Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Pocket Classic (O Retrato de Dorian Gray)


Marie Tourvel

 

 

“Não há livros morais ou imorais. Um livro está bem escrito ou está mal escrito. E só!” Não explicarei a você, bilionário, o que Oscar Wilde quis dizer no prefácio do “Dorian Gray”. Wilde teve uma vida rica. E de riqueza você entende, não é? Talvez não desta riqueza de que estou a escrever por aqui, agora. Este, ao contrário do que se apregoa, é um livro profundamente moral. Resumo:

 

Pintor se apaixona por um cara linnnnnnnnnndo, o Dorian. Pinta um quadro com a figura do moço. O moço se olha e se acha linnnnnnnnnndo. E diz que venderia a alma para não envelhecer, só o quadro. Entende? O quadro envelhece e ele não. Está feito. Alguém ouviu o moço. O quadro retrata sua alma e ele vive uma vida intensa e fria. Virou um demônio, o moço. Mata até o pintor do quadro. O quadro solta até sangue. Fica feio. E Dorian continua linnnnnnnnnnndo. Quis se redimir, mas era pura hipocrisia. Tenta destruir o quadro, mas o que faz na realidade é se matar. Dorian se mata. E o quadro volta a ficar linnnnnnnnnndo.

 

Pensa que é fácil falar deste livro com os intelequituais, bilionário? É fácil, sim. Muitos deles são tão ou mais vaidosos que Dorian Gray. Possuem o ego tão inflado que seria até interessante pintar a alma deles. Mas fiquemos no tradicional para não magoá-los. Sabe como é, você, agora, já tem um pouquinho do respeito deles. Não mudemos isso. Você pode começar dizendo que o livro alerta para os perigos do vício. Diga que é uma obra que questiona a beleza, a juventude e os valores morais. Diga que é uma obra rica em diálogos de questionamento sobre a vida e de como nos inserimos nela. Os inteléquitos da rodinha o questionarão sobre o que tem de Wilde neste livro. Responda secamente que o romance reflete de forma veemente a vida dupla de Wilde. Clique no nominho dele lá em cima, bilionário, não tenha preguiça. Eu sei que é Wikipedia, mas para alfabetização serve. Alguns dizem que Wilde não era bem um homossexual, mas tinha uma neurose homossexual. O que dá na mesma. Ele era um fruta, sim. Ponto. Mas e daí? Era um gênio. Adoraria bater um papo de quinze minutos com ele. Talvez não conseguisse manter uma conversa com ele por mais tempo. Ele com toda certeza se entediaria comigo. Com você? Nos seus áureos tempos acho que ele gostaria, sim, de conversar por uma horinha sobre suas finanças. A obra, caríssimo, não passa de uma grande alegoria da vida do escritor. Ironicamente.  

 

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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28 comentários:
De João Paulo Cardoso a 5 de Maio de 2009 às 10:27
Cara Marie, não faltam por aí centenas de carcaças Dorian capazes de vender a alma para não envelhecer...

À falta do chifrudo, entregam-se a cirurgiões plásticos mas, ao contrário da obra de Oscar Wilde, o tempo continua a proteger mais as carantonhas penduradas nas paredes dos halls, do que as fronhas que vamos vendo nas capas das revistas...

Beijos.
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 11:28
JP, meu querido, assim como tem gente que vende a alma ao cirurgião plástico para manter a juventude, tem os que vendem a alma sei lá a quem pra manterem seus egos envernizados. Pena não existir photoshop para a alma, né? Poderíamos inventar um. :)

Beijinhos
De mike a 5 de Maio de 2009 às 13:50
Marie, este é, talvez, o melhor Pocket Classic que eu já li. E acredite que estou sóbrio. :)
Mas escuta, o cara, esse tal de Oscar era boiola sim. ;D
De patti a 5 de Maio de 2009 às 20:45
Mike, o boiola, mas cativante de todos os tempos!

Se muitos hetero que eu conheço, tivessem um décimo da inteligência e da piada dele...
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:32
Ele era bárbaro, né, Patti? Eu amo Wilde. Até casaria com ele. ;)

Beijos!
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:31
Achou mesmo, Mike? Eu fico tão feliz quando você fala isso... ;)

Eu acho que ele era mesmo, mas sempre tem um filho que diz que era neurose, né? :))))

Beijocas!
De JuliaML a 5 de Maio de 2009 às 20:15
concordo com o Mike, querida Marie! :-)

e o livro é ,sim uma alegoria da vida de OW, a sua ruina e a sua glória, voilà!

beijinho
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:33
E não é, Ana? A ruína e a glória. Obrigada, querida.

Beijos!
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:55
Errei aqui. Escrevi Ana e é Júlia, minha querida amiga que deve ter voltado de suas férias maravilhosas. Foi, não foi? Estou morrendo de saudades, querida. Hoje visito aquele meu privilégio. ;)

Mais beijocas!
De patti a 5 de Maio de 2009 às 20:43
E qual dos três seria Oscar?

Basil? Dorian? Ou Lord Henry, o meu preferido?
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:34
Eu acho que o Lord... mas acho que tem um pouco de Oscar em todos, não acha, Patti?

