Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Pocket Classic (O Vermelho E O Negro)

Marie Tourvel

 

Vermelho de farda e negro de batina, ou vermelho de paixão e negro de morte? Escolha sua definição para o título do livro, amigo bilionário. Stendhal foi quem realmente fundou o realismo, com esta obra. Possui uma narrativa primorosa. Falar de Stendhal com os intelequituais pode vir a ser delicioso. Não há a menor necessidade de ficar tenso. E nem há mais motivo para isso. Vocês já estão mais soltos nas rodinhas, não estão?

Resumo:

 

Julien Sorel é um ambicioso filho de pais pobres, admirador de Napoleão e muito inteligente. Vira padre pra escapar da mediocridade. Quer virar aristocrata através de sua inteligência. Decora até a Bíblia em latim. Sim, em latim. (E você ainda no “The book is on the table”). Envolve-se com umas “perigosas” e se ferra de verde e amarelo – ou de vermelho e negro, como queiram. Primeiro tem um tórrido romance com a mãe de seus alunos. Depois, já em Paris numa jornada mais ambiciosa, fica com a filha de um Marquês. Por causa dos rabos-de-saia é condenado à morte justamente pela aristocracia que queria tanto alcançar.

 

Cuidado para não dizer bobagens nas rodinhas. Uma amiga disse-me certa vez que considera que Stendhal foi o autor que antecipou essa moda das botocadas de hoje em dia – apreciadoras do bom botox, de querer os jovenzinhos e os ascender ao estrelato. Pra depois levarem um belo pé nos fundilhos. Mas não fale isso que fica meio chato. Os intelequituais sabem disso, porém, não acham de bom tom comentar. Comece dizendo que este romance – baseado em fatos reais, é uma crítica à sociedade francesa do período da Restauração. Não sabe o que foi a Restauração? (suspiro) O período que sucedeu a Revolução Francesa. Não sabe nada sobre a Revolução Francesa? Pesquise, bilionário. Aula de história eu costumo cobrar. Se houver interesse, mande um e-mail. Já escolheu o significado do título? Não? Estou aguardando.

 

(pausa, batendo os dedinhos na mesa...)

 

Bom, diga que é uma mistura dos dois significados que estará de bom tamanho. Já que Julien vestiu farda – que era vermelha, e batina, duas das vestimentas que ele sabia que o levaria à ascensão. E já que a paixão e a morte são elementos fortíssimos no romance. Diga que Julien não mede esforços para alcançar seus objetivos, assim como você, mas suas paixões o levam a ruína – e você, convenhamos, não comete este tipo de erro de cálculo. Ok, só às vezes. Mas não será guilhotinado por isso feito o Julien. Diga que quando Julien muda-se para Paris ele convive com a aristocracia e o alto clero. Aí é que Stendhal se esbalda, nos dá a oportunidade, através de sua perfeita crítica, observar a hipocrisia social, a astúcia política e o poder do clero. Diga que nesta obra os instintos sobrepõem a falsa aristocracia. Ufa! Está ótimo. Os intelequituais ficarão satisfeitos. Antes que algum espírito-de-porco venha quebrar seu barato, saia rapidamente e vá falar sobre Voltaire em outro pedacinho de chão.    

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 09:30
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23 comentários:
De João Paulo Cardoso a 7 de Abril de 2009 às 11:24
E eu que sempre pensei que a obra de Stendhal estava relacionada com um Fla-Flu no Maracanã...

Estou a brincar, claro.

Sou muito culto, embora longe de ser um dos tais "intelequituais" que bem fazem por merecer as suas alfinetadas...

Beijos.
De marie tourvel a 7 de Abril de 2009 às 11:45
O Fla-Flu no Maracanã é bem mais tedioso, JP, querido. Pelo menos, ultimamente. ;)

Você é um intelectual. ;) Diferente dos "intelequituais" aos quais me refiro. E mesmo eles contribuem para o bom andamento da cadeia... nossa, deixa eu parar por aqui que estou escrevendo muita bobagem. :)))))

Um grande beijo.
De rose a 7 de Abril de 2009 às 14:34
Mas o intelequitual é quem inventa um sistema novo. No Brasil ´hoje em dia há poucos intelequituais. Existiu algum?
A moça não está sobrestimando as pessoas que lêem mais do que quem não lê nada?

