Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

 

E logo hoje, que não fizemos nada de errado!

 

A Madre Superiora do Hospital de Nisa nem queria acreditar, enquanto fazia os tratamentos para extrair o ferrão daquele enorme besouro, e aliviava como podia as dores da mão direita do João Maria:

 

“Mas como é que o João levou uma ferroada destas? O que é que andavam a fazer logo de manhã?

 

Era melhor não explicar.

 

Estávamos logo cedinho no quintal da casa da Alameda, a vasculhar a casa da lenha, quando o João Maria viu um enorme besouro a esvoaçar junto das flores do jardim… a atracção foi tão grande que, sem eu ter tempo de o parar, resolveu apanhar o besouro como a mão e fechá-la, não fosse ele fugir…

A ferroada e o berro foram tão grandes que até a minha irmã, que dormia no último andar, apareceu toda ensonada à janela do quarto para ver o que se passava…

 

Lá montei o João Maria no porta-bagagem da minha bicicleta, e aparecemos todos sujos e suados a correr pelos corredores do Hospital. A Madre Superiora conteve-se no ralhete, quando viu que tamanha algazarra devia ter alguma justificação… mas nunca na vida acreditaria que o João Maria tinha agarrado aquele enorme besouro…

 

Se o dia já não tinha começado bem, também o almoço não foi bom conselheiro e a asneirada continuou. Do hospital fomos a correr para a Quinta do Parreirão, onde tínhamos combinado com os restantes cachopos estar antes do almoço, para as combinações do costume. No caminho, encontrámos um cachorrinho abandonado, muito engraçado, e passámos a ter uma ocupação para aquela manhã acidentada: alimentá-lo a preceito, porque estava tão magrinho que mal se tinha em pé.

 

Dito e feito, até porque o “Ti Paules”, assim que me viu aparecer com o cãozinho ao colo, já sabia o pedido que se seguia. Deixámo-lo a comer, com recomendações de especial atenção aos caseiros da quinta enquanto debandámos para o almoço. As sonoras badaladas da uma no relógio da torre eram o sinal de que todos em casa já deviam estar sentados, e lá tive de justificar o atraso e o motivo de força maior.

 

O princípio da tarde não foi bom conselheiro… assim que voltámos à quinta já estava o Manuel da Graça com um balde e sabão azul, tirando agilmente a água do poço para um alguidar de plástico, e foi no meio dum alarido enorme que aquele bando de cachopos da rua se lembrou de alindar o cãozinho com um banho frio e demoradas esfregadelas para tirarmos a sujidade, enquanto os mais conhecedores lhe catavam as pulgas e se divertiam a rebentar as carraças que conseguiam retirar das orelhas do pobre animal.

 

O destino do cachorrinho ficou logo ali traçado… uma lauta refeição seguida dum demorado banho frio não lembraria a ninguém. Naquele dia, improvisámos a preceito a campa do nosso cachorrinho, que ficou lembrada com a necessária cruz feita duns pauzinhos todos tortos e dumas flores roubadas dos canteiros da minha avó…

 

Porque é que o cachorrinho teria morrido tão de repente, perguntávamos todos de lágrima no olho…

 

- Hoje não era o meu dia, rematava o João Maria, ainda com a mão entrapada.

 

Efectivamente, e logo hoje que nem tínhamos feito nada de errado…

 

publicado por Ana Vidal às 07:30
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15 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 18 de Maio de 2009 às 13:32
... tiveram sorte!
... mais um bocadinho e corriam o risco de infringir a alínea a) do artº 3º da DUDA ...

...children!

:-)

Rita V.
De Manecas a 18 de Maio de 2009 às 19:29
Essa alinea deve ter ficado no poço...que eu não dei por ela...

Bjs
De ritz_on_the_rocks a 18 de Maio de 2009 às 21:10
ah ah ah
boa!

bjs tb
De Luísa a 18 de Maio de 2009 às 13:53
Se o inferno é na terra, Manecas, se é o conjunto das pequenas e grandes dores que vamos sofrendo neste mundo, então faz todo o sentido dizer, a propósito do dia que aqui tão expressivamente nos recorda e dos seus «feitos» tão inocentes, quanto dramáticos, que «de boas intenções está o inferno cheio». Gostei muito de ler. É curioso como as relações das crianças com os animais são tão mais complexas do que as dos adultos, podendo, até, manifestar-se pela pura crueldade. Ainda me lembro das experiências a que, em miúda, submetia as formigas, sem nenhuma antipatia mas por simples curiosidade (e alguma euforia de poder, talvez). Hoje, tenho um ódio assumido a formigas (e a todo o insecto gregário), mas não consigo pôr-lhes um pé em cima (embora possa aplicar-lhes uma nuvem muito impessoal de insecticida, quando me atacam a cozinha). :-)
De Manecas a 18 de Maio de 2009 às 19:35
Bom Luísa para uma experiência inversa...

