Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Pocket Classic (Socialismo Para Milionários)

Marie Tourvel


 

Primeiro: hoje, George Bernard Shaw - o linque está in english porque em português estava pobre demais, e seguiria a Marie que vos escreve e mudaria o título para Socialismo Para Bilionários. Segundo: leia isto, antes de começar a viajar pelo mundo de Shaw. Leu? Entende o motivo pelo qual considero todo o resto do jornalismo do Bananão “secos e molhados”? O nome dele é Diogo Mainardi, bilionário amiguinho, não esqueça. Dito isso, falemos desta pérola de Shaw. Não tem muito o que resumir, o grande babado é a obra deliciosa do irlandês deliciosamente sarcástico:

 

É uma pilha de sacanagens disfarçada de manual de instruções para milionários viverem sem culpa no meio de tanta idéia pobre.

 

Falar sobre esse livro com os inteléquitos será divertidíssimo, já que eles perceberão, pelo que vou lhe ensinar, que você não se sente culpado por ser podre de rico. Eu sei que você sente culpa, sim, mas não precisa escancarar para eles. Eles vão lhe considerar piegas. E tudo o que não pode nessas rodinhas é cair na pieguice. Eles o destruiriam em três tempos. De bate pronto já diga que o objetivo principal da obra era mostrar a complexidade das relações humanas e discutir de forma veemente os preconceitos políticos, religiosos e morais de sua época - o final do século XIX. Ganhará pontos no meio. Diga que o polemista Shaw possuía uma ironia aguçada e um apreço por paradoxos, e que a obra é mais atual do que se pensa. Todos sabem disso, mas ouvir de sua boca ainda causará espasmos nos intelequituais. O caso é que Shaw usa argumentos socialistas para defender você, bilionário. Salve Shaw! Por que se sentir culpado por saber ganhar dinheiro? Se o intelequitual não sabe, problema dele. E não será você quem vai patrocinar um livro mal escrito do cara, não é? Seu dinheiro pode ser bem melhor gasto com seus iates. Fora que o livro tem frases ótimas que você pode lançar e fará sucesso –vê se decora, tá? “Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.” Ou: “Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra." Ou: “O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade”. Ou: “(Jogo de xadrez) É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo”. Ou: “Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha”. Gostou, né, bilionário? Shaw era socialista. Sei que não devemos respeitar socialistas, mas Shaw consegue essa proeza. Pelo seu texto, por sua ironia, por seu sarcasmo e, por que não?, por seu cinismo. Pode falar tudo isso para os intelequituais, que eles ficarão todos apaixonados por você. Se disser que não se sente nem um pouco culpado pela pobreza que assola o mundo, então... vão odiá-lo mais ainda. Sim, o ódio dos intelequituais é pura inveja. E é muito bom ser invejado por eles. É gostoso ver gente como eles se sentindo minhocas. Apaixonados e ao mesmo tempo odiando você: eu não disse que Shaw era paradoxal? Só procure não citar Diogo Mainardi na rodinha. A paixão acaba e descamba para a mais pura ignorância. Tenha Diogo como seu ídolo velado mesmo que não tenha a menor idéia do que ele queira dizer em suas colunas, está bem? Se puder, bilionário, arrisque-se e leia o livro de Shaw. Posso emprestar o meu, que é uma edição antiga, mas cheia de dignidade. 

 

(Tive a colaboração de um querido para este pocket que não quer se identificar. Ele é inteligente, escreve maravilhosamente bem e leu todos esses crássicos que pululam por aí).

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 07:30
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15 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 19 de Maio de 2009 às 10:26
Olá Marie
No fim do seu post achei que o que vinha mesmo a calhar era 'outro' nosso amigo

http://www.youtube.com/watch?v=e-1z3Oau3Po

Abraço do outro lado do Atlântico

Rita V.
De marie tourvel a 19 de Maio de 2009 às 12:55
Cheguei a pensar nele, Rita, querida, mas achei que iria expô-lo ao ridículo. ;)

Obrigada. Um beijos aqui do Bananão.
De ritz_on_the_rocks a 19 de Maio de 2009 às 14:50
Tenho aprendido imensas coisas aqui no Blog da minha querida e estimada Ana V.

