Sábado, 23 de Maio de 2009

O improvável jogador

José António Barreiros

 

 

Uma lasca de madeira cravara-se-lhe no espaço ínfimo que medeia a unha e a carne do dedo grande do pé. Uma minúscula falha rasgava caminho por entre o pequeno fio de um morno sangramento.

Tudo se conjugou em segundos para que se abatesse a insignificância do que era, ante a derrocada das convicções, quanto ao que poderia ter sido. Não tanto a presença da dor naquele local longínquo de si e que, no entanto, era ainda a sua pessoa; um pouco mais além que fosse e estaria onde, terminado o pé, começava tudo o que já não era ele: o mundo rastejante dos outros. Nem sequer era a dimensão inesperada do facto de doer, esse estilete agudo, que o andar tornava intermitente queixume: porque um esgar míope torna em incómodo o que podia ser a essência da insuportabilidade. Foi talvez a fatalidade embaraçosa de não poder descalçar o sapato e a circunstância de, descalçando-o, o bojudo ventre lhe impedir a flexão de se dobrar que precipitou tudo. Tinha chegado ao estado de haver no seu corpo partes inteiras inalcançáveis. Perdera, enfim, o domínio de si. Nesse momento convenceu-se de que não se pertencia. Foi então que ela o viu. Com um gesto doméstico, trivial, vindo de uma vida de complacências e de renúncias a ter razão, olhando-o fixada naquele ponto abstracto que era, afinal, ignorá-lo, perguntou-lhe: «porque não apertas os sapatos, querido? Assim, ainda corres o risco de cair».

 

publicado por Ana Vidal às 09:29
link do post
30 comentários:
De JdB a 23 de Maio de 2009 às 10:36
Tendo eu, aqui e ali, a veleidade de alinhavar palavras, e mantendo um blogue que subsiste pelos outros, mais do que por mim, questiono-me muitas vezes: para quem escrevemos, de facto? Qual a proporção entre vaidade, necessidade de comunicação, satisfação simples, favores satisfeitos, reprodução de monólogos interiores?
Feito o intróito, longo de mais, sigamos para bingo, que se fala de jogo.
Retenho, do seu texto, um pensamento: "perdera, enfim, o domínio de si". À mesa das cartas, onde me sentei amiúde com qualidades suportáveis, vi gente a perder o domínio de si. E sempre me incomodaram mais os que faziam da vitória própria uma arma de arremesso, uma evidência de arrogância, uma dimensão de achincalhamento. A quem perde pode-se perdoar (quase) tudo - menos a indelicadeza dos actos e das palavras.
Não sei quem é o "ela" do seu texto. Talvez seja - olhe que encanto... - a mesma que o acompanhou na desdita da semana passada. A nossa vida é uma saga: quem nos desfeia a vista numa semana dá-nos conselhos amigos na outra. Bizarrias.
Aperte o sapato JAB, qualquer que ele seja.
Até para a semana, para mais uma boa partida consigo.
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 10:47
Bom dia JdB . No jogo das apostas, perdeu na adivinhação das personagens. Sei que com galhardia o admitirá, com categoria prescindirá de desforra: a da semana passada era um cetáceo em forma de mulher, paquidérmica de sentimentos, sebosa de maneiras, adiposa no acto de estar. Esta, totalmente diversa e no mais ainda que sobre significativamente diferente, é a esquálida presença de quem perdeu o corpo numa muda de lençóis conjugais e se esqueceu da alma numa barata pensão de amores escusos. Resta-lhe uma domesticidade ternurenta, feita de conviver com o que fica no dia em que tudo o mais já se foi.
Um dia escreverei sobre a grandiosa mulher, a ímpar criatura, a excepcional existência: a mulher que há em todas as mulheres.
De JdB a 23 de Maio de 2009 às 11:38
JAB: há apostas que se fazem com um intuito nobre e alto: Deus queira que a perca, Deus queira que a perca.
Há a invocação pecaminosa (palavra tão feia) do Santo Nome de Deus em vão; mas há a alegria de uma vontade satisfeita.
Aceito que perdi e não quererei desforra.
Nesta volta, rien ne vas plus.
De Rien ne vas plus a 23 de Maio de 2009 às 15:07
O JdB, de tão boa pessoa que é, tenta ver tanto de bom e promissor para além do escrito, que chega a não VER o que de desolador foi efectivamente escrito... mas quem vem por BEM :)
De JdB a 23 de Maio de 2009 às 15:53
(Que estranho começar a frase por caro(a) Rien ne vas plus...)
Não sei se me encha de orgulho por achar que sou boa pessoa (conhece-me? Intui? Presume?) se desconfie do que pode ser um piropo travestido de outra coisa.
Vou esperar que o desolador do que foi escrito não se refira ao meu comentário, porque se assim for não há interpretação que valha.
Gosto de ver o bom nos outros, para que vejam o bom em mim. Mas, reconheço: sou um ingénuo, Rien ne Vas Plus...
De Rien ne vas plus a 24 de Maio de 2009 às 15:03
Conheço-o apenas do que escreve, JdB, e claro que o escrito "efectivamente desolador" era o do post.
Mas ainda assim, sem "piropo travestido de outra coisa", creio que não se encherá de orgulho... se for mesmo a boa pessoa que transparece do que escreve -:)
De Luísa a 23 de Maio de 2009 às 10:59
Meu caro Jab, lendo as suas palavras, dei por mim a pensar no momento - que se dá não sei bem quando, mas é muito repentino e nos apanha à traição, impreparados - em que começamos a sentir o divórcio do nosso próprio corpo, em que deixamos de ser uma sólida unidade e passamos a ser dois: nós (o espírito, a vontade) e ele (o corpo caprichoso, exigente, ladino, uma lapa que não despega e, sobretudo, se mostra cada vez menos solidária connosco). Às vezes, apetecia-me bater-lhe! ;-D
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 11:05
Sucede, assim, quando a alma se expande, qual pneuma etéreo de que falavam os velhos gregos, mesmo quando atenienses, quando o sopro interior silva pela carcaça que o abriga, quando o desejo de mais e de além nos aproxima do infinito, vindos do zero. Alguns, pobres lesmas, confundem isso com a ânsia de tudo; outros, caracóis de casa às costas, sabem que é a vontade do todo. Reintegrados, no fim no lar morno dos amores tórridos.
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 11:14
«Reintegrados, no fim, no lar morno dos amores tórridos», queria, minha cara Luísa, dizer este trapalhão dactilógrafo que come palavras ao almoço e vírgulas ao pequeno-almoço. Ao jantar estou de dieta literária, faço ponto e vírgula.
De Rita F a 23 de Maio de 2009 às 11:05
Eu então estava aqui a pensar noutra coisa: se ele cair, como a senhora adverte e que, segundo o meu Jabíssimo Amigo diz, o ignora, quem tratará dele?
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 11:09
Se ele cair, caem ambos, para que os dois se levantem. Descalços, então, mas descobrindo-se, enfim, um. É esta a vantagem da queda, a ineludível demonstração daquele que agarramos, deixando-nos arrastar para o mesmo abismo.
De Rita F a 23 de Maio de 2009 às 11:11
(Cantas bem mas não me alegras :-))
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 11:15
Cri-cri, cri-cri!
De Rien ne vas plus a 23 de Maio de 2009 às 14:36
Poética a resposta do Jab, mas ignora o próprio escrito: ela está fixada naquele ponto abstracto que é, afinal, "ignorá-lo".
Sem cri-cris, o que sucederia seria que Ela O ajudaria a levantar-se, sinceramente penalizada mas sem conseguir evitar um "eu avisei-te!" e Ele, sempre a mais incompreendida e solitária das criaturas, abandonaria num repente as fichas que ainda LHES restassem e levaria o seu incómodo corpo, como tantas outras vezes fizera, para aquele lougar onde há muito escondia a sua alma - o lugar da busca incessante do " lar morno dos amores tórridos".
Se o jogador deste post é o mesmo do post de sábado passado, o tal a quem o espelho devolvia a imagem de um homem com bocas no lugar de orelhas, então esse Lugar será provavelmente aquele onde a Mulher tem não só orelha(s) no lugar da boca, mas orelhas em todos os orifícios do corpo -:)
De pássaro a 23 de Maio de 2009 às 12:02
Cri-cri soa-me a pássaro.E tudo isto por causa duma lasca num pé. Claro que dói é a méchanteté des petites choses inanimées. Nada como uma pequena dor para nos fazer sentir que de triunfante o nosso corpo passa a doloroso. Mas enfim é bom saber que existe e não só quando dói. E tão só já quer o infinito,quando essa simples lasca o confronta com a finitude.
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 15:46
Boa tarde pássaro. Cada um lê-me tal como é. Lamento, mas cri-cri neste caso é de grilo, de casaca cerimoniosa, a voz da da consciência do querido Pinóquio.
De ulisses a 23 de Maio de 2009 às 18:45
O jogador pode ser o mesmo mas, de facto, as mulheres não parecem ser as mesmas. Esta de hoje parece-me distraída ou até um pouco idiota, porque a pergunta óbvia [pelo menos para mim] seria: «o que é que se passa?» ou «o que é que tens no pé?».
Veremos como é a mulher da próxima semana :-)
Um bom sábado para todos.
De ulisses a 23 de Maio de 2009 às 19:31
Definitivamente, Jab (permite-me o tratamento?), não leve a mal, mas estes personagens femininos parecem-me muito limitados, estereotipados, o da semana passada, apesar de tudo, mais interessante que o desta semana. O personagem masculino, pelo contrário, parece-me bastante mais interessante.
Refere, mais acima, que «um dia escreverei sobre a grandiosa mulher, a ímpar criatura, a excepcional existência: a mulher que há em todas as mulheres.» Porque é que não escreve sobre a mulher que há em todos os homens? Não será mais fácil?
Há pouco desejei um bom sábado para todos, agora deixo um abraço para si e até para a semana.
De José António Barreiros a 23 de Maio de 2009 às 20:39
Tomarei em conta. Se for capaz, entenda-se. Porque entre o estereótipo e a possibilidade do evitar há a diferença que significa haver em que escreve a capacidade de escrever melhor ou haver na personagem mais grandeza do que a fantasia da escrita o possibilitaria .
De ulisses a 24 de Maio de 2009 às 01:54
Por favor não minimize a sua capacidade de escrita nem, tão pouco, a sua imaginação. Não lhe fica bem.

Reli, agora, o que escreveu hoje, e reparei que, tal como aconteceu na semana passada, o escritor parece ter pouca estima por estes personagens, designadamente por esta pobre criatura feminina de hoje. Não admira, por isso, que a personagem me tenha parecido um estereótipo. O ódio é um sentimento redutor, não é?

A propósito de ódio e de conjugalidade, não resisto a contar-lhe uma história, que ficou na minha memória, há muitos anos. Vi, uma vez, na televisão, um filme francês, de que não recordo o nome nem o realizador, mas cuja história era, mais ou menos, assim: um casal, na casa dos trinta, sem filhos, ele professor universitário, ela «doméstica», viviam numa linda casa no campo, daquelas com um belo jardim. O marido era um companheiro exemplar [ daqueles que oferecem bonbons e flores nas datas certas ] que todas as amigas da mulher invejavam. Só tinha um pequeníssimo defeito: todos os dias, ao acordar, sentia o irreprimível desejo de matar a mulher, e tal vontade só lhe passava depois de tomar o café. A vida daquela mulher dependia, portanto, da capacidade de inventar, todas as noites, uma forma segura de escapar à morte, na manhã do dia seguinte. Nunca mais me esqueci desta história por esta particular bizarria: apesar desta estranha forma de vida, ambos pareciam muito felizes.

De Rien ne vas plus a 24 de Maio de 2009 às 16:08
Acutilante a sua observação, como já é habitual nos seus comentários, Ulisses. Mas ainda assim atrevo-me a duas achegas, que apenas importam na medidada em que possa importar o que cada escrito desperta em cada leitor:

se o jogador tem bocas no lugar de orelhas, podemos questionar-nos se os seus olhos terão capacidade para realmente ver além de si, resposta da qual decorrerá a possibilidade ou impossibilidade de entender a densidade de outras persionagens...
e no entanto... ! Será que ninguém reparou nesta frase "Com um gesto doméstico, trivial, vindo de uma vida de complacências e de renúncias a ter razão", em que o autor nos deixa tantas pistas para a humanização dessa que já foi Mulher e hoje, na visão porventura deformada do jogador, é apenas alguém que "ignora"?
De ulisses a 24 de Maio de 2009 às 16:45
A mulher deste post «é a esquálida presença de quem perdeu o corpo numa muda de lençóis conjugais e se esqueceu da alma numa barata pensão de amores escusos. Resta-lhe uma domesticidade ternurenta, feita de conviver com o que fica no dia em que tudo o mais já se foi», usando as palavras do próprio autor.
Ou seja, o que resulta do texto parece-me ser um estereótipo de crueldade idiota, depois da explicação do autor, o perfil da personagem é, no mínimo, confuso. Julgo que vamos ter de esperar para ver no que fica, se é que fica. Desconfio que o mais provável é que para a semana apareça outra mulher... :-)

De mike a 24 de Maio de 2009 às 02:28
Vou permitir-me à liberdade do o tratar por JAB, pode ser? Neste caso para dizer: que crueldade refinada, a dela, estou mesmo a imaginar-lhe o sorriso cândido ao mesmo tempo que proferiu a palavra querido. Estou fã deste O improvável jogador.
De MikeJosé António Barreiros a 24 de Maio de 2009 às 10:08
Mike ! Bom dia. É essa a ideia motora: a crueldade do desinteresse. Obrigado pelas palavras. Um abraço
De ulisses a 24 de Maio de 2009 às 15:32
Curioso, onde eu vi idiotice, o Mike viu crueldade refinada. Faz sentido. Sempre me pareceu que a crueldade é uma característica dos idiotas.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2009 às 00:18
Ou mera sobrevivência, talvez. Pelo menos, física, porque a alma ficou na pensão rasca e o espírito, esse, foi sendo espremido diariamente numa esfregona, cilindrado por um ferro de engomar, frito no azeite rançoso de uma frigideira e sugado por um aspirador. Se nas minudências domésticas se foi a essência, resta à personagem a crueldade, como uma espécie de confirmação de (ainda) estar viva.
De ulisses a 26 de Maio de 2009 às 00:30
Muito bem visto!

[Assim se vê a escritora. Por este andar o «improvável jogador» ainda se transforma num post de escrita criativa ... :-) ]
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2009 às 01:01
O Jab obriga-nos a raciocinar, não compactua com facilitismos... :-)
De Ana LA a 24 de Maio de 2009 às 11:52
JAB , felizmente ainda há pessoas que nos tiram as lascas de madeira, sem termos de gritar ,a pedir que nos ajudem. Surgem do nada e são também, por vezes, aqueles de quem não estamos à espera. Um beijo
De José António Barreiros a 24 de Maio de 2009 às 16:44
Obrigado ALA. Uma lasca num dedo, ainda que do pé, é pior do que um cisco num olho. Há que fique cego. Há quem passe a ver o que não está, fantasiando o que não há. Um beijo.

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds