Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Sou sincera

 

Rita Ferro

 

 

Querido mudei a casa

 

 

 

Já pensou por que razão as suspeitas de adultério,

horrorosas nos dois sexos,

se manifestam nos homens de uma forma

tão violenta e irrevogável?

 

Abreviando bibliotecas sobre o assunto,

sabemos que esta desigualdade não só se deve aos costumes

– concedendo aos homens, durante séculos, a liberdade de poderem cometê-lo sem grandes punições –

nem tampouco à sua maior agressividade, mas também à

incerteza de paternidade,

condição que desde sempre os vulnerabiliza.

 

O post da última quarta-feira, sobre atitudes contra-corrente, inspirou-me estoutro: o perdão masculino relativamente à prevaricação feminina, na esfera íntima de um casal que se ama, e o silêncio envergonhado que o envolve, como se cada homem se acreditasse herói na sua capacidade de contrariar o estereotipo e de se arriscar à  boçalidade da chacota dos seus pares, chegando a sentir-se a mais desgraçada das criaturas vivas por aceitar o retorno da mulher maculada por outro homem, quando muitas vezes nem se questiona quando sujeita a sua ao mesmo, repetidas vezes,

ou até a que, por sua causa,

esta possa contrair moléstias fatais ou desonrosas.

 

E por que razão os próprios homens perdoam,

apesar do flanco de fraqueza?

Arriscamos: quem ama precisa do outro

e preferirá sempre fazer das tripas coração

a ver-se privado desse oxigénio vital.

 

Talvez por isso trouxe hoje uma carta, eivada de contradições,

de outro interlocutor conhecido: Napoleão, a quem as infidelidades da mulher causavam uma dor lacerante.

 

Talvez para nos lembrarmos que o poder absoluto é uma anedota

até para imperadores ou que não existe batalha mais difícil

do que a travada em nossas casas. 

 

 

 

Para Josephine, 1796

 

 

Não passei um dia em que não te amasse. Não passei uma noite sem te abraçar. Nem sequer bebi uma chávena de chá sem amaldiçoar o orgulho e a ambição que me forçam a estar longe do espírito que anima a minha vida.

 

No meio dos meus deveres, quer esteja à frente dos exércitos ou em visitas de inspecção, só a minha amada Josephine se ergue no meu coração, ocupa a minha mente, preenche os meus pensamentos.  Se me afasto de ti com a velocidade da torrente do Rhône, é para mais depressa te voltar a ver. Se me levanto a meio da noite para trabalhar, é para apressar em poucos dias a chegada do doce amor. Contudo, nas cartas de 23 e 26 tratas por «vous». «Vous» para ti! Ah, desgraçada, como é que pudeste escrever tal carta? Como é possível! E depois há aqueles quatro dias entre 23 e 26; o que andavas a fazer para não poderes escrever ao teu marido?

 

Ah, meu amor, esse «vous», esses quatro dias acrescentaram algo mais à minha indiferença. Maldito seja o responsável! Possa ele, como pena e castigo, sofrer o que a minha convicção e testemunho (o que só abona em favor dos vossos amigos) me fez padecer! O inferno não tem tormentos tão grandes! Nem as Fúrias serpentes que cheguem!

 

«Vous»! «Vous»! Ah! Como é que as coisas vão estar daqui a duas semanas?... O meu espírito está sombrio, o meu coração agrilhoado e aterrorizado com as minhas fantasias… Já não me amas, mas vais ultrapassar a perda. Um dia deixarás de me amar de todo, pelo menos diz-me; então saberei porque mereci tal infelicidade…

 

Até breve, minha esposa, meu tormento, alegria, esperança e ânimo da minha vida, a quem eu amo, a quem eu temo, que me enche de ternos sentimentos, com que a Natureza me atrai, com os violentos impulsos, tão tumultuosos como o trovão.

 

Não te peço nem amor eterno, nem fidelidade, apenas… Verdade, honestidade sem limites. O dia em que disseres que não me amas, marcará o fim do meu amor, e o último dia da minha vida. Se o meu coração fosse tão vil que amasse sem ser amado, despedaçava-o.

 

Josephine! Josephine!

 

Lembra-te do que te disse:  a Natureza presenteou-me com um carácter resoluto e viril. E fez o teu de renda e gaze. Deixaste de me amar? Desculpa-me, amor da minha vida, a minha alma está exaurida por forças antagónicas. O meu coração, obcecado por ti, está cheio de medos que me prostram na tristeza… Sinto-me capaz de dizer o teu nome. Vou esperar que escrevas.

