Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Sou sincera

Rita Ferro

 

Sinal da cruz

 


O filme que trago hoje é um murro no estômago.

 

E ainda que manipulado não perde a verosimilhança.

 

Pode destruir um sorriso, estragar um dia,

deixar uma pessoa indisposta – é verdade.

 

E mesmo assim não servir de nada.

 

Apesar de tudo, arrisco.

 

Nunca medimos o efeito que as coisas têm em nós.

 

Tenho esperanças de que esta me tenha modificado.

 

Um bocadinho – peço a Deus – apenas um bocadinho e já não era mau.

 

Sou daquelas que, como tantos, já quase deixou de ajudar. 

Às vezes por desconfiança, às vezes por preguiça ou egoísmo.

 

Às vezes por medo de que estes irmãos que vivem ignorados, esfaimados e desesperados, vendo-nos tão indiferentes à sua sorte, nos espetem uma faca bem espetada para nos sacar uns trocos

para um pão ou uma dose de esquecimento.

 

Se isso acontecer, temos que saber responder:

 

- Quem é, nesse caso, o verdadeiro assassino?

 

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publicado por Ana Vidal às 09:30
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101 comentários:
De JdB a 6 de Maio de 2009 às 09:52
Hesitei em como começar este comentário e, de tantos pensamentos que me surgiram, um permaneceu mais forte: o conceito de que o nosso próximo é sempre o mais próximo. Apesar da fome que existe no mundo - e se calhar bem perto de nós - este filme é seguramente uma metáfora sobre o desperdício, o egoísmo e a indiferença, a vacuidade das vidas, o olhar que se desvia, a mão que não se estende. Muitas vezes em nome da ideia de que não podemos fazer muito, mas, na maior parte dos casos, em nome de uma indiferença total e absoluta, travestida de falta de tempo ou de criatividade.
Como católico, talvez não tenha gostado daquele sinal da cruz já no fim do filme. Soube-me a estranho...
Bom post para começar o dia. Há quem agite os corpos pela manhã, há quem agite consciências.
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 11:49

E conviver com a ideia de que o que nos mete nojo pode ser a felicidade de muitos? Viver com isto? Ser feliz apesar disto?
De JdB a 6 de Maio de 2009 às 13:43
Não convivo bem com essa ideia quando se trata da fome e da miséria. Não falamos de gastronomia, mas de dignidade.
De Manuel Bobone a 6 de Maio de 2009 às 11:21
Murro no estômago é também o teu texto de apresentação
Em forma e conteúdo, é tão forte como o fabuloso documentário que partilhas connosco.
Obrigado pela divulgação.
Fico a pensar que, se nos cingirmos tanto quanto possível ao indispensável, estamos a contribuir à nossa medida para resolver esta calamidade e tentar ajudar esta pobre gente.
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 12:01
E a baliza sempre elástica daquilo que entendemos por indispensável, Manuel? Começa pelo espaço higiénico, tão importante para a harmonia familiar; depois a apresentação, tão decisiva na conquista profissional; depois a evasão - através de livros, cultura ou viagens -tão legítima para a inspiração e criação; e por aí adiante até nos tornarmos, sem quase darmos por isso, nuns burgueses gordos e comodistas, tão ocupados com supermercados, contas e impostos que deixamos de ter tempo para as questões humanitárias!
De teresa calem a 6 de Maio de 2009 às 11:22
porque é que lhe soube a esrtanho o sinal da cruz no principio da refeição?
De JdB a 6 de Maio de 2009 às 11:30
Pessoalmente benzo-me sempre no início da refeição, mas ali, confesso, achei que aquele acto era para a "fotografia", como quem filma gente muito pobre, para lá do limiar da miséria, mas que ainda sente vontade / desejo / necessidade de agradecer o pouco que recebe.
Talvez esteja errado...
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 12:05
Diz-se no fim que esta história é verdadeira, mas mesmo que não fosse. Não é difícil imaginar que situações destas existam por todo o lado e até bem perto de nós, como diz o JdB. Assim, sendo o nosso excesso a salvação de muitos, ele constitui, naturalmente, um motivo de acção de graças para uma família cristã...
De luis eme a 6 de Maio de 2009 às 11:23
este mundo torna-nos assim, Rita, egoistas, indiferentes e parvos...

começo a ficar convencido que se não ligar a televisão, não vem mal nenhum ao mundo.