Obrigada pela atenção, Mademoiselle
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 01:55
Rose, tanto não superestimo quem lê mais, que em um dos meus primeiros "Pockets" falo exatamente sobre isso. Ler não forma caráter de ninguém. E ninguém é mais sabido por ter lido clássicos da literatura. No Brasil há muitos pretensiosos, concordo. Mas existe gente boa, também. Se são intelectuais, não sei responder.

De nada.

Um beijo.
De patti a 7 de Abril de 2009 às 15:10
Ai o amor, o amor, leva sempre os homens à ruína…
E quanto à dicotomia entre o vermelho e o negro…eu também estou à espera da resposta e entretanto também tamborilo os dedos.

Mas tenho cá para mim, que o título tem a ver com aquelas dúvidas do Julien: ou subo depressa na hierarquia religiosa ou fico-me pela simplória vida militar. Digo eu, uma pretensa intelequitual.
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 01:59
Esses rabos-de-saia, Patti, querida, são uns problemas, não são?
E eu que nem pretensa intelequitual sou? :))))
Acho que sua interpretação para o título do livro está corretíssima. Aliás, suas observações são sempre certeiras. ;)

Beijos!
De Luísa a 8 de Abril de 2009 às 01:00
Querida Marie, este foi o meu primeiro Stendhal, lido em tempos que se esfumam nas brumas da memória. Mas o seu Pocket Classic veio reavivar-me um pouco as ideias e alertar-me para o interesse de uma revisão. Às vezes, Marie, sinto dificuldade em escolher o que hei-de ler, porque confesso que nem toda a literatura contemporânea me atrai. Penso dela, às vezes, o que Rossini pensava da música de Wagner: «Tem momentos admiráveis, mas terríveis quartos de hora». Mas há sempre essa solução de retorno aos clássicos, solução que estou a equacionar seriamente. Já o faço com o Eça e com o Camilo, mas acho que vou começar a fazê-lo com mais, seguindo este seu cuidadoso e muito bem-humorado roteiro. :-)
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 02:03
Pois saiba, Luísa, querida, que estou na mesma situação que você. Não consigo gostar realmente dos contemporâneos. Me chamaram de ranzinza noutro dia. Vai ver que é isso mesmo. Noutro dia mesmo li um livro do Milton Hautum, um autor brasileiro que até tinha uma narrativa interessante, mas não consegui gostar. Achei defeitos e mais defeitos. Então, resolvo reler os clássicos. Li dois Camilos, não faz tanto tempo. Gosto demais. Pode vir a ser um dos Pockets, não acha? :)

Beijos!
De Luísa a 8 de Abril de 2009 às 14:20
Acho uma óptima ideia, Marie!
Um beijo. :-)
De Ana Vidal a 8 de Abril de 2009 às 01:11
Também foi o meu primeiro Stendhal, como a Luísa. Era o tempo dos grandes livros clássicos, que eu devorava e absorvia a uma velocidade de que tenho saudades... hoje em dia levo o mesmo tempo a ler um capítulo do que dantes levava a ler um calhamaço inteiro!

Os teus resumos continuam o máximo, Marie!! :-)

beijos
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 02:05
Não leio mais com a velocidade que lia, também, Ana, querida. Ácho que meu ritmo mudou mesmo. Mas ainda sinto prazer em ler e reler velhos clássicos.

Você sempre gentil e querida, né?

