Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Autópsia de um sorriso

 

Natascha aos 10 anos 

 

 Natascha aos 18 anos  

  

Natascha Kampusch era uma miúda austríaca de 10 anos, filha única de um casal separado. Um dia (1998), apeou-se  da carrinha do colégio mas não chegou a casa. Foi roubada e o raptor soterrou-a numa cave escavada na sua própria residência, durante 8 anos. Tal como os McCann, os pais procuraram-na incessantemente por todos os meios e as suspeitas chegaram a recair sobre a mãe, com quem se dava mal. Um belo dia, ajudando o raptor a lavar o carro, aproveitando um momento em que este se ausentou para atender o telefone, numa brecha de liberdade excepcional, Natascha enxergou a sua única oportunidade de fuga e, por instinto, aproveitou-a:  lançou-se a correr como uma lebre e introduziu-se em casa de uma velhota, uns quarteirões adiante, identificando-se imediatamente. O seu nome era por demais conhecido na Áustria e a senhora mandou chamar a polícia que confirmou a identidade da rapariga através de uma cicatriz no corpo.

Desde que fora raptada,

tinha crescido apenas 15 centímetros e aumentado 3 quilos. 

 

Natascha conquistou a liberdade (2006) e o seu raptor, perfeitamente consciente do que o esperava, atirou-se nesse mesmo dia para debaixo de um comboio, fugindo assim a uma punição porventura bem mais dura do que a morte.

 

Chamava-se  Wolfgang Priklopil, tinha 36 anos, e era um vulgaríssimo empregado de telecomunicações da Siemens.

 

Durante oito anos, levou livros e discos à miúda, instruindo-a, e ocupou-a com pequenos negócios em que lhe permitia ganhar dinheiro, embora ela não tivesse onde gastá-lo. Nos interrogatórios que sofreu, a rapariga recusou-se sempre a relatar pormenores sobre a intimidade que viveu com o raptor, deixando o público mórbido e voyeur a ver navios. Mais: sofrendo da síndrome de Estocolmo, na qual a vítima se deixa empatizar pelo algoz – apesar de ter vivido sob ameaças de morte durante todos aqueles anos -  Natascha chorou inconsolavelmente ao saber do suicídio, tendo acendido uma vela na morgue ao reconhecer o corpo do seu carcereiro.

 

(O resto é circo: Natascha foi aliciada por uma estação de TV austríaca e é hoje uma conhecida entrevistadora televisiva.)

 

Perante isto, o pesadelo não será  tanto o lugar-comum de se estranhar que a Áustria tenha sido berço de «monstros» como Adolf Hitler, Josef  Fritzl ou, antes dele,  este rapaz banalíssimo - porque o diabo será apátrida -  mas, sobretudo, que o desequilíbrio tenha um rosto tão comum e insuspeito  

como o de qualquer de nós.

  

O silêncio da cave

 

 

O raptor: horas antes de se matar

 

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publicado por Ana Vidal às 07:30
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128 comentários:
De Jorge Antunes a 27 de Maio de 2009 às 09:13
Olhe, Rita Ferro:
Deixe-me ser, eu também, sincero. Gostei do seu post, porque ele abre uma luz nova sobre o Maligno, propicia um olhar diferente sobre as trevas que ensombram cada um de nós.
Vamos esquecer os austríacos como sede do Mal, porque esse lindo país também deu ao mundo Strauss, Mozart, a família Von Trapp; olvidemos os rostos, porque por trás de uma carinha laroca, já se viu, pode esconder-se um facínora. À falta de melhores indicadores confiemos na nossa máquina fiscal que, invasora prudente de um secretismo malévolo, identificará as famílias que têm cave. Não sendo pelo passaporte, não sendo pela fisionomia, resta-nos o IMI e a listagem exaustiva dos detentores dessa assoalhada demoníaca. Apela-se à cidadania que se materializa na denúncia. Eu sou o primeiro a chegar-me à frente e a revelar uma pequena arrecadação onde guardo, não pessoas, mas lenha de azinho e sobro.
PS: espero que me perdoe este comentário matutino e jocoso sobre um assunto que não tem qualquer graça. Assusta pensar que, ao contrário do que fomos aprendendo ingenuamente nos filmes, os maus nem sempre têm cara de mau, e que uma beleza ingénua pode disfarçar uma alma perigosa.
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 09:33

Querido Jorge: você e o JdB comovem-me, pois são sempre dos primeiros a comentarem os meus posts mesmo quando estes não inspiram mais do que um arrepio. Depois do martírio psicológico que todos sofremos com o caso-Maddie, vir lembrar que o rosto do diabo pode ser arcangélico ou mesmo que a alegria pode sobreviver à pior adversidade é escusado e redundante. Desculpe-me, pois, se entre tantos temas redentores fui desenterrar este, a somar aos que todos os dias nos massacram nos noticiários. O que aparentemente se pretende dizer aqui é outro lugar-comum, sei.
No entanto, foi o filme da casa do sequestrador, com que esbarrei por acidente, que me fascinou. A ideia de enterrar para preservar. Os cães enterram os ossos para que ninguém, ou nenhum outro cão, os encontre. Como os piratas os tesouros. Este homem, este desgraçado, tinha enterrado, talvez, o seu único afecto. É verdade: sou daquelas que fica sempre a pensar nos assassinos. De que amor fundamental privaram este? É verdade, Jorge Antunes, sou das que acredita nisto: todo o mal é um bem ferido e foi nisso que pensei quando escolhi este filme. Beijos para si e obrigada pelo comentário.
De luis eme a 27 de Maio de 2009 às 09:43
Rita, é do povo que quem vê caras não vê corações...

isso explica o quanto custa a pessoas que lidavam diariamente com os arguidos do processo da cada pia, olharem-nos como pedófilos...

no fundo somos todos actores nesta coisa que é a vidinha, uns melhores, outros piores...
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 09:53
Tens razão, Luís. E mais: quem transgride determinado tipo de limites raramente tem de si a imagem que os outros têm. Digamos que, por sobrevivência ou conveniência, desfoca a realidade. Ganha de si uma visão indulgente, revestida de inumeráveis atenuantes, que lhe permite reincidir diariamente sem que o escrúpulo o detenha...
De João Paulo Cardoso a 27 de Maio de 2009 às 10:10
Bom dia, Rita.

As suas postagens continuam a parecer-me um "GPS esgroviado".
E, parecendo que não, esta é uma crítica positiva.

Ao contrário dos afamados aparelhos, o que escreve não tem um só caminho apontado numa seta a vermelho, descendo avenidas e contornando rotundas ao som de uma voz monocórdica.

O seu "Sou Sincera", como bom GPS cheio de personalidade, aponta sempre vários caminhos, várias pistas, vários pontos de análise.

Já foram citadas as mil e uma nuances da face do mal, longe, bem longe, de uma máscara façanhuda, sobrancelhas arqueadas, lábios finos e olhar duro e frio.

Como falta-me o tempo quero só resgatar uma das frases deste seu último texto:

"Desde que fora raptada, tinha crescido apenas 15 centímetros e aumentado 3 quilos."

Um bom exemplo de como a privação da liberdade cerceia o ser humano.

Beijos.
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 10:40
Querido colega JPC: vou contar à minha mãe essa do GPS esgrouviado e ela vai rir-se até ao duplo engasgo - que reconfortada se sentirá com a sua metáfora!

Pois é, na foto já a vemos recuperada, mas, na altura do resgate, Natascha pesava apenas 48 quilos. Por outro lado, não apresentava qualquer lesão nem uma atitude de vítima: «My youth was very different. But I was also spared a lot of things – I did not start smoking or drinking and I did not hang out in bad company".

Espantoso, não é? Nem o sequestrador se via como «bad company» nem ela o via assim. Enfim: dir-se-ia.

Beijos mil e um bom dia de preferência esgrouviado :-))
De JdB a 27 de Maio de 2009 às 10:21
Agradeço o teu comentário simpático à minha presença matutina. Outros virão mais tarde, mas virão melhor...
Queria retirar duas ideias - uma do post, outra da tua resposta ao Jorge Antunes.
Talvez não neste caso, mas no caso Fritzl, que opinião podemos ter sobre os vizinhos? Será que ninguem viu nada, não suspeitou de nada? Como nos comportaríamos nós se vissemos o cavalheiro do lado com movimentos suspeitos? Até onde vai o nosso comodismo, noção de cidadania ou horror à denúncia?
A outra ideia é o olhar que queres derramar sobre o assassino. É uma visão interessante, talvez das mais interessantes e mais susceptíveis de discussão.
Porque o resto, não sendo lugar-comum, une-nos na condenação inequívoca.
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 11:04
Bom dia, querido João! Mencionas a denúncia, situação que ainda há pouco tempo vivi aqui em casa. Estava o meu filho e eu, especulando sobre um tema exaltante, quando uns gritos horríveis fenderam a noite. Fomos à janela e deparámos com uma mulher a ser, talvez, chantageada ou torturada por um homem, pedindo socorro. Olhei a rua, residencial, e nada se movia. Era 1 da manhã. Enquanto hesitámos, ela voltou a gritar, obviando a urgência do apelo. Mesmo assim, voltei a hesitar: se reagíssemos directamente dali, o homem fixaria a minha janela, o meu prédio, o lugar onde EU morava, e podia vingar-se. Felizmente, o meu filho (25 anos) antecipou-se, gritando assustador: «PASSA-SE ALGUMA COISA? É PRECISO IR AÍ?» O casal em apuros calou-se e olhou o nosso terraço, fixando-nos. Em seguida, o meu filho chamou imediatamente a polícia. Cinco minutos depois - vá lá! - chegou um carro da polícia e o que se passou não conseguimos compreender: a mulher partiu dentro do carro e o homem seguiu em liberdade. E foi isto, João. Não sei muito bem o que se conseguiu nessa noite, denunciando a situação. Ou quem ajudámos realmente. Mas acabaram os gritos. O Salvador seguiu para casa, porque já não mora comigo, e aquele homem, que não sei quem é, ficou a saber onde eu morava. Denúncias, dizes tu. Pois, digo eu.

Quanto ao olhar sobre os outros, e que não te passou despercebido, prende-se com o que a Fugidia diz aqui em baixo, e que já li: em todos nós há um monstro dormindo; mas quem, quem fecundou esse monstro? Houve sempre alguém, entendes? Sempre! Alguém que, numa determinada idade, quando menos merecíamos, quando menos esperávamos, nos magoou, nos humilhou, nos faltou. O «monstro» que vive em nós está longe de ser órfão. E não me venham falar de genética ou de loucura, pois estou a falar de outra coisa. Fritzl foi dado como mentalmente capaz e senhor dos seus actos.

Um beijo para ti e volta sempre. Esta Porta escancara-se à tua passagem!
De JdB a 27 de Maio de 2009 às 15:21
Muito do que li aqui faz ressaltar uma ideia: há um fio de cabelo que nos separa do monstro que habita em nós; é preciso uma rédea curta e freio ajustado para que, por vezes, não nos deixemos embalar pelo horror. Há, portanto, um Mal que nos habita e que é preciso suster.
E quanto ao Bem que tems em nós? Será que temos passado a vida a escondê-lo - ou a esmagá-lo - seja por vergonha, por falta de popularidade, por defesa, por educação, por instinto, por genética?
Há um quase nada que nos separa da monstruosidade. Será que não há um quase nada que nos separa da santidade?
Como se joga essa ambivalência dentro de nós? E por qual nos deixamos vencer, mesmo que não atinjamos os níveis que aqui são relatados?
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 16:05

Tens toda a razão, JdB, e confesso-te que foi dos comentários de que mais gostei hoje, pela luz que traz! É verdade: hoje até podemos ser generosos, honestos e desinteressados, com uma diferença: já ninguém acredita! Talvez por isso, pelo pudor que temos de que nos confundam com hipócritas, preferimos passar por egoístas. Fomos então enterrando as nossas melhores qualidades de carácter tão fundo, tão fundo, tão fundo que por vezes já nem nos lembramos onde as arrumámos. Bom, reconheço: é uma maneira grosseira de sintetizar; mas ilustra e a resposta é sim, JdB: todos nós somos igualmente capazes de santidade e repetimos essa faculdade todos os dias das nossas vidas. Não, propriamente, rezando, mas sendo heróis à nossa maneira: resistindo no equilíbrio possível, não nos deixando corromper, pedindo perdão a seguir aos excessos e às explosões, perdoando os outros, contrariando os instintos, não vendendo a alma ao diabo, avançando mais lentamente para não espezinhar os outros, lutando, corpo a corpo, contra o egoísmo, tentando vencer os nossos demónios, abdicando de nós em função de filhos e pais, deveres e obrigações, e, em tudo isso, que parece pouco, vai-se por vezes uma vida num sentido oposto àquele que idealizámos, depreciada pelos outros e avaliada com desprezo, sem que ninguém possa imaginar o que nela se investiu de dor, esforço, desânimo, medo, esperança, recomeço, destrambelhamento, apelo a Deus, às forças físicas e à ingestão de químicos que, noutro plano, tão lentamente nos vão diminuindo!