Tenho agora um sobrinho (por afinidade) que em miudo foi apanhado muito sossegado no quintal, o que no caso era altamente suspeito...

O mais intigrante é que ele que não comia nada, estava naquele dia sentado no chão e parecia comer qualquer coisa...

Vendo mais de perto, verificaram que ele estava sentado à beira dum formigueiro, e comia meticulosamente todas as formigas que chegavam ou partiam com destino ao dito...

Um sucesso!

Bjs e Obrigado
De Ana Vidal a 18 de Maio de 2009 às 15:41
Tenho um filho chamado João Maria, como sabes. Em miúdo era igualzinho ao teu amigo, estou a vê-lo a fazer essas e muitas outras asneiras, ainda piores.

Saíu à mãe. O comentário da Luísa lembrou-me uma vez que atirei um gato do telhado para ver se era verdade que os gatos têm sete vidas e não morrem quando caem de alturas grandes. Eu adorava animais, note-se. Não fiz isso por crueldade mas por simples curiosidade, para confirmar uma teoria. Tal e qual como desmanchava todos os brinquedos para ver como eram por dentro.
De ritz_on_the_rocks a 18 de Maio de 2009 às 16:12
... eh eh eh
Também é bom desmanchar cabeças ...

Gostei imenso da maneira como está contada a história do MFA . Não tenho nenhuma parecida, mas sempre vivi rodeada de cães, gatos, piriquitos e papagaios ... ainda não percebi se somos nós que vamos ficando parecidos com eles ou se são eles que ficam parecidos conosco ... comigo!!!!

lol
De Manecas a 18 de Maio de 2009 às 19:44
Agora é que é consigo...!

Dizem realmente que os animais também reflectem o comportamento dos donos, e às vezes...

Bjs
De ritz_on_the_rocks a 18 de Maio de 2009 às 21:14
... ah ah ah
então?

... às vezes também pode acontecer o contrário !

porque não?
lol
De Manecas a 18 de Maio de 2009 às 19:41
Para ti também tenho um história parecida mas com humanos...

Uma prima minha muito despachada (eles eram 8 irmãos) para convencer a minha avó de que a irmã bébé, que tinha ficado ao cuidado dela não se partia (expressão que a minha avó utilizou para ver se ela tinha cuidado...em má hora...), pregou com ela no chão e voltou-se para a avó e disse:

Vê avó ela só chora, mas não se parte!

Efectivamente...

Beijinhos para ti!
De Manecas a 18 de Maio de 2009 às 19:43
Perdão, esta era para responder à Ana.

As minhas desculpas!
De ritz_on_the_rocks a 18 de Maio de 2009 às 21:12
eu percebi ...
bjs para mim

beijinhos para a Ana

:-)
De Si a 18 de Maio de 2009 às 17:55
E não fizeram nada de errado, mesmo!
Não há maldade, não há crueldade, não há intenção, apenas inocência e muita impulsividade, própria de crianças que tudo querem aprender e sentir, seja o deslumbre de um insecto colorido, seja o heroísmo de um salvamento 'in extremis', ou o entusiasmo perante um novo companheiro de brincadeiras, até ao desgosto de incompreensiva e repentinamente o ver desaparecer.
Tomara que as crianças de agora ainda tivessem o tempo e as oportunidades destas coisas simples, em que a ferroada de um besouro e a morte de um cachorro não eram imagens a duas dimensões a cujas lembranças se pode fazer 'delete'...
De ulisses a 18 de Maio de 2009 às 18:56
Pois não, coitados, os miúdos ainda não sabiam que excesso de amor pode matar ... :-)
De Manecas a 18 de Maio de 2009 às 19:48
Isso sim!

Temos de conseguir dar-lhes um pouco das brincadeiras em que os objectos eram construídos no momento: os peões de madeira, os costelins, os arcos, os carrinhos de rolamentos...

Bjs

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