Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Pocket Classic (Ligações Perigosas)

Marie Tourvel

 

Demorou, bilionário, mas finalmente consegui mexer com as ligações perigosas. Não, não é nenhuma negociata ilícita com dinheiro público, embora as baixarias do século XVIII que acontecem neste livro de Pierre Choderlos de Laclos fossem feitas com dinheiro público, sim. Mas dos parisienses; portanto... O livro é escrito de forma epistolar. Os personagens trocavam cartas. Por elas não só se sabe sobre os eventos e acontecimentos, mas também sobre os sentimentos (sic) de Merteuil e Valmont. Calma que eu já explico quem são os bacanas.  Bem, meu nome aparece no livro, se bem que ela era Marie de Tourvel. Fui batizada sem o “de”, muito provavelmente porque não sou “de” ninguém. Sou só Marie Tourvel, a tonta. Choderlos de Laclos era um tenente do exército francês e nas horas vagas, só nas horas vagas, resolveu escrever, bem no espírito do século XVIII, sobre cinismo, cafajestadas e similares das igrejinhas, clubinhos e confrarias do século , ora, ora, XVIII. E tome nabada na pobre e tola Marie. Resumão:

 

Marquesa malvada, cínica, vivaz e libertina se diverte vingando-se de quem não quer comê-la mais. Encontra em seu ex-amante, Valmont, um aliado de respeito. Um canalhinha, cafajeste, daqueles que sabem dar uma de direita bem dada. Valmont quer comer a marquesa mais uma vez, mas para isso precisa seduzir uma virgenzinha e comer uma mulher casada ultrarreligiosa, a tola, porém, instigante, Madame de Tourvel. Consegue tudo. Mas não contava com duas coisas: a Marquesa de Merteuil era uma tratante ciumenta – mulher comum, e Marie de Tourvel, uma gostosa pela qual se apaixona perdidamente. Cafajeste tem mais é que... bem, deixa eu ficar quieta. No fim, a pobre Marie morre, Valmont morre e Merteuil pega uma doença bem barra pesada que lhe arranca até um olho. Se os maldosos fossem castigados assim...

 

Me convida para essa rodinha, bilionário? Eu adoraria tomar um prosecco de qualidade boa e ao mesmo tempo ouvir as digressões dos cafajestes intelequituais. Quando tocarem no nome deste romance, não saia logo dizendo que viu o filme com a Michelle Pfeiffer, hein? Embora o filme de Stephen Frears seja uma obra prima, você sabe como é intelequitual, sempre prefere o livro. Não que geralmente livros não sejam melhores que filmes, mas, neste caso, Frears mandou muito bem. Na largada já tasque que esta narrativa de amor, duplicidade e arte de sedução, ainda hoje está bem presente na nossa imaginação coletiva. Se não entende, vai entender agora: pegue sua querida esposa Sheyla Shirley. Ela tem um clubinho ao qual pertence, não tem? Dá só uma analisadinha e vai entender o que eu quis dizer. Diga que ao mesmo tempo em que choca, delicia. Sim, é uma delícia assistir à crueldade da Marquesa. Diga que as tentativas constantes de Merteuil e Valmont  de se ultrapassarem nas maldades têm conseqüências desastrosas como o ciúme, e isso mina os seus princípios defeituosos. O romance é escrito de forma epistolar perfeita.  Porque do relato dos acontecimentos é que os dois protagonistas do romance retiram prazer – partilhado com o leitor. Você perceberá que os intelequituais defenderão veladamente as peripécias da marquesa e no fundo consideram Valmont um tonto que se apaixona pela infeliz Marie. Porque no fundo, bilionário, eles gostam mesmo é de igrejinhas, clubinhos e confrarias que destroem a alma das pessoas. Mas você também gosta, não é? Eu também gosto. Todos gostamos. Ora somos Merteuil, ora somos Marie. É da vida. Mas até que é gostoso assistir vez em quando Marquesas se morderem de ciúme, não é? No fundo são serezumanos, minhoquinhas que sentem como as Maries, só que com uma ponta de cinismo.

 

Embora meu destino seja ser Marie para sempre, tenho como objetivo experimentar o cinismo de Merteuil. Mas sempre com prudência, pois lembro bem de Bertrand Russell, que disse: “Cinismo é combinação de comodismo com impotência.” É, faz sentido...


(Se quiserem, dêem um pulinho lá nas minhas
“Letras” daqui a pouco. Tenho surpresas e mais surpresas para os bilionários e os queridos comentaristas daqui.)

Segue um vídeo para ilustração, bilionário: 

 

 

Adenda minha:

Ao contrário da triste Marie do Laclos, a nossa querida Marie Tourvel - a verdadeira! - está muito bem e recomenda-se. E hoje é um dia muito especial para ela: o dia do seu aniversário! Vamos todos cantar os parabéns à nossa Marie?

Vá lá... 1, 2, 3... Parabéns a você!

 

Ana

 

 

À tua, Marie!!!!

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 09:30
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38 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 12 de Maio de 2009 às 09:52
Pois parabéns também!

Rita V.
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 11:45
Obrigada, Rita, querida.

Beijos!
De Rita Ferro a 12 de Maio de 2009 às 10:31
Com um beijo da Rita:

http://www.youtube.com/watch?v=d3pvlD3xLmI

De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 11:48
Que lindo, Rita, querida. Muito obrigada e um grande beijo pra você, também.

;)
De Teresa a 12 de Maio de 2009 às 11:16
Antes de mais nada, querida Marie (ou deveria dizer Madame la Présidente de Tourvel ?...), uma grande e sonora beijoca de parabéns pelo dia dos seus anos!

CLAP ! CLAP ! CLAP ! O seu melhor pocket classic até agora! Delicioso! E nem é por se tratar de um dos livros da minha vida, porque quase todos o eram, à excepção de Metamorfose. O filme de Frears , Close e Malkovich insuperáveis como Merteuil e Valmont , também é um dos filmes da minha vida, e dá dez a zero ao festival pirotécnico que é o Valmont de Milos Forman , do ano seguinte, se não me falha a memória (já para não falar no que desvirtua o livro), acabando com o triunfo da maldade na grande palhaçada inventada que é a cena final do casamento de Cécile de Volanges com Gercourt.
E Meg Tilly foi um completo erro de casting como Madame de Tourvel... é terrivelmente desadequada quando comparada com a diáfana Michelle Pfeiffer, não é?

Posso reproduzir este pocket classic na Gota? Autorizam-me as duas?

Grande beijinho.
De Ana Vidal a 12 de Maio de 2009 às 11:26
Por mim, claro que podes. Também acho que a nossa Marie se superou nest pocket classic. Livro e filme (o do Frears) são paixões minhas de sempre. O Valmont do Forman está a anos-luz da perfeição do outro, concordo. Ainda hoje brinco de Marquise & Valmont com um amigo meu, claro que sem a maldade destruidora dos originais. Just for fun... pura cumplicidade.

Mais uma vez: PARABÉNS, querida Marie, la belle!
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 11:54
E não é uma delícia brincar de Valmont e Meurteil, Ana? ;)

Que bom que gostou deste pocket. Dei de presente de aniversário pra mim mesma. :)

Beijos mil!
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 11:52
Teresa, querida amiga, muito obrigada.

Fique a vontade para publicar na sua maravilhosa "Gota".

E, realmente, Frears se superou com este filme. Nenhuma outra versão me agradou. Além de Close e Malkovich, Michelle Pfeiffer estava insuperável como Marie.

Beijos!
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 11:44
Ana, minha querida, muitíssimo obrigada pela homenagem. Hoje é um dia especial mesmo. É que percebi que neste último ano fiz amizades tão consistentes e tão verdadeiras que mazelas estão guardadas no fundo da memória, que pelo tempo, embaçou. ;)

A quem me deu a honra de escrever neste belo espaço às terças, só tenho um recado: Viva Ana Vidal!

