Sábado, 9 de Maio de 2009

O improvável jogador

José António Barreiros

 

 

O empate contínuo

 

Há um homem sentado a uma mesa que joga contra a probabilidade de ganhar. Anula-se em cada momento, ultrapassa-se em todos os lances. A vida é para si, na lógica do xadrez, a oportunidade do sucesso. Um dia defronta um temível adversário, aquele que lhe conhece os secretos pensamentos, o que adivinha o momento seguinte àquele instante em que ambos estão. Sozinho na reclusão de uma prisão, resto de uma vida sem companhia, produto de um sentimento sem motivo, esse homem, síntese de todos os homens, exemplo de tantos homens, decide jogar contra si. Como num efeito de espelho, projecta-se e observa-se, estuda-se e atreve-se. No egoísmo da sua acção devota-se a caçar o ilusório companheiro, devorando-lhe, uma a uma, todas as partes do seu vício. Há um homem pervertido pela posse, possuído pelo desejo de ter. Num dia aziago, o demónio da má fortuna perde-o no infinito tempo, derrota-o no definitivo espaço. Aprendi com ele: não jogues contra ti, perdes sempre quando ganhas.

 

 

publicado por Ana Vidal às 11:44
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64 comentários:
De ritz_on_the_rocks a 9 de Maio de 2009 às 12:22
... Caro J.A.B.
Belo texto.
Foto na <>!

... saudades 'também' de Cortázar
Abraço
Rita V.
De ritz_on_the_rocks a 9 de Maio de 2009 às 12:24
perdeu-se a expressão na mouche
reponho agora sem < > sinais
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 14:56
Boa tarde querida Ritz. Escolhi o título por causa da fotografia, o que dizer neste blog por causa de pensar no que dizia a imagem e no que exprimiam as palavras. Soubesse eu interpretar o Cartazar...
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 15:12
... Cortazar e não Cartazar, naturalmente. Engano gera engano, o contágio da calinada.
De mike a 9 de Maio de 2009 às 13:09
Excelente post. Conteúdo e imagem.
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 15:16
Obrigado «Mike». Hesitei se o escrito não seria um pouco petulante porque abstracto, enigmático, simbólico.
De mike a 9 de Maio de 2009 às 19:35
Nada petulante, pouco abstracto, muito enigmático e bastante simbólico.
De Rita Ferro a 9 de Maio de 2009 às 13:28
E pensar que há quem só o conheça pelo seu lado mais plebeu, ou seja, o da advocacia!.. Este homem é um Escritor notável e se eu tivesse um duodécimo do seu génio já estaria neste momento a tratar da minha toilette para Estocolmo! Grande escolha, Ana! E para mim, Jab, quanta honra! Os seus Contos do Desaforo deram-me algumas lições importantes! Viva o Jab!
De Ana Vidal a 9 de Maio de 2009 às 13:48
Só não concordo com o plebeísmo da advocacia, Rita. É até uma actividade muito nobre, quando exercida com nobreza. :-)
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 15:19
Rita, sem palavras! Quando uma escritora elogia assim se não ilude, convence. Depois explico pessoalmente. Leva muito tempo com palavras.
De Ana Vidal a 9 de Maio de 2009 às 13:41
Grande estreia, Jab. Mas outra coisa não seria de esperar de um espírito superior e de uma cabeça privilegiada com a sua.
Reafirmo o prazer de tê-lo entre nós, não só por estas razões como - e sobretudo - pela amizade que nos une.
Um beijo
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 15:11
Obrigado Ana. Escrever num blog onde não estou sozinho, ter comentários e diálogos com quem comente, eis a estreia total para mim. Antecipado pedido de compreensão por alguma timidez ou atitudes gauche », fruto da falta de hábito. Enfim, um novo hóspede a precisar de aprender o que é a vida em comunidade.
De Luísa a 9 de Maio de 2009 às 14:13
É um pouco enigmática, JAB, a expressão do jogar contra nós próprios. No entanto, a conclusão é absolutamente lógica: perde-se sempre quando se ganha. Tentando decifrar o enigma, penso que já joguei várias vezes contra mim própria, ora forçando a minha natureza, ora atraiçoando os meus valores. E, de facto, perdi sempre, embora, nalguns casos, tenha tido, às vezes, a ilusão temporária de que poderia estar a ganhar. Há quem diga que não se arrepende de nada do que fez na vida; que, se pudesse voltar atrás no tempo, faria tudo da mesma maneira. Eu arrependo-me dessas minhas jogadas infelizes, quase sempre movidas por um mesquinho espírito de vingança. Não as repetiria de modo nenhum. Tanto que hoje, quando quero vingar-me, fico muito quietinha e espero que a vida o faça por mim. ;-D
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 15:40
Boa tarde Luísa. O austríaco Stefan Zweig escreveu em 1941 uma novela que li há uns anos na versão inglesa sob o título The Royal Game». No momento final a personagem, afundado na patologia do seu espírito inquieto, joga xadrez precisamente contra si próprio. Possesso pela febre da vitória e pelo terror da derrota, tentando adivinhar o movimento seguinte do outro que era ele, houve uminstante em que o seu cérebro sabia o que o seu cérebro afinal ainda não sabia. Nesse dia, apanhando o adversário numa falha de atenção, venceu-se, derrotando-se.
Lembrei-me nisto depois de a ter lido. Quando se quiser vingar de algo, permita este conselho: não jogue, deixe-se jogar. Ao outro ficará sempre a humilhação de o ter deixado ganhar. Pior para amadores não há.
De pássaro a 9 de Maio de 2009 às 14:29
A mediocridade, o medo, a sujeição ao mundo. Este espelho não só tenta separar as duas partes da alma como também isolá-las a ambas em obstinada contemplação de si próprio. Talvez a vontade nos tenha sido dada para destruir aquele espelho. E se o fizermos teremos de perder para nos ganharmos. É como acordar uma manhã e saber uma língua nova.
De José António Barreiros a 9 de Maio de 2009 às 15:57
O espelho replica a substância na imagem. Vista a cena de fora, a distinção torna-se imperceptível. Há uma diferença, porém, entre a verdade e a realidade. O jogador é o traço de união. Do lado de lá do espelho está o que ele mais teme: um ser irreal mas possível, que parecendo igual quando é apenas idêntico, se torna, precisamente por causa disso, um outro! Algo que, sendo a sua criatura, se torna exactamente em alguém.
De pássaro a 9 de Maio de 2009 às 15:18
E há a posse! É que um pássaro como eu tem que ser leve para voar e é quando plana que se espelha na natureza, nos rios, lagos. Ocorreu-me uma frase de não sei quem "essa quase mortal felicidade de olhar sem tomar posse".
De ritz_on_the_rocks a 9 de Maio de 2009 às 15:31
Lembrei-me de Santo Agostinho

“Antes, gostava de me desculpar, acusando a não sei que ser estranho que estava em mim, mas que não era eu. Na verdade, eu era tudo aquilo, embora minha impiedade me tivesse dividido contra mim mesmo.“
De Ana Vidal a 9 de Maio de 2009 às 16:19
Volto com este poema de Astrid Cabral, que a leitura deste post me trouxe à memória:

CONHECER-SE

A gente se despe
em frente a espelhos
e ousa enfrentar-se.

Porém, não há mesmo como ver-se,

blindada a alma
e as costas inalcançáveis.

Somos opacos.

Translúcidos, apenas a radiografias.

Contudo, resta a ânsia
de bem nítido nos vermos,
na dimensão do real.

Mas, por mais que nos olhemos,
o eclipse é sempre total.

(Astrid Cabral, in Ante-sala)
De ritz_on_the_rocks a 9 de Maio de 2009 às 16:57
bnito
De fugidia a 9 de Maio de 2009 às 23:21
E se eu, ainda assim, jogar?
E se perder?
Ganho?

:-)


De José António Barreiros a 10 de Maio de 2009 às 00:29
Ensino-lhe um pequeno truque que não chega a ser batota: quando jogar contra si aposte na vitória da outra. Aposte-se a si própria. Perde ao jogo mas ganha-se a si mesma na aposta. Traz-se para casa e começa onde parecia estar o fim
De Anónimo a 10 de Maio de 2009 às 01:20
Aqui fica outro pequeno truque alternativo: quando jogar contra si própria, faça precisamente o contrário do que lhe apetece, porque desta forma obriga-se a si própria a encontrar uma estratégia nova. Julgo que este truque tem vantagem sobre o anterior, mas não estou 100% certo. Vai ter de experimentar por si mesma.
De Rita Ferro a 10 de Maio de 2009 às 08:51
(Será vc o anónimo que se tornou nosso Amigo?)
De Anónimo a 10 de Maio de 2009 às 11:49
Está visto que vou de ter inventar um pseudónimo
De ritz_on_the_rocks a 10 de Maio de 2009 às 13:44
e despache-se ...
... que diacho!
De Rita Ferro a 10 de Maio de 2009 às 23:49
Porque não adopta o nick de Pseudónimo? É giro... :-))

De Ulisses a 11 de Maio de 2009 às 00:47
Pode parecer-lhe estranho, mas tenho mais dificuldade em ser «pseudónimo» que «anónimo», por causa do «pseudo». Não gosto de «pseudos» :-)
Lembrei-me de Ulisses. Pode ser?
De Rita a 11 de Maio de 2009 às 09:23
Claro :-))
De Ricardo M. França a 10 de Maio de 2009 às 10:48
Saúdo a chegada da literatura ao blogue e a anfitriã pelos progressos do Porta do Vento - que simpática e frontal é esta senhora, que imagino muito bonita e vertical - será? Ao José António Barreiros, que não conheço mas cujos dotes literários há muito me seduzem, bem como a coragem moral exercida em todos os cargos que tem ocupado, pergunto, a respeito deste post: este espelho não deveria ser mágico e fornecer-nos, ele mesmo, as respostas? Bom dia, apesar da chuva.
De Ana Vidal a 10 de Maio de 2009 às 11:23
Agradeço os elogios pessoais, caro Ricardo, e fico aliviada por poder deixá-lo na dúvida sobre a minha suposta beleza... não gosto de decepcionar ninguém! :-)

Quanto ao novo colaborador, dou-lhe inteira razão: é uma aquisição que muito nos honra, pela qualidade literária e pela amizade que nos dedica. A Porta do Vento só tem a ganhar com a sua entrada, por todas as razões.

Volte sempre.

De José António Barreiros a 10 de Maio de 2009 às 12:03
Há na Ana um qualquer fetiche em ver-me ruborizado, pela certa. Por isso pica-me com amabilidades públicas. E eu saio da palidez. Um bom domingo e muito obrigado pela oportunidade de poder escrever aqui.
De Ana Vidal a 10 de Maio de 2009 às 12:47
Então ainda bem... gosto de vê-lo coradinho, fica-lhe bem! ;-)
Um bom domingo para si também, mesmo com chuva.
Não resisto a citar também Pessoa, neste caso na pele de Caeiro, numa daquelas desarmantes verdades essenciais que nos fazem sorrir:

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

(Poemas Inconjuntos)

De José António Barreiros a 10 de Maio de 2009 às 12:01
Bom dia Ricardo. Muito obrigado, antes de mais, pela generosidade das palavras. Sabem bem em dia de chuviscosa dúvida e sono.
Não serão as respostas, sim as perguntas, que os espelhos nos devolvem. De manhã, por exemplo, ou, ainda melhor exemplo, em noite de insónia, iluminados pela luz mineral de uma branca madrugada, perseguidos por uma palavra áspera, uma agreste conversa, uma inesperada discussão. Serei esse?, pergunta ele, reflectido de tristeza pelo que poderá, afinal, ser, sem que supusesse que era. Olha-se ao espelho, o pior de todos, o do quarto de banho.
Um bom dia para si. Recordo o poema «Trapo» assinado por Álvaro de Campos. Um excerto:
«Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso»
De Ricardo M. França a 11 de Maio de 2009 às 13:17
Há um espelho pior: o dos nossos filhos.

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