em tudo isso?
Tem um tempo?
Uma intensidade?
É mensurável?
ah...
Por isso, às vezes, rpefiro as palavras doidivanas e rir-me com elas.
'poetizar' por aí...

De Ana Vidal a 29 de Maio de 2009 às 10:59
Mas estamos de acordo, Margarida: a paixão é um capítulo do amor, um rastilho sine qua non. E não é obrigatório que se desvaneça, acho eu. O que me parece é que quem fica agarrado a esse vício das sensações fortes e espera tê-las com a mesma intensidade a vida inteira, não só corre o risco de grandes decepções como não chegará a saber nunca, muito provavelmente, o que é o amor.

Mas é claro que tudo isto é a eterna discussão, em que todos têm razão e ninguém tem razão.
Continue a poetizar, acho uma óptima ideia. ;-)
De ulisses a 28 de Maio de 2009 às 13:45
«Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil» [ Clarice Lispector]. Talvez por isto seja uma ciência que se aprende tarde, ou nunca se aprende. Ou talvez se trate de uma competência que só existe quando vem incluída no «equipamento de origem». Quem sabe?

Por coincidência, ontem tive nas mãos o livro sobre a Madre Teresa «Come Be My Light» e ficou-me na cabeça uma frase cujo sentido era mais ou menos este: foi, para os outros, durante toda a sua vida, um instrumento do amor de Deus, e no entanto, a maior parte do tempo, nunca conseguiu sentir esse amor e nunca foi confortada por ele .
Vai responder-me, talvez, que o que agora refiro não tem nada a ver com o poema do Drummond de Andrade, mas para mim tem tudo a ver, porque o amor, como todos os sentimentos, «praticam-se», e o mais sublime de todos, o mais exigente, é o «amor pelo próximo».
De Margarida a 28 de Maio de 2009 às 15:29
Wow!
Amei o comentário, 'Ulisses'!
Com licença, vou levar a frase da Clarice, sim?
De ulisses a 29 de Maio de 2009 às 01:37
Se amou o comentário, vai amar o texto completo da Clarice Lispector, que está aqui:
http://www.dubitoergosum.xpg.com.br/recorte64.htm

Aproveito para agradecer as palavras simpáticas da Margarida e do Mike, embora saiba que, em rigor, o que de interesse possa haver nas notas que aqui deixei não seja mérito meu, mas sim da Clarice. Ainda assim, obrigada e boa noite.
De ritz_on_the_rocks a 28 de Maio de 2009 às 17:39
... e o mais difícil ?
o Amor por si!

( por si mesmo naturalmente...)
:-)

sem esse, amor, ... tudo o resto é fantasia

bjs
De mike a 28 de Maio de 2009 às 21:31
Interessante a parte de praticar o amor. (risos)
Parabéns pelo comentário.
De ulisses a 28 de Maio de 2009 às 21:59
Essa parte também é interessante ( no mínimo) ainda que não fosse propriamente a que eu tinha em mente... :-))
De Ana Vidal a 29 de Maio de 2009 às 11:11
Não vou responder-lhe isso, Ulisses, porque concordo que o amor exige prática para existir verdadeiramente, e que o amor tem muitas faces. Os platonismos não ensinam nada nem aproveitam a ninguém.

A frase da Lispector é notável, como sempre "na mouche".