Falei?
De fugidia a 27 de Maio de 2009 às 10:37
Todos somos capazes do melhor e do pior. Todos sem excepção.
É bom que o saibamos, pois só esta humildade nos dá o freio para não pisar o risco ou, pisando-o, para saber dar um passo atrás, a tempo.

(e também eu penso sempre no lado do "mau" - é natural, porque sei que também o tenho e é tão, mas tão difícil julgar os outros sabendo-o)
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 11:10
Sempre a mesma coragem e sobriedade, Fugidia, como gostaria de conhecê-la!

Duas ideias que nos deixa e são a base de toda a reconstrução: saber quem sou, saber recuar a tempo.

Ah, se soubesse como eu luto para chegar aí!...
De fugidia a 27 de Maio de 2009 às 20:23
Seria um gosto da minha parte :-)

Ana, fáxavor de parar com as birras e fazer a mousse para o nosso lanchinho (risos)
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2009 às 20:55
Vou já começar a derreter o chocolate!

(e desta vez, quem se negar a aparecer é mariquinhas...) ;-)
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 01:37
Com chocolate corrompes-me, já sabes: fico sem saber se vou por ti, pela Fugidia ou pela mousse....
De fugidia a 28 de Maio de 2009 às 09:18
Vá pela mousse, Rita.
Definitivamente :-D
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 09:47
Não!!!!! Vocês são o diabo!!!!
De Cláudia Ferreira a 27 de Maio de 2009 às 11:17
Olá Rita.
Há muito tempo que a sigo através dos seus livros, mas só há pouco tempo soube que escrevia aqui, pelo que decidi ver quais eram os temas. Logo este!
Gosto sempre de ver os comentários e fixei uma frase sua: "em todos nós há um MONSTRO dormindo". Desculpe a ingenuidade da pergunta. E em todos nós há uma BELA dormindo?
Para quando outro livro?
Obrigada,
Cláudia
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 11:33
Viva, Cláudia, bem-vinda!

Sou uma optimista antropológica por natureza, as belas adormecidas povoam quase todo o bosque! E é mais fácil converter o mal em bem do que o contrário, juro que acho isto, apesar da aparente ingenuidade! Os métodos é que estão errados ou por outra: por vezes não podem ser melhores :-))

Novo romance entregue ao senhor dos anéis, ou seja, da Leya, e, desta vez, talvez excessivamente ousado. Mas olhe: saiu-me, sei lá :-))

Um beijo para si!
De Luis Filipe Pinheiro a 27 de Maio de 2009 às 11:23


Rita,
Fiquei com o pequeno almoço a socar-me o estômago !
Provoca medo por se pensar que pode acontecer a alguém próximo, mas também enorme repulsa e vontade de não encarar por se recear ter esse monstro escondido dentro de nós!
Assim como quando na exposição do Darwin se imagina um qualquer nosso antepassado saído do útero de uma qualquer réptil...
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 11:39
Luís Filipe, espantosa e talhada analogia a tua!

Ainda não fui à Gulbenkian, mas penso que estamos todos a precisar dessa lição de humildade. Segundo o Darwin, um milénio é poeira na evolução da espécie e precisamos de indulgência: parece que foi ontem que acabámos de endireitar a espinha!

