Sábado, 18 de Abril de 2009

Azinhagas da memória

Manuel Fragoso de Almeida

 

Meu Deus, como estava frio naquela manhã!

 

Enrosquei-me todo nos lençóis, puxando os três cobertores para cima, e deixando que o relógio da torre me voltasse a acordar um bocadinho depois… eu bem sabia que tinha combinado com o João Maria estar lá em casa cedo, para darmos a comida aos porquinhos-da-índia, mas estava mesmo um gelo, e ali no quarto, pelo menos, estava tão quentinho…

 

Acabou a preguiça, já bateram as nove e agora é que tem mesmo de ser! Convém vestir-me rapidamente para ver se a minha mãe não me obriga a tomar banho, e descer as escadas a correr, já vestido e com a nova samarra ,comprada no mercado na última 5ª feira. Assim, já não há argumentos para me moerem a cabeça com essa questão do banho da manhã…

 

- Bom dia Comadre Nazaré! O João Maria já acordou, ou ainda está a dormir? 

- Oh menino, claro que já acordou, com este frio, nós acordamos lá para as cinco da manhã e já não conseguimos dormir. Ele disse-me que o menino ia lá ter a casa. 

 

O João Maria era um dos filhos da comadre Nazaré, uma das criadas da minha Avó, e um dos meus melhores amigos das brincadeiras de rua, e das aventuras pelo campo… aquela resposta da Comadre Nazaré chamava-me à razão sobre a distância dos nossos mundos, mas os pensamentos já estavam mais na comida que havíamos de dar à criação…

 

A entrada em casa da Comadre Nazaré fez-me, no entanto, voltar a pensar nos outros viveres… que susto apanhei! A porta estava no trinco e entrei por ali dentro direito ao quarto do João Maria. O corredor estava escuro, só iluminado pela luz do dia que entrava pelo postigo entreaberto da porta da cozinha, que dava para o quintal. A laje do chão, mal alinhada e com falhas de pedras, brilhava com a humidade e mais fazia ressaltar o frio, que ali era praticamente igual ao da rua.

 

De repente vejo aparecer o vulto enorme e cambaleante do Compadre Escarumba. Foi difícil passar por ele naquele corredor quase sem luz. A bebedeira da véspera ainda o fazia amparar na estreita parede do corredor, alternando a direita e a esquerda, e muitas vezes dando passos atrás, querendo seguir em frente. Depois, aquela voz, consumida pelos maços sucessivos de “mata-ratos”, era ainda mais aterradora quando misturada com os restos da garrafa do carrascão da noite, que ainda balouçava na mão, e que tive de evitar quando me afoitei a esgueirar-me por baixo daqueles enormes braços e evitando ser apanhado pela manápula livre…

 

O João Maria, afinal, estava deitado na cama mas estava vestido, as calças sebosas que se aguentavam com uns suspensórios já de uma só alça, e também com aquelas botas todas rotas.  Nem fiz perguntas. A cara encarnada do lado direito e o sangue que ele tentava estancar do nariz, diziam-me que tinha sido ele a pagar pelo mau vinho da última noite.  Limpámos o nariz com o trapo que tínhamos mais à mão, apanhado à pressa do chão, e fugimos para o quintal.

 

- Deixa lá, vamos mas é tratar dos bichos! Corre que ele já está no fim do corredor e não consegue voltar para trás.

 

Até a água dos bebedouros tinha congelado! Tivemos de andar a partir a camada de gelo para os coelhos, os porquinhos-da-índia, os patos, as galinhas poderem beber alguma água.  Foi um gozo! A maneira do João Maria esquecer os sopapos matinais, e de desatarmos a rir com gosto, do susto que eu tinha apanhado quando enfrentei o monstro do corredor…!

 

Agora já podíamos ir para a rua! Íamos ter com os restantes cachopos da rua para as traseiras do cinema, onde estava combinado reunirmo-nos para combinar a caçada da tarde. Cada grupo de três ou quatro tinha de apanhar um cão vadio nas ruas, ou pelos campos ao pé da vila, e depois de lhes darmos alguma comida - normalmente apanhávamos pão duro na cozinha dos meus avós, mais uns ossos que pedíamos no talho do Canhoto – ficavam nossos. Depois, era só atar-lhes uma corda em volta do pescoço, passeá-los um pouco, para se habituarem aos donos, e dar-lhes umas vozes de comando, o que constituía o módulo de ensino que conhecíamos, e eles haviam de fazer boa figura na caçada da tarde, na tapada que ficava ao pé da horta da avó Cristina.