Beijocas!
De patti a 5 de Maio de 2009 às 23:38
Claro que tem.
Mas o Oscar, tinha lá uma preferênciazinha pelo pobre Basil, que lhe parece, Marie?
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:57
Acho que pode até ser, Patti, mas acho que ele construiu o Lord tão bem construido que fico pensando bem se a preferência, aí, não estava meio que dividida... :)

Mais beijos
De mike a 5 de Maio de 2009 às 21:58
Pronto, chegou a Patti e temos isto tudo baralhado. Vou voltar para a zona dos frescos, que está calor.
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:35
Mike,

;)

De patti a 5 de Maio de 2009 às 23:37
Oh Mike, olhe que ainda lá encontra o Oscar...diz que também era fresco!
De mike a 5 de Maio de 2009 às 23:50
Safa... vou antes para a salgadeira, mesmo com o calor que está. ;)
De Raquel a 5 de Maio de 2009 às 23:10
Marie
será que OW atualmente escreveria os episódios de Nip/Tuck?
De marie tourvel a 5 de Maio de 2009 às 23:36
Duvido, Raquel, duvido. Acho que Wilde estaria belo e fresco andando nas ruas de Dublin. Escrevendo? Só de vez em quando, só pra não perder o costume. ;)

Beijos
De Grande Jóia a 6 de Maio de 2009 às 00:48
Marie, Estamos a falar de quê? Agora é que fiquei baralhada. Venho aqui para me cultivar e vejo as arcas, o frio, a salgadeira...
Afinal é disto que vou comentar com os do ego inflado?
Não é por acaso que a Vida deste Dorian era estudada no Instituo Britânico. Livrinho obrigatório para quem queria falar inglês, trabalhar em Inglaterra e compreender os britânicos.
O volume tinha um senão, as letras muito pequenas e que faziam sono. Gostei muito mais do seu texto, Marie.
De marie tourvel a 6 de Maio de 2009 às 05:15
Ah, Jóia, querida, até com letras pequenas o romance é bom demais... :)

Obrigada, linda.

Beijos!
De Luísa a 6 de Maio de 2009 às 12:15
Querida Marie, aí está um dos meus escritores de eleição. Gostei d’ O Retrato de Dorian Gray - como sempre aqui muito bem explicado a bilionários – mas o prato forte é, para mim, o teatro. Ainda há pouco tempo estive a relê-lo e as peças são, de facto, extraordinárias, pelo emaranhado dos enredos, pelo humor finíssimo, muito trocista, pela elegância dos ambientes, pela fantástica caracterização de algumas personagens. Enfim, casar com ele, Marie, talvez não casasse. Mas teria tido, certamente, um enormíssimo prazer em o conhecer. :-)
P.S.: Há tempos li sobre uma curiosa distinção entre «homossexuais» e «homoeróticos». Os primeiros estariam disponíveis para uma relação física plena; os segundos só parcialmente. A mim, parece-me uma vaguíssima «nuance», mas fiquei com a impressão de que é importante para os interessados. Tanto quanto pude averiguar sobre o assunto, Oscar Wilde entroncaria na segunda modalidade. ;-)
De Rita Ferro a 6 de Maio de 2009 às 13:03
Ah, vejo que a querida Luísa também se atrasou a comentar e que ainda chego a tempo! Marie, que boa escolha, O Retrato! É uma versão do espelho de Narciso, mas com outras implicações, não é? E que boa súmula nos faz e traz, como sempre! Sabe que já tenho amigas que vêm aqui à Porta só por causa das suas sínteses? Não perdem! A brincar a brincar aprende-se muito! Parabéns uma vez mais, Marie!
De marie tourvel a 7 de Maio de 2009 às 00:08
Rita, minha amiga, as implicações é que são elas, não é?

Fico feliz que suas amigas entram por aqui para ler meus devaneios sobre os clássicos. E sabe que adoro quando comenta por aqui.

Obrigada.

Beijo!
De marie tourvel a 7 de Maio de 2009 às 00:05
Luísa, querida, eu gosto de tudo de Wilde. Gsoto da figura dele, da postura dele, das frases dele.
Talvez ele esteja mais pra segunda opção, sim. Um homoerótico. :)

Beijos!
De marie tourvel a 7 de Maio de 2009 às 00:23
Respondi seu comentário em lugar errado, querida Luísa. Dá uma olhadinha lá embaixo. ;)

Mais beijos
De Ana Vidal a 7 de Maio de 2009 às 00:30
Um dos meus eternos, Marie. Cada frase do homem é uma pérola! Até mesmo quando estava a morrer (na miséria) num hotelzinho de Paris, afogado em sífilis, álcool e absinto, teve humor e génio para dizer uma graça: "Estou a morrer acima das minhas possibilidades. Não tenho emenda."

Mais um pocket classic com que os teus bilionários vão "botar figura"!
Beijo
De marie tourvel a 7 de Maio de 2009 às 01:18
Ele era realmente demais, Ana, querida.

Obrigada.

Beijos

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