Beijos para ti, querido Amigo!
De Nuno Martins a 27 de Maio de 2009 às 11:38
Por detrás de um sorriso como por detrás de um choro, nem sempre vemos convenientemente para onde olhamos... Talvez porque nem sempre os sentimentos emitidos nos conseguem prender a atenção ou nem mesmo nós, nos manifestamos muitas vezes preocupados com quem ao nosso redor se manifesta. Contudo, para dissecarmos da forma mais adequada essas mesmas expressões que nos surgem e são no fundo, uma extensão daquilo que reveste cada um de nós, talvez seja necessário conviver, perceber, assimilar, extrair e mostrar disponibilidade para tal.
No caso e apesar da barbárie cometida, o sorriso denuncia choro, a expressão mostrará sempre uma réstea de confusão, de aturdimento e até de incompreensão pelo tempo perdido num encarceramento brutal e cruel. Depois, o lento processo de rejuvenescimento e crescimento natural, far-se-á fora de tempo, longe dos momentos naturais e exigíveis para a idade, sendo incapaz de remediar os anos gastos numa clausura que de humano nada teve. Ainda que o exemplo nada pareça ter a ver, é possível encontrar similaridades entre pessoas que por certas opções de vida ou subjugadas por interesses da mais diversa ordem, se encontram enclausuradas quase do mesmo modo, traduzindo e carregando infelicidade sem que por vezes, disso dêem conta. Ainda que a consciência as possa fazer acordar, a acomodação, o receio, o medo e a falta de coragem, apenas lhes serve de bandeja uma liberdade contida e ínfame. No fundo, quantas mais Natashas Kampusch andarão por aí, retidas em catacumbas físicas e em outras tantas morais? Custa "acordar" com os exemplos...
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 11:48
Nuno, nem de propósito: ainda ontem, com um amigo, dissertávamos a esse respeito! Talvez que o afecto disforme, mas sentido e infalível, que o sequestrador tenha sabido transmitir a esta miúda, a tenha feito superar, de alguma forma, os danos horrendos do seu crime. Cá fora, por absurdo, haverá gente livre a quem o espaço e o livre acesso aos outros só servirão para acentuar mais ainda os seus profundos isolamento e desamparo. Dramático porque ignorado, e agravado por nada ter que comova o Mundo!
De Nuno Martins a 27 de Maio de 2009 às 13:26
E direi tão somente, que a sua resposta ao meu comentário foi a cereja no topo do bolo. Muito obrigado.
NM
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 01:15
O gosto foi meu, mas pode dar-me uma fatia, que sou gulosa :-))
De Nuno Martins a 28 de Maio de 2009 às 08:43
Partilho a fatia com todo o gosto, tal e qual um monte de pipocas com que se assiste a um filme :) Até lá, aguardo por novos desafios...
De imprevistoseacasos a 27 de Maio de 2009 às 12:00
Querida Rita
Este infeliz acontecimentos mostra a duplicidade da "alma" humana, sem dúvida. Mostra como alguém supostamente pertencente à "classe" dos humanos consegue infligir horrores a outro ser humano, repetidamente durante oito anos, sem aparente remorso. É difícil sequer imaginar o que aquela jovem sofreu, a família, e todos quantos eram próximos. Louco certamente, aquele homem, com aparência de cordeiro, alterou definitivamente a vida de muitos. Não consigo sentir pena, empatia ou compreensão por certo tipo de loucura. Basta, apenas, fazer um simples exercício de imaginar, com dor, que aquela criança era nossa, dos nossos.
O que dizer perante tal atrocidade?

Um abraço,
Fernanda
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 12:18
Querida Fernanda: pergunto-me muitas vezes se terei a mesma indulgência ou compreensão no dia em que a vítima for eu. E concluo sempre o mesmo, embora sem ter tido nunca uma experiência de adversidade brutal. Simpatia, claro, não me parece que viesse a criar. Natural é mesmo que me viesse a traumatizar. Agora, compreender teria sempre de o fazer, depois do me foi dado saber e conhecer: a vida, desde cedo - desde o pai Natal, lembras-te? - não distribui as graças de forma igual e isso causa no coração uma dor tão funda que desumaniza as pessoas - sabêmo-lo. As pessoas falam no dinheiro, mas tudo é injusto no acto de nascer: a plástica, o berço, a inteligência, o amor com que nos recebem neste mundo. A consciência desta desigualdade dá, nuns, para matar. Noutros, para isto que vimos. Noutros ainda, para a resistência e a normalidade. E noutros, finalmente, porque também os há - estranhamente, paradoxalmente - para o bem e para a santidade. Mas a primeira coisa que temos que aceitar é que ter força e equilíbrio para resistir é outro dom que nem todos receberam. Não será assim?