 

Até breve! Ah! Se me amas menos é porque nunca me amaste. Nesse caso, serei mesmo digno de pena.

 

                                                                                     Bonaparte.

 

 

P.S. – Neste ano a guerra mudou muito. Distribuí a carne, o pão e forragem; a minha cavalaria em breve estará em marcha. Os meus soldados mostram uma confiança ilimitada em mim; só tu és fonte de sofrimento, só tu és a alegria e o tormento da minha vida. Envio um beijo para os teus filhos, de quem não falas. Por Deus! Se o fizesses, as tuas cartas seriam maiores. E os visitantes das dez da manhã não teriam o prazer de te ver! Mulher!!!!

 

 

Nota:  Napoleão casou em 1796 com Josephine de Beauharnais,  uma aristocrata pobre de origem crioula, da colónia francesa da Martinica, com dois filhos de um casamento anterior; catorze anos depois, divorciou-se desta para se casar com a arquiduquesa Marie-Louise da Áustria, para ter um herdeiro que lhe assegurasse a sucessão. Cinco anos depois do segundo casamento seria exilado em Santa Helena. Napoleão e Josephine foram amigos até esta morrer, em 1814.

 

 

 

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publicado por Ana Vidal às 07:30
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123 comentários:
De Patricia da Cunha a 20 de Maio de 2009 às 10:55

Durante anos tive a certeza que fui a Joséphine de um outro Napoleão. Em todos os sentidos.
Custa-me assumir que provavelmente andei iludida.

De Rita a 20 de Maio de 2009 às 14:40
No amor como na Fé, há um espaço em que se duvida até ao fim :-))
De Dom Quixote a 25 de Maio de 2009 às 17:54
No amor, durante o tempo da Paixão projectamos qualidades e características no ser amado que levamos anos e anos a teimar encontar.
Quando finalmente, ficamos perante a pessoa tal como ela é, não sabemos como lidar com isso. É o bloqueio total. Não nos damos por vencidos e lutamos por descascar a cebola até ao fim, acreditando sempre que encontraremos essa personagem ideal que porventura nunca existiu senão na nossa obsessão.
De Manuel Bobone a 20 de Maio de 2009 às 10:57
Tudo quanto é excessivo, normalmente acaba mal. Frases tais como:- Nunca se ama bastante, quando não se ama demais, têm o seu lugar mais no fado (de onde a tirei) do que na vida das pessoas ditas normais.
Acredito que uma relação entre duas pessoas, nomeadamente num casamento, só pode funcionar equilibradamente quando as liberdades de cada um, se entregam e se completam.
Havendo situações de dependência seja ela de que natureza for, as coisas tornam-se sempre mais complicadas.
Fosse eu a Josefina, aquela carta seria para mim o pretexto mais que imediato para o par de cornos que possivelmente nem estava pensado e muito menos posto
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 14:42
Tens razão: a carência, assim demonstrada, exibida como um aleijão, nunca foi sexy. Mas é tão humana que chega a ser comovente :-))
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 11:12
Espero que a Rita não fique zangada comigo, mas para ser sincero tenho de dizer que, a meu ver, antes de morrer, a Josefina devia ter queimado estas cartas.
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 14:44
Ela e a menina Ofélia, namorada de Pessoa. Concorda? Napoleão, aqui, mostra-se apenas patético :-))
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 15:18
O Napoleão terá sido um grande general mas não era propriamente um literato nem particularmente «boa pessoa». As cartas são maçadoras, como maçador deve ter sido o autor... :-)

Quanto às cartas do Pessoa, já estive com o livro nas mãos, mas não me apeteceu ler. Até o Pessoa, quando escreve ao seu amor, me pareceu maçador [shame on me! :-)]

A propósito de amor, de cartas e de declarações de amor, lembrei-me deste filme, com um Depardieu no melhor da sua Arte:
www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=Qj972R3A-Bk
Mas aqui, a história é outra... :-)
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 15:38
Tenho um complexo consigo, Ulisses, nunca acho os seus links! Não pode linkar directamente aqui, de forma a só ter que carregar? Gratíssima!
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 16:29
E eu tenho um complexo com este «sapo», porque aqui nunca consigo fazer entrar os links correctamente! Vamos a ver se é desta:

http://www.youtube.com/watch?gl=BR&hl=pt&v=Qj972R3A-Bk

Há uma forma de contornar o problema: experimente fazer «copy» e depois «paste» [no local dos links, ao cimo da página] com o link que está no meu comentário anterior, porque esse está certo.