Hoje, outra palavra nova que tive que ir pesquisar:

'Bananão, para quem não sabe, era o nome que Ivan Lessa dava a, como diria o Lula, “este país.”

Boa!

Mais beijos então para esse Brasil quente e irmão.... ( para rimar com Bananão)

lol
Rita V.
De marie tourvel a 20 de Maio de 2009 às 01:14
Ivan Lessa é meu pastor e nada me faltará, Rita, querida. Isso mesmo. Ele foi o inventor desta forma peculiar de chamar este nosso arremedo de país. ;)

Mais beijos pra você que é um amor. Obrigada. :)
De Luísa a 19 de Maio de 2009 às 16:07
Não li este seu clássico, Marie, mas pensei logo no Banqueiro Anarquista do nosso Pessoa. Não deixo de concordar que a pura filantropia cria parasitismos, designadamente do Estado. Infelizmente, a maioria dos Estados são apenas trampolins para o enriquecimento de uns quantos, que, se calhar, na geração seguinte, aí estão a fazer filantropia, para aliviar as suas consciências e a carga fiscal. Muito complicado, Marie. Com estes assuntos, preciso de parar e pensar aturadamente, para conseguir recuperar o fio lógico do raciocínio. O que me leva sempre uns dias. Por isso, assim, de repente, só me apetece desconversar, como o Mike… ou talvez emigrar para a Noruega? ;-D
P.S.: Mas para além de tudo, gostei imenso deste seu arrojado «Pocket Classic» que, como todos, me agita os interesses e desperta muitas curiosidades.
De ulisses a 19 de Maio de 2009 às 16:54
Boa escolha! Num país como a Noruega, além de se viver numa economia que não está dependente da filantropia dos outros países, é bem mais fácil ser inteligente ... :-)
De marie tourvel a 20 de Maio de 2009 às 01:18
Muito mais fácil, né, Ulisses? :)

Beijocas
De ulisses a 20 de Maio de 2009 às 01:42
Bem mais fácil! :-)

Beijocas também para esse lado do Atlântico
De marie tourvel a 20 de Maio de 2009 às 01:17
Pois é, Luísa, querida, eu também fico a pensar nestas coisas. Aqui no Bananão acontece muito de ONG´s ganharem muito dinheiro do Estado e a gente não sabe nem pra onde vai a tal grana. Não é o caso do Instituto Ayrton Senna. Mas concordo inteiramente com o Diogo Mainardi de que o rico tem que ganhar seu dinheiro e pagar seu imposto direitinho. Já estará fazendo grande coisa.
Obrigada pela sua presença por aqui sempre tão inteligente.

Beijos!
De mike a 19 de Maio de 2009 às 20:13
Shiiii, Marie... entre todos os crássicos é desta vez que o milionário lhe vai agradecer. E se não for abstémio de leitura, até os intelequituais vão adorá-lo. :)
Cê escreve bem à beça, menina. :D
De marie tourvel a 20 de Maio de 2009 às 01:19
Acha mesmo que os meus milionários amigos e os não tão amigos intelequituais gostaram? ;)

Não é que escrevo bem, cê que tem olhar carinhoso para comigo. ;)

Beijinhos
De Ana Vidal a 19 de Maio de 2009 às 23:13
Não há dúvida de que a Irlanda deu grandes cabeças ao mundo. E também não tenho dúvidas de que sabes escolher os teus crássicos com mestria.

Sabes o que te digo, Marie? És uma verdadeira "pigmaleoa" para os teus bilionários!! ;-)

Um beijo
De marie tourvel a 20 de Maio de 2009 às 01:21
Ah, Aninha, querida, gostei da "pigmaleoa". Esses bilionários ainda vão fazer muito sucesso nas rodinhas, não é?

Obrigada.

Beijos!
De Ana Vidal a 20 de Maio de 2009 às 01:26
Sim, porque "leoa" já eras, mesmo sem os bilionários... ;-)

Beijo, querida.
De Raquel a 23 de Maio de 2009 às 23:35
Quase perco Bernard! Ele era ótimo e desconfio que nunca foi socialista, só dizia que era para atormentar todo mundo!

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