 

Claro que a caçada era mais uma correria desgraçada atrás dos cães, que, assim que se viam à solta, fugiam daquele bando de doidos que por desdita lhes tinham aparecido na vida… mas não todos, que o Victor naquele dia fez batota e tinha ido a casa buscar o cão do pai que era mesmo de caça, um perdigueiro todo bem tratado, e que realmente era um gosto ver caçar.

 

Um gosto para todos, menos para o Victor... quando à tardinha nos sentámos todos no muro da escola, o Victor já não apareceu. Tinha apanhado uma sova e ficado de castigo, por andar a estragar todo o treino que o pai tinha dado ao perdigueiro…

 

Também, pensávamos nós todos, na galhofa, tanto treino e só conseguiu levantar uma cobra debaixo dum pedregulho… que rico treino!!!

 

 

publicado por Ana Vidal às 11:12
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13 comentários:
De Luísa a 18 de Abril de 2009 às 13:51
Manecas, gosto muito de ler estas suas azinhagas da memória, não só pelo seu tom próprio, meio de aventura, meio de descoberta, mas também porque abrem imensas portas na minha memória, algumas boas, outras menos. Também me lembro da surpresa/choque que foi entrar na casa de pessoas que a tinham mais pobre do que a minha, ainda que, na altura, a adaptação tenha sido imediata. Não tenho, felizmente, lembranças pessoais de contacto com Compadres Escarumbas. Mas também me lembro da indignação/choque que foi ler o conto Counterparts do James Joyce (em Dubliners) em que o «compadre» Farrington, bêbado, tinha o hábito de bater no filho por bater. Tenho horror a esses «compadres» que se vingam das merecidas humilhações da vida nos mais fracos.
De Manecas a 18 de Abril de 2009 às 18:16
Bem, eu acho que foi mais em razão destas minhas memórias que a Ana me pediu para aqui vir, e não tanto pelo dom da escrita...

Se calhar temos todos as nossas memórias das férias passadas no campo...Eu somente tenho boa memória e boas memórias...e um gosto de fazer reviver antigas personagens e antigos episódios.

Obrigado pela sua paciente leitura!

Bjs
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2009 às 18:53
És um excelente contador de histórias, Manecas. Tenho memórias de infância muito parecidas com estas, como sabes. Ao ler-te, basta-me mudar os nomes e (ligeiramente) o cenário, e volto a essa época mágica da minha vida. Obrigada!

beijos
De Manecas a 18 de Abril de 2009 às 21:10
Podes crer que sempre que as escrevo penso se gostarás ou não...

Tento não defraudar a ousadia e loucura do teu convite, pondo-me a escrever no meio dos teus letrados leitores.

Um beijo, prá menina Aninhas!
De Dulce Costa a 5 de Maio de 2009 às 17:19
De passagem por este interessante blog, encantei-me com a história e com a forma como foi narrada. Leitura agradável que nos mantém presos até o final.
Hei de voltar muitas vezes para desfrutar do agrável conteúdo que se encontra nestas páginas.
Um abraço

Dulce Costa
De ritz_on_the_rocks a 29 de Maio de 2009 às 23:38
estou só a fazer uma experiência~
bjs
De ulisses a 29 de Maio de 2009 às 23:56
... e resultou? :-)
bjs
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 00:39
ooops
so sorry
pensei que estivesse direccionado para a Ana V. e aparece-me V.Exª ...( lol)
ando para aqui às voltas com os blogs do sapo e do blogspot e não me entendo
... que diacho !!! :-)
quero que me apareça o Walter-Ego do blogspot e só me aparece o do Sapo ... enfim, nabices ...
bjinho
( obrigada pelo apoio moral)
;-)
Rita V.
De ulisses a 30 de Maio de 2009 às 00:51
No problem! :-)
Desconfio que tendo uma conta com o mesmo nome nos dois bloggers (o da sapo e o blogospot) vai ter dificuldade em ultrapassar isso... mas a verdade é que eu também não percebo grande coisa. Por isso, boa sorte!
bjinho solidário do odisseu :-)

De Anónimo a 30 de Maio de 2009 às 00:59
...Obrigada
a ver o que é que dá agora?
:-)

seja o que Ele quiser ....
bj
Rita
De Anónimo a 30 de Maio de 2009 às 01:00
...acho que agora ainda foi pior
hei-de descobrir
:-)

R
De ulisses a 30 de Maio de 2009 às 01:04
Olha, o Anónimo ataca de novo!!!!!
[ just joking... :-))) ]
De ritz_on_the_rocks a 30 de Maio de 2009 às 01:15
Pronto (s)
agora já está tudo bem outra vez!
por momentos senti-me outro
mas agora como outro
estou de volta para ser outro
noutro lugar ...

(estou com soluços )
hic - up
olha outro!

eh eh eh
bjs

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