As minhas desculpas

De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 16:31
Olha, desta entrou!
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 16:52
Agora que descobri a técnica, aqui vai um que no passado sábado não consegui fazer entrar, para o «Leaving Las Vegas»:
http://www.youtube.com/watch?v=85az3GNvAQ4

E ainda um outro, para a carta enviada pela Clarice Lispector, julgo que a uma das suas irmãs:
http://haialispector.blogspot.com/2007/11/desabafo.html



De Rita a 20 de Maio de 2009 às 20:19
Obrigada, não espera pela demora - acredita que nunca percebi muito bem o que esta frase quer dizer?Que em rigor sempre a achei esquizofrénica? Ou será que não é assim que se conjuga? ALGUÉM ME ENSINA A FORMULAR ESTA FRASE EM CONDIÇÕES? ALGUÉM EXPERIMENTA A VOLÚPIA DE ENSINAR UMA POBRE ESCRITORA EM DECLÍNIO?
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 20:25

Com esta desarmou-me! :-)
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 20:31
[ O sapo é mesmo feio, livra!
Para a próxima escrevo só LOOOOOL ]
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 21:47
Ah, o Cyrano, a que embuste tremendo sujeitou o outro desgraçado!!
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 22:17
Há uma coisa que não percebo, Ulisses. Quem é você? Parece um prolongamento do Jab! Se é diga já, não gosto de enigmas. Ou melhor, gosto, mas daqueles que escolho, não os que me impõem :-))) Porque cita tanto a Clarice e logo a partir dos blogs do Jab? Hã? Seja franco e abra-se comigo. Você é o Jab? Desculpe, mas fui ao link da Clarice e fui parar a mais um dos blogs do Jab. Hummmm... aqui anda gato...
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 22:33
Citei o texto do blog do Jab porque foi lá que o li pela primeira vez. Sou leitor do Jab há muito tempo.
O comportamento que sugere seria impróprio para um homem recto. Respondi à sua pergunta?


De Rita a 21 de Maio de 2009 às 01:56
Então e o sentido de humor, Ulisses?
De ulisses a 21 de Maio de 2009 às 02:21
Que posso eu responder-lhe senão o óbvio? Está visto que em certos aspectos, o nosso sentido de humor não é ... convergente, o que não quer dizer que, em termos gerais, eu não aprecie o seu.

Já agora, respondo à parte do Cyrano. Se reparar bem, não foi o Cyrano que sujeitou o outro ao embuste, foi a dama que se baralhou toda. Ou não? :-)



De Rita a 21 de Maio de 2009 às 07:10
Pronto, pronto, as minhas mais humildes desculpas, retiro tudo o que disse: vc não é mesmo o Jab! E sim, uma pessoa rectíssima! Peço-lhe apenas que me responda: percebeu a confusão da frase? Não me referia à da Clarice, mas à que usei, entendeu? Estava só a provocá-lo, pensando que se tratava do Jab e obrigando-o a desmascarar-se. Mas não é mesmo e aqui ficam as minhas desculpas. Crystal clear? E agora? «Convergentes» como dantes?

E sim, a amada de Cyrano baralhou-se :-))
De ulisses a 21 de Maio de 2009 às 12:09
Minha querida Rita,

Indo por partes, primeiro a minha resposta para a confusão da frase: de todooooooooooooooo! :-)

Quanto ao Jab: acha mesmo que o Jab teria paciência e tempo para inventar um pseudónimo para poder citar-se a si próprio nos comentários aos posts da Rita?