O que tenho é sérias dúvidas de que a Madre Teresa quase nunca tenha conseguido sentir esse amor ou ser confortada por ele. Ela confessou publicamente as suas dúvidas de fé (naturais num ser cujo grau de consciência era superior), e isso tem-lhe valido interpretações abusivas e erradas das suas palavras.
De Luísa a 28 de Maio de 2009 às 16:14
É engraçado, Ana, que, assim como compreendo bem o sentido (concreto) do amor-paixão, do amor-devoção familiar, do amor-amizade, sinto o vazio (da abstracção) no que toca ao genérico «amor ao próximo» cristão. O caso da Madre Teresa não é único. Já tinha encontrado a mesma grande generosidade e entrega no mesmo quadro psicológico de desconforto e até frieza na história de Florence Nightingale, por exemplo. Donde concluo que o amor que se sente verdadeiramente, o amor intenso, carinhoso, enternecido, belo, precisa de um objecto concreto, preciso, individualizado, para existir. O outro, o tal «amor ao próximo», é, ou pode ser, como refere o Ulisses, um mero impulso de horror e compaixão pelas misérias do mundo e uma prática de apoio e de solidariedade que não é incompatível com a indiferença por cada pessoa que se ajuda.
Um «post» muito rico no texto e nos comentários. :-D
De Luísa a 28 de Maio de 2009 às 16:19
E a conclusão é mesmo essa, Ulisses: o amor pode ou não sentir-se, mas deve sempre praticar-se. :-)
De ulisses a 28 de Maio de 2009 às 20:24
O que é «sentir verdadeiramente», Luísa?
Por muito forte que fosse o impulso de horror e compaixão que a Madre Teresa sentia por todos os miseráveis deste mundo, julgo que sempre seria insuficiente para explicar uma vida de dedicação aos outros. Recordo uma reportagem em que a Madre aparecia no meio das crianças e vi-a afagá-las com a mesma ternura que as mães dispensam aos respectivos filhos biológicos. Ou seja, o sentimento que experimentava pelos outros era tão intenso, carinhoso, enternecido e belo como aquele que qualquer um de nós experimenta por um ente querido.
A frieza interior, o desconsolo que refere, e que o livro que cito revela, estão, a meu ver, relacionados com a entrega pessoal ao Divino e com a ausência de «retorno» nessa particular relação. A dificuldade, que para a maioria de nós é um mistério, assenta no facto de ser possível dar aos outros aquilo que não se tem. Julgo que será mais isso.
De Ana Vidal a 29 de Maio de 2009 às 12:01
Luísa, para mim, esse "impulso de horror e compaixão pelas misérias do mundo e uma prática de apoio e solidariedade" não é outra coisa se não... Amor. Assim mesmo, com maiúscula e com todas as dúvidas e angústias que o Amor sempre implica.
A Madre Teresa confessou dúvidas de Fé, mas nunca a ouvi falar de dúvidas de Amor. E não lhe faltaram nunca objectos concretos e individualizados para amar. Uma vez, respondeu a um jornalista que lhe perguntava porque não se envolvia mais politicamente, de modo a conseguir melhores condições para a sua causa: "Não tenho tempo para a política. Por cada minuto em que me ocupo desses assuntos, morre-me um velhinho em Calcutá".
De meunikaki a 28 de Maio de 2009 às 16:32
O amor começa tarde, claro! Quando se acorda para o amor não se percebe o que é, curte-se quem se gosta e crê-se que é amor. O amor aprende-se com esses gostares sucessivos, que um dia se transforma(m) naquele.
Começa tarde na relação, começa tarde no tempo (que é bom conselheiro), até porque é necessário equilíbrio, muito, naquela cama estreita, que presumo seja apenas uma das situações em que aquele seja necessário (não vejo que o nosso poeta se tenha limitado a esses limites físicos)
De Ana Vidal a 29 de Maio de 2009 às 12:32
"Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida."

Acho que está aqui a chave do poema, e não posso estar mais de acordo com o Drummond: só se entende verdadeiramente o amor depois de se amar muito sem o entender. Por isso é um privilégio de maduros, porque é um somatório de experiências boas e más, depuradas e sublimadas até se converterem em sabedoria. Com equilíbrio, sim, mas sem perder um pingo de emoção. Afinal, é "o ganho não previsto"!
De ritz_on_the_rocks a 28 de Maio de 2009 às 17:41
Belo Post Ginja
... valeu

bjinho
Ginja
De Ana Vidal a 29 de Maio de 2009 às 12:33
Outro para ti, Ginja.
Valeu, sim. E vale.
:-)

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds