Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Pocket Classic (A Metamorfose)

Marie Tourvel

 

Tudo muda. Tudo é cíclico. Só o que não muda é sua preguiça, bilionário. Este livro é curtinho, fácil de ler. Você podia fazer um esforço, mas a preguiça não deixa. Por isso eu estou aqui para auxiliá-lo. Franz Kafka é discutido em diversas rodinhas. Os amiguinhos intelequituais falam dele intimamente. Você não pode ficar pra trás. Sei que se afastou de algumas rodinhas em que falavam de Kafka por pura ignorância – no melhor sentido da palavra. Pois agora seus problemas acabaram. Poderá falar sem medo do homem que virou barata. Resumo:

 

Gregor Samsa é um rapaz de vinte e poucos anos. Com seu trabalhinho medíocre sustenta sua família. Ele é um funcionário exemplar. Acorda numa certa manhã com a aparência de um inseto gigante. Ok, Kafka nunca diz ser uma barata, mas pra mim é e acabou. Barriga marron com saliências arqueadas só pode ser barata (argh! Confesso: morro de medo de barata, mas isso não vem ao caso). É hostilizado por todos. A família começa arrumar um jeito de se virar para trazer sustento pra casa. Alugam até um dos quartos para estranhos. Sua irmã é a única que lhe dá um pouco de atenção, mas logo desiste. Depois de muita humilhação, morre. E a família, aliviada, segue sua vidinha normal.

 

Você deve estar pensando: “que porra de fantasia é essa? É livro infantil?” Calma, bilionário. Não julgue num primeiro momento o que absolutamente não sabe. O importante é o que está nas entrelinhas do romance de Kafka. Kafka tinha um pai desgraçado. E ele sempre foi revoltado por isso. Neste romance ele procura escancarar isso com a hostilidade do pai de Gregor para com ele. Pode dizer isso ao intelequitual sem medo. Isso até um garotinho do Jardim da Infância sabe. Pode dizer na rodinha que Kafka usou a metáfora do inseto para criticar mordazmente o serumano. E mostrar que somos um lixo mesmo. Só nos preocupamos com a aparência e a capacidade produtiva. Os intelequituais estão carecas de saber isso, mas ouvir de você, que nesta altura do campeonato já ganhou o respeito dos caras, será motivo de admiração. Diga que a narrativa se desenvolve em torno da nova situação de Gregor, ele experimenta uma nova percepção –intelequituais adoram essa palavra: “percepção”. Se lhe for perguntado sobre a compaixão na família de Gregor, limite-se a dizer que ela representa a faceta mais desumana da sociedade. Se Gregor não pode mais agregar, que desapareça. Sei que você pensa desta forma, também. Todos nós em determinado momento pensamos assim, você com mais frequência, eu sei. Diga que a presença dos tais estranhos alugando um dos quartos da casa é que é o ápice da história. A sociedade inteira rejeita a barata. Dá um tapa metafórico na barata inútil e improdutiva.

 

Confesse: até você, bilionário, sentiu uma peninha do Gregor, não é? Então mexa esse traseiro gordo e... vá à festinha promovida por aquele jornal repleto de jornalistas intelequituais e, na sua esmagadora maioria, esquerdizóides. Faça com que eles se sintam uns verdadeiros incompetentes. (Pensou que eu fosse mandar você ajudar uma ONG genuinamente brasileira financiada com dinheiro público chamada “Os Excluídos”, é? Sinto informá-lo, sou muito conservadora. Dinheiro público não se deve jogar no lixo.)

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 09:30
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33 comentários:
De mike a 14 de Abril de 2009 às 15:53
Fala para mim, bilionário de traseiro gordo: cê sabe o que é chorar de tanto rir? Não sabe? Porque você é apenas um ignorante endinheirado, ts ts. E porque você não leu este clássico da Marie. :D
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:22
E você sempre generoso, né, Mike, querido? Esses bilionários não têm boa vontade. ;)

Beijocas!
De marilia a 14 de Abril de 2009 às 16:56
O medo que dá é de um dia dormir bilionário e acordar barata... Porque aí nem os conservadores, nem os bilionários, nem os intelequituais e nem os excluídos vão querer saber. A verdade é que cada um sabe quais são as baratas de sua vida. E pisa nelas sem dó.
De Ana Vidal a 14 de Abril de 2009 às 17:02
É isso mesmo, Marília! E os bilionários da Marie, se não forem umas baratas tontas, sabem muito bem disso.
Resta-nos desejar que não tenham sangue de barata... :-)
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:25
O pior, Ana, querida, é que a maioria tem sangue de barata e espírito de barata, né?

(Barata lá tem espírito? :))))) )
De Ana Vidal a 14 de Abril de 2009 às 23:39
Blerrrggg... odeio baratas. Comigo o Gregor estava feito, coitado...
E o Kafka chamava-me um figo! :-)
De mike a 14 de Abril de 2009 às 23:52
LOL
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:24
Sem dó, nem piedade, Marília, querida.

Adorei sua visita. :)

Beijos!
De RF a 14 de Abril de 2009 às 18:03

Hei, Marie, não vale censurar o prato forte do livro, bilionário também gosta de incesto! Eça e Kafka se irmanam neste romance, há toda uma sensibilidade na forma como a baratinha vê sua irmã limpando seus dejectos! Ou muito me engano ou você foi paga pelo pai do Kafka, Marie. Confesse!!!! (Obrigada por aproveitar minha dica, até estou falando português do Brasil, cê é contagiosa, minina!) Sabe do que eu lembrei, coração? D' Os Lusíadas! Vc se atreveria? Pessoal aqui rebolava de risada para vingar horas e horas de privação na puberdade, decorando cantos, achando sinônimo e decompondo decassilábicas! Beijo do tamanho do oceano que nos une, Marie, estou virando dependente das terças-feiras! Socoooooooorrrrrrrrroooooooooooooo
De mike a 14 de Abril de 2009 às 20:32
Lusíadas... eu apoio, tou nessa... mas Ritaaaa, tem que sair da frente que a fila quer andar, menina... cadê a Marie? cadê ela?
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:42
Tá me procurando, Mike? Achooooooooou. ;)

Cês vão ter que me ajudar nos Lusíadas, né? Camões é punk rock na veia. ;)

Mais beijos pra você.
De mike a 14 de Abril de 2009 às 23:33
Escuta... as armas e os bilionários assassinados, que da desgraçada praia lusitana, por mares outrora navegados, passaram ainda além do bar do Bana... vai, Marie, agora é com você... :)
De Ana Vidal a 14 de Abril de 2009 às 23:35
Boa, Mike... estás aqui estás zarolho!
De mike a 14 de Abril de 2009 às 23:53
(gargalhada sonora) lol lol
De Ana Vidal a 15 de Abril de 2009 às 00:03
:-)
De marie tourvel a 15 de Abril de 2009 às 01:07
do Bana... não...

Não sei, não, mas acho que o Doutor Camões não vai gostar muito disso. ;)

Mais beijos
De RF a 14 de Abril de 2009 às 22:46
Não empurra, Mike, támeouvindo? Vilma, abra a portaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!
De mike a 14 de Abril de 2009 às 23:28
(grande risota)
Vilmaaaaaaaa... abre essa porta, muié.
De Ana Vidal a 14 de Abril de 2009 às 23:34
Meninos Flinstones, compoooooortem-se!
De mike a 14 de Abril de 2009 às 23:55
Humprfftt!, Rita, a dona da casa está rabugenta, que pé no saco, pôxa... (muitos risos)
De Ana Vidal a 15 de Abril de 2009 às 00:04
Não vem que não tem, minino...
De marie tourvel a 15 de Abril de 2009 às 01:13
Cheguei pra colocar ordem nessa bagunça!

(Logo eu, a mais bagunceira de todos. :) )

Beijos a todos
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:34
Rita, minha amiga querida, eu não conheço os bilionários de Portugal -falha minha, óbvio, morei na Itália e na Inglaterra por 3 anos e vergonhosamente não conheci Portugal. Os daqui do Brasil poderiam se assustar com o incesto. Já pensou se eu digo que o Gregor queria mesmo era comer a irmã? :)))))))))
Sua dica sempre será bem-vinda e esta, especialmente, foi com verdadeiro prazer que escrevi. Eu gosto do Doutor Kafka. ;)
Pelamordedeus, Rita, não comece a falar como bananeira, não. Eu sei que é contagioso, mas vocês falam tão bonitinho por aí... Vai que contagie também os políticos daí e todos viram um Lula sem dedo. :))))))))))