Está visto que vou ter de ter cuidado, porque um dia destes ainda fica confusa sobre quem é que gosta mais, se é de mim, se é do seu Jabíssimo amigo... :-)
De Rita a 21 de Maio de 2009 às 17:23
LOL - não pense que me atrapalha :-))
De Anónimo a 20 de Maio de 2009 às 11:57
As duas coisas mais importantes nesta nossa vida são o amor e o perdão (reconciliação, misericórdia, ou como lhe queiram chamar). Não há nada que não possa ser perdoado. Depende do amor. O adultério é uma prevaricaçãozinha comparado com outras ofensas que requerem perdão. Quem viu o filme Magnolia " compreenderá melhor o que eu estou a dizer.
O corno do Napoleão não perdoou (pelo menos na altura) e não se fez maior por isso.
Beijinhos zimbabweanos .
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 14:47
Até senti um arrepio ao lê-lo, acredite, tal a identificação com o que nos diz! Magnólia é um filme de culto e isso que exprime, dos pecados da carne serem menores, quando comparados a outros, uma verdade lapidar. Obrigada pela prestação distante, mas capital! Beijos saudosos!
De luis eme a 20 de Maio de 2009 às 12:06
o amor (com paixão...) sempre foi uma coisa pouco dada a compreensões, Rita...

quem ama verdadeiramente tem uma capacidade de perdoar quase ilimitada...

(isto parece-me mais literatura, foi o que saiu...)
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 14:51
Nada simples, Luís. Mas se fosse fácil que graça tinha a vida? Convoco Schopenhauer: «Quando nada me angustia é isso mesmo que me angustia», LOL
De Patricia da Cunha a 20 de Maio de 2009 às 12:37
Rita Querida,
Percebi tudo ao contrário. Já estou farta de dramas. Afinal é a reacção deles quando são enganados. Estou lenta hoje!
Assin sendo deixo esta mensagem, aos homens, que era o refrão de uma canção do francês Georges Brassens, (se não me engano),se alguém souber corrija-me por favor. O Manel Bobone deve saber quem a cantava.
"Je suis coque mais content"
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 14:56
Hummmmm... Desta vez não concordo lá muito contigo, Pat querida. Esta não é uma reacção típica masculina! Naquela época e com o cargo que ocupava? Não, nem pensar: a Josephine dava-lhe bem a volta, isso sim! LOL
De Patricia da Cunha a 20 de Maio de 2009 às 17:20
Claro que naqueles tempos seria assim. Mas as Josefinas de hoje não são muito diferentes das de agora. E Napoleões é o que há mais por aí. Agem de naneira a que tudo lhes corra de feição. Largam e entregam tudo para manter a capa.
Por vezes acabam por se tramar e ficar na maior solidão nas suas "Santas Helenas." Temos pena
Hoje não me apetece levar nada a sério. Apetece-me brincar. Até podemos brincar aos adultérios. E agora chama-me louca!
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 20:22
Boa ideia, quem alinha? Brincar aos adultérios é bem giro, é das poucas brincadeiras que acaba séria :-))
De Patricia a 21 de Maio de 2009 às 15:47

Se alinharem não dizem!!!
De Manuel Bobone a 20 de Maio de 2009 às 20:12
Acertou, sei mesmo: cantava-a o Serge Lama e aqui vai para si:

LES PETITES FEMMES DE PIGALLE

Un voyou m'a volé la femme de ma vie
Il m'a deshonoré me disent mes amis
Mais je m'en fous pas mal aujourd'hui
Mais je m'en fous pas mal car depuis
Chaque nuit

Je m'en vais voir les petites femmes de Pigalle
Toutes les nuits j'effeuille les fleurs du mal
Je mets mas mains partout, je suis somme un bambin
Je m'aperçois qu'en amour je n'y connaissais rien

Je m'en vais voir les petites femmes de Pigalle
J'étais fourmi et je deviens cigale
Et je suis content, je suis content, je suis content
Je suis content, je suis cocu mais content.

Un voyou s'est vautré dans mon lit conjugal
Il m'a couvert de boue, d'opprobre et de scandale
Mais je m'en fous pas mal aujourd'hui
Mais je m'en fous pas mal car depuis
Grâce à lui

Je m'en vais voir les petites femmes de Pigalle
Tous les maquereaux du coin me rincent la dalle
Je m'aperçois qu'en amour je ne valais pas un sou
Mais grâce à leurs petits cours je vais apprendre tout

Je m'en vais voir les petites femmes de Pigalle
Tous les marins m'appellent l'Amiral
Et je suis content, je suis content, je suis content
Je suis content, je suis cocu mais content.

Je m'en vais voir les petites femmes de Pigalle
Dans toutes les gares j'attends des filles de salle
Je fais tous les endroits que l'église condamne
Même qu'un soir par hasard j'y ai retrouvé ma femme

Je m'en vais voir les petites femmes de Pigalle
C'est mon péché, ma drogue, mon gardénal
Et je suis content, je suis content, je suis content
Je suis content, je suis cocu mais content.