Beijos!
De mike a 8 de Abril de 2009 às 01:49
Marie, este seu comentador precisa de uma aula de História. Mas de tão embriagado não consegue escolher o significado do título, ué... E eu não sou bilionário... aí faço o quê? :)
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 02:08
E aí, Mike querido? E aí? E aí que eu posso lhe dar aulas de História. É só me mandar um e-mail. E como você não é bilionário e é muito meu amigo, faço uma exceção. As aulas serão gratuitas. E com direito a um pedaço de bolo de chocolate no final da aula. ;)

Beijocas
De mike a 8 de Abril de 2009 às 13:16
Nossa... quanto privilégio... :D
Não sou bilionário mas sinto-me um príncipe. :)
De rose a 8 de Abril de 2009 às 02:07
Eu não sei bem, Marie, daí ter escrito. Vontade de trocar idéia. Acho que eu busco uma palavra nova pra substituir o 'intelectual'.
Mas é coisa minha. De qualquer modo, escrevi, motivada pelo que você escreveu. Fiquei pensando nas 'roda' e escolas onde se discute literatura...Daí meu pensamento foi foi...

Beijos
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 02:12
Rose, é você, querida? A Rose minha amiga maravilhosa do blogue "Tampa do Lixo"? Ora, ora, ora...

É que as pessoas, Rose, não se intitulam intelectual por um pudorzinho que ainda existem dentro delas. Mas adoram quando são chamadas assim. Por isso minha série "Pocket Classic" começou. Não passa de uma ironia boboca. :)

Beijos!
De rose a 8 de Abril de 2009 às 02:25
Por que será que as pessoas sentem um frenesi quando são chamadas de intelectual?
Vou pensar. Há pessoas e pessoas, aí é que tá. Eu queria pensar tudo compartimentado, assim, as pessoas ( TODAS) gostam de serem chamadas de intelectual porque..hum...justificam pra si mesmas que 'puxa , valeu a pena ter pensado um pouco, eu podia ter feito outra coisa na vida, valeu. "
É feito um rei quando perde a coroa e depois recebe de volta.
Pode ser outra a causa...Assim...."Não dei certo no amor, mas ao menos, tenho aí a causa ...sou um intelectual".
Vai por aí...Porque intelectual mesmo nem pensa se é isso ou aquilo, fica só pensando na morte da bezerra e ...
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 02:54
Se essas pessoas soubessem como se têm prazeres muito maiores na vida do que ficar pensando na morte da bezerra... E não sei de onde acham prazer de ser chamados intelectuais... :)))))

Mais beijos
De Raquel a 8 de Abril de 2009 às 02:18
Estou tentando pensar no pequeno Sorel e não consigo raciocinar. Uma criatura toca corneta no apartamento de baixo e diz minha sobrinha que o som que reverbera em todo bairro é o Kiss se apresentando no Anhembi...
Não me importo mais em saber o significado do vermelho ou do negro, quero apenas uma guilhotina. Ah! a guilhotina... que falta me faz uma. Meu reino por uma guilhotina! Pronto já estou no livro errado!
PS: Pode ser uma AK47. Acho que combina melhor comigo. O que achas?
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 02:57
Eu guilhotinaria o Gene Simmons, na boa, Raquel, querida. Mas acho que uma AK47 combina mais com você. Uma pessoa decidida e maravilhosa. :)))))

Pede pros Kisses deixarem o Julien descansar em paz. ;)

Beijocas
De fugidia a 8 de Abril de 2009 às 12:18
Gosto muito de ler estes seus clássicos Marie; aliás, gosto muito de a ler, ponto :-)

Quanto ao título, não associo à farda e à batina. Associo à trajectória do Julien, que se constrói entre o vermelho das suas paixões (e ambições) e ao negro da sua derrota (e morte).

Beijinho :-)
De Ana Vidal a 8 de Abril de 2009 às 12:33
Eu também associei sempre as cores à tragédia e às paixões de Julien Sorel. Até porque a batina a que ele aspirava era também vermelha... a preta seria um simples degrau, o primeiro, para atingir outras alturas na hierarquia.
De marie tourvel a 8 de Abril de 2009 às 23:36
Você é uma querida, fugidia. ;)

Eu considero realmente uma mistura das duas interpretações. A batina e a farda. A paixão e a morte. Desde a primeira vez que li este livro há tempos.

Um grande beijo.

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