é lá que começa toda esta manipulação e banalização de sentimentos e da forma de olharmos o mundo...
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 12:08
Não posso estar mais de acordo, Luís. Hoje em dia faço esse esforço diário de desinformação. O seu excesso tem conseguido apenas insensibilizar-me. Ver massacres em directo enquanto se diz «passa-me a mostarda» tinha que acabar por dar nisto...
De ritz_on_the_rocks a 6 de Maio de 2009 às 12:01
Aside from being a composer and film director, Ferdinand is also a marketing guru. He has directed more than 100 TV commercials and recorded hundreds of radio commercials. He is a marketing consultant to many business establishments in the Philippines.

No entanto i got the message.
Thanks for sharing Rita
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 12:32
Caramba, Ritz, foste de lupa ao CV do homem escolher o que tinha de mais plebeu e suspeito! E a minha formação é de marketing, algum problema? Além de músico diplomado e melómano, o que já o elevaria, é alguém com preocupações humanitárias grandes, distinguido pela Unesco e pelos Artistas pela Paz! Como se não bastasse, é o fundista sonoro de um dos maiores movimentos ambientalistas da actualidade, e começou a sua luta por todas estas causas aos 19 anos, o que já diz alguma coisa...
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2009 às 19:47
Mesmo que não fosse tudo isso, a mensagem é suficientemente importante e vale por si própria, independentemente de quem a passa. E já agora que seja passada por quem é especialista nisso, de forma a chegar o mais longe possível.

Mal comparado, lembro-me de uma mensagem que me marcou. A um grupo de senhoras "bem" que se alistou como voluntário num hospital civil de Lisboa, o formador disse isto: Não sei se vêm cá porque estão desocupadas, para acalmar consciências, por estatuto ou por convívio social, como se diz por aí. Ou por qualquer outra razão, incluindo as mais nobres. Não interessa: há muito trabalho para fazer e todos somos poucos. Façam-no bem, os doentes agradecem da e o resto é irrelevante para eles.
Nunca mais me esqueci disto, e é uma norma que procuro aplicar na minha vida.

Belo post, Rita.
De Anónimo a 7 de Maio de 2009 às 01:23
Ainda bem que gostaste, Ana. Hesitei por ser deprimente e publicá-lo em tua casa...
De Ana Vidal a 7 de Maio de 2009 às 01:44
Não é deprimente, é real. E urgente falar-se nisso, cada vez mais. E importante pormos a mão na consciência, nem que seja por 6.10m. E muito saudável sentirmos vergonha. E este filmezinho já provocou aqui reflexões sérias. E só por isso já valeu a pena. E tenho muito gosto em que a nossa casa (e não a minha) seja um sítio onde se brinca, mas também onde as coisas duras são olhadas de frente.
De imprevistoseacasos a 6 de Maio de 2009 às 12:50
Olá Rita

Penso que qualquer coisa que possamos dizer nada acrescenta ao que vimos. É tão profundo o que sentimos que é indizível.

beijo da fernanda
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 12:58
É verdade, Fernanda, e não pense que é a única a sentir-se assim. O José António Barreiros, que costuma ser um dos primeiros a comentar estes meus posts, avisou-me logo de manhã que desta vez demoraria a reagir. Não é fácil, de facto, comentar o que se viu. Sabemos que existe e para nenhum de nós é novidade. Mas gaguejar em conjunto já não é mau. Nem que seja para dizer que entupimos...
De Pedro Barbosa Pinto a 6 de Maio de 2009 às 13:07
“Chicken à la carte” ou “O bom católico”?

Um pai de família, trabalhador, no final de mais um dia de labuta no restaurante da moda que lhe dá emprego, distribui minuciosamente os restos das refeições vendidas, separando os ossos rapados para um caixote do lixo e ossos com carnes sobejantes para um saco de supermercado.
A caminho de casa passa por um bairro pobre para fazer a sua caridade diária. Atira o caixote a um grupo de miúdos esfomeados e e fica a observar aquelas carinhas felizes na luta por uns poucos grãos de arroz agarrados aos ossos que vão chupando.
Reconfortada a alma, está na hora de descansar o corpo.
Dirige-se então a casa e senta-se com a família à volta da mesa pela qual a mulher distribui o conteúdo do saco de supermercado. Como bom católico que é, não deixa os filhos comerem antes de agradecerem a Deus a lauta refeição.
Do seu ordenado nada nos é dado saber. Mas eu posso imaginar uns murros em alguns estômagos.
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 15:24
Pedro, vimos o mesmo filme? Se afirmativo preciso de óculos :-)))
De Pedro Barbosa Pinto a 6 de Maio de 2009 às 17:15
Exactamente! Só se vê o que se quer ver.
De Rita a 7 de Maio de 2009 às 01:05
Pedro, não se zangue, só me pareceu que aquela família não tinha nenhum saco de supermercado, mas também restos. Ou o esparguete sai assim já cozido de um saco azul de plástico? Explique, pode ser que eu não tenha percebido a sua ideia... Pode ter razão: sou muito bronca às vezes...
De Luísa a 6 de Maio de 2009 às 13:14
É um grande murro no estômago, Rita. Pelo que mostra (que impressiona e repugna) e pelo que significa. E pelo que pesa na consciência de quem vive melhor. Confesso que vejo poucas soluções de alívio (da consciência, quero dizer). Para mim, a caridade só faz sentido (ou só é útil) com pessoas «incapacitadas» para o trabalho (crianças, velhos, deficientes). Com as outras, a caridade gera parasitismo. O problema é de acesso ao trabalho e de distribuição da riqueza, e esse transcende-nos, até pela sua dimensão. A minha própria solução (ou fraquíssimo consolo) é que tento viver com o mínimo possível – reconheço a subjectividade do conceito - não criando desperdício, nem gozando, nem alardeando luxos. Mas sei que poderia fazer mais, embora não saiba o quê, como, por onde deveria começar…
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 15:25
Eu sei como, Luísa. Não tenho é coragem...
De Jorge Antunes a 6 de Maio de 2009 às 13:18
Olhe, Rita Ferro...
Depois de espalhadas algumas dezenas de fotografias pelo chão (modelos, paisagens, focas mortas à paulada, fome, etc.) foi-nos sugerido, um dia, que escolhessemos uma ou outra. Alguém escolheu a de uma criança com fome, justificando que a miséria lhe fazia muita impressão. Foi-lhe respondido provocadoramente:
- Mas não deixa de jantar, pois não? Não muda a sua vida? Não desliga a televisão enquanto come o seu bife? Então a sua preocupação tem essa dimensão.
O "mundo", do ponto de vista humano, não existe, é uma entidade abstracta. Existimos nós, que transformamos o mundo no que ele é, não a inversa.
Despeço-me, igualmente provocador: sabe qual é a melhor forma de calar um bebé que chora? É desligar o intercomunicador.
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 15:28
Compreendo e penso que todos merecemos a ironia, Jorge. Mas ouvi-la noite e dia a gritar ao nosso lado também já se provou que endoidece, não é?
De Jorge Antunes a 6 de Maio de 2009 às 22:41
Se endoidece mais vale fazer alguma coisa para que se sinta confortável e não faça sentido continuar a chorar.
De Rita a 7 de Maio de 2009 às 00:41
E se eu lhe disser que há cenários onde a puericultura pode soar extravagância?
De mike a 6 de Maio de 2009 às 13:31
Sou sincero, Rita: hoje remeto-me ao silêncio. Mais logo este filme vai ser assunto entre mim e os meus meninos. Há oportunidades que não se devem perder. Fico a dever-lhe esta.
De Rita a 6 de Maio de 2009 às 15:30
Talvez não seja asneira, Mike. Meu pai formou a sensibilidade dos filhos assim, com pequenos exemplos como este. Colocando-nos na pele dos outros. Aí está uma coisa que as crianças compreendem melhor do que os adultos. Beijo para si, nesta pausa de humor!

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