(Il s'en va voir les petites femmes de Pigalle)
(Dans toutes les gares il attend des filles de salle)
(Il fait tous les endroits que l'église condamne)
(Même qu'un soir par hasard il y a retrouvé sa femme)

(Il s'en va voir les petites femmes de Pigalle)
(C'est son péché, sa drogue, son gardénal)
(Il est content, il est content, il est content)
(Il est content, il est cocu mais content)


De Patricia da Cunha a 21 de Maio de 2009 às 15:23
Eu não disse que o Manuel Bobone sabia?
Eu aprendi esta com o meu Pai.
E já agora Manel muito obrigada pela letra.
Imagine que eu até já a soube de cor.
Vou guardá-la religiosamente.
Beijinhos para si
Patricia

De Luísa a 20 de Maio de 2009 às 12:59
Rita, é uma inevitabilidade, ou quase, que, numa relação amorosa, haja um que ama e outro que é amado. Mas esse desequilíbrio não é, quase nunca, constante ao longo da relação; ou seja, na balança, o peso pode ir passando de um lado para outro. No caso do Napoleão, a separação deveu-se à sua ambição de ter um filho, mas já havia desinteresse. Creio que, nessa altura, a Josefina sofreu mais, e não só pela rejeição e pela perda do estatuto.
Quanto à violência da reacção masculina ao adultério feminino, lembrou-me de um caso, de que me falaram em tempos, de um homem hospitalizado que precisava de umas transfusões de sangue. Ofereceram-se como dadoras as suas três filhas, mas as análises acabaram por demonstrar que não só nenhuma era sua filha, como nenhuma tinha o mesmo pai. O homem não sabia e continuou, naturalmente, sem saber. Falava das raparigas com grande orgulho. A mulher (e mãe) era bastante mais nova do que ele, mas parecia muito dedicada. Qual teria sido a reacção deste homem se fosse confrontado com a verdade? Não consigo imaginar – só vendo o homem – mas há perdões que não podem ser só amor. Fraqueza, moleza, comodismo, receio da solidão?
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 15:02
Caramba, Luísa, que enredo fabuloso! A reacção do homem seria possivelmente curar-se com a transfusão da doença que padecia para morrer logo a seguir com um enfarte do miocárdio, mas nunca ninguém chegará a saber! Quando os filhos não biológicos crescem no afecto de terceiros e no desconhecimento destes a coisa complica-se, pois, uma vez estabelecidos laços de afecto, já se provou que o orgulho não fala mais forte e isso é, de facto, redentor. O amor fala mais forte! Mas também concordo consigo, inteiramente: há certos perdões que podem ser concedidos por medo das grandes resoluções que acarreteriam o inverso e não por magananimidade ou altruísmo, e, nessas alturas, ficam manchas na alma das pessoas que podem degenerar noutras que nunca ninguém chega a saber. Há perdões que também não me convencem, honestamente.
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 20:24
Ena: por uma vez na vida quis pontuar na pontuação, e... viram o resultado que deu? Ainda dizem que as vírgulas não fazem falta, é preciso ter lata!
De JdB a 20 de Maio de 2009 às 13:42
Vou apanhando, preguiçosamente, frases ou conceitos de dois queridos amigos que me precederam nos comentários: M Bobone e quem, anonimamente para alguns, oscula do Zimbabwe.
Dizer não ás dependências doentias, que inferiorizam, que tudo aceitam em nome de um pretenso oxigénio sem o qual não se poderá viver, que degradam a dignidade de que cada um é merecedor.