Muitos beijos a você, Ana, e a todos os leitores deste blogue. :)
De ritz_on_the_rocks a 12 de Maio de 2009 às 12:23
... permitam-me assim com tantos Vivas

http://www.youtube.com/watch?v=HvK2LYDYLj8

enviar um abraço em Roda Viva.

Abraço suportado vozes que espelham, também, a forma como o tempo passou por elas.....e não são tão doces?

VIVA!
De ritz_on_the_rocks a 12 de Maio de 2009 às 12:24
Errata: 'por' vozes

:-)
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 12:36
"Roda Mundo, Roda Gigante, Roda Moinho, Roda Peão, o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração..."

Obrigada, querida, pelo belo presente. ;)

Beijocas!
De Grande Jóia a 12 de Maio de 2009 às 12:12
Muitos parabéns, Marie pelo seu aniversário.
Pelas suas Letras e pelos seu Pocket Classic também.
Abraço :)))
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 12:37
Minha amiga, jóia rara... ;)

Obrigada pelo carinho de sempre.

Um grande beijo!
De Teresa a 12 de Maio de 2009 às 12:26
Pequeno apontamento muito interessante, que descobri há pouco: o papel de Marie Tourvel no filme de Frears e no de Forman foi oferecido quase em simultâneo a Michelle Pfeiffer. Ela optou sabiamente, não acham?
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 12:38
Michelle Pfeiffer, além de linda, era muito inteligente, não é, Teresa? ;)

Beijocas!
De Luísa a 12 de Maio de 2009 às 12:27
Querida Marie, tem toda a razão, todas temos uma pequena parcela da diabólica Merteuil e da inocente Marie. E por isso todas deliramos com a perfídia competitiva da primeira e a incondicional (e eficaz) entrega amorosa da segunda. O século XVIII é fascinante (até à Revolução Francesa): nunca a vida social (nas «upper classes») deve ter sido tão oca, divertida e encantadora. Gostei muito do Pocket Classic.
Mas claro que o importante hoje é a comemoração. Muitos parabéns, Marie, um dia muito feliz, e que continuemos a encontrar-nos por aqui, nesta «ponte transatlântica», por muitos e bons anos, se não tivermos, entretanto - a Marie ou eu - oportunidade de atravessar a ponte e conhecer-nos ao vivo. Um beijo muito amigo. :-)
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 12:41
E não é, Luísa, querida? Temos até um pouco de Valmont, se bobear... ;)

Obrigada por seu carinho e espero muito em breve atravessar o oceano e poder conhecer você pessoalmente e a todos estes sinceros e queridos amigos portugueses. :)

Um grande beijo!
De João Paulo Cardoso a 12 de Maio de 2009 às 13:50
Muitos parabéns, Marie.

E continuação das ligações - deliciosamente perigosas - com este e outros sítios da internet.

Tivessem eles esta geringonça e possivelmente a sedução seguiria para lá e para cá via e-mail!!!

Beijos.
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 14:24
Obrigada, JP, querido.

E não se preocupe que esse tipo de ligação perigosa já acontece na net há muito tempo. ;) Meurtiel já chegou na net. :)

Beijos!
De léo a 12 de Maio de 2009 às 14:12

oi Marie


Esse pocket fivou bacanudo!!!Parabens .
De marie tourvel a 12 de Maio de 2009 às 14:25
Aí, Leo. Adorei que veio por aqui, hoje. :)
Bom que tenha gostado. :)

Beijocas!
De shi a 12 de Maio de 2009 às 14:59
Marie, Ligações Perigosas é um filmaço, eu o tinha em tape mas com a subida vertiginosa do Rio Negro perdi-o (eu sou ótima em metáforas, falasério!!! rs). Espero que o biblionário não pense em fazer uma nova terceira versão, pq como bilionários não são muito dados à compreensão e aprendizagem, vai dar merda!!! :-| PC perfeito, querida! :-D Bjão, e parabéns (peraí que vou te bajular lá no Letras, tá? rs)
De marie tourvel a 13 de Maio de 2009 às 02:25
ShicaMaria, que bom que gostou do PC... Mas o filme é bom demais, né não?
Adorei que foi me bajular nas Letras. ;)

Beijocas!

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