Nossa, "Os Lusíadas", nem sei se tenho capacidade, mas tentarei. Não vai dar pra semana que vem, pois já tenho um quase pronto, mas garanto que nas próximas semanas farei o Doutor Camões, sim. ;)

Olha, esse vício até que não é tão ruim, né? ;)

Um beijo do mesmo tamanho pra você, querida.
De Shi a 14 de Abril de 2009 às 20:40
Menina, muito bom, qualquer biblionário que se preze vai se dar super bem com as tuas instruções (tu facilita muito, e ainda diverte o cabra! rs). Mas aqui entre nós, eu não sei se gosto da associação entre inseto e serumano não, ó: é ofender demais o pobre animal. Vamos torcer pro tal biblionário não pertencer a nenhuma ong ambientalista XI-ita (pelas caridades, "chiita" deve ser o supra-sumo do shiitismo radical e redundante - me perdoa, manazinha! :-| ), né?
Como sempre, ótimo texto, Marie. Bjo!
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:52
Saiba, ShicaMaria, querida, que mesmo morrendo de medo de baratas, estou começando a ter uma certa dó das pobres. Ser comparadas a serezumanos talvez seja demais pra elas. :)

Se eu souber que algum bilionário está usando meus resumos -que são pobres, porém, limpinhos; e tiver usando grana de nossos impostos para financiar suas ONG´s improdutivas eu... prendo e arrebento (Marie General Figueiredo mode on). :))))))

Generosidade pura da Shica com meu texto, né? ;)

Beijos!
De patti a 14 de Abril de 2009 às 21:29
Ah, eu sempre tive a tal da percepção que a baratona era um serumano!

Marie, os amiguinhos intelequituais vão de certeza virar fãs do Kafla.
Amei.
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:47
Eu que amo quando vem comentar por aqui, Patti, querida. :)

Esses serezumanos são terríveis, Patti. terríveis...

Beijos!
De marie tourvel a 14 de Abril de 2009 às 22:54
Quem for lá nas minhas "Letras" poderá apreciar o Kafka dando uma paulada na barata. Porque Marie Tourvel é assim. Não basta resumir, tem que colocar trilha sonora no bagulho. :))))))

Beijos a todos!
De Luísa a 15 de Abril de 2009 às 01:27
Querida Marie, não li a Metamorfose e o seu instrutivo «Pocket Classic» convenceu-me, definitivamente, de que nunca hei-de ler. Confesso que já o Processo não me entusiasmou; deixou-me claustrofóbica. E nem mesmo o aliciante da afinidade queiroziana apontada pela Rita, ou dos «amores proibidos entre a Grete e o seu mano insecto», consegue abalar a minha convicção. Por isso, este «Pocket Classic» é uma preciosidade, que vai tirar-me de embaraços quando o Kafka, que ainda não está agendado para debate no meu círculo de íntimos, mas algum dia há-de estar, entrar na liça. Gostei muito, Marie. Estou sempre a aprender. :-)
De marie tourvel a 15 de Abril de 2009 às 11:48
Luísa, querida, eu gosto de Kafka. Até o claustrofóbico "O Processo" é muito bacana. E será um dos Pockets com toda certeza. Por que você já pensou se na rodinha falarem do tal processo e não da Dona Baratinha? ;)

Beijos e muito obrigada, querida.
De Raquel a 15 de Abril de 2009 às 02:24
Marie, eu devo estar virando uma barata pois meus miolos estão cada vez mais lentos... não sei por qual motivo, logo eu pessoa nada musical, quando li o pocket só me ocorreu uma música "Vem cá fica comigo, vem cá fica comigo!" - só lembro deste trecho, não faço idéia de quem seja, quem cantava, enfim virei ou não um inseto? Diga-me!
De marie tourvel a 15 de Abril de 2009 às 11:54
Grande Raquel, minha querida amiga. Ótima lembrança a música dos "Inimigos do Rei", do Paulinho Moska. A música chamava-se "Uma Barata Chamada Kafka". Confesso que não me lembrei da música na hora de compor a trilha sonora da metamorfose. Apesar que gostei tanto do sambinha de raiz que coloquei lá nas "Letras"...
Você, minha querida, jamais virará um inseto. Você é desses serezumanos raros. Pessoa da melhor qualidade.

Um grande beijo, querida.
De Carla Campos a 7 de Março de 2010 às 21:40
; )

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