Mas, também, ter a certeza de que nada há de mais importante do que o amor e o perdão. O perdão é libertador, engrandece, oxigena-nos a alma, "orgão" bem mais importante do que a mente. Perdoar é mais do que aceitar um "desculpa qualquer coisinha", é revelador de um amor que pode ir ás últimas consequências da radicalidade.
Numa época em que a falsa paternidade já pouco existe - passe alguns casos mais bizarros - a dificuldade do perdão masculino á mulher que o trai (quando argumentado com base em conceitos cornudos, mais do que na estatística do engano) é, muitas vezes, reflexo de menoridade.
A música je suis cocu (grafia certa?) mais content parece-me, no entanto, um pouco forçada, mesmo que haja femmes de Pigalle de permeio. Como seria a sua versão feminina.
Numa dimensão mais zoológica, poderíamos comparar o corno à hiena: riem de quê?
De Paricia da Cunha a 20 de Maio de 2009 às 14:03
Meu caro JdB
Já não sei bem qual é a grafia certa. Será a sua de certeza. Ainda bem que me emenda. Gosto sempre que me corrijam.
E parece-lhe forçada porquê? Porque é homem? E olhe que eu não sou uma defensora das mulheres, muito pelo contrário,. Defendo sempre os homens. As mulheres, salvo raríssimas excepções, irritam-me e desiludem-me. E cada vez mais. Já os homens..... Fui sempre assim. Será por ter crescido numa família onde os homens eram em maior número e fui muito mimada por eles e assim continua a ser? Na minha fámília há mais homens do que mulheres. Eu própria tenho uma filha e dois filhos.
E sabe que mais o cormo só é corno quando descobre. Até lá não é nada. E o mesmo se aplica às mulheres. Ou acha que estou a dourar a pílula????
De JdB a 20 de Maio de 2009 às 19:42
Patrícia,
ainda bem que gosta que a corrijam (a dona deste post está sempre a fazê-lo comigo, felizmente) embora tenha dúvidas quanto à minha grafia.
O forçado não tem nada a ver com quem canta, se é homem ou mulher. Mas dizer - como me parece que cantava o Juca Chaves - "eu sou cornudo mas eu sou feliz..."?
E mesmo que doure a pílula, fá-lo seguramente com o maior gosto e elegância.
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 20:27
(Patrícia, João: será que estamos a assistir a um picanço em directo? UAU! qsss qsss... qsss qsss... Este blog só lhe falta falar!)
De JdB a 20 de Maio de 2009 às 21:07
Tire daí o sentido, menina. Picanço só conheço aquele rapaz, agora calvo, do Sindicato dos Quadros Ténicos do Estado. Gente que não andava na Parada, não seria de Cascais, não cozinha empadas. Mas com nome de gente do seu imaginário. O outro, sabe...
Com o maior respeito e consideração pela senhora sua prima.
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 21:49
Ahahahahahah! Vc é impagável, JdB! E o que gosto de picá-lo, de tentar desmanchá-lo? Mas, impossível! Vc nunca abandona a sua majestade e a seu lado qualquer um se sente grosseiro! Muitas vénias, Senhor Duque!
De Ana Vidal a 21 de Maio de 2009 às 00:08
Peço desculpa: este blogue fala, e muito bem!!
De Rita a 21 de Maio de 2009 às 01:57
E quem fala assim não é gago :-))
De Patricia da Cunha a 21 de Maio de 2009 às 15:35
Querias picanço em directo. era! Tira daí o sentido Prima! Estamos a falar de coisas sérias e muito delicadas. Aliás quem deu o mote foste tu.E temos que concordar que é fogo. Alíás é um assunto que daria pano para mangas e para noites sem fim de conversa.
O que fiz foi brincar um bocadinho. Se calhar não o deveria ter feito. Não quero magoar ninguém.
Beijos
De Patricia da Cunha a 21 de Maio de 2009 às 15:42
Meu Caro JdB
Não fique zangado comigo.
Eu só estava a brincar um bocadinho
Patricia