Beijos múltiplos!
De imprevistoseacasos a 27 de Maio de 2009 às 12:41
Fizeste-me pensar... :)
Mas não acredito que as condições com que cada um de nós é recebido por este mundo retorcido justifique tanto. É impossível que ele não tenha visto dor nos olhos da criança, é impossível que em algum momento ele não se tenha visto ao espelho e constatado a fealdade do acto...
Mais do que transgressão é brincar a Deus... ou ao Diabo...
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 15:04
Sim, terá visto isso tudo e querido saber como podia, com o seu amor distorcido, compensá-la do seu próprio lado negro. Nunca a sentiste em ti? Uma face luminosa a redimir a obscura?
De imprevistoseacasos a 27 de Maio de 2009 às 15:44
Claro que sim :)
Difícil será encontrar alguém que, tendo-se apercebido das suas limitações, distorções ou contradições, não tente empurrá-las para aquela dimensão a que Nina Berberova, chamou "terra de ninguém", a nossa dimensão mais solitária, para logo a seguir fazer emergir um sorriso luminoso, disfarçado de segurança e certeza....
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 16:11

Mas, Fernanda, não é isso que eu e tu - ou, enfim, as pessoas ditas «normais», tendem a fazer? - empurrar as suas tentações mais negras para a terra de ninguém? Pois este, Amiga, não conseguiu. A pergunta poderá ser: terá ao menos tentado? Não sabemos. Sabemos apenas o resultado. E pelo resultado pouco se sabe, como sabes. Uma pessoa mata outra e a única conclusão que tiras é que houve um homicídio. Se houve um assassino é outra conversa, certo? Ninguém conheceu este homem, mas não é tarde. Natascha deixou centenas de páginas de diário dos seus dias de clausura, narrando tudo o que lhe aconteceu, limitando-se a dizer que não publica. Nova pergunta, nova tentação: resistirá?
De marie tourvel a 27 de Maio de 2009 às 12:13
Rita, querida, remeteu-me ao livro de John Fowles, O Colecionador, um livro que por razões pessoais deixou-me amedrontada de verdade. O pior é que é isso mesmo, tipos totalmente insuspeitos são uns verdadeiros monstros.

Beijos!
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 12:27
Não li, Marie, mas vou ler! Confesso-me uma voyeuse arrebatada das mentes que transgridem por, ao mesmo tempo, lhes encontrar uma espécia de superioridade régia! Não me interprete mal, por favor, mas, ao mesmo tempo, aquilo que as pessoas consideram comportamento anti-social sempre me deixou fascinada! Desafiar não a cadeia ou cadeira eléctrica, mas o desamor dos outros, é, ao mesmo tempo, uma coisa grandiosa e hipnótica, do meu ponto de vista! Enfim, difícil de explicar aqui, se calhar, sob pena de me acharem tarada! Beijos para si, Marie! P.S. O Coleccionador será do mesmo autor de Os Pilares de Pedra ou estou a fazer confusão? Ou não se chamava assim no Brasil? Bom, esqueça, vou investigar... Outro Beijo!
De Rita F a 27 de Maio de 2009 às 13:12
Não faça caso, Marie, são as minhas dislexias habituais: referia-me ao Pilares da Terra, do Ken Fowlett! Devia ser óptima para concursos com o Jorge Gabriel, eu! Só rir!
De marie tourvel a 28 de Maio de 2009 às 00:41
Estas personalidades são fascinantes mesmo. A gente acaba se envolvendo na história deles. Mas tive um namorado, Rita, querida, que quando desmanchei dele me disse que chegou a pensar em me prender de alguma forma. E eu tinha acabado de ler este livro. Fiquei um bom tempo meio paranóica. Mas passou. Como tudo passa. :)

Beijos!

PS: cê vai gostar deste livro. Carcereiro e prisioneira possuem personalidades peculiares.;)
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 01:54
Conta para nós essa história, Marie! Anaaaaaa! Pede para ela contar!!!!
De marie tourvel a 28 de Maio de 2009 às 02:13
Um dia eu conto a história lá em minhas "Letras", Rita, querida. E aviso a todos por aqui, combinadas? ;)

Beijos!
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 02:30
Que significa suas «Letras»??
De marie tourvel a 28 de Maio de 2009 às 02:36
É o meu blogue, Rita, querida, que se chama "As Letras Da Sopa". Endereço: www.asletrasdasopa.blogspot.com
É só aparecer por lá que tem sempre um vinho esperando pelos leitores. :)

Beijos!
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 06:57
Não sabia, obrigada pelo convite, vou passar!
De Rita F a 28 de Maio de 2009 às 09:17
Já lá fui, Marie: adorei o recado que vc deixou ao Brad :-))

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