Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Nudez

 

Dispa-se primeiro, atentamente, toda a desatenção. Não é indiferente que se dispa a indiferença, logo depois. A seguir, ainda que seja a medo, dispa-se os medos que os anos costuraram até formar uma capa pesada, sufocante. Defenda-se o espírito de todas as defesas. Desmascare-se cada máscara, cada disfarce. Desproteja-se o corpo da ilusória protecção das cicatrizes.  Da guarda armada das cautelas, guarde-se distância. Liberte-se a alma dos desalmados pesos que a vestiam. Lance-se ao vento, desfeitos, velhos preitos e preceitos. Limpe-se os olhos de brumas e de escolhos, os ouvidos de ruídos, a boca de palavras ocas. Dispa-se dos gestos as gestas do passado. Dispa-se da última derme o verme da vaidade. Por fim, dispa-se depressa a pressa, que é preciso saber esperar. E só então, vestindo devagar uma nudez total, se pode receber uma lua inesperada.

 

(Imagem - René Magritte)

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 03:33
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32 comentários:
De Rita a 14 de Maio de 2009 às 07:17
«Dispa-se depressa a pressa» é de longe o melhor paradoxo, parabéns!
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 15:03
É quase o único paradoxo, Rita. Mas este texto é um jogo de palavras e de sons, não pretende ser mais do que isso. Obrigada, anyway.
De Rita a 14 de Maio de 2009 às 15:11
Não pretende, mas é!

Gostavas, talvez, mas és incapaz de fazer coisas literais....

De ulisses a 14 de Maio de 2009 às 15:38
Não pretende ser mas é. Absolutamente de acordo. Parabéns!
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 15:52
Obrigada, Ulisses. Vindo de um clássico, o elogio é de respeito. :-)
De ulisses a 14 de Maio de 2009 às 15:53
Touché! :-))))
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 15:55
:-)))
De mike a 14 de Maio de 2009 às 21:43
Pois é. Gostava mas não é capaz.
Antes que te prepares... não quero discutir contigo. ;)
Gostei de te ler. :)
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 22:11
Nem eu... hoje estou muito branda. ;-)
(mas avisa quando eu tiver de pôr a mão na anca...)
De CNS a 14 de Maio de 2009 às 09:39
São por vezes pesadas estas roupas com que teimamos vestir-nos...

Gostei imenso, Ana!


De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 14:52
E tão inúteis, e tão paralisantes... acabamos a defender-nos de moinhos de vento, não é? E perdemos quase tudo o que vale a pena, com tantos muros que erguemos à nossa volta.
Beijo, Cristina.
De ritz_on_the_rocks a 14 de Maio de 2009 às 10:01
... Dji..mais....
adorei
bjs
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 14:53
Beijos para ti também, Ritz. :-)
De Manecas a 14 de Maio de 2009 às 10:03
...e só então daremos conta, que somos sobretudo a relação...

Um beijinho
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 15:05
... e só então lhe fazemos justiça, e só então a merecemos...

Outro, Manecas.
De Manuel Teixeira a 14 de Maio de 2009 às 10:41
Nice one, Ana.


(Foi escrito num dia Verão, não foi ?)


De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 14:54
Thanks, my friend.

Todos os dias são de Verão, Manel, se estiveres nu...
:-)
De leitor saudoso a 14 de Maio de 2009 às 11:02
Belíssimo texto, que não se esgota no jogo fonético evidente. Saúdo o regresso destas micro prosas poéticas sobre os quadros de Magritte , sempre inspiradas e de elevada qualidade. Já lhes sentia a falta!
Cara Ana, não nos prive tanto tempo da sua escrita profunda, desafiante e rica. Este blog não pode passar sem a sua marca de excelência. Dispa a preguiça, está bem?
Abraço
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 14:59
Vou tentar despir a preguiça, e obrigada pelas palavras simpáticas. Não exagere, estou enferrujada e este é só um exercício de aquecimento. Mas valeu pelo regresso à escrita, de que ando a fugir há algum tempo. Porquê? Não faço ideia, são fases...

Abraço, caro leitor saudoso que não conheço. O seu comentário já me deu vontade de voltar, acredite. Obrigada por isso.
De leitor saudoso a 14 de Maio de 2009 às 18:19
Fico contente. E não exagero nem um pouco quando digo que os seus textos são de altíssima qualidade. Fico à espera de mais, valeu?
De Manecas a 14 de Maio de 2009 às 22:01
...Até porque sendo um exercício de aquecimento, segue-se necessariamente um texto arrebatador por certo...

Tinha de meter a colher...!

beijinhos querida amiga fam...pronto eu não digo o resto...!!!
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 23:08
deixa-te disso, ó cér... pronto, já me calei! ;-)
De Grande Jóia a 14 de Maio de 2009 às 14:11
Ana, já tinha falta dos seus textos. Saem sempre com o luar e o mar no horizonte a "espevita" ... Gostei de ler. :)
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 15:10
Obrigada, GJ. O mar no horizonte é quase um cenário obrigatório, tem razão. E as luas inesperadas acontecem, basta estarmos atentos... gosto de surpresas, eu. ;-)

Um beijo
De Cristina Ribeiro a 14 de Maio de 2009 às 22:45
...e teremos a leveza como o melhor dos sustentáculos, Ana.
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2009 às 22:56
É isso mesmo, Cristina: sem pesos e de peito aberto. :-)
De Luísa a 15 de Maio de 2009 às 02:30
Tem razão, Ana, são demasiadas as coisas (vaidades, preconceitos, ambições, medos…) que nos impedem de viver a vida plenamente ou, pelo menos, de gozar muito do que tem de bom para nos oferecer. Uma delas, aliás, poderá ser, desde logo, a inibição no despir (literal e figuradamente). :-)
P.S.: Junto as minhas palavras às do Leitor Saudoso, quer às das 11:02, quer às das 18:19. E às do Manecas também: se foi só um «exercício de aquecimento», vamos ter vendavais a sair por esta Porta. ;-)

De Ana Vidal a 15 de Maio de 2009 às 13:12
E eu agradeço-vos as mais que generosas palavras, embora fique preocupada com as vossas expectativas. É que ando em maré de brisas frescas e doces, e por isso as ventanias não são de esperar nos próximos tempos (diz a minha meteorologia interior)... ;-)
De Manecas a 15 de Maio de 2009 às 13:26
...mantenho a esperança...!

A tua poesia é mais de brisa suave a das acalmias das marés...!

Teremos seguramente um flor em Maio!

Beijos!
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2009 às 15:36
Nem sempre, Manecas. Em época de monções, não queiras aparecer por perto... :-)

beijo
De meunikaki a 16 de Maio de 2009 às 21:19
É (quase) um poema de vida ou como começar de novo arrumando tudo o que está para trás, mas não ficou lá... Como tentar regressar ao ventre materno e de lá sair limpinho para a vida. Como reprogramarmo-nos sem reprogramar a nossa esência. Começar de novo What else?
Gosto
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2009 às 22:05
Na essência não se toca, tem toda a razão. E é bom que fiquem algumas lições de vida, para não termos de aprender tudo outra vez. O resto é que podemos e devemos despir, porque só nos trava os gestos. É bom fazermos este exercício de "limpeza", e é ainda melhor termos uma razão para isso!

Começar de novo, right.

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