De Patricia da Cunha a 21 de Maio de 2009 às 15:49
Meu Caro JdB
Não fique zangado comigo.
Eu só estava a brincar um bocadinho
Patricia
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 15:20

Antes de mais nada, JdB: a falsa paternidade continua a existir e existirá ainda durante muito tempo, estou convencida, até porque o facto de um marido levantar essa questão à mulher constitui um anátema de desconfiança que introduz um mal-estar irreparável num casal. Existe e existirá sempre, repito, excepto em caso de despiste através de pesquisa de ADN, certo?

Depois, quando falei na incerteza de paternidade, não me referi a um factor consciente, mas inconsciente: estou convencida de que nem os homens, eles próprios, interiorizam esse sentimento, que é, ao mesmo tempo também, um instinto.

E, por fim, uma curiosidade: conhece o acento grave?
De JdB a 20 de Maio de 2009 às 19:48
Sim, certo.
A minha referência à falsa paternidade baseava-se num comentário (Luísa) que reportava o caso de um pai com tr~es filhas que não eram dele.
Quanto aos acentos graves. Se os conheço? Muito bem, eram uma famíla honesta que vivia para os lados de Cascáis. Ou seria Cascàis?
Sabe, ando cansado, e o acento grave é mais custoso de digitar. Para a próxima vez desacentuarei tudo...
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 20:31
Ahahahahah! Maria Emília Rebordalo Meneseses Acento Grave, lembro-me perfeitamente! Eram da Parada, não eram? O pai velejava e à mãe chamavam-lhe tia Manani! Sei lindamente! Faz hoje empadas para o Corte Inglês da Beloura, é a mesma ou a filha?
De Ana LA a 20 de Maio de 2009 às 14:16
Minha querida,
Sabes que eu não sou muito dada a pensamentos profundos. Tenho imensas limitações intelectuais e vivo a vida sem pensar muito nos devaneios e/ou incoerências . No entanto, este teu texto leva-me exactamente para o que eu sou, realista e pragmática (refiro-me à dimensão pragmática do sentido - todos os nossos discursos produzem efeitos). Portanto, Homem ou Mulher (porque a infidelidade é para todos) que se levante quem nunca foi infiel!
Notem que ser infiel, não é apenas partilhar corpos. Pode ser também a soma de todos aqueles momentos que passamos a pensar noutro, ou á procura do que os nossos "amados" não nos conseguem dar. Momentos em que divagamos pelas Caraíbas de braço dado com alguém que nos encanta, olhares que trocamos com um qualquer sujeito que se nos atravessa no caminho. Estamos ou não a negar o que Napoleão pede a Josefina "Não te peço nem amor eterno, nem fidelidade, apenas… Verdade, honestidade sem limites" Não é isto mais importante ?
Aceito inscrições.
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 15:28
Querida Ana, inscrevo-me já!

Para já, não te deprecies! Ninguém aqui é intelectualóide nem fomenta poses! Depois, tens toda a razão: quem nunca cometeu infidelidade que atire a primeira pedra! Mas não falávamos dessas, das da mente, mas daquelas que dão flanco público e obrigam os homens a uma reacção! Quantos são capazes de perdoar e aceitar as suas mulheres de volta? Ah, pois é... Mas, mais difícil ainda: quantos são capazes de aceitar as suas mulheres de volta sem depois levar o resto da vida a dizer-lhes: «Perdi a confiança» ou «Não fui eu que me portei mal» ou «Foste tu que viciaste as regras» ou «Agora não te queixes» ou algumas destas pérolas que colhemos dos livros, dos filmes ou do quotidiano mais chegado? É que perdoar não é só um gesto ou uma palavra, perdoar é uma nobreza inteira, muitas vezes feita do contrário: de omissões e de silêncios. Concordas?
De Luis Filipe Pinheiro a 20 de Maio de 2009 às 14:17
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Rita, este é um tema deveras interessante! Faz-nos pensar, sabendo que não se chega a conclusões definitivas!
Quanto às reacções masculinas, penso que podem ser de duas naturezas distintas, consoante se está ou não verdadeiramente apaixonado:
Se não se está, é a honra, o despeito, o sentido de posse, a noção de deslealdade e muito principalmente a afronta, que serão a causa das ditas reacções! Sendo o homem há milenios o detentor do poder, é natural ( ainda que não justo) permitir-se liberalidades que ousadas pela mulher considera inaceitaveis!

Se se está verdadeiramente apaixonado,(como é obvio ser o caso de N. B.) então tudo fia mais fino! Nesse estado de intensa troca de afectivade e erotismo o par
exprimenta um sentimento especial de pertença e entrega total, que torna a traição absolutamente insuportavel!
Imaginar a mulher amada desfrutando nos braços de outro intimidades que deveriam ser exclusivas do par, já levou muitos homens ás maiores loucuras... Acho que para as mulheres será o mesmo, só que são menos violentas nas reacções .

Outra coisa é o Amor, que é dár sem cuidar de troca. Acredito possivel em determinadas circunstancias um homem aceitar uma situação destas por Amor que também é desapego...
De Rita a 20 de Maio de 2009 às 15:33
Pois, é verdade. Perdoar pode ser também desinteresse, desapego ou não estar suficientemente envolvido. Mas, sabes, Luís Filipe? Mesmo assim há sempre o ego. A tua mulher é sempre a tua mulher, e, mesmo que a não ames, o teu nome fica sempre em causa. E ou não foste suficientemente homem para ela ou és um banana: é assim que a pova básica te lê. A grandeza e a superioridade está justamente em saber ultrapassar este dístico sem sofrimento ou retaliação...

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